01/01/2010 - 22h41
O poeta António Gedeão
Há exatos 40 anos,
meu irmão Héber Fonseca
me chamou a atenção
(eu tinha 22 anos, ele, 18)
para um poema de um aedo português
publicado no então
suplemento literário deste
Jornal do Commercio (Recife).
O poeta era António Gedeão
- pseudônimo do cientista e
professor Rômulo Carvalho
(1906-1997)
e que, nesse início de 2010,
reproduzo, por oportuno para a data:
“Dez Réis de Esperança
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a mesma piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.»
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