13/06/2008 - 09h55
Alfredo Sirkis, em 1968, tinha 17 anos, estudava no Colégio de Aplicação, no Rio de Janeiro, e não pertencia a nenhuma organização política. No final do ano seguinte, ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e participou da luta armada contra a Ditadura Militar. Exilado, viveu na França e na Suécia. De volta ao Brasil, escreveu livros como “Os carbonários” e “Roleta chilena” e foi candidato a presidente da República, em 1994, pelo Partido Verde. Foi também secretário de Governo no Estado do Rio de Janeiro. É um militante pela implementação de ciclovias nas cidades. Hoje é colunista do “Jornal do Brasil” e um dos líderes nacionais do PV. Do Rio, deu a entrevista seguinte, por e-mail, ao repórter Marcelo Abreu.
Havia, em 1968, a percepção de que muitas coisas estavam acontecendo – mais do que em anos anteriores?
Alfredo Sirkis - A percepção foi no próprio ano, mas, como costuma acontecer na história da humanidade, se fazia algo totalmente diferente do que se pensava estar fazendo. No Maio de 68 de Paris, que foi o mais simbólico de todos, imaginavam estar fazendo a revolução socialista e se aproximando da tomada do poder. Na verdade o que ficou foi uma revolução de costumes e de cultura (não uso a palavra Revolução Cultural para não remeter àquele banho de sangue absurdo na China de Mao) que modernizou a sociedade e, até certo ponto, a economia de mercado, e que criou novos germes de crítica ao chamado socialismo real. Não podemos esquecer que a Primavera de Praga foi parte integrante de 68.
Daniel Cohn-Bendit, antigo líder do maio francês, defende a tese de que é preciso rever algumas bandeiras de 68. Na sua opinião, 40 anos depois, todas as bandeiras levantadas naquele ano continuam válidas ou não?
Sirkis - Cohn-Bendit, com seu dom provocador, disse há dias a “Le Nouvel Observateur”: “Esqueçam 68, nós já ganhamos!”. Na realidade, o Maio de 68 parisiense politicamente reforçou a direita, a curto prazo. De Gaulle convocou eleições antecipadas e venceu. Mas a sociedade francesa mudou: feminismo, revolução de costumes etc.... Quanto às bandeiras, 68 teve de tudo, desde o "proibido proibir" à ditadura do proletariado.
E o que restou da bandeira do socialismo com economia estatizada e ditadura do proletariado?
Sirkis - Não restou nada senão uma memória de imenso sofrimento humano.
Incomoda-lhe falar sobre 68 para ao mais jovens?
Sirkis – Sinceramente, não é meu assunto favorito. Afinal já lá se vão 40 anos! Na minha vida posterior fiz muitas coisas muito mais interessantes e construtivas do que ter sido guerrilheiro entre 1969 e 1971. Prefiro hoje falar de ecologia, urbanismo, cidades, por aí vai. Dos anos de chumbo não me orgulho nem me envergonho. Em relação aos jovens, só me preocupa quando alguns decidem romantizar aquilo e me dizem que têm inveja de não terem vivido aquela época. Bobagem, com todos seus problemas, o Brasil de hoje é melhor.
A entrevista com Alfredo Sirkis foi feita originalmente para a revista "Continente Multicultural" - www.continentemulticultural.com.br - e publicada, de forma resumida, na edição de maio de 2008, na matéria de capa sobre os 40 anos de 1968.
(A matéria poderá ser enviada para até 5 pessoas. Os e-mail's devem ser separados por ponto-e-vírgula)
fe comentou:
legal, é isso ai
Comentário publicado dia 13/06/2008, às 20:08