InterBlogs

Blog de Marcelo Abreu | InterBlogs

AchaNoticias
busca avançada
Tamanho da letra:

Post

13/06/2008 - 09h37

Entrevistas/1968 - OLGÁRIA MATOS: O ano que rompeu com o senso comum

A filósofa Olgária Matos é uma das principais pensadoras brasileiras sobre o fenômeno 1968. Naquele ano, ela era aluna de filosofia na USP, na rua Maria Antônia, em São Paulo, centro de conflitos entre estudantes de esquerda (seus colegas) e de direita, da Universidade Mackenzie. Atualmente, é professora de filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Guarulhos. Escreveu o livro “Paris 1968 – As barricadas do desejo” (Ed. Brasiliense), lançado no início dos anos 80 e reeditado muitas vezes. É autora também de “A Escola de Frankfurt” (Editora Moderna). De São Paulo, por telefone, deu a entrevista a seguir ao repórter Marcelo Abreu.

Como você analisa os movimentos de 1968?
Olgária Matos - 1968 continua presente com as questões que foram levantadas, como, por exemplo, a revolução na idéia de revolução. Mas depende de cada país. Na França foi de um jeito, no Brasil de outro, na Alemanha de outro. Agora, a idéia de se elevar acima do status quo e poder pensar sobre ele foi uma coisa que ficou em todos os movimentos. Foi uma possibilidade de romper com o senso comum.

Esse aspecto é mais importante do que as próprias causas individuais defendidas na época?
Olgária - Acho que todas as questões, como a crítica à sociedade de consumo, a crítica à cultura do automóvel, a crítica ao trabalho alienado, a crítica à violência do poder são questões que ainda estão aí e se agudizaram como se 68 houvesse sido antecipatório daquilo tudo que é o mal-estar do mundo contemporâneo.

Na época, havia a percepção de que era um ano especial ou isso só veio depois?
Olgária - No calor dos acontecimentos, na Maria Antônia, em São Paulo, era uma espécie de suspense quando chegavam as notícias de Paris, através dos jornais. A França parou durante um mês com a greve. A gente se perguntava o que estava acontecendo. Pensávamos que ia mudar tudo. A idéia de um poder que não passa pelo poder instituído, que inventa novas formas de articulação e de presença no espaço público, ter reavivada a democracia direta, uma luta antiparlamentar, tudo isso a gente começou a discutir aqui por causa daqueles dias que abalaram o mundo, na França, com as barricadas.

O que representou o ano, no plano pessoal?
Olgária - A rua Maria Antônia em 68 é toda uma época porque tudo aconteceu naquele ano. Eu tinha entrado na faculdade em 1967. Só pelo tipo de cultura mural que se tinha, você lia nos murais de Fernando Pessoa até Trotski, passando por Rimbaud, Rosa Luxemburgo, Spinoza. As pessoas escreviam os textos que mais gostavam e pregavam lá. Para quem sai da escola e entra numa faculdade, ter contato direto, e numa interlocução cultural e política... é um tipo de solidariedade que, na rotina, você não tem. Você conversa com pessoas com quem normalmente não conversaria, acaba fazendo coisas como freqüentar cinemas, bares, coisas que trazem outras pessoas, o mundo artístico, cria-se uma dinâmica interessante de convivência pelo fato de as pessoas estarem juntas.

Você participava de alguma organização política?
Olgária - Eu não participava. Eu era aquilo que se dizia simpatizante. Não consigo participar de grupos, de partidos, não consigo ficar, acho chato. Naquele período, ainda não se tinha claro o que era organização clandestina. Eram movimentos de massa, a céu aberto, com palavras de ordem, com pessoas mostrando o rosto, com suas propostas claras contra a ditadura, pela democratização da cultura. Não tinha motivo para a clandestinidade. Quando foi chegando o final do ano, aí as coisas mudaram. Depois do AI-5 eu me afastei porque não concordava com muitas coisas.

Incomoda atualmente falar sobre 68, essa coisa meio saudosista que às vezes é acompanhada por uma idealização do período?
Olgária - Não incomoda porque as questões mais importantes de 68 são as questões de hoje: a necessidade absoluta de pensar a relação do homem com a natureza, as questões de sobrevivência material e psíquica das pessoas. Questões como a forma de exploração produtivista da natureza e do homem pelo homem, o tipo de capitalismo que se estabeleceu que nem tem interesse em explorar as pessoas, de tão supérfluas que elas foram tornadas. Tudo aquilo está mais do que na pauta do mundo contemporâneo.

A entrevista com Olgária Matos foi feita originalmente para a revista "Continente Multicultural" - www.continentemulticultural.com.br - e publicada, de forma resumida, na edição de maio de 2008, na matéria de capa sobre os 40 anos de 1968.

« Voltar para o início

Enviar por e-mail

(A matéria poderá ser enviada para até 5 pessoas. Os e-mail's devem ser separados por ponto-e-vírgula)

0 comentários

Comente
  • Seu e-mail não será publicado
  • O comentário será enviado
    para o moderador antes de
    ser publicado

©InterJornal 2001 - 2010 - SX Brasil Comunicação Digital