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  • DataPernambuco, 30 de Junho de 2015
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O judeu polonês e o seresteiro carioca

26 de Junho de 2015 às 16:16
Homero Fonseca

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Bruno Schulz: Autorretrato

 

Acabo de ler Lojas de canela, de Bruno Schulz, um estonteante romance (alguns o classificam como contos, devido à sua fragmentação) publicado em 1934 e onde encontrei uma pérola: um trecho com uma incrível coincidência temática e até de palavras com um clássico do cancioneiro brasileiro.

Mas vamos contextualizar: Schulz (1892-1942), um judeu polonês, nascido na cidadezinha de  Drohobycz (hoje pertencente à Ucrânia, terra de Clarice Lispector), foi pintor, desenhista, escritor, ensaísta e crítico literário. Quando os alemães invadiram a Polônia, foi preso, levado para o famoso gueto de Varsóvia e morto com um tiro na nuca, no meio da rua, pelo oficial da SS Karl Günter (por pura pirraça contra seu desafeto, também nazista, Feliks Landau, o qual tinha “adotado” Schulz como um “judeu necessário”), encerrando assim precocemente uma brilhante carreira.

Até 1957, Schulz era um completo desconhecido fora de sua terra natal, onde era autor consagrado: nesse ano Lojas de canela foi traduzido para o francês e o inglês. Sua ficção resumiu-se a esse peculiar romance, mais outro (Sanatório) e contos esparsos publicados na imprensa polaca. Os críticos costumam fazer certa associação entre Schulz e Kafka (de quem nosso autor assinou a tradução de O processo, em 1936). Ressaltam, porém, a larga diferença estilística. Ambos, é verdade, tratam dos aspectos mais esconsos da alma humana, narrados numa clave onírica e absurda, em que a realidade é deformada violentamente e cede espaço para o mito. Todavia, enquanto a linguagem do tcheco é áspera e seca, o texto do polonês é de uma exuberância espantosa. Um pequeno exemplo de Lojas de canela:

                         Adentrei a noite de inverno, colorida pela iluminação do céu. Era uma dessas noites claras em que o firmamento sideral é tão extenso e ramificado que parece ter sido dissociado, partido e dividido num labirinto de outros céus, suficientes para ser repartidos entre as noites de inverno do mês inteiro e para cobrir com seus abajures prateados e pintados todos os fenômenos noturnos, todas as aventuras, escândalos e carnavais.

             Vamos agora à incrível coincidência. No mesmo romance, deparo-me com o seguinte trecho:

                         As moças pisavam desatentas nos retalhos coloridos, como se patinhassem inconscientemente no monturo de um possível carnaval, no bricabraque de uma grande mascarada não realizada.

 Isso lembra algo? Não? Vejam agora esse trecho de Chão de estrelas, a linda canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa (letra):

                         A porta do barraco era sem trinco e a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. Tu pisavas nos astros distraída...

 A imagem é a mesma. Em Schulz, eram as moças. No poema de Orestes, é uma moça: tu pisavas. As moças de Schulz pisavam desatentas. A de Orestes, pisava distraída. As do polonês, pisavam nos retalhos coloridos (linda cena de cor e luz). A do carioca, pisava nos astros ( Manuel Bandeira, em célebre crônica no Jornal do Brasil em 18 de janeiro de 1956, afirmou ser talvez “o verso mais bonito de nossa língua”). Schulz fala: no monturo de um possível carnaval. Em Chão de estrelas, Orestes enxerga um carnaval fora de época: Nossas roupas comuns dependuradas / Na corda, qual bandeiras agitadas / Pareciam um estranho festival.

  Pra completar, em outra narrativa (Sanatório), o polaco também pinta um quadro com estrela e frestas:

             O raio de uma estrela distante, enredado em meus cílios, derramava-se em prata no branco cego de meu olho, e através das frestas das pálpebras eu via o quarto à luz da vela intricada num emaranhado de linhas douradas e zigue-zagues.

             Orestes Barbosa (1893 – 1966) foi jornalista, poeta e letrista, tendo como parceiros, além do Sílvio Caldas, gente do porte de Noel Rosa, Custódio Mesquista e Francisco Alves. Chão de estrelas foi lançada em 1937, portanto, três anos após a publicação de Lojas de canela e dois depois da de Sanatório. Teria o nosso poeta sido influenciado pelo escritor eslavo? Considero impossível. Trata-se, ao que tudo indica, de um desses casos de afinidades eletivas. Como vimos, até 1957, quando foi traduzido para o francês e o inglês, Schulz era conhecido apenas na Polônia. Sua primeira tradução em português apareceu em Portugal em 1977, feita por José Saramago.

