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Petrobras: crime de lesa-pátria

09 de Abril de 2014 às 10:01 em por Homero Fonseca

Agência Petrobras Zoom

 

O jornal de circulação restrita “Relatório reservado” publica a seguinte matéria, que vale a pena ler:

 Relatório Reservado

Rio de Janeiro, 8 de abril de 2014 – nº 4.847 EDITADO POR INSIGHT ENGENHARIA DE COMUNICAÇÃO

Editores: Claudio Fernandez . Alexandre Falcão

  É estarrecedora a solidão da Petrobrás neste triste momento da história da República. A desavergonhada politização de um suposto ato individual de banditismo está enlameando o nome da corporação. É como se na história da Petrobras não tivessem ocorrido outros episódios de malversação, em diversos governos anteriores. E pouco importa o fato de que a estatal faz centenas de milhares de ordens de compra por dia, todas devidamente submetidas ao crivo do TCU – é claro que no meio do milharal sempre há algum corvo.

 Da mesma forma, os detratores da companhia convenientemente ignoram o passado da empresa, marcado por algumas gestões extremamente controversas, como nos tempos de Shigeaki Ueki, Luis Octavio da Motta Veiga – um mártir contra as vigarices de PC Farias– e Joel Rennó. O jornalista Paulo Francis não morreu por acaso. Mas, a nova “UDN de casaca” não quer só a cabeça da atual administração da Petrobrás, mas do governo que a indicou. A estatal é uma corporação ciclópica e paga o preço da sua escala e inevitável imbricação com o Poder Executivo, o que não significa um salvo conduto para a rapina. Mas, nos episódios anteriores, buscou-se a punição dos malfeitores, e não a crucificação da empresa. O que se vê hoje é a tentativa de criar um “Petrolão”, uma espécie de “ação penal 471” – ao menos por ora, sem Joaquim Barbosa. Os interessados e seus ferramenteiros são óbvios, os mesmos de sempre. O objetivo não é outro senão tentar transformar a parte no todo, usando a estatal como um elemento maculador do PT.

 A opinião pública está sendo coagida a acreditar que a companhia é o mal do crime de alguns. Não há pudor em utilizar de todo o tipo de instrumento de manipulação: em um dia os veículos de  comunicação bombardeiam com o relato das maiores vilanias, mexendo  assim na percepção; no dia seguinte, os institutos de pesquisa saem a campo para medir a imagem da empresa. Na primeira hora, inocula-se o veneno; no dia seguinte, faz-se  a necropsia, apenas para sancionar a causa mortis desejada.

 O linchamento da Petrobrás pode ser medido em centímetros. No último fim de semana, as matérias contra a empresa publicadas pelos quatro principais jornais do país (Folha, Estadão, O Globo e Valor Econômico) e pelas revistas de maior circulação (Veja, Época, Isto É e Exame) somaram aproximadamente 38 mil cm2. Tomando-se como base o valor de inserção publicitária nos respectivos veículos, pode-se dizer que a oposição economizou cerca de R$ 31 milhões. Somente no "Mensalão" verificou-se uma cobertura jornalística dessa dimensão e igualmente editorializada.

 A Petrobrás é a mais importante e simbólica empresa brasileira. É inaceitável que seja apedrejada sozinha na rua escura dos interesses políticos. Trata-se de mais uma emporcalhada manobra eleitoral na história da política brasileira. Que se manifestem de forma veemente, pelo menos, a Aepet, o Sindicato dos Petroleiros e os próprios funcionários da estatal. Que se apliquem as penas da Lei ao indiciado Paulo Roberto Costa. Mas não sujem a Petrobrás com suas segundas intenções.

 

Sarau Plural, Shakespeare e futebol

03 de Abril de 2014 às 13:24 em por Homero Fonseca

 

O último Sarau Plural, tendo como tema “Tempo de copa” e com a participação especial do jornalista, professor e escritor Álvaro Filho, foi um golaço. O cara tem ideias próprias a respeito do assunto e empolgou, inclusive, a mulherada, que nessa noite era maioria.

