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  • DataPernambuco, 30 de Julho de 2014
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Sarau Plural: Meu tipo inesquecível

29 de Julho de 2014 às 07:52 em por Homero Fonseca

Foto: Fernando Neves Zoom

 

 

 

 

 

 

ARTE PLURAL GALERIA

Apresenta

 Sarau Plural 44

 MEU TIPO INESQUECÍVEL

 Personagens marcantes na literatura, na música e na vida.

 Com Homero Fonseca, Marco Polo,

Geraldo Maia e Sônia Sinimbu (voz).

 CONVIDADO ESPECIAL: JOSÉ MANOEL, diretor, professor de teatro, ator e coordenador cultural do SESC-PE.

Textos: Graciliano Ramos, Mario Benedetti e Olívio Poli Junior

 Poemas: Marco Polo

 Trilha sonora: Batatinha, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fagner/Ferreira Gullar.

 Quarta-feira, 30 de julho de 2014.

19 horas

Arte Plural Galeria

Rua da Moeda, 140 – Bairro do Recife

Tel 3424.4431

 

 

 

 

 


As coloridas torcidas nos estádios da Copa do Mundo

06 de Julho de 2014 às 17:53 em por Homero Fonseca

Foto Fifa Zoom
Carnaval fora de época nas arquibancadas

 

            Um fenômeno comportamental vem se desenrolando na Copa do Mundo, num processo que começou a se tornar visível no torneio da Alemanha, em 2006, e atinge aparentemente seu clímax agora no Patropi. Falo do belo espetáculo das torcidas nos estádios, que está transformando os jogos em evento fashion..

            Em primeiro lugar, o público não é, em grande parte, o habitual em jogos de futebol. Os altos preços dos ingressos funcionam como uma barreira de classe, como em toda a Copa do Mundo em todos os lugares. A turma do “Todos com a nota” definitivamente está fora. Os pobres e a classe média baixa assistem ao maior espetáculo do mundo pela televisão. No caso do Brasil, há uma especificidade: como decorrência da nossa formação histórico-social, em que pobreza e afrodescendência caminham juntas, há um notável embranquecimento da torcida. Excetuando-se grupos bem identificados de aficionados africanos (Gana, Nigéria, Camarões e Costa do Marfim) havia/há pouquíssimos negros e mesmo mulatos nas arquibancadas.

            Além da evidente diferenciação econômica-social, há também algumas características culturais diferenciadas. Refiro-me ao pessoal que, sem ser realmente fã do futebol e nem sequer entender muito claramente suas regras, torna-se “torcedor de Copa” contagiado naturalmente pelo clima geral decorrente da competição esportiva, em que o sentimento de identidade nacional aflora mais sensivelmente. Nesse caso, isso vale, claro, para quem está fora e quem está dentro dos estádios.

            Some-se a esses fatores  digamos esportivos,  outros mais complexos gerados pelo acentuado narcisismo e exibicionismo reinantes nas sociedades contemporâneas, de que são exemplos contundentes as redes sociais (as “selfies”, as caras e bocas, as poses, os registros em lugares chiques etc. não me deixam mentir).

            O exibicionismo salta aos olhos nos estádios, na forma de fantasias extremamente produzidas, às vezes encontradas aos pares ou em grupos, numa profusão de cores, máscaras e adereços a compor um exuberante arco-íris, a lembrar um formidável cortejo onde desfilassem juntos três maracatus e duas escolas-de-samba. Nesse megaespetáculo midiático-esportivo os torcedores e torcedoras disputam espaço com os protagonistas – os jogadores em campo. Havia gente fantasiada de gladiador, palhaço, guerreiro, diabo, camponesa e até queijo-suíço, numa carnavalização flagrante. É gente bonita a sair pelo ladrão. Ganha um doce quem encontrar um feio, banguela e sujo nessas multidões ululantes.

            E intrinsecamente ligado ao exibicionismo, vem o narcisismo, exacerbado a partir da instalação de gigantescos telões, onde todos os atores podem se ver ao vivo e em cores. É patente a reação de autossatisfação quando as pessoas se percebem flagradas pelas câmeras: explodem em alegria, mesmo que suas seleções estejam perdendo e mesmo sendo eliminadas do torneio. Dá pra desconfiar que muita gente fica mais atenta à aparição de sua imagem na poderosa vitrine (pois será vista por bilhões de telespectadores em todo o mundo, inclusive seus amigos e desafetos que estão assistindo nos bares ou em suas casas)  do que ao jogo propriamente dito que se desenrola lá embaixo. Isso é um fenômeno típico das copas, mas que, a permanecerem as telonas e a focalização das câmeras na torcida, pode se transformar em novas formas de comportamento. Até os próprios jogadores vez por outra dão espiada meio disfarçada em suas figuras lá no alto. Eles sabem que o jogo está sendo gravado, poderão ad infinitum ver suas performances, mas não resistem ao apelo narcísico do espelho eletrônico.

