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  • DataPernambuco, 03 de Agosto de 2015
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O grande Gilvan

02 de Agosto de 2015 às 17:42
Homero Fonseca

Reprodução / TV Globo NE Zoom
Gilvan: muito além do regionalismo reducionista

 

Morreu neste sábado, aos 87 anos, o escritor Gilvan Lemos. Ele foi encontrado morto em seu apartamento no Recife, onde morava sozinho. Tímido e avesso às trepidações da vida literária, Gilvan de Souza Lemos é o autor de 25 livros, de contos e romances. Toda sua vida pode ser resumida numa palavra: literatura.

 Nascido na cidade de São Bento do Una, no agreste, cenário de algumas de suas obras com o nome Betuna, morava na capital desde 1949. Estreou em 1956 com o romance Noturno sem música.

 Recusava, com razão, o rótulo de regionalista, pois embora sua região seja cenário da maioria de suas obras, a abordagem se pautava pelos valores humanos mais universais. Costumava dizer que escrevia apenas sobre o que conhecia – e certamente por isso era capaz de uma profunda empatia com seus personagens. Também renegava ideologias políticas, mas boa parte de sua ficção é uma contundente denúncia social.

 O velório e o enterro serão em sua cidade natal, Agreste, na tarde deste domingo (2).

 Ele era, a meu ver, o maior dos ficcionistas em atividade em Pernambuco e um dos maiores do Brasil.

 Adeus, Gilvan. Descansa em paz.

 

Perto de Francisco, dom Hélder era de direita

13 de Julho de 2015 às 13:46
Homero Fonseca

Zoom
Francisco vem tendo uma atuação surpreendente

 

 

 

 

 

 

 

 

Discurso do papa Francisco, durante encontro com os movimentos populares, na Bolívia

 Julho de 2015
 
 Irmãos e irmãs. Boa tarde a todos.
 
Há alguns meses atrás, nos reunimos em Roma, e tenho presente a lembrança desse primeiro encontro nosso. Durante esse tempo, eu os trouxe em meu coração e em minhas orações. Me alegra vê-los de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça sofridas por aqueles que são excluídos, em todo o mundo. Obrigado, senhor presidente Evo Morales, por acompanhar tão decididamente este nosso encontro.
 
Aquela vez em Roma, senti algo muito lindo: fraternidade, garra, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado por isso. Também soube, por meio do Pontifício Conselho Justiça e Paz, presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja os que se sentem mais próximos aos movimentos populares. Me alegra tanto! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, e que se envolva, que acompanhe e consiga sistematizar, em cada diocese, em cada Comissão de Justiça e Paz, uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Gostaria de convidar a todos, bispos, sacerdotes e laicos, junto com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro.
 
Deus permite que nos vejamos outra vez hoje. A Bíblia nos lembra que Deus escuta o clamor do seu povo, e queria eu também voltar a unir minha voz a vocês: “os famosos três T´s”: terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e nossas irmãs. Disse e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por isso. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a Terra.
 
Primeiro de tudo.
 
1. Comecemos reconhecendo que necessitamos uma mudança. Quero esclarecer, para que não haja espaço para maus entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral também de toda a humanidade. Problemas que têm uma matriz global e que, atualmente, nenhum Estado pode resolver por si mesmo. A partir dessa explicação, proponho que nos façamos estas perguntas:
 
– Reconhecemos que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade?
 
– Reconhecemos que as coisas não andam bem quando existem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida domina os nossos bairros? Reconhecemos que as coisas não andam bem quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob permanente ameaça?
 
Então, digamos sem medo: necessitamos e queremos mudanças.
 
Você – em suas cartas e em nossos encontros – me relatam as muitas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade de trabalho, em cada bairro, em cada território. São tantas e diversas, como tantas e diversas também são suas formas de enfrentá-las. Existe, porém, um fio invisível que une cada uma dessas exclusões. Podemos reconhecê-lo? Porque não se tratam de questões isoladas. Me pergunto se somos capazes de reconhecer que essas realidades destruidoras são fruto de um sistema global. Reconhecemos que esse sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social e na destruição da natureza?
 
Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Esse sistema já não se aguenta, os camponeses já não o aguentam, os trabalhadores já não o aguentam, as comunidades já não o aguentam, os povos tampouco o aguentam… A Terra tampouco o aguenta, a irmã Mãe Terra como dizia São Francisco.
 
Queremos uma mudança em nossas vidas, em nossos bairros, no dinheiro suado que ganhamos a cada dia, na nossa realidade mais próxima; também queremos uma mudança que toque o mundo inteiro porque hoje a interdependência planetária requere respostas globais aos problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.
 
Gostaria hoje refletir com vocês sobre a mudança que queremos e necessitamos. Sabem que escrevi recentemente sobre os problemas climáticos que o planeta enfrenta. Mas, desta vez, quero falar de uma mudança em outro sentido. Uma mudança positiva, que nos faça bem, uma mudança –poderíamos dizer – redentora. Porque a necessitamos.
 
Sei que vocês buscam uma mudança, e não só vocês: nos diferentes encontros, nas distintas viagens, pude comprovar que existe uma espera, uma forte busca, um anseio de mudanças em todos os povos do mundo. Inclusive dentro dessa minoria cada vez mais reduzida que acredita estar se beneficiando com este sistema reina a insatisfação, e especialmente a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que escraviza.
 
O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece que está se esgotando. Não ganhamos nada brigando entre nós, não ganhamos nada atentando contra nossa própria casa. Hoje, a comunidade científica aceita o que há muito tempo os humildes já denunciavam: que estamos produzindo danos talvez irreversíveis ao nosso ecossistema.
 
Estamos castigando a terra, os povos e as pessoas de um modo quase selvagem. E por trás de tanta dor, tanta morte e destruição, se sente o fedor disso que Basílio de Cesarea chamava “o esterco do diabo”. A ambição desenfreada pelo dinheiro, que governa o sistema. Esse é o esterco do diabo. O serviço para o bem comum fica de lado. Quando o capital se torna o ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, o transforma em escravo, destrói a fraternidade entre humanos, coloca povo contra povo e, como vemos, põe em risco inclusive a casa que todos temos em comum, que é este planeta.
 
Não quero me estender descrevendo os efeitos malignos desta sutil ditadura: vocês os conhecem. Tampouco basta com apontar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos certo excesso de diagnóstico que, às vezes, nos leva a um pessimismo charlatão, ou a uma overdose de negativismo. Ao ver a crônica negra de cada dia, acreditamos que não há nada a fazer, a não ser cuidar cada um de si mesmo e do pequeno círculo da família e dos afetos.
 
O que posso fazer eu, catador de papel, catadora, cooperativa recicladora, diante de tantos problemas, se apenas ganho o suficiente para comer? O que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, transportador, trabalhador informal, quando sequer tenho direitos trabalhistas? O que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador, aqueles que, com muito sacrifício, podem resistir ao poder das grandes corporações? O que posso fazer eu na minha vila, no meu barraco, na minha comunidade, no meu pequeno espaço, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? O que pode fazer esse estudante, esse jovem, esse militante, esse missioneiro que chuta as latas e as pedras na rua com o coração cheio de sonhos, mas sem nenhuma solução para os seus problemas?
 
Podem fazer muito. Podem fazer muito. Vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podem e fazem muito. Me atrevo a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos, em sua capacidade de se organizar e promover alternativas criativas, na busca cotidiana dos “três T´s”. Estamos lembrados? Trabalho, teto e terra. E também podem ser protagonistas dos grandes processos de mudança, Mudanças nacionais, regionais e mundiais. Não se diminuam!
 
2. Vocês são os semeadores das mudanças. Aqui na Bolívia, escutei uma frase que gostei muito: “processo de mudança”. A mudança concebida não como algo que um dia chegará porque se impôs como opção política, ou porque se instaurou tal qual estrutura social. Dolorosamente, sabemos que uma mudança de estruturas que não vem acompanhado de uma sincera conversão das atitudes e do coração termina se burocratizando, se corrompendo e sucumbindo.
 
