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Diario de Pernambuco - PE
24/08/2008 - 08:57

Diario de Pequim

Quem vai pagar a conta?

Marcelo Abreu

A viagem do Centro de Imprensa, no norte de Pequim, até o complexo de Wukesong, na zona oeste, onde acontecem as disputas do beisebol e do basquete, dura cerca de 40 minutos. É feita através de uma via expressa recém-construída, sem engarrafamentos. O que impressiona é o cenário ao longo da avenida radial. São grande edifícios em estilos variados: alguns são torres de vidro de linhas arrojadas como se vê em qualquer grande cidade do mundo.

Outro são combinações da arquitetura contemporânea com elementos tradicionais chineses, que configuram uma salada pós-moderna de gosto duvidoso (como o uso que fazem do tradicional teto chinês - aquele dos filmes de kung fu - no alto de edifícios construídos recentemente). Há também aventuras neoclássicas, prédios monumentais com colunas dóricas na fachada principal. Todos estão fartamente iluminados com neon, não só anunciando o nome da empresa (muitos são hotéis) como também marcando todo o contorno em vários padrões e cores.

E há os imponentes edifícios do governo, ummisto de caserna, realismo socialista e toques modernos. Trafega-se por viadutos recém-construídos que cortam outras radiais. Os carros e os ônibus são todos novos. Ao longo das calçadas, há grandes vasos de plantas. Tudo está limpo e impecável. O mesmo padrão se repete nas viagens para outros locais de competição. A pergunta é: como é que Pequim conseguiu se transformar tão radicalmente nos últimos anos? Quem está pagando a conta de uma mudança tão grande?

Sem elefantes-brancos

Autoridades municipais reuniram um grupo de jornalistas para falar sobre o legado que Pequim terá dos jogos. São números impressionantes. Três grandes radiais construídas, a expansão do metrô, que quadruplicou o número de estações, doze novas instalações esportivas, entre muitas outras coisas. Quase tudo construído desde 2001. Os organizadores apresentaram o argumento surrado que todos os organizadores de olimpíadas costumam apresentar: a infra-estrutura será útil ao futuro da cidade, tudo foi planejado cuidadosamente para que não haja elefantes-brancos, como aconteceu no passado. Mas alguém se lembra de um organizador dizendo que investiu centenas de milhões de dólares em um estádio que não terá utilidade?

Aventura olímpica

A expansão de Pequim é um caso inusitado na história olímpica. E a verdade é que ninguém sabe a verdadeira história por trás da aventura olímpica chinesa. Num país de informações controladas há sessenta anos, todos ficam nas mãos dos dados oficiais. Além do dinheiro dos patrocinadores, da venda dos direitos de transmissão, quem vai pagar a conta que vem por aí? E qual o valor dela? Aí está uma grande e difícil pauta jornalística para ser apurada. Somente com a distância do tempo se terá uma visão mais aproximada do que representou esses jogos na história da China.

Variáveis chinesas

O capitalismo e a sociedade de consumo se estabeleceram com força na China nos últimos 20 anos. Mas o peso estatal na economia ainda é grande. É ainda um país de planos qüinqüenais e de mão de obra abundante e barata. Isso complica a tentativa de se fazer uma conta nos moldes capitalistas tradicionais, sobre os custos da Olimpíada de Pequim.

Desperdício

A chamada olimpíada verde deixou muito a desejar quando se observa o grande desperdício de energia nos alojamentos, na decoração kitsch e desnecessária dos viadutos com fios de luzes azuis que mais lembram motéis (e não só em Pequim, mas em outras áreas da China também).

Meio-ambiente

Uma coisa já se sabe: quem já está pagando a conta é o meio ambiente, e não somente o chinês. Por extensão, todos os países que fazem comércio com a China têm suas economias afetadas pelos interesses dos chineses, e isso afeta o meio ambiente. Quando um edifício em Cantão ou Pequim decide que vai iluminar a obra com neon à noite (apenas com o objetivo de impressionar) aquela energia acaba vindo de algum lugar do mundo e tem um custo ambiental. E sabe-se também que o meio ambiente costuma dar o troco depois.

Arquitetura

A relação com o patrimônio histórico é bem diferente atualmente na China. Nos anos 50, houve um rompimento com tudo que era pré-revolucionário, que passou a ser considerado atrasado e feudal. Somente nos últimos anos a riqueza cultural antiga voltou a ser valorizada. Templos e palácio foram reconstruídos, e voltou a se falar com orgulho da arte antiga e de vários aspectos da cultura, sobretudo das dinastias Ming e Qing, as duas últimas antes da proclamação da república.

"Somente com a distância do tempo se terá uma visão aproximada do que representou esta Olimpíada para a China."

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