            Faço esse registro como mero observador, sem atribuir qualquer valor ao fenômeno. E, aliás, se tivesse de valorar, diria que melhor essas torcidas coloridas e um pouco alienadas do futebol do que os “hooligans”, os “barras bravas” e, entre nós, as famigeradas “organizadas” com seu comportamento violento inaceitável.

            [Para finalizar, revelo uma pequena idiossincrasia: recuso a chamar os estádios de futebol de arenas, como quer a Fifa, porque a palavrinha pra mim está associada aos espaços onde, no império romano, escravos, cristãos e dissidentes em geral eram atirados aos leões. Além de ter sido o nome do partido político de apoio à ditadura no Brasil.]

           

 

 

Sensacional: final da Copa de 58 na íntegra

03 de Julho de 2014 às 00:36 em por Homero Fonseca

 

Na Copa de 1958 eu tinha 10 anos e ouvi vários jogos, incluindo a decisão contra a Suécia, pelo rádio, com direito àqueles estalos e chiadeiras da estática. 

Na minha memória afetiva, a Seleção de 58 sempre foi a melhor de todas: de metade do time pode-se dizer que eram os melhores do mundo à época (Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos e Djalma Santos. Também foi a única que obteve um bicampeonato consecutivo. Esta semana, ouvi na TV Carlos Alberto, o capitão de 70, dizer que aquela era mesmo a melhor. Tamos conversados.

Agora, recebo um presente excepcional do amigo Gianni Mastroianni: o vídeo com o jogo completo, um trabalho excepcional do engenheiro Carlos Augusto Marconi, 64 anos, especialista em telecinagem que montou um verdadeiro quebra-cabeças, em anos de pesquisa e trabalho. Para construir a transmissão da vitória brasileira por 5 a 2 em cima dos suecos, o engenheiro utilizou áudio-ambiente retirado de uma película inglesa, com imagens obtidas em 2006 e narradas em russo. Ele as usou como base em vídeo e cobriu as imagens com áudios de rádios brasileiras.

 Está no You Tube, neste endereço:

 https://www.youtube.com/embed/qd4TklxFOm8?rel=0

 Como as imagens em preto e branco são precárias, eis o número dos jogadores, para ajudar na identificação: Gilmar 3, Djalma Santos 4, Bellini 2, Orlando 15, Nílton Santos 12; Zito 19 e Didi 6; Garrincha 11, Vavá 20, Pelé 10 e  Zagalo 7.

 Vejam as diferenças do estilo de jogar daquela época, com menos toques, mais bolas enfiadas, jogadores mais fixos nas posições. Na minha opinião, o grande nome da partida foi Zagalo, realizando um trabalho impecável e incansável de ligação como ponta recuado, dando dois passes para os gols de Pelé e fazendo o dele próprio. O menino Pelé não teve desempenho brilhante, mas em duas jogadas geniais mandou a bola pras redes. Garrincha deu um show à parte. Vavá não era apenas um centro-avante rompedor, tipo tanque-de-guerra: deslocava-se, buscava jogo nas laterais, tabelava. Didi como sempre o maestro, mas nas duas faltas que cobrou não deu o efeito folha-seca na bola; Nilton Santos muito bom, seguro, mas levou um chapéu de um sueco: e Djalma Santos enchendo os olhos da gente na lateral-direita, marcando e apoiando com extrema classe e elegância.

 Deleitem-se, camaradas.

CRÍTICO LITERÁRIO SUSPEITO COMENTA MEU LIVRO INFANTIL "GOL DE LETRA"

29 de Junho de 2014 às 13:57 em por Homero Fonseca

 

O nome dele é João. Vai fazer 6 anos. Vive em São Paulo, com os pais Pedro e Luanda, e as irmãs, Irene e Tereza. É meu neto, por isso é suspeito. Mas é bom lembrar que criança pequena não segue muito as convenções; Portanto, vale a pena transcrever sua resenha sobre o livro. (Particularmente, imagem a emoção!)

Cliquem no link aí embaixo para ver o vídeo, que está no You Tube.

 

https://www.youtube.com/watch?v=0mPpAzc0iSE&feature=share

Um "gentleman" do rádio sai do ar

20 de Junho de 2014 às 12:15 em por Homero Fonseca

 Conheci Edvaldo de Castro na Rádio Cultura do Nordeste, de Caruaru, em 1964, onde, aos 16 anos, me iniciei no jornalismo. Ele tinha uns 10 ou 12 anos mais que eu e uma carreira conslidada. Nossa convivência não foi longa, mas o suficiente para que dele emergisse um perfil de cavalheiro num ambiente que está mais para cavaleiros destemidos.

