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O superfolhetim de Jonathan Franzen

23 de Janeiro de 2015 às 16:00
Homero Fonseca

 

 

Terminei de ler Liberdade, o celebrado romance do americano Jonathan Franzen, a sensação literária do momento. (Depois de 14 anos, a revista Time publicou um escritor em sua capa – e o rotulou como “um grande romancista americano” – e o jornal britânico The Guardian classificou a obra como “o livro do século”. Hipérboles à parte, um estímulo e tanto para que a pequena semente de inveja que todos carregam dentro de si encontre um terreno fértil para medrar.)

 De quarta-feira a domingo passados, atraquei-me com a leitura do catatau de 605 páginas, praticamente sem sair de casa e postergando algumas obrigações.

É uma daquelas obras que você agarra e não quer mais largar (os inclinados a metáforas e fantasias diriam que foram agarrados pelo livro), apesar de seus vários senões. Antes do aclamado romance, eu tinha lido do autor os ensaios de Como ficar sozinho (Companhia das Letras, 2012), onde ele aclara o que podemos chamar de seu programa literário:

 Meu trabalho representa uma campanha ativa contra os valores de que não gosto: sentimentalidade, narrativa débil, prosa abertamente lírica, solipsismo, autocomplacênca, misoginia e outros provincianismos, jogos de palavras estéreis, didatismo patente, simplicidade moral, dificuldade desnecessária, fetiches de informação, e por aí vai. 

 Simpatizei bastante: nem as facilidades das exigências idiotizantes do mercado, nem as dificuldades de livros que ninguém lê e que fazem a glória efêmera entre a coorte literária.

 Em Liberdade, Franzen seguie à risca sua plataforma, buscando um equilíbrio entre os extremos, ora alcançado de forma magistral, ora pifiamente falhado. A trama é uma saga de quatro gerações de uma família de classe média liberal, os Berglund: Walter, um nerd ambientalista e racionalista (com abundantes traços patéticos); Patty, sua mulher, ex-campeã de basquete estudantil, eternamente em dúvida sobre suas escolhas pessoais (que sempre se revelam erradas); Jéssica, a filha certinha; e Joey, o filho yuppie e simpatizante do Partido Republicano.  Outro personagem chave é Richard Katz, um roqueiro culto e desencantado que formava um trio inseparável e conflituoso com Walter e Patty nos tempos de universidade, anos 70. Há várias subtramas, envolvendo a família de classe média baixa de Walter e de ricos meio falidos de Patty, as experiências de Joey no mundo dos negócios e da corrupção e sua relação com Connie, uma garota bonita, meio autista, que lhe devota um amor incondicional. O drama vai se desenrolando tendo por pano de fundo um vasto painel da sociedade americana nos últimos 40 anos, a que não faltam ascensão e descensão social, embates ideológicos entre liberais e conservadores, a guerra do Iraque, o 11 de Setembro, questões ambientais (preservação de espécies em extinção, aquecimento global, superpopulação), racismo latente, tramoias financeiras envolvendo o governo Bush, exército, ONGs, magnatas e jovens executivos dispostos a ganhar seu primeiro milhão antes dos 30 anos, custe o que custar – enfim, o páthos americano.

 No núcleo da história está o  triângulo amoroso entre Walter-Patty-Richard. Walter é transparente, certinho, idealista, um apolíneo. Richard é sombrio, cético, mulherengo, perturbadoramente (para Patty) dionisíaco. Patty ama os dois e os dois se amam de uma forma quase platonicamente homoafetiva e amam igualmente Patty, que termina escolhendo a segurança de Walter e passa o resto da vida torturada por ter aberto mão de tudo de aventura e imponderável que o amigo roqueiro representava, até que décadas depois se encontram a sós numa cabana de veraneio. Pra botar mais tempero nessas relações perigosas, surge uma jovem ecologista de origem indiana, Lalitha (quase Lolita, né ?), que trabalha com Walter numa ONG conservacionista e se apaixona pelo seu chefe e ídolo.

 Com todos os ingredientes dos grandes folhetins - amor, ódio, traição, lealdade, desejo e culpa –, e até a ocorrência de suspense entre os capítulos, a narrativa ziguezagueia ao longo do tempo, sem nunca perder o fio da meada. Contém momentos maçantes, como a digressão sobre pássaros (Franzen é um experiente observador de pássaros) ou detalhadas descrições dos negócios escusos, envolvendo exploração de carvão mineral numa área destinada à preservação das mariquitas-azuis. Cortar umas 100 páginas do texto seria uma boa pedida. 