 Aproveitei para lamentar o fato de intelectuais e escritores, em particular, ostentarem um soberbo desprezo pelo “esporte nacional”, pouco usando-o como matéria prima para suas reflexões e/ou obras ficcionais.

 Ultimamente o quadro tem melhorado, inclusive com o (re)lançamento de várias obras sobre o tema, por conta da oportunidade mercadológica da realização da copa entre nós. Mas a presença do futebol na literatura brasileira ainda é infinitamente desproporcional à importância do esporte no nosso cotidiano. Desconfio de elitismo nessa postura.

 E para tirar um sarro, li um trecho da peça A comédia dos erros, de Shakespeare, datada de 1594, em que ele faz alusão ao futebol (obviamente o jogo ainda não tinha a conformação de hoje, mas já era futebol!).

 Aqui vai o trecho:

 A COMÉDIA DOS ERROS (1594) – William Shakespeare

 PERSONAGENS: ANTÍFOLO DE ÉFESO, DRÔMIO, seu criado, ADRIANA, sua esposa e LUCIANA, cunhada.

 LUCIANA – Ah! Eis o criado; o patrão deve andar perto.

 Entra Drômio de Éfeso.

 ADRIANA - Dizei se o vosso retardado mestre ao alcance da mão por fim se encontra.

 DRÔMIO DE ÉFESO - Fui eu que fiquei ao alcance das mãos dele, como dão testemunho as minhas orelhas.

 ADRIANA - Não lhe falaste? Não te disse, acaso, qual a sua intenção?

 DRÔMIO DE ÉFESO - Disse-me tudo quanto quis, mas foi muito ao pé do ouvido. Maldita mão! Não pude entender nada.

 ADRIANA - Mas dize: ele não vem logo para casa? Não quer deixar a esposa satisfeita?

 DRÔMIO DE ÉFESO - Doido cornudo é o que ele me parece.

 ADRIANA - Doido cornudo, biltre?

 - DRÔMIO DE ÉFESO Cornudo por ser doido, simplesmente. Mas que está doido, é certo. Eram já horas, lhe disse, de jantar. Sua resposta foi reclamar de mim mil marcos de ouro. - Jantar! gritei. Meu ouro! respondeu-me. - A carne está a queimar! disse. - Meu Ouro! respondeu. - Demorais ainda na rua? lhe perguntei. - Meu ouro! Onde estão os mil marcos, sem-vergonha, que eu te dei? - A leitoa está no ponto de esturricar! lhe disse. - Meu dinheiro! me respondeu. - Minha senhora... disse-lhe. - Que se enforque! disse ele; não conheço senhora alguma! O diabo que a carregue!

 LUCIANA - Quem falou isso?

 DRÔMIO DE ÉFESO - Meu patrão, senhora. - Não tenho casa, esposa, nem patroa, berrou-me ele cem vezes. Desse modo minha mensagem, que cabia à língua dizer no tempo certo, graças a ele torno a trazer nos ombros para casa, pois neles recebi tunda de mestre.

 ADRIANA - Volta, maroto, e traze-o para casa.

 DRÔMIO DE ÉFESO - Voltar para apanhar mais uma surra? Por Deus, mandai um outro mensageiro.

ADRIANA - Volta, malandro! Do contrário a fronte te cruzo de pancada.

 DRÔMIO DE ÉFESO - Ele há de novas cruzes fazer por cima das primeiras. Desta arte me deixais santificado.

 ADRIANA - Basta de falatório, grosseirão! Vai buscar teu senhor.

 DRÔMIO DE ÉFESO - Serei, acaso, redondo assim, para me dardes ambos pancada sem parar, como se eu fosse bola de futebol? Sem mais nem menos, me aplicais pontapés. A durar isso, tereis de me mandar forrar de couro.

 Desconfiei que a citação textual a bola de futebol fosse uma espécie de licença poética da tradução. Conferi no original e está lá:

 Am I so round with you as you with me, that like a football you do spurn me thus? You spurn me hence, and he will spurn me hither: If I last in this service, you must case me in leather.

