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  • Data31 de Outubro de 2014
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A EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS

17 de Março de 2013 às 19:37 em
por Luiz Schettini

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Educação especial

Por que alienar uma parte do todo, se ele perderia o sentido sem suas partes? É bem verdade, que as partes contêm a essência do todo, pois cada parte é, na realidade, a representação do todo. Por que, então, fragmentar o todo para espalhar a angústia da separação? Por que excluir as pessoas do convívio das outras pessoas?
Todas as vezes que acentuamos as diferenças, dando a elas um significado discriminatório, estabelecemos um processo de alienação. Isso é um ato de loucura. A tentativa de exclusão é evidência de perda da sanidade. Rejeitar o outro é rejeitar uma parte de si. A exclusão não dói apenas no outro, mas dói também naquele que o exclui, pois, sem o saber, estará dilacerando sua própria unidade.
Quem se percebe excluído do amor e, conseqüentemente, da aceitação e do aconchego, vive a sufocação da angústia; mergulha na tristeza criada pela rejeição e pelo esquecimento. “A angústia é pressentimento de uma dor futura, enquanto que a saudade é a lembrança triste e complacente de uma alegria e de uma dor passadas” (O livro da dor e do amor, Nasio, p. 27). Não se pode medir a intensidade da angústia dos que se vêem excluídos do direito de viver na comunhão da sociedade humana. Às vezes, a dor por ser muito intensa, ultrapassa o limiar da nossa percepção. A dor não sentida é o silêncio do nosso grito. Os excluídos perdem o amor a si mesmos, porque perderam o amor do outro. É o amor ao outro que torna possível o amor a nós mesmos. Os que excluem, além de evidenciarem a perda do amor pelo outro, perdem o amor por si próprios. A exclusão nunca é unilateral. Quem exclui, também se exclui.
A rejeição por causa da diferença é demonstração do desconhecimento do fenômeno da individualidade, mesmo que a diferença indique originalidade ou mesmo estranheza. “Pessoas diferentes são feitas para coisas diferentes” (A arte de viver, Epicteto, p. 67). Nossa limitação, muitas vezes, não nos permite alcançar o que está além dos parâmetros habituais. Quando nos deparamos com pessoas com necessidades especiais, tendemos a vê-las sob o ponto de vista das suas limitações, comparando-as com as capacidades que imaginamos possuir. Dificilmente, consideramos o que elas são ou que podem realizar o que nós não podemos conseguir ou perceber.
Quando pensamos, por exemplo, na capacidade extraordinária dos nossos sentidos, nos achamos poderosos e quase perfeitos. Que instrumento precioso é o sentido da visão! Ver as formas, os movimentos, as cores nos dá uma sensação de poder e domínio sobre o que vemos. Esquecemos, entretanto, que, se a visão física é um grandioso poder, por outro lado, descobrimos sua profunda limitação, se consideramos tudo o que ela não alcança. Do mesmo modo, ocorre com a audição, o olfato, o tato e o paladar. O não-ver talvez tenha uma amplitude maior do que a capacidade de ver. O ouvir, provavelmente, é menor do que o não-ouvir, isto é, tudo o que não ouvimos é maior do que temos capacidade de ouvir.
Por que excluir os que diferem de nós, sendo nós também tão limitados? Ao excluir os que não podem o que podemos, estamos nos excluindo do mundo dos que são e podem o que não podemos e não conseguimos ser.
Vale a pena citar Epicteto, que, já nos começos da era cristã, escrevia: “Somos como atores em uma peça de teatro. A vontade divina designou um papel para cada um de nós sem nos consultar. Alguns atuarão em peças curtas, outros em longas. Podemos ser chamados a desempenhar o papel de uma pessoa pobre, de um deficiente físico, de uma eminente celebridade, de um líder político ou de um simples cidadão comum.