Tudo é contado por um narrador onisciente, exceto alguns trechos narrados pela protagonista, numa clave bem esquisita: ela se refere a si mesma na terceira pessoa, como “autobiógrafa”, no mesmíssimo registro de voz do narrador principal. Não há pois mudanças perceptíveis no modo de narrar, de forma que o uso do recurso “moderno” soa como um adereço supérfluo.  A construção dos personagens (densos, confusos, contraditórios, às vezes patéticos) e os diálogos (ágeis, precisos, vívidos) são pontos fortes de Franzen.  Mas mesmo aí há certos escorregões, como quando, em alguns momentos, os personagens analisam seus conflitos em diálogos mais longos, artificiais, “sociológicos” e intelectuais em excesso.

 O conceito de liberdade, fulcral na cultura americana, está presente transversalmente em toda a narrativa, tanto na vida pública quanto na esfera privada. Mas, os personagens, atordoados pelas exigências do ofício de viver, parecem se perguntar perplexos: o que fizemos com nossa liberdade?

 A linguagem está muito acima do ramerrão da literatura comercial, sem resvalar para os floreios formais tão ao gosto dos doutores da literatura, com direito a momentos memoráveis, como na cena em que Walter e Richard vão assistir a um concerto de uma banda de rock cujo jovem líder é definido como o  Artista Inspirado Sofredor:

  Ele encenava sinceridade, e quando sua encenação ameaçava  desmentir a sinceridade, ele encenava sua angústia sincera diante do quanto era difícil ser sincero.

 Até alfinetadas viperinas em um desafeto literário, praticamente nomeado: Ele tirou da sacola o livro que sua irmã lhe dera no Natal, Reparação, se esforçando para se interessar por suas descrições de salas e jardins...

 Ou dando-se o direito de certo lirismo, contido: No fim da noite, quando o trânsito diminuía, os pinheiros próximos ao escritório cuidavam, honestamente, de sussurrar.

Há um episódio digno de nota, que a meu ver constitui um exímio exercício de metaliteratura, embora alguns comentaristas de má vontade tenham enxergado uma demonstração de imodéstia. É uma das cenas mais dramáticas do livro, quando se materializa a traição de Patty com Richard. Ela passa dias com o marido numa casa à beira de um lago, convidam Richard, mas antes que ele chegue Walter vê-se obrigado a viajar imprevistamente. Patty está lendo Guerra e Paz. Está grudada na leitura, mas tem dificuldades em entender as descrições das sucessivas manobras militares. Com a saída de Walter, desata-se uma tensão sexual de alta voltagem entre os dois. Ela doida pra dar, mas sentindo uma culpa paralisante. Para fugir ao constrangimento, Patty volta à leitura do romance russo. Ela própria conta depois em suas memórias: A autobiógrafa não sabe dizer se as coisas teriam tomado um rumo diferente caso ela não tivesse chegado justamente às páginas em que Natacha Rostova, obviamente destinada ao aparvalhado e bom Pierre, se apaixona pelo grande amigo deste, o elegante príncipe Andrei. (...) É provável que as coisas não tivessem ocorrido de maneira diversa, mas o efeito que essas páginas tiveram sobre ela, sua pertinência,  foi quase psicodélico.

 Por que considero essa cena um exercício magistral de metaliteratura? Por que ela tem uma função. Não é gratuita. Os dois textos ficcionais se entrelaçam e a ação de uma personagem age como gatilho para liberar a ação da outra. Patty se identifica com Natacha, dividida entre o amor por dois homens, dois amigos. E fica espantada com a pertinência da situação de ambas, quando ela estava justamente enredada no angustiante dilema entre o prazer e a lealdade, entre trair ou não trair. E à noite, num estado indefinido entre a vigília e o sonambulismo, na escuridão e no silêncio da noite, ela se levanta, envereda pelo corredor e se aninha na cama de Richard, dando vazão a 30 anos de desejo represado. Em tempo: a descrição é elíptica, sugestiva, ambígua.

