Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 23 de Julho de 2017
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São João e ditadura

13 de Junho de 2017 às 00:32
Homero Fonseca

O ano de 1969 foi todo de ressaca política: o AI-5 implantara o golpe dentro do golpe, cassando parlamentares da oposição, reprimindo duramente o movimento estudantil, prendendo e arrebentando. As cadeias regurgitavam de gente, professores universitários escapados das grades partiram para o exílio, milhares de estudantes foram expulsos das universidades pelo famigerado Decreto 477.

Eu, aos 21 anos, atrasado nos estudos devido à militância política e problemas de saúde, fazia o cursinho gratuito mantido pelo DCE da Federal na antiga Fafipe – Faculdade de Filosofia de Pernambuco, na Boa Vista. Tinha participado das grandes passeatas estudantis de 1968, mas, depois de uma passagem intensiva no Partido Trotskista, tinha resolvido me afastar de qualquer organização política. Vivia então na mais salutar vagabundagem: fora as quatro horas do curso noturno, o resto do tempo era dormir, comer, ouvir MPB e rock, ler autores latino-americanos, ir toda tarde ao “quem-me-quer”  da Rua da Aurora ver o footing das garotas e, quando o dinheiro dava, tomar umas e outras. Fim de semana, todas as atenções da minha turma de estudantes lisos eram focadas em descobrir uma boca livre onde se comesse, bebesse e eventualmente dançasse.

Lembro de uma vez em que, depois das aulas, cheguei a uma “república” ali nas imediações do Parque 13 de Maio e o pessoal tinha descoberto um casamento em Tejipió e estava se preparando para o assalto. Eu, que nunca me distingui pela elegância, estava em estado deplorável: uma calça de sarja verde-escuro com umas riscas pretas e uma camisa de mangas curtas amarelo claro. Estava pronto para um botequim, não para um casamento. Alguém me emprestou um paletó quadriculado de azul, branco e preto, cujo dono era mais baixo e franzino do que eu, de modo que as mangas terminavam no meio dos braços. Eu parecia um espantalho, mas depois de duas ou três caninhas de esquente, tomamos um ônibus e seguimos lépidos e fagueiros. Fomos muito bem recebidos pela modesta família da noiva ou do noivo e me embriaguei com gim e caranguejo – mistura que nunca mais ousei tornar a experimentar em minha vida.

Mas o que o que queria contar mesmo foi a extraordinária noite, em plenos  festejos juninos, em que fui parar numa quadrilha de universitários, num casarão das Graças, em plena Rui Barbosa. Dessa vez eu tinha sido avisado com antecedência e fui um pouco mais composto. O que me deixou meio constrangido foi quando soube que aquela era a mansão do professor Newton Sucupira. Explico: o professor alagoano radicado no Recife desde menino era talvez o mais brilhante quadro universitário do regime militar, um nome demonizado pela estudantada de esquerda. O homem era uma sumidade e tinha sido ninguém menos que o principal responsável pela implantação da famosa reforma universitária, posta em vigor em novembro de 68. Com efeito, a reforma tinha aspectos positivos, até hoje vigentes, como a extinção das cátedras vitalícias, a aglomeração das faculdades em departamentos e a valorização da pesquisa acadêmica, mas vinha no bojo da repressão e desmobilização de professores e estudantes, enfatizando em demasia a formação para o mercado. Por isso, nosso lema era: Hay reforma? Soy contra! Esse era o motivo do meu constrangimento e certamente de outros, mas logo insinuou-se o prazer de se divertir em plena toca do leão.

O professor Sucupira, católico e conservador, estava em pessoa supervisionando a festa, a partir de um ponto estratégico: uma cadeira de balanço num canto da comprida varanda, na penumbra. A festa se desenrolava um pouco afastada, mais embaixo, nos magníficos jardins da casa. À medida que a cachaça circulava e o forró imperava, acentuava-se a sensação solerte da transgressão. Lá pras tantas, começou a quadrilha, com o pessoal devidamente caracterizado. O marcador era um sujeito magro, alto, gaiato, vestido de padre, um desses exímios animadores de festas. Foi ele quem protagonizou a cena inesquecível daquela noite junina, puxando um diálogo com a plateia, entre um anarriê e um alavantu:

– Viva Santo Antônio!!

– Viva!!!

– Viva São João!!

– Viva!!!!!

– Viva São José!!!

– Viva!!!!!!!!!!!

