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InterJornal - PE
28/02/2007 - 14:00
O Carnaval (baiano) morreu. Viva o carnaval!
Se não voltarão os carnavais de outrora, se o carnaval não existirá para além das desigualdades que atormentam a cidade e se não há chance de abolirmos por decreto o mercado da festa, o que fazer?
Paulo Miguez
Arrisco dizer que três certezas me acompanham quando o assunto é o carnaval baiano. Uma: não adianta tentar enfrentar os desafios do carnaval de hoje cedendo à tentação nostálgica de fazer reviver os tempos dos maravilhosos carnavais da Praça Castro Alves – que aconteciam numa cidade que ainda não tinha os quase 3 milhões de habitantes de hoje, que ainda não experimentara o boom do turismo, que ainda ... etc., etc. – e que, ainda por cima, é bom lembrarmos, foram carnavais maravilhosos porque éramos jovens.
Outra: é necessário redimir Momo da (falsa) obrigação de anular as desigualdades (sociais, raciais, etc.) que marcam o cotidiano da nossa Salvador – aqui, não custa lembrar, mesmo comandando um reinado efêmero e sem nenhum ministério, Momo costuma se haver melhor que governantes de mandato longo e secretariado robusto – estes, sim, eternos devedores de políticas públicas que façam avançar a redução das desigualdades - pois é no carnaval que milhares de vendedores ambulantes, cordeiros, catadores de lata, etc. encontram a única oportunidade de fazer alguma pouca renda durante o ano.
A terceira: não adianta abominar o mercado que alcançou a festa carnavalesca nas últimas duas décadas – quando leio certas coisas sobre o fato de termos um mercado da festa fico me perguntando como e porque o carnaval da Bahia seria o único espaço do planeta a permanecer imune ao capitalismo.
Pois bem. Se não voltarão os carnavais de outrora, se o carnaval não existirá (nunca existiu) para além das desigualdades que atormentam a cidade e se não há chance de abolirmos por decreto o mercado da festa, o que fazer, então, para enfrentar os desafios que emergiram nos últimos vinte anos, período no qual o carnaval baiano assistiu à consolidação de uma lógica mercantil que tem se afirmado como hegemônica do ponto de vista da sua produção e organização?
Aqui a resposta, creio firmemente, exige a presença do poder público, municipal e estadual. Poder público que, nos últimos anos, despudoradamente, tem se desobrigado da tarefa de exercer a governança da festa, dando-se por satisfeito em garantir a infraestrutura e os serviços indispensáveis ao carnaval (o que, a bem da verdade, faz com muita competência e reconhecida excelência), em disputar (com pouca competência) patrocínios e em assistir, de camarote, o mercado mandar e desmandar no reinado de Momo.
Assumir a governança de uma festa como o carnaval baiano não é tarefa fácil. São muitas as questões a equacionar, todas envolvendo muitos atores e múltiplos interesses. Entretanto, destaco três pontos que parecem se impor como balizadores desta governança:
• a compreensão do carnaval como um fenômeno do campo da cultura – certamente aquele que melhor expressa a alma da nossa cidade e de sua gente –, portanto, como um bem cultural cujo valor simbólico não pode estar subordinado ao valor econômico que potencializa os mercados do entretenimento e do turismo na Bahia;
• a necessidade de regulação do mercado da festa, imperativo incontornável para enfrentar o crescente processo de oligopolização que tem provocado o estreitamento de oportunidades de negócios, a amplificação das desigualdades sociais e a imposição de obstáculos cada vez maiores à expressão da diversidade de identidades carnavalescas – diversidade que deve ser objeto de atenção privilegiada ainda que tal signifique ir contra os privilégios de mercado que se cristalizaram nos últimos anos e que se manifestam sob vários aspectos: desequilíbrio entre espaço público e privado, definição da ordem dos desfiles nos circuitos, etc.; e
• a articulação de um processo de governança que, liderado pelo poder público, tenha a capacidade de estabelecer a interlocução indispensável com os muitos saberes e fazeres do carnaval.
Pois é. O carnaval morreu – o deste ano, que fique claro, e, esperamos, o que é feito desta forma, que Deus nos ouça. Mas, como no ano que vem tem mais carnaval, então, viva o carnaval ! – especialmente se tiver um espaçozinho em que possamos cantar que “este ano não vai ser igual aquele que passou...”.
*Paulo Miguez é Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB
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