25/01/2006 - 20h50
Sérgio Xavier
Principais trechos da apresentação no painel: “Global Perspectives – International Support Systems for the Arts”, na 49a Conferência da Association of Performing Arts Presenters, em Nova York:
“Por que é importante criar suportes internacionais para as artes e para o intercâmbio cultural?
Para responder a esta questão, proponho uma reflexão, que é intuitiva, mas que pode conter um pouco de ciência. Penso que a diversidade cultural da humanidade é tão essencial quanto a biodiversidade da natureza.
O Brasil inspira esta percepção. Temos uma imensa diversidade ecológica e uma grandiosa diversidade cultural. Temos espécies em extinção e temos expressões artístico-culturais em extinção...
Como ativista ambiental, compartilho com a visão do ministro Gilberto Gil de que existem duas dimensões fundamentais: Natureza e Cultura. Tudo o que não é natureza é cultura. São duas dimensões que se entrelaçam, interagem e se complementam.
Precisamos conhecer, proteger, difundir e fortalecer os recursos culturais de todo o ‘ecossistema’ humano, da mesma forma como devem ser considerados os recursos naturais.
É muito importante equilibrar o fluxo de bens culturais entre comunidades e países, assim como a natureza precisa de fluxo equilibrado de energia e nutrientes para garantir a sustentação da vida.
A arte é o canal mais completo de interação entre as pessoas. Possibilita trocas sistêmicas, holísticas.
Arte contém percepções, conhecimentos, emoções, criatividade, inventividade, visão crítica, e desperta sensações, motivações e impulsos para transformações e desdobramentos.
E é isso que o mundo mais precisa hoje.
Conhecendo novas expressões, abrimos horizontes, ampliamos o universo mental, evoluímos como indivíduos e como civilização.
A imposição de uma cultura sobre outras, sem oportunidade de troca, é algo altamente empobrecedor em todos os pontos de vista. Barrar o acesso a outras culturas é desperdiçar a possibilidade de evoluir, crescer.
Nesse sentido, precisamos encontrar formas de conviver com aparentes contradições. Fortalecer identidades é fundamental para garantir a diversidade.
Sintonizado com esse pensamento, o ministro Gilberto Gil criou na estrutura do ministério a secretaria da identidade e da diversidade, para desenvolver políticas e projetos que equilibrem a existência dessas duas faces da cultura. A secretaria é dirigida por Sérgio Mamberti, um grande artista do teatro, da TV e do cinema brasileiro.
Portanto, criar suportes para essa troca respeitosa de riquezas culturais é uma prioridade planetária.
A internet e as novas tecnologias trazem grandes possibilidades para a criação desses suportes. A internet traz em si enormes potencialidades para quebrar hegemonias e valorizar a liberdade e a diversidade.
Assim como a informação é a base da vida biológica, o fluxo multilateral de informação é essencial para valorização da diversidade cultural.
Informação é essencial para se conhecer o que existe.
Informação é essencial para a construção de suportes físicos e acesso a fontes de financiamento.
Informação é essencial para conectar recursos, caminhos e soluções já existentes.
Então, não basta tecnologia, precisamos de bons e variados conteúdos fluindo pelos circuitos, pelos satélites, pelas antenas e chegando até as pessoas, com mão dupla. Indo e vindo.
Em plena harmonia com esses conceitos, gostaria de destacar dois exemplos práticos de ações, entre tantas outras, que o ministro Gilberto Gil vem implementando na sua gestão:
Primeiro, os programa Pontos de Cultura: É uma rede interligando ações culturais já existentes, nos mais remotos pontos do Brasil, possibilitando visibilidade e trocas. O ministério seleciona movimentos culturais e instituições já estabelecidas. Nas periferias das cidades, no interior da Amazônia, em zonas rurais e também fora do Brasil. Viabiliza apoio financeiro e promove a aquisição de equipamentos que permitam o registro e a difusão de conteúdos culturais.
O programa tem o desafio de vencer quatro estágios para atingir o seu objetivo final. O primeiro: possibilitar o acesso ao computador; o segundo: viabilizar conexão para uso da internet; o terceiro: adquirir equipamentos de produção audiovisual, para que as pessoas possam produzir conteúdos com seu próprio olhar e o quarto: criar um canal estruturado de circulação de conteúdos digitais. O projeto é coordenado pelo secretário Célio Turino, que também veio aos Estados Unidos para lançar com o ministro Gilberto Gil os primeiros pontos de cultura dos Estados Unidos.
O segundo exemplo são os grandes programas de intercâmbio internacional, que visam grandes fluxos, grandes trocas. Podemos destacar o “Ano do Brasil na França”, que em 2005 realizou mais de 700 manifestações em diversas cidades da França, tornando-se a maior ação artística e cultural realizada pelo Brasil no exterior.
A Copa da Cultura, que ocorrerá este ano, durante a copa do mundo na Alemanha, interligando nossa cultura com o futebol.
E o programa ‘Brazil in America’, desenvolvido em parceria com o Broward Center for the performing arts, cujo presidente, Mark Nerenhausen encontra-se aqui presente. Será um grande programa de circulação, integrando a rede de mais de 100 Performing Arts, e que facilitará a seleção e transporte de artistas. Este programa terá suporte e ação executiva da Fundação Nacional das Artes – Funarte, cujo presidente, o Ator e Diretor Antonio Grassi também encontra-se aqui conosco.
O ‘Brazil in América’, parte dos seguintes objetivos e referências:
· Reconhecer a importância e a essencialidade da Arte na vida e no cotidiano das pessoas
· Valorizar a diversidade cultural
· Equilibrar fluxos de bens culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, difundindo a cultura e a arte brasileira
· Integrar, articular e interligar suportes brasileiros e americanos de apoio à cultura, reduzindo custos, criando facilidades, ampliando resultados e buscando funcionamento duradouro e sustentável
· Criar canais estruturados e permanentes de circulação de arte brasileira nos EUA
· Ter o Broward Center como parceiro articulador de ações com a rede dos Performing Arts
· Ter o governo brasileiro como catalisador inicial de processos, mas visar a evolução independente e auto-sustentável do programa, com apoio do mercado
· Ir além do Show: buscar realizar ações paralelas aos espetáculos, visando intercâmbio de conhecimentos e experiências e buscando envolver as comunidades locais
· Buscar integrar os brasileiros residentes nos Estados Unidos
· Criar processo participativo, coletivo, de aprimoramento permanente
Para concluir e ficar à disposição para perguntas de todos vocês, gostaria de lembrar que na natureza os canais de comunicação da teia da vida são espontâneos. Já estão aí. Como a cultura é criação humana, os canais precisam ser criados e aperfeiçoados. Temos muito a fazer para que a arte prevaleça como canal de interação entre povos.
Isso dependerá da nossa capacidade de inverter uma lógica onde política e economia buscam definir o caminho das artes.
É hora da arte prevalecer e apontar novos caminhos para a economia, a política e, sobretudo, para a felicidade humana.
Obrigado".
Sérgio Xavier - Secretário de Fomento e Incentivo do Ministério da Cultura - Janeiro 2006
(A matéria poderá ser enviada para até 5 pessoas. Os e-mail's devem ser separados por ponto-e-vírgula)