– Abaixo a ditadura!!!!

– Abaixo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Não lembro se, na saída, o insigne professor ainda estava lá em cima, em seu posto de observação solitário. Mas ficou gravado em minha memória combalida o gostinho da presepada: uma vitória simbólica na guerra das forças progressistas brancaleônicas contra o Dragão da Maldade da direita tupiniquim.

 

O Diabo na Avenida Norte

12 de Junho de 2017 às 12:05
Homero Fonseca

 

 Entro no café, vou direto ao balcão, peço um capuccino.

O cidadão já estava lá, sorvendo lentamente seu expresso. Me olha com olhos vivos e simpáticos e dispara sem bons dias nem preâmbulos:

– Hoje eu vi o Diabo na Avenida Norte!

Espera para ver o efeito de sua frase bombástica.

Viro-me para ele, interessado. Ele explica:

– Eu seguia no meu Opala Diplomata bem conservado, meio distraído, tentando me lembrar do que precisava comprar para terminar a reforma do meu apartamento em Jardim São Paulo, quando avistei a figura...

– A figura? De chifres, rabo e tudo o mais?

Ele sorveu o café com prazer, apertando os olhos miúdos, e me explicou condescendente:

– Não, meu amigo. A figura que vi não era nenhum capeta desses que a gente via no catecismo quando era menino. Não, senhor. Nada disso.

Olhou ao redor. Havia umas poucas mesas ocupadas àquela hora. No balcão só havíamos eu e ele, o Homem que Viu o Diabo. A balconista trouxe meu capuccino, foi a minha vez de sorvê-lo prazerosamente. O cidadão pegou o fio da meada de volta:

– Foi mais ou menos à altura da esquina da Rua da Harmonia, em Casa Amarela.

– É lá que eu moro.

– Ah, então conhece... Pois bem, na esquina do outro lado estava parada uma mulher, esperando para atravessar. E que mulher!

Nesse momento, seus olhos cintilaram com um brilho antigo. Continuou, eu cada vez mais atento:

– E que mulher! Morena, alta, tinha mais curvas que a estrada de Santos da música de Roberto Carlos. Um vestido vermelho, bem justo, curto... um par de coxas! Um decote desses que deixam os dois ombros de fora... cabelos pretos, meio compridos, cacheados... Um batonzão vermelho na boca...

Descrevia a mulher de olhos fechados, como quem revia na memória a cena agradabilíssima.

– De repente... BRRRUM. Me enfiei na traseira de um caminhão-tanque que seguia em frente e parou no sinal. Felizmente eu tava com o cinto de segurança e ia em baixa velocidade. Senão, esse seu amigo não estaria aqui pra contar a história. Mas a batida acabou com a dianteira do meu carrão. Ela encolheu como um fole quando o sanfoneiro juntas as duas mãos, assim... Um prejuízo enorme.

Comecei a rir e o simpático velhote me acompanhou, divertindo-se com a própria desgraça.

– Mas como é que o senhor tem essa certeza de que a mulher bonita era o Diabo?

– O Diabo em figura de gente. Por que, com o estrondo do choque, o trânsito parou e todo mundo ficou olhando a barroada. Pelo retrovisor, vi a morena. Ela estava sorrindo! Um sorriso malvado, safado, como quem diz: “Bem feito!” Eu, um velho, casado, olhando uma gostosa na esquina...

Deu uma gargalhada, agora foi minha vez de acompanhá-lo.

– Pra finalizar, deixa eu lhe contar. Tudo isso aconteceu em poucos segundos. O radiador do carro ainda estava fumaçando, abri ligeiro a porta, desci e olhei em volta procurando a morena... Nada! Ela tinha sumido de repente. Era o Diabo!

Pagou a conta e saiu lampeiro. Fiquei rindo em silêncio, curtindo a história. Quando lembrei do meu café, ele já tinha esfriado na xícara.

 

Uma cena patética

05 de Junho de 2017 às 19:21
Homero Fonseca

Foto captada da tevê Zoom
Sem comentários

 

Uma das cenas mais patéticas já vistas na tevê foi a do lutador Zé Aldo em decúbito ventral, as duas mãos tentando proteger a cabeça, sendo malhado quase pachorrentamente pelo havaiano Max Holloway, na  Arena da Barra, no Rio, até o juiz decretar nocaute técnico aos 4m13s da luta, na madrugada do sábado para domingo passado.