Por isso gosto tanto da imagem do processo, os processos, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, trocando a ansiedade pela ação paciente, ocupando todos os espaços de poder disponíveis. A opção é por gerar processo e não só por ocupar espaços. Cada um de nós não é mais que parte de um todo complexo e diverso interatuando com o tempo: povos que lutam por uma significação, por um destino, por viver com dignidade, por “viver bem”. Dignamente, nesse sentido.
 
Vocês, através dos movimentos populares, assumem os trabalhos de sempre, motivados pelo amor fraterno que se revela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem teto, do migrante perseguido, do jovem desocupado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi ocupado pelo narcotráfico, do padre que perdeu a sua filha porque foi submetida à escravidão. Quando recordamos esses “rostos e esses nomes” sentimos esse frio na barriga, por essa dor que vem e que nos comove… Todos nos comovemos, porque “vemos e sentimos” a realidade, não só a fria estatística, mas sim as feridas da humanidade doente, nossas feridas, nossa carne. Isso é muito diferente da teorização abstrata ou da indignação elegante. Isso nos comove, nos move e nos leva a buscar o outro para que nos movamos juntos.
 
Essa emoção feita ação comunitária não pode ser compreendida unicamente com a razão: tem um sentido que só os povos entendem e que dá sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.
 
Vocês vivem cada dia empapado pela tormenta humana. Me falam de suas causas, me tornam parte de suas lutas, e desde Buenos Aires eu agradeço essas oportunidades. Vocês, queridos irmãos e irmãs, trabalham muitas vezes no espaço pequeno, na comunidade na realidade injusta que lhes impõem, aquela a qual vocês não se resignam, opondo uma resistência ativa ao sistema de idolatria do lucro, que exclui, que degrada, que mata.
 
Eu os vejo trabalhar incansavelmente pela terra e pela agricultura familiar, os pequenos camponeses, por seus territórios e comunidades, pela dignidade da economia popular, pela integração urbana de suas vilas, pela autoconstrução das moradias e pelo desenvolvimento da infraestrutura do bairro, e em tantas atividades comunitárias que tendem a reafirmar algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “três T´s” terra, teto e trabalho.
 
Essa defesa do bairro, da terra, do ofício, do sindicato, essa identificação com o rosto do outro que convive conosco, essa proximidade do dia a dia, com suas misérias, que existem, porque nós as sentimos, as vivemos, e os heroísmos cotidianos, são as coisas que nos permitem exercer o mandato do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas sim a partir do encontro genuíno entre pessoas, necessitamos instaurar essa cultura do encontro porque não se ama nem os conceitos nem as ideias. Quem ama, ama as pessoas.
 
A entrega, a verdadeira entrega, surge do amor aos homens e às mulheres, às crianças e os anciãos, povos e comunidades… rostos e nomes que enchem o coração. Surge dessas sementes de esperança plantada pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, desses brotos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, ali onde crescerão árvores grandes, surgirão bosques floridos cheios de esperança, para oxigenar este mundo.
 
Vejo com alegria que vocês trabalham no âmbito local, cuidando os brotos, mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo a floresta. Trabalham com uma perspectiva que não só aborda a realidade setorial que cada um representa e a qual felizmente está arraigado, mas também buscam resolver a raiz dos problemas grandes, a pobreza, a desigualdade e a exclusão.
 
Felicito vocês por isso. É imprescindível que, junto com a reivindicação dos legítimos direitos, os povos e suas organizações sociais construa uma alternativa humana à globalização que exclui. Vocês são semeadores das mudanças. Que Deus lhes dê coragem, alegria, perseverança e paixão para seguir semeando. Tenham a certeza que cedo ou tarde vamos ver os frutos.
 
Aos dirigentes lhes peço: sejam criativos e nunca percam o sentido de pertencimento ao seu local, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adotar poses ideológicas, mas se vocês constroem sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva de seus irmãos e irmãs, dos camponeses e dos indígenas, dos trabalhadores excluídos e das famílias marginalizadas, certamente não vão se equivocar.
 
