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Festas de casamento

19 de Março de 2012 às 18:54 em por Homero Fonseca

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Halloween

 Encontro, depois de bom tempo sem nos cruzarmos, o filósofo Zé de Arruda, o grandalhão ruivo e manco de uma perna, que se aposentou precocemente quando levou uma surra violenta de um aluno parrudo que ele havia flagrado na alegre prática do antigo crime de adultério com sua mulher. Desde então o barbudo nunca mais casou, mas, ao contrário do que podem deduzir os apressados, não virou um misógino. “Gosto muito de mulher – explicou-me um dia – mas só em regime de free lance. União tipo CLT, com documento assinado e coabitação obrigatória, nunca mais!”
O assunto surgiu justamente porque nos topamos, noite dessas, bem em frente à Igreja da Madre de Deus, no Recife Antigo, no exato momento em que se processava um casamento de altas pompas e circunstâncias.
Curioso, Zé de Arruda atravessou a rua me puxando pelo braço e postou-se bem na porta da igreja, observando tudo com seus pequenos olhos verdes irrequietos. Chegou mesmo a infiltrar-se entre os convidados – preferi ficar ao largo – sem se intimidar com os olhares de estranheza lançados à sua figura absolutamente deslocada naquele ambiente. Mas saiu logo e convidou-me a tomar uma cerveja na Rua da Moeda. Fui prazerosamente, na certeza de ouvir comentários engraçados e insólitos.
Como de seu hábito, o filósofo não falou nada no início. Parecia que estava sozinho no bar, concentrado em seu copo de cerveja. De repente, virou-se para mim, cofiando a barba rebelde.
– Dr. Fonseca – disse-me com o tratamento que me dispensa, não sei por que, mas sem formalidade, como se dissesse poeta ou padre Fonseca – festa de casamento é um circo de horrores.
E ficou a balançar a cabeça, com um leve sorriso irônico. Fico na expectativa.
– É a coisa mais brega que pode existir. Mesmo de arromba, na alta sociedade... Veja você: o vestido da noiva, a decoração, o bolo, a sessão de fotos com parentes e padrinhos... Um horror.
Ri calado e atento. Ele disparou:
– É espantosa a aparência das mulheres nessas grandes ocasiões! Você viu, não é mesmo? Todo casamento é igual. As mulheres passam dias e semanas se preparando, vão a manicure, cabeleireiro, modista, o escambau, para se apresentarem na mais esplendorosa feiura. A coisa é tão séria que mesmo as realmente lindas ficam parecendo fazer parte da família Adams.
Agora ri sem parcimônia. Ele tomou gosto:
– Sei, como tu sabes, que homem não conhece as entranhas da mulher, metaforicamente falando, tanto quanto mulher não sabe o que nos apetece. Note que elas aparecem nesses grandes eventos vestidas e ornadas não para nos agradar – o que é uma pena! – mas para competir com as outras mulheres, completamente submissas aos que os estilistas, os cabeleireiros, os maquiadores, essa cambada toda prescreve para as mulheres. Não tenho nada contra os gays, mas todo mundo sabe que uma de suas características é o exagero. Ô raça hiperbólica!
Ele próprio riu da boutade e continuou:
– Então, se empacotam nuns vestidos esquisitos... Carregam na maquiagem a ponto de parecerem personagem de um filme de terror, daquele com luz de baixo pra cima... Trepam-se nuns sapatos altos, altíssimos, que fazem-nas perder toda as espontaneidade do andar... Reparaste como a maioria se equilibra precariamente sobre esses saltos... Caminham como papagaios bêbados! E os cabelos, meu Deus! Fazem o impossível para aviltá-los... Já vi moças de lindos cabelos crespos torturarem a natureza sem dó nem piedade para alisar a cabeleira ondulada e deixá-la parecendo uma prancha de surfe! E hoje em dia, depois da invenção dessa tal chapinha, não é assim que se chama?, o caso virou uma praga, uma calamidade pública! E toda essa produção, que deve ser uma coisa trabalhosa e penosa, para surgirem tesas, de uma rigidez semicadavérica... Visse (aqui ele se traiu como recifense da gema) como elas ficam duras como robôs, na angústia de não desmanchar a chapinha, não amarrotar o vestido, nem derreter a pintura da cara, isso no nosso calor, dr. Fonseca, nesse nosso calor!
Fez uma pausa, sorveu um longo da cerveja, e prosseguiu:
– Pra fazer justiça, os homens também são ridículos nessas ocasiões! Muitos botam até colete por baixo do paletó, como se aqui estivesse nevando! É uma desgraceira só!
Rimos e bebemos. Depois de uns cinco minutos calado e ausente, ele se voltou para mim:
– O pior, dr. Fonseca, é que o festival de horrores não é só na alta burguesia, não. Lá embaixo, na poeira, as festas são definitivamente constrangedoras. Todo sociólogo sabe – aliás nem precisa ser sociólogo pra saber – que as classes baixas tentam imitar as elites. Aliás, desconfio que é por isso que existe esse fenômeno da moda. As bacanas vestem os modelos que as bichas inventam e com pouco tempo a C& A está empestada de imitações e tome a mulherada do subúrbio e a da periferia a vestir-se igual às madames, que logo embarcam noutra onda para se diferenciarem da pobreza, e logo são imitadas, e a corrida do gato e do rato não termina nunca, para o bem do capitalismo.
Novo gole. Nova pausa. O arremate:
– Outro dia fui ao casamento da filha do um velho amigo lá na Bomba do Hemetério. A festa era na própria casa do pai da noiva, pertinho da igreja. Tinha uma mesa grande cheia de salgadinhos e petiscos e umas caixas de isopor abarrotadas de Schin. Como eu era um convidado especial do dono da casa, me botaram testa a testa com uma garrafa de gim e logo me trouxeram uma cumbuca com um delicioso caranguejo ensopado. Chiclete com banana é brincadeira! Sou louco por caranguejo, com uma cachacinha, mas como só tinha à mão o gim, enfiei o pé na jaca, apesar dos aromas e sabores incompatíveis. Fiquei de ressaca uma semana e jamais farei uma mistura tão esdrúxula dessas na vida! Mas lhe digo uma coisa: apesar do pastiche, as festas desse tipo, entre os pobres, são menos artificiais, pois eles não conseguem, claro, reproduzir a pompa dos endinheirados. Sacrificam-se até caírem nas garras do SPC para fazer uma festa de casamento e, no íntimo, sabem que não valeu a pena. Isso é patético e, pour cause, tem o seu quê de comovente, coisa totalmente ausente naquilo que vimos ali na Madre de Deus, não é verdade?

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