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01/12/2009 - 10h55

Cinema, estética, ideologia e despeito

Fotografia ilustrativa

Cena antológica de "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Eu assisti a quase todos os filmes da turma do Cinema Novo e ouvia todos os discos lançados pelo pessoal que, para meu gáudio, representava uma opção ideológica diante da alienação e do simplismo da turma da Jovem Guarda.

Gláuber Rocha era um caso à parte. Genial, inteligente, falastrão, marketeiro, frasista, dado a oxímoros e a gestos grandiloquentes, era o principal ideólogo do que ele mesmo batizou de “estética da fome” - um cinema feito com parcos recursos e muita inventividade, resumido no enunciado “uma idéia na cabeça e uma câmara na mão”. Era uma reedição cinematográfica de Oswald de Andrade, 40 anos depois, aplicando conceitos e linguagens do antropofagismo à época e ao meio cinematográfico.

O cinema inovador de Gláuber continha as virtudes e os defeitos do experimentalismo que, como a palavra define, é um processo em que, em determinada arte, se experimentam formas novas, geralmente em confronto direto com as formas antigas. Pelo seu próprio caráter de objeto em construção, as obras experimentais raramente são obras-primas (pero, que las hay, las hay). O que fica é principalmente o processo, a descoberta de novos caminhos, a mudança de parâmetros do cânone, o que não é pouca coisa. É o caso de Joyce na Literatura, cujo papel de desbravador e construtor de uma nova estética do romance é infinitamente maior do que sua obra propriamente dita, incluindo a xaropada pretensiosa e intragável que é o “Ulisses”, depois do qual, entretanto, nunca mais a Literatura foi a mesma.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” é um grande filme, com uma concepção dialética-paternalista da cultura popular, com extraordinária fotografia, direção de atores anticonvencional, um ritmo alucinante e uma narrativa que se pretendia a síntese da cultura e do homem brasileiro e que, ideologicamente, apontava na direção da libertação no célebre final do vaqueiro Manoel, depois de passar pelo misticismo e pelo cangaço, correndo em direção ao mar. (Aliás, comentei em post passado as discussões bizantinas que travávamos sobre o detalhe de Rosa, mulher de Manoel, tropeçar e ficar para trás na corrida para o mar.) “O Dragão da Maldade” me pareceu meio maneirista, com a caracterização absurda do jagunço Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros.
“Terra em Transe”, tão incensado, definitivamente não me agradou, mesmo na época em que o vi, quando todos amávamos a revolução e a admiração por Gláuber era uma devoção, da qual muitos crentes ainda não se livraram, nem mesmo após a (polêmica? provocadora? adesista? maluca?) declaração do cineasta de que o general Golbery do Couto Silva, grande articulador de bastidores de certo momento do regime militar, era “um gênio da raça”. “Terra em Transe”, um filme cabeça, se perdia justamente numa visão simplista da política, uma interpretação estudantil-imatura da nossa realidade, com personagens estereotipados e situações artificiais.

Mas o que realmente me incomodava, desde aquela época, era o caráter elitista daqueles filmes (sei que os formalistas e neoformalistas me crucificarão por isso), apesar do discurso marxista-populista do seu realizador. Mas o fato é que o filme passou totalmente batido junto ao povão, que não entendia patavinas daqueles longos planos-sequencias na caatinga, com beatos e cangaceiros pronunciando discursos incompreensíveis e cifrados. Claro, claro, a arte deve elevar a plebe rude, mas para fazer isso tem que ser minimamente entendida, do contrário não eleva nada.

Tudo isso me veio à cabeça com a notícia da morte do cineasta Anselmo Duarte, diretor de “O Pagador de Promessas”, um filme belíssimo que conquistou aquilo que a turma do Cinema Novo mais almejava e nunca alcançou: a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o paradigma de nossos cineastas geniais.

Mas sobre o filme e sua recepção à época (e depois), eivada de preconceitos, inveja, ressentimento e ciúmes, pelo fato de o cineasta Duarte não integrar a patota do Cinema Novo (prêmio e não-engajamento que foram a sua maldição), reproduzo aqui o penetrante artigo do crítico Kleber Mendonça Filho, publicado recentemente no “Jornal do Commercio” do Recife, um daqueles textos que eu gostaria de ter assinado.

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Palma para "O Pagador de Promessas"

“O PAGADOR DE PROMESSAS”

KLEBER MENDONÇA FILHO

Escrever que o Cinema Brasileiro perdeu na madrugada do sábado Anselmo Duarte, aos 89 anos, passa apenas parte da idéia. O falecimento do ator paulista bem apessoado, astro de filmes da Vera Cruz e da Atlântida nos anos 50, marca também a morte do cineasta que entrou para a história da cinematografia no país como o único diretor brasileiro laureado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme foi o escandalosamente sub-apreciado no Brasil: “ O Pagador de Promessas” (1962). 