Até então eu mal sabia quem era Zé Aldo e nunca ouvira falar no lutador americano, pois não me apetece esse tal de MMA (espécie de luta livre em que se permitem golpes de mãos, pés, pernas, cotovelos, joelhos, calcanhares, além de agarração e técnicas de imobilização. Os aficionados fazem questão de dizer haver proibições, como morder, puxar o cabelo, beliscar, enfiar o dedo em qualquer orifício do adversário e chutar ou atingir com o joelho a cabeça do adversário que está no chão, mas essa modalidade esportiva não passa de uma versão atual do antigo vale-tudo, sem o mínimo apelo ético ou estético.

Sabemos que a maioria dos esportes é a ritualização e sublimação de alguma forma de violência. O futebol, o esporte-rei, simboliza a guerra, com suas bandeiras, suas cores, seus slogans, sua linguagem militar: ataque, defesa, tiro de meta etc. As lutas individuais são o que são: brigas estilizadas. No MMA (sigla em inglês para artes marciais mistas), entretanto, essa estilização é quase inexistente, ao contrário do boxe – um esporte em que a agressividade humana, ritualizada e sublimada, alcança o status de nobreza. Sei que há quem não enxergue diferenças, mas o que fazer?

            As regras do boxe são estritas: luta-se tão somente com os punhos, não se pode bater abaixo da linha de cintura e toda a luta se desenrola com os contendores de pé. É um espetáculo agressivo, mas em princípio entre indivíduos treinados, aptos a assimilar os golpes, e permite o surgimento de estilos como o de Sugar Ray Leonard, de grande leveza, ou de alta plasticidade, como o balé de Muhamed Ali. Nomes como os de Jack Dempsey e Éder Jofre habitam meu imaginário desde a infância.

            Como fã de boxe, alinho-me a alguns nomes como Julio Cortázar, Norman Mailer e Ho Chi Minh (ele mesmo, o líder vietnamita que infligiu aos Estados Unidos sua única derrota militar na História), que, na juventude, pelos anos 20, foi comentarista do esporte na imprensa francesa). Nos bastidores do boxe existem máfias e roubalheiras, como em toda atividade envolvendo muito dinheiro – vide Fifa, CBF e campanhas políticas. Mas nos ringues já se travaram também grandes batalhas simbólicas, como a vitória de Joe Louis em 1938 sobre o alemão Max Schmeling, abalando as convicções nazistas, ou toda a trajetória de rebeldia e militância de Muhamed Ali contra o racismo e a opressão nos EUA.

            Julio Cortázar, numa entrevista em 1983, declarou sua paixão pelo pugilato e fez uma correlação interessante com a Literatura: “Esteticamente é muito bonito ver enfrentarem-se dois grandes boxeadores. Contemplar sobre um ringue, ver mover-se Sugar Ray Robinson, por exemplo, é uma maravilha. Por isso, nunca gostei dos boxeadores sem talento. Uma boa luta de boxe pode ser tão bonita como a metáfora mais nobre”.

A memória dissolvida

21 de Maio de 2017 às 22:27
Homero Fonseca

 

As artes narrativas tratam primordialmente da memória. Contar histórias é acessar um inconsciente coletivo formado por códigos emocionais partilhados histórica e socialmente: de que outra maneira nos emocionaríamos com um personagem inexistente? Quem conta a história o faz também acessando suas próprias memórias, emprestando-as aos personagens como se deles fossem, para trazer-lhes à vida e uni-los ao caldo coletivo do que é humano.

Sendo assim, o que sobra de alguém, artista ou não, quando a memória falha? É possível existir sem lembrança?

Não são questões novas, mas a ampliação da longevidade humana talvez as tenham tornado uma preocupação cada vez mais ampla. Se nos anos 1940 a expectativa de vida dos brasileiros era de 45,5 anos, em 2015 já era de 75,5 anos. Com a idade, a prevalência de doenças da velhice também aumenta – dentre  elas o Mal de Alzheimer, que ataca justamente a memória. É inevitável que a arte pense a respeito.

À espera do Tio Alois, novela de Homero Fonseca, se insere nesse contexto. Livro artesanal publicado pela Mariposa Cartonera, o texto surge das inquietações do próprio autor a partir de episódios pessoais de esquecimento, ainda isolados. O medo de que sejam sinais de Alzheimer o fizeram transformar a inquietação em narrativa. A novela é um diário que o personagem Hermano Fontes anota as falhas de memória do cotidiano, na intenção de poder avaliar, semana após semana, o quão grave é a doença.