 Franzen conclui o livro exatamente como nossos teledramaturgos encerram uma novela da Globo: no último capítulo, todas as pendências se acertam. A diferença é que, em seu superfolhetim não há heróis nem vilões. E mesmo quando ocorre a triunfante convergência final entre os personagens, de certa forma eles são apenas as ruínas de si mesmos. E no melodramático fecho da história, a coisa toda é descrita com maestria: a cena é áspera, sombria, quase inconclusiva. O amor triunfa claro, mas tem um gosto amargo: e a expectativa sobre se triunfará ou não deixa o leitor em suspenso até os últimos parágrafos.

 Liberdade é um livro montanha-russa: cheio de altos e baixos e de vertigens. Ao  fim e ao cabo, e apesar dos pesares, o romance consegue nos restituir o raro prazer da leitura, terminantemente proibido por Roland Barthes e seus epígonos..

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PS: Lastimável a edição sumamente desleixada do livro – recorrentes erros de revisão, gralhas, supressões, truncamentos – inadmissível para uma casa do porte e do retrospecto da Companhia das Letras.

 

Reflexões meio na contramão sobre o atentado ao Charlie Hebdo

12 de Janeiro de 2015 às 22:25
Homero Fonseca

Imagem de TV Zoom
Uma manifestação inesquecível: repúdio ao terror, defesa da liberdade de expressão e unanimidade midiática

 

Vi pela TV a monumental manifestação de ontem em Paris em solidariedade às vítimas e em repúdio ao atentado terrorista contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo.

 Sinto-me, como todo o mundo (exceto uma minoria de fanáticos islamistas) indignado contra a brutal ação contra a liberdade de expressão e o horrendo assassinato de 12 pessoas pacíficas.

 Vendo a extensa cobertura da TV francesa (e mundial) sobre a mobilização daquela enorme multidão, me vieram algumas reflexões que compartilho com quem eventualmente me ler.

 - Premissa geral: o atentado foi abominável e burro.

Abominável porque uma ação anti-humana.

Burro, por suas consequências políticas, ou seja, termina por reforçar as posições do "inimigo" (um exemplo: Bush estava em baixa, apagado politicamente etc., quando aconteceu o 11 de Setembro, criando uma onda patriótica que o salvou e, mais ainda, permitiu a ele expandir seus planos militaristas e econômicos no Oriente Médio, com apoio da mídia e da população americana.)

 - No caso Charlie, a mídia, por indignação legítima, e por oportunismo (aumentar tiragens e audiências), como aliás sói acontecer em tais casos (vide a morte de Lady Day), deu uma cobertura espetacular, explorando ao máximo os aspectos emocionais.Isso cria um clima de unanimidade, mas com certo respaldo na "solidariedade fácil", que se alastra por imitação e faz com que um anônimo morador de uma vilazinha nos confins do mundo, sem a menor ideia do conflito terrível no Oriente Médio, bole um cartaz EU SOU CHARLIE, acenda uma vela na praça... e saia na TV.

 - Como consequência, a emoção pura afastou a possibilidade de reflexão (ver a complexidade da questão, o enorme imbroglio no Oriente Médio, seus antecedentes, a violência dos dois lados, os grandes interesses internacionais em jogo, a estupidez do fanatismo religioso  etc). Em nenhum momento, estou justificando o atentado, mas tentando entender e explicar.

 .- A manifestação foi realmente um fato extraordinário. Algo inesquecível, aquela multidão desfilando com seus cartazes, a presença de 50 chefes de Estado, inclusive o Abbas, presidente da Autoridade Palestina (a assessoria da presidente Dilma pisou na bola: ao invés de se fazer representar pelo  embaixador brasileiro , ela devia ter ido pessoalmente). Um basta monumental ao terror. Um desses momentos cívicos que nos reconforta enquanto cidadãos.

 - O atentado e outras ações tresloucadas de extremistas islâmicos abriram caminho para retaliações de grupos igualmente radicais de antiislamistas, que atacaram mesquistas etc., iniciando uma espiral de violência.

 - Além disso, criou um terreno fértil para a proliferação do ideal conservador na Europa (em todo o mundo), reforçando os partidários das políticas antiimigratórias e estimulando a xenofobia.