 No Brasil, as obras de Schulz somente chegariam na década de 90. Orestes sabia a língua polaca? Viajou até Varsóvia na década de 30? Até prova em contrário, polonês e javanês para ele eram as mesmas coisas. Alguém duvida?

 

A forma mais cabal de fama é o anonimato

22 de Junho de 2015 às 12:31
Homero Fonseca

Divulgação Zoom
Renata Tubarão e Cícero Gomes no balé Romeu e Julieta ? Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2011.

Como assim? -  perguntarão os sonolentos. 

Não estou me referindo ao anonimato de partida, mas ao de chegada.

Ou seja, quando o vulgo cita uma obra, uma frase, um personagem, sem ter a menor ideia de quem é o autor.

É quando ocorre na prática aquela assertiva de que, quando se publica um livro (e desconfio que isso vale para todo tipo de arte), ele deixa de pertencer ao escritor e é apropriado pelo público.

Por exemplo: muita gente, frente a um impasse, se interroga - “E agora, José?”. E desconhece por completo o nome de Carlos Drummond de Andrade.

Quantas pessoas ao redor do mundo não chamam, num arroubo de ternura e de afeto, de Romeu e Julieta a dois jovens apaixonados, sem nunca terem ouvido falar em William Shakespeare? 

Erotismo não-dito

11 de Junho de 2015 às 12:22
Homero Fonseca

Foto: Gribayédoff, 1903. Zoom
Emma e León fizeram uma tórrida cena de amor... num fiacre fechado.

 Em Madame Bovary, de Flaubert, há uma cena espetacular de erotismo.

 Recapitulando:     Emma começa a questionar sua paixão adúltera pelo jovem León. Vai encontrar-se com ele, como de costume, na vizinha cidade de Rouen. Leva uma carta de rompimento. Antes de conseguir entregá-la, o jovem amante a arrasta a uma carruagem de aluguel:

         – Aonde o senhor deseja ir? – perguntou o cocheiro.

     – Para onde você quiser! – respondeu Léon, empurrando Emma para dentro da carruagem.

     E a pesada máquina pôs-se em andamento.

     Desceu a Rue Grand-Pont, atravessou a Place des Arts, o cais Napoléon, a Pont Neuf, e deteve-se de repente diante da estátua de Pierre Corneille.

     – Continue! – disse uma voz que saía do interior. O carro partiu novamente e, deixando-se levar pelo declive a partir da encruzilhada La Fayette, entrou a galope pela estação da estrada de ferro.

     – Não, em frente! – gritou a mesma voz.

     O fiacre saiu do portão gradeado e, tendo em breve chegado à alameda, foi trotando suavemente, no meio dos grandes olmos. (...)

     Porém, repentinamente, lançou-se com um salto através de Quatremares, Sotteville, a Grande-Chaussée, a Rue d'Elbeuf, e parou pela terceira vez diante do Jardim des Plantes.

     – Vá em frente! exclamou a voz com ainda mais fúria.

     E retomando logo sua corrida, ela passou por Saint-Sever, pelo cais dos Curandiers, pelo cais dos Meules, mais uma vez pela ponte, pela praça do Champs-de-Mars e atrás dos jardins do hospital, onde alguns velhos de casaco preto passeavam ao sol ao longo de um terraço coberto por heras verdes. Subiu novamente o Boulevard Bouvreuil, percorreu o Boulevard Cauchoise, em seguida todo o Mont-Riboudet até à encosta de Deville.

     Voltou; e então, sem direção nem destino, ela vagabundeou ao acaso. (...) De tempos em tempos, o cocheiro, em seu assento, lançava olhares desesperados às tabernas. Não compreendia que furor de locomoção levava tais indivíduos a não querer deter-se. Procurava fazê-lo, algumas vezes, e logo ouvia atrás de si exclamações de cólera. (...)

      E no porto, em meio aos carroções e aos barris, e nas ruas, nos marcos das encruzilhadas, os burgueses esbugalhavam os olhos assombrados diante daquela coisa tão extraordinária na província: uma carruagem com os estores fechados e que aparecia assim continuamente, mais fechada que um túmulo e sacudida como um navio.

     Uma vez, pela metade do dia, em pleno campo, no momento em que o sol dardejava seus raios com maior força contra as velhas lanternas prateadas, uma mão nua passou sob as pequenas cortinas de fazenda amarela e lançou pedaços de papel que se dispersaram ao vento e caíram mais longe como borboletas brancas num campo de trevos vermelhos floridos.