A trajetória de Anselmo Duarte revela muito sobre o cinema no Brasil. O feito de Duarte, até hoje sem igual, é normalmente narrado pelos que contam a história do cinema brasileiro com um tom de pesar, como se a Palma não devesse ter acontecido. Como se Duarte não fosse merecedor da láurea e como se O Pagador de Promessas revelasse um filme menor, indigno de reconhecimento que filmes superiores não tiveram.  

Importante contextualizar o significado de uma Palma. Como ocorre em outras cinematografias, a brasileira é claramente colonizada por duas culturas: a americana, via Hollywood, e a francesa, via crítica e Festival de Cannes. Entre os que fazem cinema no Brasil, pode-se dividir rudemente as tribos entre as que desejam o Oscar, as que desejam Cannes, e os que querem os dois. 

Se o Oscar é uma espécie de reconhecimento universal e financeiro que agrega prestígio popular, é a Palma de Ouro de Melhor Filme no mais importante festival de cinema do mundo que estabelece o respeito intelectual e autoral para um artista no cinema. 

Nos últimos 15 anos, o cinema brasileiro tem flertado com o Oscar nas indicações pontuais para “Filme Estrangeiro” via família Barreto (Fábio por “O Quatrilho”, Bruno por “O Que é Isso, Companheiro?”), e com um aumento substancial no prestígio e no número de indicações através dos filmes de Walter Salles (“Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”) e Fernando Meirelles (“Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”). 

A família Barreto volta, nesse momento, a verbalizar sonhos de um Oscar (em 2011) através da nova biografia do presidente Lula, dirigido por Fábio Barreto, com estréia marcada para janeiro em centenas de cinemas. 

Já em Cannes, os mesmos Salles e Meirelles têm chegado na mostra competitiva, onde expoentes do Cinema Novo parecem ter (ou ter tido) espaço cativo, como Ruy Guerra, Cacá Diegues, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. 

Cannes foi espaço essencial para otimizar o impacto do Cinema Novo nos anos 60, onde filmes estandartes do movimento como “Vidas Secas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” foram projetados com destaque, e premiados, em alguns casos. No entanto, nenhum deles levou a Palma.

1962 - Curiosamente, chega Anselmo Duarte com O Pagador de Promessas, em 1962. O segundo filme desse homem amplamente reconhecido como bonito,  quase 1.90m, “galã” do cinema comercial, natural de Salto, interior de São Paulo.

Ele havia feito um sucesso popular de 1957, “Absolutamente Certo”, sátira de costumes sobre a então jovem TV brasileira. De nenhuma maneira associado à estética e militância do Cinema Novo, Duarte leva a Palma de Ouro. 

No júri, estava François Truffaut, que ajudou a escrever uma justificativa para o prêmio que, entre outras coisas, anunciava “um novo cinema no Brasil”. Há lendas e ‘disses me disses’ sobre a percepção da vitória de Duarte.  Seus colegas cineastas brasileiros teriam ficado “chateados” pelo fato de Duarte ter batido Luis Buñuel em Cannes, que competia com “O Anjo Exterminador”. 

Mesmo recebido na época com uma volta pela cidade de São Paulo em carro aberto, como se tivesse conquistado a Copa do Mundo, Duarte amargou, ao longo dos anos, um rancor dos que acusava estarem morrendo de inveja e despeito. 

Vale observar alguma semelhança na percepção da crítica brasileira em relação a um outro filme (recente), também realizado por um diretor não engajado politicamente, que conquistou enorme sucesso em Cannes (passou fora de concurso): “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. 

CdD também rodou o mundo e tem em Meirelles, cuja origem é a publicidade em São Paulo, realizador que não freqüenta os festivais de cinema no Brasil. O impacto do seu filme é tão grande quanto um certo ceticismo de parte da critica brasileira, a julgar por toda a discussão em torno da “cosmética da fome” aplicada ao filme no mês do seu lançamento, em agosto de 2002.

IMPACTANTE - “O Pagador de Promessas” deu a volta ao mundo e ganhou uma enorme quantidade de prêmios (Karlovy Vary, Moscou, São Francisco, Edinburgo...). Com uma ginga de filme popular bem montado que parece apertar todos os botões certos, na hora certa, o filme de Duarte narra a história de Zé do Burro (Leonardo Villar), um “nordestino” que havia feito promessa para uma mãe de santo no sentido de salvar a vida do seu melhor amigo, um jumento. 

Chegando em Salvador para pagar a promessa na Igreja de Santa Bárbara, ele é impedido pelo padre Olavo (Dionísio Azevedo), que rejeita a natureza “pagã” do compromisso. Isso causa racha entre religiosos (catolicismo e candomblé), povo, governo e imprensa, com forte menção à reforma agrária. 

Adaptado do texto de Dias Gomes (desgostoso com o resultado filmado), “O Pagador de Promessas”, é inegável, resiste bem ao tempo. É ágil, envolvente e dotado de elementos berrantes da cultura brasileira não tão distintos assim dos enfocados pela marca oficializada do Cinema Novo. Um final emotivo e impactante parece selar o efeito geral do filme, destacando a força do povo sobre a própria religião e poderes públicos.  É um belo final.