A Igreja não pode nem deve ser alheia a esse processo. Muitos sacerdotes e agentes pastorais cumprem uma missão crucial, acompanhando e promovendo as necessidades dos excluídos em todo o mundo, junto com cooperativas, impulsando empreendimentos, construindo moradias, trabalhando abnegadamente nos centros de saúde, de esporte e de educação. Estou convencido de que a colaboração respeitosa com os movimentos populares pode potenciar esses esforços, e fortalecer os processos de mudanças.
 
E tenhamos sempre presente no coração o exemplo da Virgem Maria, uma moça humilde de um pequeno povoado perdido na periferia de um grande império, uma mãe sem teto que soube transformar uma cova de animais na casa de Jesus, com umas fraldas de tecidos e uma montanha de ternura. Maria é o símbolo da esperança para os povos que sofrem dores de parto esperando que nasça a justiça. Eu rezo para a Virgem venerada pelo povo boliviano, para que permita que este nosso Encontro seja o fermento da mudança. O padre fala muito, não? (Nããããããooooo… respondem todos).
 
3. Por último, gostaria que pensássemos juntos em algumas tarefas importantes para este momento histórico, porque queremos uma mudança positiva para o bem de todos os nossos irmãos e irmãs, sabemos disso. Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho em comunhão dos governos, dos movimentos populares e de outras forças sociais, disso também sabemos. Mas não é tão fácil definir o conteúdo das mudanças, o programa social que reflita este projeto de fraternidade e justiça que esperamos, não é fácil de resumir.
 
Nesse sentido, não esperem deste papa uma receita. Nem o papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social, ou da proposta e das soluções aos problemas contemporâneos. Me atreveria a dizer que não existe tal receita. A história foi construída pelas gerações que se sucederam, em meio às necessidades dos povos marcharam e marcham buscando seu próprio caminho, e respeitando os valores que Deus pôs em seus corações.
 
Gostaria, porém, de propor três grandes tarefas, que requerem a decisiva colaboração do conjunto dos movimentos populares:
 
3.1. A primeira tarefa é a de colocar a economia a serviço dos povos: os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e iniquidade, onde o dinheiro reina em lugar de servir. Essa economia mata. Essa economia exclui. Essa economia destrói a Mãe Terra.
 
A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, e sim a adequada administração da casa comum. Isso significa cuidar com bastante zelo da casa, e distribuir adequadamente os bens entre todos. Seu objeto não é unicamente assegurar a comida ou um “decoroso sustento”. Nem sequer garantir o acesso às “três T´s”, embora isso seria já um grande passo. Uma economia verdadeiramente comunitária, eu diria mais, uma economia de inspiração cristã, deve garantir aos povos a dignidade, “prosperidade sem exceção de nenhuma irmão ou irmã” (1). Esta última frase foi dita pelo papa João XXIII, há mais de 50 anos. Jesus disse no evangelho que aquele que lhe dê espontaneamente um vaso de água quando tem sede será acolhido no reino dos céus. Isso implica nos “três T´s” mas também no acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao esporte e à recreação.
 
Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar de uma infância sem carências, desenvolver seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e aceder a uma digna aposentadoria em seus últimos anos. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição para que as capacidades e necessidades de cada um encontre lugar adequado no ser social. Vocês, e também os outros povos, resumem esse anseio de uma maneira simples e bela: “viver bem”. Que não é a mesma coisa que ver a vida passar.
 
Esta economia não é só desejável e necessária, mas também é possível. Não é uma utopia nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos conseguir isso. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeracional dos povos e os dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de “todos os homens e de todo o homem” (2).
 
O problema, contudo, é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, além de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, além de implantar métodos na indústria e na agricultura que danificam a Mãe Terra em áreas de produtividade, continua negando a bilhões de irmãos e irmãs os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Esse sistema atenta contra o projeto de Jesus. Contra a boa notícia que Jesus trouxe.
 
A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a carga dessa consigna é ainda mais forte: é um mandamento. Se trata de devolver aos pobres e aos povos o que pertence a eles.
 
O destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, especialmente quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades dos povos. E essas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas quando os pobres agitam esse copo que nunca derrama por si mesmo. Os programas assistenciais que atendem certas urgências só deveriam existir como respostas passageiras, conjunturais. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: essa que dá trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.
 
E neste caminho, os movimentos populares têm um rol essencial, não só exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vocês são poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado mundial.
 
Conheci de perto diferentes experiências, onde os trabalhadores unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária puderam criar trabalho onde antes havia sobras da economia de idolatria ao lucro, e vi que alguns estão aqui. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores e recicladores são exemplos dessa economia popular que surge da exclusão, e que, aos pouquinhos, com esforço e paciência, adota formas solidárias que a dignificam. E que distinto é isso a que os descartados pelo mercado formal sejam explorados como escravos!
 
Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia a serviço dos povos devem promover o fortalecimento, melhoramento, coordenação e expansão de estas formas de economia popular e produção comunitária.
 
Isso implica melhorar os processos de trabalho, prover infraestrutura adequada e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste setor alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem juntos a missão dos “três T´s” se ativam os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem edificar o bem comum numa democracia plena e participativa.
 
 
3.2. A segunda tarefa, seriam três, a de unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.
 
Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem transitar em paz sua marcha rumo à justiça. Não querem tutelagens nem ingerências onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que sua cultura, seu idioma, seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados.
 
Nenhum poder fático ou constituído tem direito a privar os países pobres do pleno exercício de sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e de justiça porque “a paz se funda não só no respeito dos direitos do homem, mas também nos direitos dos povos, particularmente o direito à independência” (3).
 
Os povos da América Latina pariram dolorosamente sua independência política e, desde então, já estão fazendo parte, há dois séculos, duma história dramática e cheia de contradições, tentando conquistar uma independência plena.
 
Nos últimos anos, depois de tantos desencontros, muitos países latino-americanos viram a fraternidade entre os seus povos crescer. O governos da região anunciaram esforços para fazer respeitar sua soberania, a de cada país e a do conjunto regional, que de forma tão bela, como nossos pais, os que fundaram nossas pátrias, a chamavam, a “Pátria Grande”. Peço a vocês, irmãos e irmãs, que os movimentos sociais trabalhem também para cuidar e fortalecer a unidade. Manter a unidade em meio a toda essa tendência individualista, enfrentando todas as tentativas de divisão, é algo necessário para que a região cresça em meio a um ambiente de paz e justiça.
 
Apesar desses avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra esse desenvolvimento humano equitativo, e que restringem a soberania dos países da “Pátria Grande” e de outras latitudes do planeta. O novo colonialismo adota diversas fachadas. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, agiotas, alguns tratados denominados “de livre comércio” e a imposição de medidas de “austeridade”, que sempre ajustam o cinturão dos trabalhadores e dos pobres.
 
Os bispos latino-americanos denunciaram, com total claridade, no documento de Aparecida (em 2013), quando afirmaram que “as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que se tornam cada vez mais impotentes e incapazes de levar adiante os necessários projetos de desenvolvimento e melhoria dos serviços para a população” (4). Em outras ocasiões, sob a nobre roupagem da luta contra a corrupção, ou contra o narcotráfico ou contra o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõe aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução dessas problemáticas, e que muitas vezes trazem o efeito contrário, pioram as coisas.
 
Dessa mesma forma, a concentração monopólica dos meios de comunicação social, que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural, é outra das formas que o novo colonialismo adota. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes se pretende transformar os países pobres em “peças de um mecanismo e de uma engrenagem gigantesca” (5).
 
É preciso reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade se pode resolver sem a interação entre os Estados e os povos a nível internacional. Todo ato de envergadura realizado numa parte do planeta repercute em tudo, em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até mesmo o crime e a violência foram globalizados. Por isso nenhum governo pode atuar à margem de uma responsabilidade comum.
 
Se realmente queremos mudanças positivas, temos que assumir humildemente nossa interdependência, ou seja, nossa saudável interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos ouros. O colonialismo, seja o velho ou este novo, que reduz os países pobres a meros provedores de matéria-prima e trabalho barato, engendra a violência, a miséria, as imigrações forçadas e todos os males que vêm por consequência… precisamente porque, ao fazer a periferia subsistir em função do centro, é negada a ela o direito a um desenvolvimento integral. E isso, irmãos e irmãs, isso é iniquidade, e a iniquidade gera violência, e não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter esse problema.
 