Excelente locutor, franzino, de voz grave levemente empostada, exercitava uma fina ironia nas conversas na emissora ou em mesa de bar. Conversamos e tomamos algumas juntos. Inteligente, bem informado, já bem vivido e modesto. Nunca falou que trabalhara na BBC e na Voz da América. Nem que tinha sido professor de inglês. No meio, comentava-se aventura amorosa dele com uma famosa radialista do Recife, que, no detalhe das fofocas, teria gozado 12 vezes numa transa. Mas da boca dele nunca ouvi qualquer fanfarronice.

Soube agora que ele faleceu em Vila Velha, Espírito Santo, onde morava nos últimos anos.

 Fiz uma homenagem en passant a Edvaldo de Castro, no romance Roliúde, dando o nome de Antônio de Castro a um repórter que entrevista Bibiu, num episódio em que me baseei numa história de domínio público (o Nordestino x Hitler).

 Eis o trecho:

 A Batalha de Berlim

 Deixando de lado as lembranças e voltando pro miolo da história, quando terminou a guerra, cheguei em Caruaru afamado de herói e fui festejado na pensão de Cida. Apareceu todo mundo, meus amigos, os conhecidos, uns desconhecidos no meio e até o repórter Antônio de Castro, correspondente do Jornal de Pernambuco, que improvisou ali mesmo uma entrevista comigo:

– Bibiu, apesar de você ser um herói, o público quer saber se você alguma vez sentiu medo na guerra.

– Medo, senti um pouquinho – respondi –, mas o que incomodava mais era o zunido das balas sobre minha cabeça, dia e noite, prejudicando meu sono.

O repórter fez então a pergunta que os repórteres sempre gostam de fazer:

– Dos acontecimentos protagonizados por si no recente conflito bélico, qual foi realmente o mais marcante, o que ficará para sempre gravado em sua memória?

Tomei um gole de rum, limpei os beiços com as costas das mãos, larguei um pigarro pra dar um suspense e respondi na maior simplicidade:

– Bem, amizades, o momento mais marcante, pelo menos para minha modesta pessoa, foi quando entramos em Berlim...

– Em Berlim? – perguntaram.

– Sim, em Berlim, pois a minha divisão, depois da tomada de Monte Castelo, chegou na frente dos americanos e dos russos na invasão da capital alemã. Esse fato não foi alardeado porque os americanos chamaram para si a glória da façanha. O presidente Getúlio Vargas concordou com esse capricho dos galegos somente pra contrariar os russos comunistas, que se pabulavam de terem sido eles a conquistar Berlim. Mas isso é briga de cachorro grande, e não sou eu quem vai desmentir a história dos americanos. É melhor ficar por aqui, não quero parecer estar me gabando...

Foi aquele burburinho, todo mundo querendo que eu continuasse.

– Se vocês fazem questão que eu conte...  Bem, como eu ia dizendo, entramos em Berlim numa quarta-feira, às 4 horas da tarde, um calor de lascar o cano. Eu e meu pelotão íamos por ali, abaixadinhos, de fuzil na mão, passando por rua, beco, descampado, as casas furadas de bala, os lugares meio desertos, porque tudo que era alemão já tinha fugido. Só precisava ter cuidado, porque um ou outro podia estar escondido atrás de uma moita. Ia a meu lado o cabo Nunes, que se estivesse aqui não me deixaria mentir. Então, vi uma mansão muito rica, com um jardim muito bonito. Na frente tinha uma pitombeira bem carregada, com cada cacho maduro de dar água na boca. Eu parei pra pegar umas pitombas e a tropa seguiu em frente, me deixando pra trás. Entonces fiquei por ali, chupando pitomba, quando ouvi um barulho dentro da mansão... Resolvi ver o que era. Peguei o fuzil, beijei a medalhinha do meu trancelim, subi os 17 degraus da mansão e abri a porta com um chute. Entrei virado no Cão, pronto pra o que desse e viesse. E quem eu vejo lá, no meio da sala, olhando pra mim, desconfiado?

– Quem? – perguntou Antônio de Castro.

– O principal dos alemães!

– Hitler??!!! – admiraram-se todos.

– Ele mesmo, o xexelento!  Se não foi ele, eu choche! O safado olhou pra mim como quem estava pedindo penico, e eu não tive conversa: apontei o fuzil pra caixa dos peitos dele, dedo no gatilho. Vendo minha disposição, o cabra se ajoelhou nos meus pés, levantou os braços se rendendo e gritou, com a fala engrolada dele, se cagando de medo:

– Pelo amor de Deus, Bibiu, não me mate!

O pessoal gostou, foi aquela salva de palmas. É essa história da minha prosopopéia. O povo conta aumentando muito, enfeitando as conjuminâncias, essas coisas. O jornal do Antônio de Castro, comentando o afamado episódio, tascou na manchete, se pabulando porque de vez quando fazia um artigo criticando os nazistas: “Se Hitler tivesse ouvido nossos conselhos...”

 

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