     Mais tarde, pelas seis horas, a carruagem deteve-se numa ruazinha do bairro Beauvoisine e uma mulher desceu, caminhando com o véu abaixado e sem virar a cabeça.[1]

                            * * *

      A longa citação é demonstrativa de como a literatura é a arte da alusão. Esse fragmento é a mais perfeita tradução disso. Flaubert, nessa cena de enorme carga erótica, nada mostra. Uma carruagem de janelas fechadas, com dois amantes no interior, vaga alucinada pelas ruas de uma cidade francesa do século 19, acompanhada pelos olhares espantados da gente provinciana.  Tudo se passa visto de fora: as janelas estão abaixadas. Entretanto, nossa imaginação é convocada para desenhar em nossa mente aquilo que não é mostrado. O fiacre é uma alcova: subindo e descendo ladeiras, sacolejando de um lado a outro, trepidando quase desgovernada - seu movimento lembra o ato sexual. A carta de rompimento rasgada em pedaços e jogada ao vento por “uma mão nua” é de um poder sugestivo tremendo. Ao final, Emma desce, “o véu abaixado e sem virar a cabeça”, derrotada mais uma vez pelo desejo e arrasada pela culpa. Narrativa alusiva por excelência, pede do leitor uma participação ativa: sua imaginação deve escrever o não-dito.    

1Flaubert, Gustave: Madame Bovary (São Paulo: Nova Alexandria, 2001).

 

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Cena do filme Madame Bovary (BBC de Londres), direção de Rodney Bennett, 1975.

 

  

 



           

 

A história do virtuoso Oanã e a mimosa Acácia

01 de Junho de 2015 às 11:20
Homero Fonseca

             Uma peça de teatro musicada. Um folheto em versos livres. Um texto ora engraçado, ora dramático, sempre lírico. Uma ópera-cordel. Um raconto para gente dos 8 aos 80 anos. A história do virtuoso Oanã e a mimosa Acácia, de Iracema Rodrigues, é tudo isso. Traz, no estilo das narrativas populares do Nordeste, a história do amor entre um artista talentoso e pobre e a filha de um latifundiário. Na contracapa, a chamada do folhetim sintetiza o tom da obra: “O amor impossível entre o pobre Oanã e a mimosa Acácia, filha do poderoso Antão. As perfídias e tramoias do vilão Xang Sunô. A ação benfazeja da pintora-fada Regoresa e do profeta Zé di O’Clau para unir os amantes e celebrar a vida em pleno Carnaval de Olinda. Coragem, solidariedade e bem-querência entre as gentes surgem neste texto pleno de cores, ritmos e alegria.”

            O libreto d’ A história do virtuoso Oanã e a mimosa Acácia  – com projeto gráfico de Luiz Arrais e ilustrações de  David Alfonso Suárez – foi lançado em 25 de maio na Loja Passadisco, onde está à venda. O livro homenageia e é dedicado à artista plástica Tereza Costa Rego, inspiração da personagem pintora-fada Regoresa de Carmim.

            A autora é recifense, graduada em Jornalismo e Direito, com passagem pela imprensa local. Atualmente é servidora concursada da Justiça do Trabalho. Esta é sua segunda aventura literária, depois de uma longa pausa. Sua primeira obra – o livro de poemas Descontentamento – foi publicada em 1980, pela lendária Edições Pirata, com prefácio do antropólogo e professor Roberto Motta.

            As ilustrações de David Alfonso Suárez, artista cubano radicado no Recife e autor dos desenhos da decoração do Carnaval recifense nos últimos dois anos, emulam os folguedos populares referidos pelo texto, utilizando um intenso colorido, numa bem elaborada estilização da estética popular.

            Para uma futura encenação da peça, os compositores Marco Polo e Geraldo Maia musicaram o texto, buscando sua equivalência nos ritmos populares do Nordeste, como a embolada, o pastoril e o frevo.

            O enredo tem como personagens principais o pobre, mas talentoso Oanã, e a filha de um arrogante proprietário rural, a mimosa Acácia, casal que vive um amor ameaçado  pelas diferenças sociais e pelas intrigas do vilão Xang Sunô, mas que, ao fim de uma série de peripécias folhetinescas e com a proteção da pintora-fada Regoresa e do profeta Zé di O’Clau (inspirado no pintor Zé Cláudio), consegue se unir em pleno Carnaval de Olinda.  

            No prefácio da obra, a jornalista Tereza Rozowykwiat – filha da homenageada – afirma que, apesar das diferenças, reconheceu Iracema Rodrigues na personagem La Cigana, mãe do protagonista, que “tinha visões nas águas do rio, seu espelho do presente e do futuro.”

 

 

Sarau Plural 51: Literatura e cosmopolitismo

26 de Maio de 2015 às 21:25
Homero Fonseca

 

 

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