Se o Brasil zelasse pelo seu acervo de imagens, tanto como produto cultural como de mercado, “O Pagador de Promessas”, única Palma de Ouro do cinema brasileiro, seria um clássico nacional já restaurado, exibido na TV todo natal, como assim são exibidos sempre clássicos nacionais de países como os EUA ou França.  Precisa ser redescoberto.

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3 comentários

  1. Geneton Moraes Neto comentou:

    DE FATO, HAVIA UMA MÁ VONTADE ENTRE OS CINEMANOVISTAS E ANSELMO DUARTE.
    "O PAGADOR DE PROMESSAS" PARECIA TER SIDO DAQUELES GOLS QUE O JOGADOR FAZ POR PURO ACASO: AS OUTRAS COISAS QUE ANSELMO DUARTE FEZ, TANTO COMO ATOR QUANTO COMO DIRETOR, BEIRAM O CONSTRANGEDOR. PELO MENOS O QUE VI NO CANAL BRASIL: UMAS PORNOCHANCHADAS DE DÉCIMA OITAVA CATEGORIA. MAS É CLARO QUE "O PAGADOR DE PROMESSAS" FOI UM BELO FILME.
    COMO GOSTO NÃO SE DISCUTE, PREFIRO "TERRA EM TRANSE" AOS OUTROS DE GLAUBER ROCHA.
    A FALTA QUE GLAUBER ROCHA FAZ À CULTURA BRASILEIRA EXTRAPOLA A TELA DO CINEMA : O BRASIL PRECISA DE UM ARTISTA QUE PROVOQUE, DELIRE, ABRA ESPAÇOS. NÃO ERA, CLARO, O CASO DE ANSELMO DUARTE.

    Comentário publicado dia 04/12/2009, às 19:07
  2. Camilo Soares comentou:

    Homero,
    Parabéns pelo texto. Apesar de não concordar com tudo, acho que é sempre bom levantar questionamentos e bater em verdades perfeitas. Quanto a Glauber, a energia motriz de seus filmes é inigualável, quando misturava religião, lenda, história, teatro popular e política (nem essa deixou seus fimes datados). Nos seus últimos filmes, talvez caiu numa xaropada joyceana, mas isso não diminui sua obra.
    PS. Preciso rever O Pagador.

    Comentário publicado dia 03/12/2009, às 20:40
  3. Fernando Monteiro comentou:

    VERSÃO CORRIGIDA:
    Homero:
    Quase um menino ainda, eu assisti "O Paghador de Promessas" num dos antigos cinemas do bairro recifense de Afogados.
    Gostei muito do filme, e sigo admirando essa obra do bom (e, sim, injustiçado) cineasta Anselmo Duarte.
    Dito isso, devo reconhecer que o cinema brasileiro é um território juncado de injustiças, e a maior delas - bem maior do que o conjunto das injustiças culturais cometidas contra Alselmo - foi (e continua sendo) cometida contra um cineasta chamado ALBERTO CAVALCANTI, curiosamente um pouco pelas mesmas razões assacadas contra Duarte pelos chamados "cineastas de esquerda".
    Muito bem.
    Isso é uma coisa.
    Quero dizer, a visão vesga de
    "academicismo" na obra TODA de ambos os diretores, isso seria algo a identificar -- e a I-S-O-L-A-R.
    Ou seja, a crítica do preconceito (cruzado com a pura e simples inveja da carreira internacional tanto de Alberto quanto de Anselmo) da "esquerda", não deveria, por imantação ou por força pendular do velho "oito-ou-oitenta" etc, levar a se demonizar a atitude que teve um Glauber, por exemplo, na formação desse "anti-anselmismo" ou, pior ainda, do "anti-cavalcantismo" mais desarrazoado etc etc.
    Para se elogiar Duarte (ou Cavalcanti), torna-se necessário, eu pergunto, o mesmo tipo de obscuro "revisionismo" que o próprio Glauber praticou, estreitamente, contra a obra de Alberto Cavalcanti, o "Limite" de Mário Peixoto e o filme premiado (e outros) de Anselmo Duarte?
    Acho que não. Pelo menos ele, o baiano Glauber Rocha, foi um dos "gênios da raça", incontestáveis, e de um poder de fogo cinematográfico maior do que o de Anselmo Duarte, é evidente e claro.
    Duarte realizou ao menos um belo filme, o seu premiado "O Pagador de Promessas", e neste país em que o talento sempre termina pagando algum tipo de (invejoso) tributo, realmente teve que amargar quase o ostracismo pós-Palma de Ouro, ou a má vontade crítica e outras "boças" (com cedilha) bem brasileiro-macunaímicas..

    Comentário publicado dia 03/12/2009, às 14:41
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