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16/05/2008 - 11h02

O dia em que encontrei Daniel Cohn-Bendit

Em 1987, Daniel Cohn-Bendit, ex-líder estudantil das barricadas parisienses, ainda era quase um jovem cabeludo e editava uma revista alternativa em Frankfurt, na Alemanha. No Recife, uma outra publicação alternativa circulava na cidade. Era o jornal “Universo”, feito por estudantes da Fesp, liderados pelo jornalista Sérgio Xavier. Cohn-Bendit e o “Universo” tinham tudo a ver, um com um outro. Ambos falavam de ecologia (Dany Vermelho, como era conhecido em 68, já havia virado verde), pacifismo, cultura jovem, liberdade e uma nova sensibilidade diante da vida. Nos anos 80, antes da era digital, ter um jornal alternativo para falar de ecologia era o máximo.

Foi nesse contexto que, no final de 1987, eu estava na Feira do Livro de Frankfurt, quando, em um dos gigantescos pavilhões onde editoras de todo o mundo expõem seus livros, vi Daniel Cohn-Bendit na entrada de um pequeno estande. Sentado numa cadeira, atrás de uma mesa onde estavam revistas e livros de uma pequena editora, conversava com as outras pessoas como se fosse um simples funcionário. Aos que se aproximavam da mesa, explicava que algumas revistas eram de graça (os números atrasados) e outras teriam de ser pagas.

Na época, havia feito uma longa viagem de ônibus pelo Brasil. Em pouco tempo, sairia aqui o seu livro “Nós que amávamos tanto a revolução”. Na Feira de Frankfurt, reconhecido por outro jornalista, foi convidado a gravar uma rápida entrevista para uma TV alemã. Em seguida, quando me apresentei como jornalista brasileiro, Cohn-Bendit se levantou, falou algumas palavras em português, mas desistiu e partiu para o inglês, na sua voz de timbre levemente fanhoso. Como bom revolucionário internacionalista, fala muitas línguas. Alemão e francês, aprendeu desde a infância. Certamente arranha o espanhol. É fluente em inglês. Respondeu às minhas perguntas com um certo enfado de quem não se leva muito a sério. A fita gravada, eu não sei onde está. Mas o recorte do velho e bom “Universo”, publicado no início de 1988 - quando se comemorava 20 anos do maio de 68 - registrou o momento, reproduzido abaixo.


JORNAL UNIVERSO – Início de 1988

COHN-BENDIT, “O VERMELHO VINTE ANOS DEPOIS”

Vinte anos se passaram mas o agitador das ruas e barricadas de Paris não perdeu o carisma. Daniel Cohn-Bendit, ao dar uma entevista à TV alemã, durante a última Feira do Livro de Frankfurt, fala com a repórter, olha para a câmara e ao mesmo tempo se dirige à pequena multidão que cresce em torno dele. Logo depois, conversa com um grupo de adolescentes que certamente não tinham nascido quando ele liderou a “revolta sem líderes”, dos estudantes parisienses em 1968.

Filho de judeus alemães que imigraram para a França, “Dany le Rouge”, como era chamado, acabou expulso do país. Foi morar na Alemanha, onde hoje, aos 43 anos, milita no Partido Verde e edita a revista quinzenal “Pflasterstrand”, jogo de palavras em alemão que sugere um dos lemas da revolta de 68: “sob o asfalto, a praia”.

Seu livro “Nós que amávamos tanto a revolução” – uma série de entrevistas com ativistas da década de sessenta, entre eles os brasileiros Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis – foi lançado em 1986 na Europa e saiu no Brasil recentemente (Brasiliense, 190 páginas).

Cohn-Bendit, que agora mora em Frankfurt, fala neste papo de suas atuais atividades e do panorama político–alternativo.

Na Alemanha – por Marcelo Abreu


Há uma grande diferença no processo econômico, político e cultural entre Europa e Brasil. Que reação ao seu livro você espera do público brasileiro?

Cohn-Bendit – De um lado existe uma grande diferença. Mas por outro lado, acho que há pessoas da minha geração que fizeram experiências que não são propriamente semelhantes, mas pertencem ao tipo de experiência da minha geração. Eu entrevistei Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis e acho eu o Brasil, às vezes, é influenciado pela Europa. Acho que por isso o livro pode ser interessante.

Foi noticiado há alguns meses que você teria dito que se os Verdes chegassem ao poder na Alemanha e se você fosse ministro da Economia, a dívida externa dos países do terceiro mundo seria perdoada...

Cohn- Bendit – Foi uma discussão sobre a dívida e eu disse que o mundo ocidental tem de entender que países do terceiro mundo, como o México e o Brasil, não podem pagar a dívida, que temos de achar uma solução porque esses países precisam do dinheiro dentro deles.

Você acha que isso é possível através da Alemanha, por exemplo?
Cohn-Bendit – Sim, acho que tudo é possível, quando se muda a estrutura do poder político.

Você que viveu ativamente os anos sessenta, como define os anos oitenta?
Cohn-Bendit – Esta é uma década onde não se está sonhando com mudanças políticas. Estamos numa década muito pragmática. De um lado, muitas coisas podem ser realizadas. De outro, a cabeça pragmática das pessoas faz com que elas não tenham mais nenhum sonho relativo a mudanças sociais radicais.

É difícil ser Daniel Cohn-Bendit? Você tem problemas por carregar um mito?
Cohn-Bendit – Acho que é tão fácil ou complicado como é para você ser o que você é. São as mesmas dificuldades para os seres humanos.

O que você acha da criação do Partido Verde no Brasil e em países do terceiro mundo em geral?
Cohn-Bendit – Se a constituição do Brasil permitir uma representação proporcional no parlamento, isto é, se com cinco ou seis por cento dos votos um partido chegar ao parlamento, poder ser uma experiência muito produtiva para o Brasil, ter uma consciência ecológica nas suas instituições. Eu acho isso muito importante para países da América Latina e da África.

O argumento de setores da esquerda brasileira é que primeiro devem ser resolvidos os problemas sociais e só depois deve haver preocupação com a ecologia e o pacifismo. O que você acha disso?
Cohn-Bendit – Acho que temos de fazer as duas coisas juntas. Não há um problema mais importante, mas vários problemas igualmente importantes.

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2 comentários

  1. Cassio Ferrezzi comentou:

    Cohn-Bendit hoje continua olhando à frente, tentando despertar novas percepções sustentáveis para o futuro. É uma ótima referência de político alternativo, que se destaca no nosso triste cenário de conservadorismo e corrupção

    Comentário publicado dia 08/06/2008, às 08:57
  2. Carmela Andrade comentou:

    Muito bom viajar no tempo e lembrar dos sonhos de décadas atrás. Parabéns pelo trabalho!

    Comentário publicado dia 18/05/2008, às 18:47
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