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08/08/2008 - 05h02

Olimpíada e projeto nacional

Olimpíada e projeto nacional
Muito mais do que uma gigantesca competição esportiva, o que o mundo assiste a partir de hoje, através das imagens geradas em Pequim, é a execução de um espetáculo detalhadamente coreografado para impressionar. O autor do espetáculo é um país de superlativos: a China, nação mais populosa do mundo, herdeira de cultura e civilização de 5 mil anos contínuos, economia que mais cresceu nas últimas décadas, promove a maior Olimpíada de todos os tempos para a maior audiência televisiva já esperada. Tudo é grande, as proporções são gigantescas como convém e agrada a um povo orgulhoso e a um governo que mistura a tradição imperial do passado com o autoritarismo herdado do comunismo, ideologia ainda em voga na política e no discurso oficial.
Aqui na China, as autoridades não abandonaram a idéia de que é possível, necessário e essencial controlar o comportamento do povo. A superpopulação de 1,3 bilhões de pessoas e uma história de séculos de guerras e instabilidade política são as desculpas principais para a existência de um governo central autoritário que tenta interferir até na forma das pessoas se vestirem. E os preparativos para os jogos se inseriram nesse esforço quase militar de mobilizar o país para receber os visitantes e atletas.
Na China vigora, sobretudo, uma coisa considerada, por muitos, antiquada, que se chamava no passado de “projeto nacional”: a noção de que um povo, sob a liderança de uma figura emblemática, um partido político ou um conjunto de idéias, deve fazer um esforço coletivo em direção a um objetivo definido. Esses projetos nacionais não eram somente implementados nos regimes de esquerda. Mobilizações para atingir objetivos comuns foram feitas em muitos países, até de certa forma no Brasil de Getúlio Vargas. Mas no ocidente, caiu de moda e qualquer campanha governamental é identificada agora como coisa antiquada e ineficiente.
Na China é diferente. Patriotada ou não, as pessoas ainda acreditam no país como parte essencial de sua identidade e aceitam sacrifícios para conquistar coisas no futuro. As Olimpíadas são um belo sacrifício para os habitantes de Pequim. Afinal, conseguiram dar uma melhorada geral na estrutura urbana da cidade. Suspeita-se que os bilhões gastos aqui poderiam ser mais necessários em outras regiões do país, onde há muita pobreza, mais isso é assunto que vai render depois.
Do ponto de vista estratégico, o grande objetivo é mostrar a China como uma grande potência, durante um evento, por natureza, de alcance global, como as Olimpíadas. Mostrá-la como uma economia pujante e reforçar a antiga idéia da suposta superioridade cultural chinesa, neste Reino do Centro (do mundo), como revelam o significado dos caracteres que compõem a palavra Zhong-guo (que traduzimos, rotineiramente, apenas como China).
Batalha contra os EUA
A grande batalha pelas medalhas será entre Estados Unidos e China. Desde o final da Guerra Fria e da desintegração da URSS, portanto desde 1988, em Seul, uma olimpíada não tem dois adversários tão fortes frente a frente. Vencer é questão de honra na China. Mas a diferença total em Atenas, entre os dois países, foi de 102 medalhas para os norte-americanos contra 63 para os chineses (36 de ouro para os EUA contra 32 para os chineses). Superar a diferença total pode não ser fácil, mas, no ouro, a disputa vai ser acirrada, considerando que o país que sedia os jogos costuma ter um desempenho melhor do que o que consegue fora de casa. Os atletas chineses vão lutar com disciplina militar.

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