Em nota de abertura, Homero Fonseca alega ter recebido o diário das mãos da viúva de Hermano Fontes, logo após a morte deste. Teria então decidido publicá-lo por inteiro, com algumas notas explicativas que julgou conveniente incluir. O recurso é pouco original, mas serve aqui para gerar algum distanciamento entre texto e autor – li em uma entrevista ao Jornal do Commercio que Homero não queria ter sua obra tomada como autoficção (leia na íntegra aqui), ainda que o texto tenha sido inspirado em fatos pessoais.

Hoje sabe-se muito mais sobre o Alzheimer do que há um par de décadas, o que faz com que a chegada da doença seja claramente percebida pelos seus portadores. Como lidar com esse momento passou a ser um dos grandes dilemas do envelhecimento contemporâneo, um que muitas vezes vem atrelado à possibilidade do suicídio. Essa possibilidade dá o tom do livro: o personagem Hermano Fontes não quer morrer, mas também não quer permanecer morto em vida. Então, imagina de que forma pode preparar a própria morte, e teme que a doença o atrapalhe:

As complicações são facilmente imagináveis:
– Onde está o arquivo das anotações?
– O que é mesmo que eu preciso anotar?
– O que danado este revólver está fazendo na gaveta?
– Quem sou eu?

A coisa toda tem seu humor negro, mas é séria. O suicídio, monseigneur Camus, não é o grande problema filosófico. Esse é a morte. O suicídio é uma questão de cronômetro. 

O diário segue entre desesperançoso e autoirônico. Aos poucos, as anotações objetivas sobre os pequenos esquecimentos diários são substituídas por pensamentos mais profundos sobre a vida e a sociedade, tendo a memória sempre como eixo. Em um dos melhores trechos, o personagem pensa em como a humanidade se divide entre as atitudes “do caçador de luzes” e “do disseminador de trevas”. Chega à conclusão de que ambos os grupos estão em permanente tensão, mas se complementam em uma relação dialética e vital. Nas entrelinhas, o personagem ressente-se de sair desse campo de jogo – sem memória, não enxergará luzes nem trevas.

A novela faz referência a pessoas reais que sofreram ou sofrem de Alzheimer, como o empresário Antônio Ermírio de Moraes e o ex-vice-presidente Marco Maciel, assim como a outras obras de ficção. Uma delas, recente, é o filme Para sempre, Alice, com Julianne Moore no papel de uma professora de linguística que sofre da doença. A despeito de todo o planejamento que o doente possa fazer, o esquecimento acaba se instalando de maneira repentina, como em todos esses casos, e também no do livro, que se soma a uma recente (e crescente) produção artística sobre o evanescimento da memória – uma das condições mais dramáticas e humanamente complexas da contemporaneidade.

PS: Tio Alois é uma referência ao cientista alemão que descobriu a doença, Alois Alzheimer.

Gostou? O livro está a venda no site da Mariposa Cartonera:http://www.mariposacartonera.com/site/

https://lombadaquadrada.com/2017/04/26/a-memoria-dissolvida/

 

Lula x Moro: o grande embate político

13 de Maio de 2017 às 19:38
Homero Fonseca

Foto: colagem do Blog do Patrocínio, Portal Belterra, s/créd Zoom
Audiência foi na realidade um debate que influirá no futuro de nossa democracia

Desta vez, as revistas semanais de “informação” acertaram. Meio sem querer, por um ato falho. As capas das revistas Veja (“O primeiro encontro cara a cara”) e Istoé (“Ajuste de contas”), da semana que antecedeu o depoimento de Lula perante Moro no palco da Lava-jato, anunciavam o “confronto” entre o juiz e o réu. Era um erro grosseiro do ponto de vista processual – uma vez que juiz não se opõe a réu – e um apelo sensacionalista, mas foi certeiro do ponto de vista político.

Assim como os célebres “processos de Moscou” da era stalinista, ou a audiência de Fidel Castro nos tribunais da ditadura de Fulgêncio Batista (e seu famoso discurso “A História me absolverá”), esse julgamento da Lava-jato, da forma como vem sendo conduzido por Moro, é um evento eminentemente político. E o encontro de 10 de maio foi um formidável embate em que, como é comum nessas ocasiões, um dos atores assumia explicitamente o caráter político do fato e outro o negava, por conveniência própria (afinal, do ponto de vista da formalidade jurídica, um juiz não poderia admitir isso).

