23/06/2008 - 22h05
JOMARD MUNIZ DE BRITO: Economia política x economia libidinal
“A herança que vingou é esse capitalismo a que se pode dar o nome de tardio, e a cultura como uma transação de mercado, que existia antes, mas hoje ficou muito evidenciado”
Jomard Muniz de Brito tinha 31 anos em 1968. Havia se formado em filosofia pela Universidade do Recife (hoje UFPE) e ensinado na mesma universidade. Devido à ligação com Paulo Freire, foi perseguido pelo Regime Militar. Lançou, em abril de 68, o manifesto “Porque somos e não somos tropicalistas” e, em maio, o “Inventário do nosso Feudalismo Cultural”. Foi o principal teórico do Tropicalismo em Pernambuco e teve influência grande sobre intelectuais de várias partes do Nordeste. Fez cinema super-8 nos anos 70. Hoje aposentado como professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), continua agitando a cultura pernambucana, escrevendo o que chama de “atentados poéticos”, folhetos com poemas que distribui entre amigos e curiosos, em todas as oportunidades. Jomard conversou com o repórter Marcelo Abreu no seu apartamento, no Recife, decorado com fotos de Glauber Rocha e cartazes dos filmes do Cinema Novo. Na conversa, critica mitos da cultura pernambucana, reflete sobre a memória e os caminhos da cultura brasileira.
O que você fazia em 1968?
Até dezembro, eu estava na UFPB, ensinando Introdução à Filosofia, Teoria do Conhecimento, Estética. Quando veio o AI-5, encerrando “gloriosamente” o ano de 68, recebi um comunicado informando que eu estava legalmente impedido de lecionar por ordem do comandante da região [militar]. Eu estava entre o Recife e João Pessoa. Aí veio o inquérito, e o tema [que interessava aos interrogadores] era o tropicalismo.
O que mais marcou você naquele ano, no Recife?
O que marcou foi o envolvimento com o tropicalismo, que começa desde o Cinema Novo, com Glauber Rocha. 68 começou um pouco antes. Houve uma aproximação grande entre algumas capitais do Nordeste. Pelo fato de eu ensinar em João Pessoa, fazer palestras em Natal e Campina Grande, esse movimento do tropicalismo teve, para mim, um toque bem regionalizado, fisionomia própria, e coincidiu, em 1967, com o poema/processo. A maior fonte da nossa atuação, que era predominantemente cultural – nunca fui ligado a nenhum partido político – foi o suplemento cultural do Jornal do Commercio, editado por Celso Marconi. No suplemento tinha umas colunas de pessoas ligadas à Academia Pernambucana de Letras – Luiz Delgado, Nilo Pereira – e saíam páginas inteiras sobre o poema/processo com o pessoal não só do Nordeste, mas do Rio de Janeiro, como Álvaro de Sá (um dos fundadores do gênero), como Moacy Cirne, do Rio Grande do Norte, que também já morava no Rio. Houve a simultaneidade do tropicalismo e o poema/processo. A palavra vanguarda ainda não havia sido banida da atuação das pessoas. Eram artigos sobre esquerda festiva e tropicalismo. Eu escrevia sobre o tropicalismo. Os artigos causavam mal-estar muito grande. Já comecei com minha fama bendita, a minha herança maldita. O pessoal dizia que não entendia. Eram coisas meio despirocadas. Os manifestos são os maiores documentos de nossa intervenção na cultura. Na França foi em maio, aqui foi em abril, o lançamento do primeiro manifesto. Lucy Alcântara não está mostrando isso em “O melhor documentário do mundo”? Tudo em Pernambuco não é o melhor? No filme de Lucy, eu acho que não vou aparecer porque vou dizer coisas que ela vai cortar. O documentário dela é a coisa mais anárquica, tropicalista. Essa coisa de que o Capibaribe e o Beberibe se juntam para formar o Oceano Atlântico... eu já digo que é para formar todos os oceanos. Mas eu acho que [esse documentário] é uma tentativa de desmistificação que pode contribuir para uma maior mistificação.
Você participou da movimentação política, das passeatas?
Houve uma passeata da qual participei, sem nenhum destaque especial. O ponto de encontro foi na Universidade Católica. Foi uma pessoa ligada a Paulo Freire, Romeu Padilha, que discursou lá na avenida Guararapes. Foi uma coisa muito forte. Há quem conte que houve cavalos correndo, mas eu não vi. Só me interesso pelo aspecto comportamental. Quem estava no poder, quem era isso ou aquilo... eu não tinha essa vivência, não era esnobação, era alienação mesmo, eu era um alienado, continuo sendo, politicamente incorreto. O esteticismo foi um fantasma da minha vida, essa leitura mais estética do mundo. Então nunca tive uma formação nem um pendor, nem competência para política partidária. A ligação com o cinema é a coisa da estética, da forma, da linguagem, da experimentação. Por mais que eu queira ser outra coisa, continuo com essa coisa esteticista. Eu era muito provinciano, até hoje. Não vou dizer que sou para fazer charme. Sou um alienado, um provinciano, eu acompanho as idéias estéticas. Me poupe, pelo amor de Deus. Alguns acham que eu sou muito..., eu sou um ignorante planetário (risos).
