12/01/2010 - 13h17
O ator João Miguel interpretou Bibiu em episódio do "Fantástico", em junho 2008.
Anonimamente vivendo em Caruaru, foi assim que Cristhiano "encontrou" Bibiu, o contador de Filmes, na matéria que se intitula “Non Gratas: entrevistas com importantes personagens da literatura pernambucana” (Revista Eita!, nº 3, dezembro de 2009).
Os escritores e seus personagens focalizados foram: Ronaldo Correia de Brito (Ismael, romance Galiléia), Homero Fonseca (Bibiu, romance Roliúde), Raimundo Carrero (Matheus, romance O Amor Não tem Bons Sentimentos) e Fernando Monteiro (Lúcio Graumann, romance O Grau Graumann).
Eis o teor da conversa com Severino Ramos Soares da Silva, vulgo Bibiu, o contador de filmes:
Bibiu, o senhor concordou com a biografia que o jornalista Homero Fonseca escreveu sobre sua pessoa? É verdade que você o processou por "danos imorais"?
O dr. Homero Fonseca esteve várias vezes aqui em casa. Sentava nesse mesmo tamborete que o senhor está sentado, prosava muito comigo. Escreveu não sei quantos cadernos. Quando li o livro, vi que ele mentiu muito, inventou muita coisa a meu respeito. Mas o que se há de fazer, não é? Uma moça, pesquisadora da universidade, veio aqui um dia e me esculachou, com base no que leu ali. Disse que eu racista e machista e mais um monte de coisa que tá na moda hoje. Mas eu pergunto: em 1940, nos cafundós do Sertão, tinha alguma feminista? E não é verdade que ainda hoje o brasileiro não elegeu nenhum crioulo para presidência da República? Até os americanos, que nem bebiam água no mesmo bebedouro dos pretos, elegeram o Obama. Mas aqui nada. Então tem essas coisas. No livro do dr. Homero Fonseca também está que eu era contra o comunismo, quase acabo uma amizade fina porque o camarada era chegado a essas idéias. Mas a gente crescia ouvindo que os comunistas matavam até criança. Ora, e hoje o comunismo não está tão prestigiado assim. Mas não vou me queixar do ilustre escritor, não. Ele me me deu uma graninha que me permitiu comprar meus cachetes para reumatismo. E eu, que depois de ter sido muito celebrado andava meio esquecido, voltei a ficar famoso: o “Fantástico” fez matéria comigo, dei entrevistas à imprensa escrita, falada e televisada até do estrangeiro. Esse negócio de processo não é comigo, não.
Homem, lendo “Roliúde”, fiquei impressionado com a quantidade de mulher que o senhor namorou. Como se conquista uma mulher?
Rapaz, não venha greiar comigo, não, que tô perto de completar de 100 anos como aquele arquiteto que construiu Brasília e que eu conheci uma vez numa farra no Rio de Janeiro, aí por 1963, e caímos na gandaia. Mas esse troço de conquistar mulher não tem cartilha, não. Mulher gosta mesmo é de pabulagem. Se você canta de galo, ou porque tem dinheiro, ou porque é famoso, ou porque tem poder – se for as três coisas juntas, então é um desmantelo – as mulheres caem direitinho. Mas cada qual tem seu jeito e eu não vou lhe ensinar o pulo do gato, rapaz, que já vi que você é mesmo é um sonso.
Conversei uma vez com Hermilo Borba Filho e ele me contou que lá em Manaus havia um contador de filmes igual ao senhor: ia de canoa de cidade em cidade e ganhava a vida contando pro povo as histórias que via no cinema. O senhor conheceu esse concorrente?
Ouvi falar nessa história, mas garanto que deve ser outra invenção do dr. Homero Fonseca. Ou então, se existiu mesmo esse caboclo, ele deve de ter ouvido falar nas minhas façanhas, que eram contadas nos quatro cantos do mundo, e deu de me imitar, seja para ganhar dinheiro seja para vadiar com as índias da Amazônia. Mas posso lhe garantir, sem falsa modéstia: Bibiu só existe um e ele é essa pessoa exata que está na sua presença nesse momento, vivo e se bulindo.
Quais são seus filmes preferidos? Já deu algum "branco" na hora de contar um filme? E quem é mais bonito: Bibiu ou Marlon Brando?
Camarada, desde pequeno me engracei por cinema, trem, folheto de cordel e mulher mimosa. E não tenho assim uma condição de preferência. Gosto de faroeste, aventura, safadeza, romântico (mais ou menos), kung fu e histórico. Um que eu gosto em especial é a “Paixão de Cristo”, pelas altas lições morais e religiosas, embora, quando fui contar lá no Pajeú, tive que botar uma onça no meio pra agradar o coronel Patu – que Deus o tenha – e que só gostava de filme com onça. Nunca me deu branco nenhum, porque tenho boa memória, mas se eu esquecesse algum pedaço não tinha problema, eu inventava ali na hora. … Marlon Brando não é aquele que fez “Viva Zapata”? Quem sabe dizer quem era mais bonito (que agora tô velho e encarquilhado) são as moças. Mas nunca me preocupei em me comparar com ele, nem mesmo com Rodolfo Valentino ou esse Brad Pitt. Só sei que sempre fui muito bem tratado pelo departamento feminino e, em troca, sempre tratei muito bem as damas, fossem elas solteiras, casadas, viúvas ou acompanhantes, como se diz hoje.

Revista Eita! nº 3
(A matéria poderá ser enviada para até 5 pessoas. Os e-mail's devem ser separados por ponto-e-vírgula)
LADJANE DE MORAIS SANTOS comentou:
nada a comentar
Comentário publicado dia 12/01/2010, às 17:12