Para compreender as motivações, as ideias e o comportamento do juiz de Curitiba é fundamental remeter ao seu famoso artigo sobre a Operação Mais Limpas, na Itália, em que ele escancara seu ideário jurídico-ideológico. Está tudo lá, meus camaradinhas, não vê quem não quer. No artigo, Moro defende “o largo uso da imprensa”, inclusive os vazamentos (“A investigação vazava como uma peneira”), anotando que “o constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”.

            No texto, Moro defende o estado de exceção, relativizando o conceito fundamental da presunção de inocência e enaltecendo o novo tipo de juiz surgido na Itália, os chamados pretori d’assalto (juízes de ataque, i.e., juízes que tomam uma postura ativa, confundindo-se com o promotor). Por fim, salienta ter a magistratura ganho ‘uma espécie de legitimidade direta da opinião pública”. Aí estão a perfeita concepção messiânica de Justiça e a justificativa do estado de exceção para atingir fins nobres, numa versão sofisticada e racionalizada da velha máxima “os fins justificam os meios”. Este é um resumo muito drástico, mas suficiente para revelar as ideias básicas do líder da República de Curitiba[1].

Quando caiu no seu colo a investigação da Operação Lava-jato, Moro julgou-se o homem certo, no lugar certo, na hora certa. E atribuiu-se a missão de acabar com a corrupção no Brasil. O único problema, como demonstra o encaminhamento dado ao processo, é que ele, de uma forma meio autista, colocou todo o foco no PT e em Lula: qualquer indício nessa direção é suficiente para formar a convicção de culpa, independentemente de provas, valendo o contrário para os restantes partidos e atores políticos, todos tão ou mais envolvidos historicamente com práticas ilícitas nas campanhas eleitorais e no exercício dos mandatos quanto a gente das camisas vermelhas (não resisto a uma imagem um pouco cômica: Moro é como um miúra, aqueles touros das arenas da Espanha que, dizem, somente enxergam o pano vermelho).

            Alguém tem dúvida de que se Moro, mais que indícios e convicções, tivesse uma única prova concreta teria esmagado Lula no confronto da quarta-feira? Sua postura não foi a de um magistrado, mas de um visitador inquisitorial (inclusive praticando a tortura psicológica de quatro horas e meia de interrogatório repetindo as mesmas perguntas, o que fez a defesa, por seu turno, repetir os mesmos argumentos, numa guerra de trincheiras em que ninguém conseguia avançar um palmo). Na maior parte do tempo, a inquisição, digo inquirição, foi um espetáculo cansativo para quem assistiu depois aos vídeos. Em sua sanha acusatória, o juiz-promotor pagou o mico de apresentar um documento sem assinatura para incriminar sua vítima – somente acreditei nos meus olhos depois de assistir várias repetições, por canais diferentes!

Na histórica audiência de 10 de maio, Moro negou na maior cara de pau  os postulados defendidos por ele próprio no artigo sobre a Operação Mãos Limpas e postos em prática nesses três anos de Lava-jato: em posição defensiva, disse que ia se ater apenas às provas (que provas?), que a imprensa não tinha nada a ver com o caso (humm), que nunca houve vazamento (?!) e acrescentou algo desnecessário: que não tinha “desavença pessoal” com o réu. E, enfaticamente, negou de mãos juntas ser esse um processo político. Ora, ora. Um juiz que ocupa as redes sociais na internet para “agradecer o apoio da maioria da população, senão sua totalidade” – o que está fazendo senão política pura e simples?[2] Ou isso está previsto em alguma lei, algum parágrafo, algum inciso, alguma alínea de algum código de processo penal, civil, constitucional ou o escambau (para rimar)?

Sérgio Moro é um jogador inteligente, frio e extremamente ousado.  Com o apoio de vasta parcela da opinião pública intoxicada pelo noticiário, o patrocínio da grande mídia e o poder de justiça nas mãos, tem avançado celeremente em seus objetivos, atropelando regras e ritos. Ninguém se atrevia a contestá-lo. Ao enfrentar Lula, Moro se deparou, pela primeira vez, com seus limites. E teve de rever seu delírio populista de contar com o apoio da “totalidade da população”. Além de se manter na defensiva, justificando o tempo todo sua “neutralidade” (que juiz é esse?), temeu que a situação saísse de controle e, mais vez, foi às redes sociais e à imprensa pedir aos seus “partidários” evitassem confronto com os simpatizantes do petista, recuando do apelo ao apoio solicitado algumas semanas antes.

