12/06/2008 - 11h46
O professor e acadêmico Daniel Aarão Reis Filho tinha 22 anos, em 1968, e pertencia à Dissidência Guanabara do PCB. Sua organização se transformaria depois no MR-8 e ele participaria do seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, no Rio. Nos anos 70, esteve exilado na França e em Moçambique. Escreveu livros como “1968 – A paixão de uma utopia” (FGV) e “Uma revolução perdida” (Editora Perseu Abramo). É professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, e especialista em União Soviética e história do socialismo. Atualmente está em Paris, onde faz pós-doutorado no Centro de Estudos da Rússia, do Cáucaso e da Europa Central, pesquisando os intelectuais russos no século 19 que atuaram como “formuladores de modernidades alternativas aos paradigmas liberais”. De Paris, por e-mail, deu esta entrevista ao repórter Marcelo Abreu.
O ano representou coisas diferentes para as pessoas em partes diferentes do mundo. O que foi 1968 para você?
Daniel Aarão Reis Filho - Víamos o movimento do ano, quente e vermelho, suscitando muitas expectativas e esperanças. Nos meus verdes 22 anos, apesar das circunstâncias desfavoráveis, sentia-me, como muitos companheiros de então, confiante no futuro: nós mudaríamos o mundo e a história (re)começaria conosco.
Estava então suspenso por três anos da Faculdade de Direito da já então UFRJ. Não gosto do termo “militava”, porque implica etimologicamente os militares, e os milicos não eram propriamente meus amigos, nunca foram e, provavelmente, nunca serão. Mas fazia parte da Dissidência da (então) Guanabara, a DI-GB, a mais charmosa organização da esquerda revolucionária brasileira, transbordante de coragem, de autoconfiança e de disposição de luta. Só mais tarde a organização mudaria de nome e viraria MR-8, para homenagear Che Guevara (na época se achava que ele fora assassinado em 8 de outubro). Foi quando se realizou, com êxito, mas com trágicas conseqüências para todos nós, a captura do embaixador dos EUA no Brasil.
Havia naquele ano a percepção de que muitas coisas estavam acontecendo – mais do que em anos anteriores?
Daniel Aarão Reis Filho - Já na época os contemporâneos pensaram que estavam vivendo um ano muito especial, mais especial até do que ele realmente foi. Quanto a mim e a meus companheiros mais próximos, acreditávamos que estava começando um ciclo revolucionário, uma grande onda, e nós estávamos nela... As coisas, no entanto, eram mais complexas. As tendências conservadoras ainda eram muito fortes, sem falar na força remanescente das esquerdas tradicionais que não queriam mudar o mundo, mas apenas gerenciá-lo. E o que dizer das maiorias indiferentes que viam todo aquele movimento com enfado e receio? E dos tantos que nem tomaram conhecimento do que estava acontecendo? Apesar disso, o ano foi muito quente e, mesmo depois das derrotas, teve impactos positivos e construtivos na história da humanidade. Seu programa de mudanças foi parcialmente construído e muitas de suas questões continuam na agenda da humanidade (democracia radical, autonomia dos movimentos sociais em relação ao Estado e aos partidos políticos, emancipação das mulheres e de todas aquelas que sofrem discriminações particulares, ligadas à cor da pele, às opções sexuais e religiosas etc.).
Quarenta anos depois, todas as bandeiras levantadas em 68 continuam válidas ou, em vista do desenrolar das coisas, seria preciso rever algumas delas (antiautoritarismo, mistura de vida/arte e política, feminismo, liberação sexual, ditadura do proletariado)?
Daniel Aarão Reis Filho - Todas estas bandeiras continuam válidas e na agenda política, mas tenho dúvidas a respeito da ditadura do proletariado. Esta f'órmula, ao longo do tempo, se explicitou muito mais como a ditadura do partido das vanguardas iluminadas sobre o proletariado e o povo em geral. O que precisamos é de formas radicalizadas de democracia, mas temos de chegar lá através da democracia, cada vez mais aperfeiçoada, e não por intermédio de ditaduras, mesmo que revolucionárias...
O Que você acha dessa onda toda a respeito de 1968 que ocorre a cada dez anos, quando se comemora a data?
Daniel Aarão Reis Filho - Há formas e formas de falar de 1968. Creio que devemos evitar as celebrações acríticas, elas me enfadam. Mas penso que devemos debater com espírito crítico o ano, suas lutas, as vitórias que os movimentos ajudaram a ganhar, o que ainda ficou em aberto. Mas nada de ufanismo, nem conversa de ex-combatente, nem saudosismos. A vida segue seu rumo, com novos desafios sempre estimulantes. Não esquecer uma grande proposta de 68: o melhor momento para viver é aqui e agora. Aqui e agora! Nada de embarcar em utopias desmesuradas que só se realizam nos “amanhãs que cantam”. Nada de apertar cintos para que outros engordem. Ou para que os netos vivam melhor no futuro. O que não quer dizer que vamos esquecer o futuro. Mas é importante viver o momento e cuidar das pessoas que estão mais próximas.
A entrevista com Daniel Aarão Reis Filho foi feita originalmente para a revista "Continente Multicultural" - www.continentemulticultural.com.br - e publicada, de forma resumida, na edição de maio de 2008, na matéria de capa sobre os 40 anos de 1968.
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