Digamos NÃO, então, às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Felizes os que trabalham pela paz.
 
E aqui eu quero destaca um tema importante. Porque alguém poderá dizer, com todo o direito, que “quando o Papa fala de colonialismo se esquece de certas ações da Igreja”. Lhes digo, com pesar: foram cometidos muitos e muito graves pecados contra os povos originários das Américas em nome de Deus. Isso foi reconhecido por meus antecessores, foi dito pelo CELAM, o Conselho Episcopal Latino-americano, e também quero enfatizar isso. Como disse João Paulo II, peço pela Igreja e cito o que ele pediu “se prostre diante de Deus e implore perdão pelos pecados passados e presentes de seus filhos” (6). E quero dizer a vocês, quero ser bem claro, como foi João Paulo II: peço, humildemente, perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja como também pelos crimes contra os povos originários, durante a chamada conquista de América.
 
E junto com esse pedido de perdão, e também ser justos, quero que recordemos os milhares de sacerdotes e bispos que se opuseram fortemente à lógica da espada com a força da cruz. Houve pecado, incontáveis pecados cometidos sob essa justificativa, mas nós não pedimos perdão, e por isso eu peço esse perdão, mas ali também onde houve muito pecado, também existiu a graça através desses homens pertencentes aos povos originários. Também lhes peço a todos, crentes e não crentes, que se lembrem dos de tantos bispos, sacerdotes e laicos que predicaram e predicam a boa notícia de Jesus com coragem e suavidade, com respeito e em paz. Não quero esquecer das monjas que anonimamente vão aos bairros pobres, levando uma mensagem de paz e dignidade, que, em sua passagem por esta vida, deixaram comovedoras obras de promoção humana e de amor, muitas vezes junto aos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares, chegando a se sujeitar até ao martírio em nome dessa obra.
 
A Igreja, seus filhos e filhas, são uma parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que, tanto aqui como em outros países, alguns poderes se empenham em ocultar, talvez porque nossa fé é revolucionária, porque nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje, vemos com espanto como no Oriente Médio e em outros lugares do mundo se persegue, se tortura e se assassina a muitos irmãos nossos por sua fé em Jesus. Isso também devemos denunciar: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que estamos vivendo, há uma espécie de – forçando um pouco a palavra – genocídio, que tem que acabar.
 
Aos irmão e às irmãs do movimento indígena latino-americano, me deixem transmitir meus mais profundo carinho e a felicidade por vê-los buscar a conjunção dos seus povos e suas culturas, isso que eu chamo poliedro, uma forma de convivência onde as partes conservam sua identidade construindo juntas a pluralidade que não atenta, mas que fortalece a unidade. Sua busca por essa interculturalidade que combina a reafirmação dos direitos dos povos originários com el respeito à integridade territorial dos Estados nos enriquece e nos fortalece a todos.
 
3. 3. E a terceira tarefa, talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
 
A casa comum de todos nós está sendo saqueada, devastada, humilhada impunemente. A covardia em sua defesa é um pecado grave. Vemos com decepção crescente como se sucedem, uma após a outra, cúpulas internacionais sem nenhum resultado importante. Existe um claro, definitivo e impostergável imperativo ético de atuar que não está sendo cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetam os Estados e organismos internacionais, e continuem destruindo a criação.
 
Os povos e seus movimentos estão convocados a clamar, a se mobilizar, a exigir – pacífica, mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. Eu lhes peço, em nome de Deus, que defendam a Mãe Terra. Sobre esse tema, me expressei devidamente na Carta Encíclica Laudato, e creio uma cópia será dada a cada um dos presentes ao finalizar o nosso evento. Tenho duas páginas e media neste discurso, mas como resumo basta (verifica se falta trechos ainda não lidos entre as folhas do discurso, e falta).
 