Lembra de algum happening?
Os maiores happenings eram os manifestos. Saiu uma foto nossa na primeira página do JC. Eu e Aristides Guimarães [compositor de música popular], pegando Celso Marconi pelo pescoço. A nossa atuação era nos bares, num bar que fazia parte do Mercado da Encruzilhada, onde foi lançado o manifesto, e num bar chamado Central, que era ao lado da Estação Ferroviária. E havia as festas também. Caetano e Gil freqüentavam esse bar na Encruzilhada, e foi justamente freqüentando que eles assinaram o manifesto. Em 68 houve um show da Rhodia, uma turnê pelo Brasil. A fábrica de tecidos promovia um desfile de moda e Caetano e Gil vieram fazer um show no Teatro Santa Isabel.
O manifesto tinha sido escrito por mim e Aristides, no terraço da minha casa, na rua Gervásio Pires, onde havia umas festas muito engraçadas. Por conta de ter assinado o manifesto, Celso Marconi, quando entrava na redação do “JC”, ouvia um coro: “Viado, frango, fresco!”, não tinha ainda nem a palavra “bicha”, era “viado” mesmo. Celso, tímido, coitado, heterossexual convicto, recebia essa “aclamação” na redação do “JC” diariamente (risos),
E o cinema? Onde se viam filmes de qualidade? Passavam os filmes de Jean Luc- Godard, como “A chinesa”?
Claro, claro. Tinha o Cinema de Arte do Coliseu [em Casa Amarela], e sessões de arte no Trianon [na Guararapes]. Antes de Godard, tinha os filmes de [Michelangelo] Antonioni. Moacy Cirne tem um depoimento muito interessante. Ele vinha de ônibus, de Natal pra cá, em pé no ônibus, para ver os filmes de Antonioni. Parece que chegou num dia e não teve a sessão. Ele conhecia Fernando Spencer, que conseguiu uma sessão especial para ele. Tinha uns redutos assim. A gente gostava muito, cinema era o assunto. Nessa época ainda tinha umas coisas de cineclubismo, como na Faculdade de Arquitetura. A prática de debater filmes. É outra época.
Sua geração tinha a percepção de estar vivendo um ano marcante?
Não, isso não. Tantas marcas... Eu confesso que poderia enrolar, mas não. É perigoso entrevistar pessoas com uma certa idade. Vou dar um exemplo. O Caetano é tão juvenil no palco, mas ele disse, outro dia – a não ser que não tenham entendido certo – que só conheceu a gente quando voltou de Londres depois do exílio [em 1971]. Quer dizer, a memória então... Brevemente eu vou me recusar, talvez seja esta a última entrevista que eu dou de caráter memorialista, porque acho que a gente não deve abusar dessa incompetência orgânica. O Caetano foi colega do cineasta Vladimir Carvalho, em Salvador, no curso de filosofia, iam para a aula juntos. Caetano não se lembra disso. Acho isso uma coisa terrível, não é? Minha memória é de fulgurações e ambientes. A gente tem de se cuidar.
Mas agora você tem essa consciência da importância de 68?
Agora, sim. 68 para mim, o que é? Além do espírito libertário do anarquismo, foi esse grande embate da economia política diante da economia libidinal, o anarquismo, socialismo com justiça social e liberdade, o grande sonho, o comportamento, a descoberta da androginia, do masculino e feminino, a coisa da psicanálise, o diálogo entre Freud e Marx, temas que ainda continuam, ler [Jacques] Lacan, ler [Friedrich] Nietzsche, essa coisa complexa, um projeto de um mundo aberto, um mundo socialista. Aí vem André Gorz, que escreveu um livro chamado “O socialismo difícil”, onde faz uma síntese do livro de Sartre “A crítica da razão dialética”, que é muito pouco lido. A visão do mundo, era essa ebulição. Era uma ebulição a contaminar a gente, a política não podia se separar do cotidiano. O tropicalismo foi como uma posição da neo-antropofogia. Para o cotidiano nosso era isso. Não sei se era marcante. É uma coisa marcante agora. Acho que não se conseguiu resolver esse sonho, essa utopia da educação libertadora de Paulo Freire.
Alguns dos valores de 68 precisam ser revistos diante do quadro atual (drogas, liberação sexual, antiautoritarismo)?
Esses assuntos continuam no dia-a-dia. O problema do autoritarismo continua, Essas decepções todas, políticas... você sonha com uma libertação, depois a burocracia perdura muito. Hoje tudo tem de ser encarado do ponto de vista mercadológico. A herança que vingou é esse capitalismo a que se pode dar o nome de tardio, e a cultura como uma transação de mercado, que existia antes, mas hoje ficou muito evidenciado. E também a exigência de o Estado fazer políticas públicas de cultura. Mas continuamos esbarrando na burocracia que era uma luta que 68 tinha, como se fosse possível acabar com a burocracia, desburocratizar as relações humanas e sociais.