Sarau Plural: Tempo de Copa - Quarta-feira, 26/03/14, 19 horas

24 de Março de 2014 às 17:27 em por Homero Fonseca

 

A mãe que era o pai

11 de Março de 2014 às 23:34 em por Homero Fonseca

 

Numa cidade louca, num tempo não muito distante, um exibicionista de palavrórios era editor de um relativamente importante caderno cultural.

 Certo dia, um jovem talentoso procurou-o timidamente para mostrar-lhe um conto recém escrito, naturalmente ansiando ardentemente em vê-lo publicado.

 O conto se intitulava “O pai” e narrava, com tintas carregadas, as memórias de um filho das tempestuosas relações mantidas com o pai ao longo da vida. O texto do moço, de inegável inspiração freudiana, tinha notória qualidade literária.

 Era um florido mês de maio.

Com os cotovelos apoiados sobre seu largo birô, atulhado de livros, manuscritos e retratos da mulher e dos filhos, o editor leu concentrado a pequena obra-prima, enquanto cofiava o bigodinho de galã de melodrama dos anos 40.

 Ao término da leitura, sentenciou, solene:

 – Seu texto é bom, meu rapaz.

 O jovem candidato a escritor ouviu o doce pássaro da esperança trinar na atmosfera repentinamente cálida da redação.

 – Mas... – continuou o editor, fazendo calar o pássaro e gelar a alma do interlocutor – temos um problema.

 Fez uma pausa e cravou os olhos no pobre rapaz, procurando sondar o efeito do que acabara de falar. Percebeu claramente a mudança de sentimentos que suas palavras provocaram e não pôde conter um leve esgar de satisfação. O outro, que corara ao ouvir a crítica inicial favorável, agora parecia não ter um pingo de sangue no rosto imberbe.

 Ele então explicou:

 – O problema é que a próxima edição do caderno será especial, inteiramente dedicada às mães. Afinal, estamos no mês de maio.

 Vendo praticamente sumir a oportunidade de ver seu trabalho publicado, o jovem escritor se mantinha mudo e, envergonhado, sentiu os olhos marejarem.

 Paternal, o circunspecto editor compungiu-se. Afinal, ele próprio fora um dia um iniciante e sofrera atrozmente quando teve uma crônica recusada por um editor impiedoso.

 Resolveu dar uma chance ao rapaz. Ruminou um pouco as ideias e teve o estalo:

 – Meu rapaz, eu publico seu conto, desde que você faça uma pequena alteração.

 Ouvindo, agora um pouco mais abafados, os trinados do teimoso pássaro das boas expectativas, o aspirante a literato apenas balbuciou:

 – Sim?

 – É o seguinte: você troca o título de “O pai” para “A mãe” e faz as demais substituições no texto. Assim, seu conto se encaixa na edição especial sobre as nossas genitoras.

 It's All True.

Pabulagens pernambucanas

08 de Março de 2014 às 14:35 em por Homero Fonseca

 

A 4ª edição do Minidicionário de pernambuquês  (Recife, Edições Bagaço, 2012), de Bertrando Bernardino, teve um breve prefácio do escriba que vos tecla.

Reproduzo aqui:

 Coisa de causar espanto é o Brasil, desse tamanhão, ter-se mantido um país só, ao contrário das antigas colônias espanholas das Américas.

Ainda mais espantoso é ter mantido uma única língua, apesar de suas famosas dimensões continentais e das várias culturas florescidas em seu território.

Sabemos que a História explica muita coisa. Parece que a unidade territorial não foi fruto de geração espontânea. Dos tempos da colônia, passando pelo império e seguindo pela república, inúmeras ações, ora de extrema violência, ora conciliatórias, foram adotadas para evitar o fracionamento do país. Basta lembrar movimentos como as revoluções pernambucanas de 1817, Confederação do Equador (1824) e Praieira (1848), a Sabinada na Bahia (1837) e a Farroupilha, no Rio Grande do Sul (1835), reprimidas com violência em maior ou menor grau.

Quanto à questão lingüística, comecemos por um senão.