Apesar de não estar sob nosso controle determinar o tipo de papel que nos é atribuído, cabe-nos representar a nossa parte da melhor maneira possível e procurar não reclamar dela. Onde quer que você esteja e quaisquer que sejam as circunstâncias, procure apresentar um desempenho impecável” (A arte de viver, Epicteto, p. 48).
Para a maioria das pessoas, a normalidade está vinculada à aceitação. Isto é, quando aceitamos as pessoas com suas formas peculiares de ser e fazer, desaparece o fantasma da anormalidade, da incapacidade e da impotência. As pessoas são o que podem ser e é, dessa forma, que precisam ser amorosamente aceitas, pois é também, assim, que elas terão condição de aceitar amorosamente nossa aceitação. Cada dificuldade carrega em si a sua própria solução, se não entendermos que a solução deverá ser sempre a que imaginamos ou desejamos.
As grandes conquistas exigem a coragem de “desistir” delas próprias. Isto é, conquistar não é um ato do poder meramente individual. A comunhão com o que é bom, belo, forte e inspirador, dentro e fora de nós, é o ambiente em que se realizam nossas conquistas.
Não temos o direito de excluir ou impedir a participação de ninguém das coisas que são comuns a todos. Nada é propriamente nosso. Entretanto, será nosso quando passar a pertencer a todos. É o uso comum do que temos, que dará sentido à nossa existência no mundo. Isso só será possível, quando vivermos uma harmonia interior. Quando mudamos a realidade interna, o que acontece fora de nós é percebido – visto e sentido – como uma verdade consentânea com o que estamos vivendo em nossa interioridade.
De tudo isso se conclui, que não seremos completos sem reconhecer nossa incompletude ao alijarmos de nosso convívio e impedirmos de participar de nossas conquistas aqueles que, sendo semelhantes, não são iguais a nós. A semelhança é o bastante para nos conferir a qualidade de humanos com direitos individuais. A semelhança é o atestado da diferença. “Para cada experiência há um sujeito diferente” (Como conhecer Deus, Chopra, p. 309).
São poucas as coisas que podemos ensinar às outras pessoas. Quando muito, podemos exemplificar ensinamentos com nossa conduta pessoal. Ficamos, por vezes, ansiosos para ensinar as coisas boas que aprendemos, mas esbarramos nas formas peculiares, individuais e próprias de cada um. Daí a nossa frustração. Gibran Khalil Gibran nos alerta: “Pena que as gazelas não possam ensinar a velocidade às tartarugas” (O Profeta, p. 62).
Avaliar as pessoas por aquilo que elas não podem ser ou fazer é colocarmo-nos como exemplos de poder e perfeição, o que já indicaria fraqueza e limitação.
Há pessoas que expulsamos do nosso convívio, ou que lhes negamos os mesmos direitos que possuímos, porque as percebemos com diferenças acentuadas – que interpretamos como deficiências – em relação a nós. Daí o sentimento de pena ou desrespeito e, mesmo, de desprezo. Reservamos para elas as migalhas da atenção, do tempo e da nossa comunhão.
Tão grave e cruel quanto a rejeição aos “excluídos”, é a nossa atitude com os que chamamos de “quase excluídos”. Na realidade, são excluídos, da mesma forma.
Quem seriam os “quase excluídos”? Sem dúvida, eles são em número muito maior do que aqueles que chamamos de excluídos por serem portadores de necessidades especiais. As pessoas abandonadas na rua, com certeza, se enquadram na categoria dos excluídos. E as que estão dentro das famílias, das instituições públicas, abandonadas, massacradas pela rejeição afetiva? Chamá-las de “quase excluídos” seria, talvez, um eufemismo.