4. Para finalizar, queria dizer novamente: o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos, em sua capacidade de organizar e também nas suas mãos que regam com humildade e convicção este processo de mudanças. Eu os acompanho, todos e cada um. Digamos juntos, do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum ancião sem uma veneranda velhice.
 
Sigam com sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra. Rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai que os acompanhe e os abençoe, que encha a todos vocês com o seu amor e os defenda no caminho dando abundantemente essa força que nos mantêm de pé: essa força é a esperança, e uma coisa importante da esperança é que ela não decepciona, alimenta. Obrigado.
 
E, por favor, lhes peço que rezem por mim. E se algum de vocês não pode rezar, com todo o respeito, lhes peço que pensem bem e me mandem boas vibrações.
 
Tradução: Victor Farinelli
________________________
(1) João XXIII, Carta enc. Mater et Magistra (15 de maio de 1961), 3: AAS 53 (1961), 402.
(2) Paulo VI, Carta enc. Popolorum progressio, n. 14.
(3) Pontificio Conselho “Justiça e Paz”, Compendio da Doutrina Social da Igreja, 157.
(4) V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano (2007), Documento Conclusivo, Aparecida, 66
(5) João Paulo II, Exhort. ap. postsinodal Ecclesia in Africa (14 de setembro de 1995), 52: AAS 88 (1996), 32-33; Id., Cart enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 22: AAS 80 (1988), 539.
(6) João Paulo II, Bula Incarnationis mysterium, 11.

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Nota do blog: Relevem dois ou três errinhos no texto: são falhas de tradução.

Pensamentos invernais

04 de Julho de 2015 às 16:09
Homero Fonseca

Blog do Itamar Zoom

 

 

 

 

 

 

 

Da ignorância

O problema é que quem não sabe não sabe que não sabe.

 Humano, demasiado humano

Desconfio de que o deus das religiões não passa de um ser humano dotado de superpoderes.

 Prova

A vaidade é uma virtude se – e somente se – seu portador for capaz de justificar porque é vaidoso.

 Regra

Família: viveiro virulento de nevroses.

 Ressaca

Definitivamente, o álcool é um mau conselheiro.

 Causa

Era um homem sem medo. Não tinha um pingo de imaginação.

[Li algo parecido  em uma história policial B  (pulp fiction), há uns 30 anos atrás, numa estação rodoviária.]

 

O judeu polonês e o seresteiro carioca

26 de Junho de 2015 às 16:16
Homero Fonseca

Zoom
Bruno Schulz: Autorretrato

 

Acabo de ler Lojas de canela, de Bruno Schulz, um estonteante romance (alguns o classificam como contos, devido à sua fragmentação) publicado em 1934 e onde encontrei uma pérola: um trecho com uma incrível coincidência temática e até de palavras com um clássico do cancioneiro brasileiro.

Mas vamos contextualizar: Schulz (1892-1942), um judeu polonês, nascido na cidadezinha de  Drohobycz (hoje pertencente à Ucrânia, terra de Clarice Lispector), foi pintor, desenhista, escritor, ensaísta e crítico literário. Quando os alemães invadiram a Polônia, foi preso, levado para o famoso gueto de Varsóvia e morto com um tiro na nuca, no meio da rua, pelo oficial da SS Karl Günter (por pura pirraça contra seu desafeto, também nazista, Feliks Landau, o qual tinha “adotado” Schulz como um “judeu necessário”), encerrando assim precocemente uma brilhante carreira.

Até 1957, Schulz era um completo desconhecido fora de sua terra natal, onde era autor consagrado: nesse ano Lojas de canela foi traduzido para o francês e o inglês. Sua ficção resumiu-se a esse peculiar romance, mais outro (Sanatório) e contos esparsos publicados na imprensa polaca. Os críticos costumam fazer certa associação entre Schulz e Kafka (de quem nosso autor assinou a tradução de O processo, em 1936). Ressaltam, porém, a larga diferença estilística. Ambos, é verdade, tratam dos aspectos mais esconsos da alma humana, narrados numa clave onírica e absurda, em que a realidade é deformada violentamente e cede espaço para o mito. Todavia, enquanto a linguagem do tcheco é áspera e seca, o texto do polonês é de uma exuberância espantosa. Um pequeno exemplo de Lojas de canela:

                         Adentrei a noite de inverno, colorida pela iluminação do céu. Era uma dessas noites claras em que o firmamento sideral é tão extenso e ramificado que parece ter sido dissociado, partido e dividido num labirinto de outros céus, suficientes para ser repartidos entre as noites de inverno do mês inteiro e para cobrir com seus abajures prateados e pintados todos os fenômenos noturnos, todas as aventuras, escândalos e carnavais.

