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24/01/2010 - 12h14

Marco Lucchesi e a erudição excessiva

Fotografia ilustrativa

Acabo de realizar uma jornada árdua: ler “Ficções de um gabinete ocidental – Ensaios de História e Literatura”, de Marco Lucchesi (Civilização Brasileira, 2009). É um livro exasperadamente excessivo.
Nessa coletânea de artigos, Lucchesi, intelectual de alta estirpe, poeta consagrado, tradutor poliglota, ensaísta, reafirma sua infinitiva gama de interesses os mais amplos. Os temas escrutinados vão da Literatura à Física, da Filosofia à Música, da Religião à História. Tudo vertiginosamente interligado, num exercício da mais alta especulação.
Sua obra poética, que conheço em parte, alcança píncaros bem elevados, como atestam críticos do calibre de um Fábio Lucas e um Wilson Martins, que ressalta sua “erudição ecumênica”.
E aí é que reside o problema nessa coleção de ensaios brilhantes.
A constatação mais óbvia da leitura da coletânea é justamente a vastíssima e ecumênica erudição do autor, cujos alicerces estão bem visíveis por toda a obra.
Por exemplo, num dos mais instigantes capítulos do livro, “A espiral e o sonho dos meninos”, a abordagem de um tema inovador, como é a relação entre Matemática e Poesia, resulta conspurcada pelo excesso de autores citados, num jorro atordoante: Malba Tahan, James Newman, Gödel, Novalis, Dietrich Mahnke, Clotilde de Vaux, Petrarca, Horia-Roman Patapievici, Dante, Lydio Bandeira de Melo, Kant, Keith Devlin, Aristóteles, Farges, Barbedette Jolivet, Maritain, Irving Copi, Leibniz, Russel, Popper, Kronecker, Barbara Celarent, Clausius, H. Peitgen, Mandelbrot, Hardy, Poincaré, Constantino Tsallis, Ildeu de Castro, Ronaldo Rogério Mourão, Ubiratan D'Ambrosio, Mauss, Lévy-Brühl, Paulo Freire, Cauchy, Marx, Bourbaki, Heisenberg, Solomon Marcus, Stelian Apostolescu, Howard Eves. (Eu poderia resumir informando o número de autores – 42 – num artigo relativamente curto, 12 páginas, mas o efeito não seria o mesmo!)
A impressão que passa é a de uma conversa “par entre pares”, pontuada ainda por citações em alemão, latim, inglês e francês, restringindo dramaticamente o espectro de leitura a não iniciados.
A grande qualidade da obra, descontados os excessos acadêmicos, é a capacidade de abordar temas por visões vigorosamente inovadoras (como justamente na parte “Matemática e Poesia”) e estabelecer correlações insuspeitadas, como a musicalidade na obra de Machado de Assis (“O violoncelo de Bento Santiago”). Quando veste o manto da simplicidade, como no artigo “Euclides: uma poética do espaço brasileiro”, Lucchesi alcança uma efetividade narrativa digna de nota.
A chave, creio, do registro textual desses ensaios está na entrevista com o autor feita pelo poeta cearense Floriano Martins, quando ele afirma: “Os meus pares, Floriano? A nossa possível cartografia? O excesso!” Tal programa resta milimetricamente cumprido nesse livro muito além do alcance dos “espíritos simples”.
Como sonho a utopia democrática radical, sem plebeísmos nem aristocratismos, cutuco aqui o afável poeta-ensaísta a compartilhar seu notável saber com os que não falam cinco ou mais línguas nem tenham estudado nos melhores colégios suíços. É apenas uma demanda de leitor (muitíssimo) menos letrado, que gostaria de, muito longe da dieta apelativa da “leitura fácil”, fruir de algo mais acessível, com a marca de qualidade Lucchesi.

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