Encontramos dentro de muitas famílias pessoas que, independentemente de sua idade, ficaram à margem, por não conseguirem acompanhar a expectativa da maioria e nem demonstraram capacidade de autonomia sem ônus para os demais. Como não apresentam deficiências visíveis e comprovadas pelos meios tradicionais de diagnóstico, são alvo de pressão e repressão, recriminação e crítica, o que, em muitos casos, as levam a criar defesas inadequadas, para conseguir manterem-se vivas em um ambiente que não fornece os nutrientes afetivos para tentar a independência que se coadune com suas capacidades pessoais.
Além de tudo isso, muitas dificuldades que essas pessoas enfrentam são a resultante de lacunas afetivas formadas ao longo das relações interpessoais com as figurais parentais, ou com quem tentou substituí-las no grupo imediato de convivência – a família ou a instituição pública de acolhimento – ou nos grupos que freqüentam, como, por exemplo, a escola.
Há pessoas que vivem cobertas de andrajos, porque foi a roupagem que as circunstâncias lhes ofereceu. Sob os farrapos de suas vestimentas, estão humanos à espera da humanidade de outros humanos. Excluí-los por não termos conseguido encaixá-las nos processos que consideramos adequados, é desistir antes de fazer o mínimo: manifestar o amor que propicia a recuperação.
Amar a quem nos agrada ou gratifica com uma resposta aos nossos esforços educativos, é amor prazeroso. Amar aquele que resiste – seja pelo descaso ou insensibilidade – às mudanças que desejamos, é amar amorosamente. Esse é o amor corajoso, que não se dobra à persistência do erro nem à permanência do tempo. Às vezes, precisamos nos curvar, como fazem as árvores diante das grandes tempestades, para não ser desarraigadas da terra. Curvar-se lembra humildade e paciência. É, desse modo, que, logo que passa a tempestade, voltamos à nossa posição para continuar dando fruto e sombra.
Pensamos ser corajosos quando arrostamos perigos ou investimos com palavras fortes e ácidas contra os erros e as fragilidades alheios. Com certeza, coragem é uma outra coisa. “...a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero” (A coragem de criar, Rollo May, p. 11).
A coragem amorosa nos leva à dedicação independentemente das conseqüências. Ao nos entregarmos corajosamente, seja para o amor ou para a rejeição, não sairemos ilesos. Ficará sempre uma marca em nossa alma. Cabe-nos escolher a marca que nos servirá de identificação.
Não precisamos temer o futuro e, nem mesmo, o passado, que conhecemos ou desconhecemos. Não vemos as pessoas como foram, mas sim como são no presente. Amamos sempre no presente, mesmo que tenhamos amado desde o passado. O que nos dá vida é o amor que dedicamos na relação com a atualidade amorosa. Para o amor não importam nem o antes e nem o depois.
O presente não vem do passado nem do futuro, por isso, no presente está contida a idéia da eternidade. Vivemos a eternidade ao viver o presente. É como se a eternidade fosse uma “sucessão de presentes”. Temos, portanto, a oportunidade extraordinária de viver o presente com sabor de eternidade. Se bom for o presente, viveremos a plenitude; se mau, viveremos a deterioração.
É no âmbito do existir que se movimenta a aceitação ou a rejeição, a exclusão ou a inclusão. A idéia de existir contém em si também a idéia de insistir; e insistir é uma função humana. Uma das formas de insistir é a determinação de amar, apesar da reação do outro.
Às vezes, os resultados desejados dependem de insistirmos um pouco mais. Não insistir com o outro para que ele mude, segundo queremos, mas insistir conosco para esperar, amorosamente, que ele encontre sua forma de ser feliz e coerente consigo mesmo.
O amor esperançoso não sabe conviver com a exclusão.