As idéias discutidas na Europa chegavam rápido por aqui, na época?
Acho que chegavam. Eram discutidas, aceitas, renegadas, eram objeto de gozação. O Recife tem uma vocação paradoxal, é uma cidade muito esquizo-analítica, abre e fecha, fecha e abre. O núcleo conservador de pensamento no Recife é muito forte. Não há chaves do reino, nem na malandragem nem na pirataria, que consigam demolir isso. Não existem chaves do imaginário. A grande novidade de hoje, que já despontava em 68, são os coletivos de cultura que surgem em toda parte. Música, teatro e cinema nem se fala, sempre foram coletivos, mas as artes plásticas, que eram atividades muito individualizadas... agora já surgem coletivos de artes visuais. Nas performances, na literatura, nos livros coletivos...
Além dos manifestos escritos por você, o Recife teria dado alguma contribuição específica ao debate na época?
Eu não dei contribuição nenhuma. O Recife, na cultura, é Gilberto Freyre, é Hermilo Borba Filho, é Ariano Suassuna, eu não sou ninguém dentro dessa coisa, do poder cultural.
Mas e a importância dos manifestos?
Nós fomos uma atitude problematizadora, como Paulo Freire, de querer uma mudança, mas as coisas continuam ainda. Queríamos o debate, a polêmica, e isso não existe mais. Não se pode mais criticar um livro de ninguém. Ganha-se um inimigo se se fizer uma restrição, o camarada não aceita. Você tem de mentir, dizer que é ótimo. Não existe crítica. O tropicalismo tinha coragem de investir contra tudo isso. Eu já fui convidado para receber uma comenda do Conselho Estadual de Cultura. Isso não me interessa porque os meus parâmetros e minha atuação são outros. O Vivencial Diversiones foi um rebento de 68, surge em 1970. 68 foi o tropicalismo e os artistas plásticos que combatiam a ditadura através da pintura – Virgolino, João Câmara, Abelardo da Hora (que é de antes). Apesar do pensamento conservador, existem ilhas de resistência cultural. Na Bahia, o pessoal de Glauber gozava muito com Jorge Amado, dizendo que era a “literatura do dendê”, mas a diferença é que, devido à sua ligação com o Partido Comunista e ao seu modo de ser, ele era mais aberto. Mesmo sabendo que o pessoal o questionava, brincava e gozava, ele não tinha a postura de um Gilberto Freyre, que era uma figura que tinha um domínio... Mas viva Gilberto Freyre! O que é Gilberto Freyre hoje em dia? É a memória fantástica de Edson Nery da Fonseca e um jovem intelectual fantástico para a cultura da universidade como Anco Márcio Tenório Vieira, que dá aula, não fica só nos seminários. Nossos ideais de 68 estão nas mãos de Anco Marcio Tenório Vieira, e de Amin Stepple. Eu sou apenas um periférico dentro dessas coisas.
Incomoda esse papo sobre 68?
Detesto memorialismo. A gente tem que mentir muito para agradar os entrevistadores. Querem sempre um espírito de época. Eu gosto de fazer uma análise concreta de situações. Para mim é um sacrifício, porque não acredito em mim mesmo enquanto objeto de entrevista. Falar de 68 é entrar numa onda: ou você se autodesmistifica ou continua num certo culto do heroísmo. A minha rejeição à memória é que o camarada, queira ou não, termina virando herói de alguma coisa ou um anti-herói, o que também é uma forma de herói. O Jean-Paul Belmondo de Acossado é um anti-herói. Para mim, fazer esse exercício de memória... essa visão da história é uma ilusão. Eu me interessei muito por psicanálise e me lembro de uma coisa: eu sou sartreano mais do que Sartre. Ele faz uma tentativa de crítica a Freud quando diz que Freud tinha muito um culto ao passado. Ele queria uma psicanálise do presente. É isso o que eu quero. Sobretudo o que eu chamaria de psicanálise selvagem.
Os Beatles tiveram alguma influência em intelectuais como você?
Todas. O slogan que ficou mais banal: “Natal é a Londres nordestina”. Havia lá bandas que curtiam muito os Beatles. Nossas festas eram Beatles e Rolling Stones. Tinha um grupo em Brasília Teimosa, jovens contestadores que faziam trabalho esquerdizantes ligado à Igreja. Eu conhecia algumas pessoas que me levaram lá para fazer uma palestra. Foi em Brasília Teimosa onde eu ouvi pela primeira vez Jimi Hendrix.
A entrevista com Jomard Muniz de Brito foi feita originalmente para a revista "Continente Multicultural" - www.continentemulticultural.com.br - e publicada, de forma resumida, na edição de maio de 2008, na matéria de capa sobre os 40 anos de 1968.
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