Lula não falou para os autos, falou para o público (que assistiria depois os vídeos) e para a História. “J’Acuse” – parecia dizer ele, denunciando o caráter político do processo, a fragilidade das acusações, a participação fundamental da grande imprensa na construção de sua culpabilidade, os métodos insólitos da Polícia Federal, do Ministério Público e do próprio juiz-acusador. Pediu Justiça e respeito.

Como em todo grande debate político, houve momentos em que um lado saiu-se melhor do que o outro: as torcidas comemoram detalhes de uma vitória percebida emocionalmente. A grande imprensa, repetindo seu papel de agente político comprometido com a destruição de uma liderança popular, vem dando tratos à bola na tentativa atabalhoada de desconstruir o discurso de Lula, apegando-se a contradições irrelevantes e falhas verbais comuns num debate. Faz o seu jogo de desinformação que tem levado leitores e telespectadores a formar um juízo sobre os fatos, com base em mentiras ou meias-verdades. Por exemplo, no caso do triplex de Guarujá (objeto específico da denúncia e da audiência), tem escondido o fato de que foi dona Marisa Letícia sim quem se pôs à frente das negociações, adquirindo, em 2005, cotas-partes da Bancoop - Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, dona e responsável pela construção do prédio. Quando a cooperativa dos bancários não conseguiu tocar o projeto e passou-o à construtora OAS, dona Marisa prosseguiu as negociações e por fim desistiu, após a visita do marido ao local. Isto está nos autos, documentado pela defesa. Que a OAS tenha se disposto a fazer um mimo ao ex-presidente, providenciando reformas e tudo o mais, está na raia das possibilidades. Mas a transação jamais foi feita. Lula nunca foi proprietário nem usufruiu com a família do imóvel, não assinou documentos, não fez escritura e a OAS relacionou o prédio e o apartamento na esfera judicial, mais de uma vez, como propriedade sua. Mas isso não é dito, nem mostrado. Mas a acusação é justamente de ocultação de patrimônio, dirão os ventríloquos da imprensa. Apresentem então as contraprovas, ora. E como dona Marisa (ou Lula) iria adivinhar que o apartamento pretendido e desistido fosse passar das mãos da cooperativa dos bancários para a empreiteira e daí servir de propina ao ex-presidente? Mas, nessa hora de profunda fratura política e ideológica, poucos estão interessados em fatos e4 argumentos. Querem reforçar suas convicções e fazê-las prevalecer, na lei ou na marra.

Aos muito apegados à letra da lei, a insistir por aí no caráter estritamente jurídico do encontro: aquilo não foi audiência, foi um debate, sim. Sobretudo nos 20 minutos finais, quando foi dada a palavra ao réu para suas considerações finais, interrompidas a todo instante pelo adversário, digo, juiz, rebatendo as alegações mais contundentes. Era o momento da autodefesa – totalmente cerceado pelo “imparcial” Moro, cuja máscara caiu na frente de milhões de espectadores.

Anotem: Lula será condenado (Moro não pode mais recuar diante da pressão da mídia e dos seus partidários). O jogo é político. O “timing” da condenação dependerá da intricada tramitação judicial brasileira. O objetivo é tirá-lo da disputa presidencial de 2018 e dar uma satisfação à pequena burguesia açulada em sua sede de sangue vermelho. E o povão assistindo a tudo, ruminando, tirando suas conclusões. De sua reação e da capacidade das reais lideranças populares se posicionarem nesse momento decisivo dependerá o futuro da nossa combalida democracia. Quem viver verá.

NOTAS

[1] Aos realmente interessados em conhecer os fundamentos das posições de Moro, recomendo fortemente a leitura na íntegra do artigo: “Considerações sobre a operação mani pulite”, in Revista CEJ (Centro de Estudos Judiciários) do Conselho da Justiça Federal, n. 26, jul/set 2004.

[2] Publicado em 19 de março de 2017 na página 'Eu Moro com Ele', mantida em uma rede social pela esposa do juiz , Rosângela Wolff  Moro: https://www.facebook.com/rosangelawolffmoro/  

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