DUAS MANEIRAS DE MAGOAR

10 de Junho de 2007 às 08:00 em
por Luiz Schettini

A mágoa é parecida com o ressentimento. Pertencem à mesma família. Ficamos magoados com as pessoas quando somos rejeitados ou simplesmente colocados em plano secundário. Dificilmente ficamos magoados pela desconsideração de pessoas estranhas. São os íntimos que mais nos magoam, quando lhes falta a ternura e a paciência que esperamos. Às vezes nem se dão conta de que nos magoaram. Não percebem. Passado o episódio que nos deixou entristecidos voltam a nos tratar da forma como sempre o fizeram. Não sentiram a extensão do nosso incômodo. Quase sempre de nada adianta -- se oportunidade houver – expor o nosso desapontamento e, mais que isso, a nossa dor. Não conseguem, mesmo em nome da intimidade da convivência, identificar a resultante da atitude que nos deixou abatidos.

O fato é que a mágoa permanece, não raras vezes, por um bom (ou mau) tempo. E é o mesmo tempo que, na sua bondade, se encarrega de esmaecê-la até quase ao desaparecimento. Com um pouco de boa vontade, chega mesmo a não mais existir. Aí estamos prontos a sorrir de novo, descontrair o cenho inconscientemente tenso, como que não querendo expulsar da mente o que nos magoou para não ferir o outro por quem temos tanto apreço.

A mágoa faz adoecer porque inibe o fluxo dos hormônios da vida. Não podemos viver bem sem os nutrientes do respeito, da paciência, da ternura. Enfim, dos cuidados que os nossos momentos peculiares de desenvolvimento exigem. Não podemos esquecer a importância desses “momentos de desenvolvimento”. A questão é que nem sempre os outros os percebem; e aí nos magoam. Raramente sabemos o porquê de tal comportamento.

Se não podemos evitar que os outros nos magoem, podemos, pelo menos, tentar reduzir ao mínimo seus efeitos ou, até mesmo, não nos deixar atingir pela persistência da dor que provocam. A mágoa danifica, corrói, desvitaliza.

Há, entretanto, outra forma de magoar as pessoas. Certamente haverá muitas outras. Não sei se esse conceito de magoar é universal. Francamente, não sei. Só sei que desde a meninice ouvia dos adultos que existe uma outra maneira de magoar os outros e a nós mesmos. É algo mais concreto e objetivo do que a mágoa que se assemelha ao ressentimento, embora, ao final, no seu sentido figurado, produzirá a mesma dor da alma.

Quem de nós não lembra de um ferimento que, descuidadamente, é atingido por um objeto ou, o que é pior, é atingido grosseiramente por alguém. Maior parece a dor do que o que sentimos ao nos ferir. É como se fosse dor sobre dor. É de nossa experiência o cuidado redobrado que tomamos para que ninguém, inadvertidamente, se aproxime, pois pode correr o risco de nos magoar. Até que tudo cicatrize e o tecido novamente se torne rijo e forte, andamos em estado de vigilância para não sermos magoados. Com razão.

Tudo isso nos leva a refletir sobre alguns aspectos das relações entre as pessoas, sobretudo no que se refere a formas mais íntimas de convivência. Há momentos em que as nossas fraquezas ficam expostas à “crítica construtiva” do outro. Infelizmente, muitas vezes, essa forma de alertar para a fragilidade ou mesmo para o erro, torna-se o caminho, não de uma pedagogia recuperadora, mas uma forma de magoar o ferimento que resiste à cicatrização tão esperada. Cada referência contundente ou, mesmo de maneira fortuita, é mágoa que fica pelo magoar a ferida que ainda não conseguimos curar.

Se aguçamos nossa sensibilidade, o outro aperfeiçoa a sua forma insensível de nos mostrar o erro, a ignorância ou a fraqueza que resulta do medo de romper com formas antigas de comportamento. É como se não devessem perder a mínima oportunidade de manter viva a lesão que um e outro gostariam de ver curada. São pessoas que, em nome do justo, do correto e do adequadamente pedagógico, não percebem que o outro se movimenta em círculos na tentativa de encontrar um caminho retilíneo. Magoar o mesmo ferimento repetidas vezes não faz parte de nenhum manual terapêutico eficaz.

Corrigir, produzindo no outro a dor de apenas ser confrontado com suas feridas, sem oferecer uma indicação de cura, é extravasar irritação travestida de rejeição.

Ensinar (ou ajudar), usando como instrumento pedagógico a rememoração reiterada das dificuldades, dos erros ou mesmo das limitações do outro, é muito mais acentuar dele a incapacidade do que auxiliá-lo na descoberta dos atributos que podem contribuir para a reconstrução da sua relação saudável com a vida.

Magoar a quem, sem o perceber, magoa a si mesmo, é estender o caminho da recuperação. Tratar os ferimentos com paciência, carinho e ternura é contribuir para a cura e ainda conquistar o doente. Ensinar usando o açoite verbal da reafirmação do erro do outro sem oferecer bondosa e humanamente a possibilidade de outra forma de comportamento é não se importar com a aprendizagem e a reconstrução, mas afirmar apenas um lado do processo pedagógico: apontar o problema é deixar reticências e interrogações sobre as alternativas de mudança. 

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