             Vamos agora à incrível coincidência. No mesmo romance, deparo-me com o seguinte trecho:

                         As moças pisavam desatentas nos retalhos coloridos, como se patinhassem inconscientemente no monturo de um possível carnaval, no bricabraque de uma grande mascarada não realizada.

 Isso lembra algo? Não? Vejam agora esse trecho de Chão de estrelas, a linda canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa (letra):

                         A porta do barraco era sem trinco e a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. Tu pisavas nos astros distraída...

 A imagem é a mesma. Em Schulz, eram as moças. No poema de Orestes, é uma moça: tu pisavas. As moças de Schulz pisavam desatentas. A de Orestes, pisava distraída. As do polonês, pisavam nos retalhos coloridos (linda cena de cor e luz). A do carioca, pisava nos astros ( Manuel Bandeira, em célebre crônica no Jornal do Brasil em 18 de janeiro de 1956, afirmou ser talvez “o verso mais bonito de nossa língua”). Schulz fala: no monturo de um possível carnaval. Em Chão de estrelas, Orestes enxerga um carnaval fora de época: Nossas roupas comuns dependuradas / Na corda, qual bandeiras agitadas / Pareciam um estranho festival.

  Pra completar, em outra narrativa (Sanatório), o polaco também pinta um quadro com estrela e frestas:

             O raio de uma estrela distante, enredado em meus cílios, derramava-se em prata no branco cego de meu olho, e através das frestas das pálpebras eu via o quarto à luz da vela intricada num emaranhado de linhas douradas e zigue-zagues.

             Orestes Barbosa (1893 – 1966) foi jornalista, poeta e letrista, tendo como parceiros, além do Sílvio Caldas, gente do porte de Noel Rosa, Custódio Mesquista e Francisco Alves. Chão de estrelas foi lançada em 1937, portanto, três anos após a publicação de Lojas de canela e dois depois da de Sanatório. Teria o nosso poeta sido influenciado pelo escritor eslavo? Considero impossível. Trata-se, ao que tudo indica, de um desses casos de afinidades eletivas. Como vimos, até 1957, quando foi traduzido para o francês e o inglês, Schulz era conhecido apenas na Polônia. Sua primeira tradução em português apareceu em Portugal em 1977, feita por José Saramago.

 No Brasil, as obras de Schulz somente chegariam na década de 90. Orestes sabia a língua polaca? Viajou até Varsóvia na década de 30? Até prova em contrário, polonês e javanês para ele eram as mesmas coisas. Alguém duvida?

 

A forma mais cabal de fama é o anonimato

22 de Junho de 2015 às 12:31
Homero Fonseca

Divulgação Zoom
Renata Tubarão e Cícero Gomes no balé Romeu e Julieta ? Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2011.

Como assim? -  perguntarão os sonolentos. 

Não estou me referindo ao anonimato de partida, mas ao de chegada.

Ou seja, quando o vulgo cita uma obra, uma frase, um personagem, sem ter a menor ideia de quem é o autor.

É quando ocorre na prática aquela assertiva de que, quando se publica um livro (e desconfio que isso vale para todo tipo de arte), ele deixa de pertencer ao escritor e é apropriado pelo público.

Por exemplo: muita gente, frente a um impasse, se interroga - “E agora, José?”. E desconhece por completo o nome de Carlos Drummond de Andrade.

Quantas pessoas ao redor do mundo não chamam, num arroubo de ternura e de afeto, de Romeu e Julieta a dois jovens apaixonados, sem nunca terem ouvido falar em William Shakespeare? 

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