Ao aportarem aqui, os portugueses encontraram uma população autóctone de umas cinco milhões de pessoas (as estimativas variam de um milhão a 10 milhões), que falavam 1.273 línguas. Essas línguas estavam divididas em dois grandes troncos – o tupi e o macro-jê, subdivididos em inúmeras famílias lingüísticas e milhares de línguas propriamente ditas.

Cerca de mil dessas línguas desapareceram por diversas causas, entre as quais as epidemias trazidas pelos europeus, o extermínio de tribos, a falta de condições para sobrevivência, aculturação forçada e também pela convivência com a língua portuguesa ao longo dos séculos.

Mas deixaram na língua da colonização milhares de vocábulos, expressões e modos de falar. Alguns exemplos: biboca, capim, canoa, cutucar, mandioca, pereba, pipoca.

Também os milhões de africanos trazidos à força para cá marcaram o português falado no Brasil com numerosas palavras e jeito de pronunciar outras. Ex.: banguelo,  batuque, cachaça, dengo, molambo, moleque.

No final das contas, o tupi antigo tornou-se uma língua morta e restaram cerca 800 mil índios (pouco mais de 0,5% da população brasileira), que falam 180 línguas diferentes. Quase todos, excetos os ainda isolados, também falam o português.

Apesar de tudo isso, continua espantoso o fato de 99,5% dos brasileiros falarem apenas o português.

Em Angola, também colonizada pelos lusitanos, fala-se hoje, além do português, o umbundu, o quimbundo,  o quicongo, o ibinda e o chocué e uma porção de dialetos. A Índia, por muito tempo colônia britânica, fala o híndi, o inglês e outras 21 línguas nacionais. E a pequena Suíça se expressa em três idiomas: alemão, francês e italiano. São apenas alguns casos, entre muitíssimos, que destaco para acentuar a singularidade do Brasil nesse quesito.

Mas isso não significa que não devamos preservar os idiomas não oficiais (como os indígenas) e, até mesmo, as prosódias regionais.

 

 E aqui chegamos ao cerne dessa peroração. Por que, tanto aqueles idiomas dos indígenas, quanto o sotaque regional do português falado no Brasil, são expressões legítimas de suas respectivas culturas.

A linguagem, sabemos todos, é elemento importante da identidade dos povos, pois, como dizem os lingüistas, serve não apenas para a comunicação entre os indivíduos, mas ao entendimento de si próprios e do mundo que os cerca.

O mesmo pode-se dizer do acento local, ou seja, o sotaque. Ele revela as especificidades culturais de determinado grupo populacional. E é aí que reside o problema. Pois onde houver intolerância, o sotaque será esgrimido como arma de superioridade (falaciosa, diga-se) de um grupo sobre outro. É o caso do preconceito contra nordestinos por parte de pessoas de outras regiões que, com tal comportamento, desnudam sua ignorância e sua incapacidade de tolerar o outro, o diferente.

Felizmente, no Brasil, não obstante uma homogeneização do linguajar que há décadas vem sendo promovida pela televisão, ainda persistem certos sotaques que distinguem o nordestino, o nortista, o mineiro, o carioca, o paulista, o sulista e o pessoal do centro-oeste. Pois essa diversidade de falares é uma riqueza cultural, como a diversidade biológica de uma região é uma riqueza material.

Daí ser louvável o trabalho de registro de nossas tradições lingüísticas, como é o caso do trabalho do pesquisador incansável que é Bertrando Bernardino, reunindo neste volume quase duas mil palavras que caracterizam o pernambuquês, ou seja, o linguajar do pernambucano. São vocábulos que somente nós usamos ou que recebem aqui significados diferentes dos de outras regiões.

Esta edição é a quarta, aumentada e revisada, desse compêndio cuja leitura é, para além de prazerosa, instrutiva, e não apenas para os “estrangeiros” que nos visitem , mas até para as novas gerações, tão expostas à referida homogeneização televisiva que desconhecem muitos dos significados das palavras com que seus avós se expressavam.

Isso mostra a receptividade (e a importância) do trabalho de Bertrando, digo sem pabulagem.

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