 - Particularmente, me deu um calafrio as cenas apresentadas na TV de pessoas gritando em coro VIVA A POLÍCIA e aplaudindo um desfile de viaturas policiais (a mesma Polícia que em maio de 68 atacou brutalmente os estudantes nas ruas).

 Fica a pergunta:

Quantos daqueles franceses (e pessoas de outras nacionalidades) brancos (era reduzida, ao que vi, a presença de negros ou gente de procedência árabe na manifestação, exceto líderes religiosos moderados, preocupados com a imagem dos muçulmanos), de boa aparência, orgulhosos com absoluta razão das tradições de Liberté, Igualité, Fraternité, ao aplaudir e entoar palavras de ordem à ação policial, não estavam se regozijando do fato de os terroristas terem sido mortos e não capturados, achando, no fundo da sua alma, que bons eram os tempos em que essa escória terceiromundista não tinha invadido seu território e, mais no fundo ainda, que árabe bom é árabe morto?

 - São ideias provocadas pelas imagens e falas globalizadamente transmitidas.

 Bem, que fique claro que se eu estivesse em Paris estaria na passeata.

 VIVA A LIBERDADE, VIVA A PAZ. ABAIXO O TERRORISMO E CUIDADO COM O FACISMO!

 

 

A difícil arte de compor um título

10 de Janeiro de 2015 às 20:17
Homero Fonseca

Capa da revista Time 15 /SET / 1961 Zoom
Apesar do título, "O apanhador" catapultou Salinger ao estrelato

 
Uma das coisas mais difíceis para um escritor, ao que percebo, é compor o título de seus romances.
Antes era fácil: colocava-se o nome do personagem principal (Iracema, Dom Casmurro), lançava-se mão de pares antagônicos com forte carga emocional (Guerra e Paz, Crime e Castigo), simplificava-se com um substantivo comum, mas expressivo (A metamorfose, A peste) ou apelava-se para uma fórmula poética (Em busca do tempo perdido, O inverno da nossa desesperança).

Do tipo instigante, havia um monte: Coração das trevas (Conrad), Viagem ao Fim da Noite (Céline), Retrato do Artista Quando Jovem (Joyce), As Vinhas da Ira (Steinbeck), Se um viajante numa noite de inverno (Calvino), Enquanto Agonizo (Faulkner), A Laranja Mecânica (Burgess) ou Por quem os sinos dobram (Hemingway).

Eventualmente, gente muito boa sucumbia a alguma fórmula pretensiosa, tipo A Condição Humana (Malraux), O Século das Luzes (Carpentier) ou Uma Tragédia Americana (Theodore Dreiser). Outros, eram diretos, contundentes, provocadores: Fome (Hamsun) e Os cus de Judas (Lobo Antunes). Sempre os houve bisonhos, como A Educação de Henry Adams, de Henry Adams, e Grande Sertão: veredas, do nosso genial Rosa. Ou mesmo exemplos desastrosos: O sol também se levanta (que descoberta espantosa!), daquele mesmo Hemingway, e O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (este merecerá um comentário especial, adiante).

Entretanto, de uns tempos para cá (coincidindo com o domínio da teoria na literatura, quando os escritores passaram a escrever para os críticos e os outros escritores, desdenhando os leitores) parece haver sido deflagrada uma competição pelo título mais esquisito. São termos abstratos, destituídos de sentido apreensível, combinados aleatoriamente. Muito cotados são os oxímoros gratuitos (O gelo quente) ou aqueles que não têm absolutamente nada com o texto. E o máximo é a combinação dessas duas últimas características.

Basta percorrer com alguma pachorra as estantes das livrarias, para topar com coisas como: Aprendizagem do cuspe e outros esplendores, Corações encardidos de blues, A vida secreta do quadrilátero, Memórias artificiais das orquídeas roucas, Metonímia da urgência dilacerada, Sombrias nuvens sólidas, A viagem ausente, Swlasanie Sunda Opat, Antes que a lua, O tédio do abismo e o porco, O enigma do espelho do duplo labirinto. (Ao leitor mais crédulo: não procure esses títulos na internet. São todos inventados.)

Não sei se já foi feito algum estudo sistemático sobre títulos literários (valeria a pena, inclusive apontando as preferências de épocas e suas possíveis motivações). Com certeza, tal pesquisa revelaria casos interessantes de livros triunfantes, apesar do título, como é o caso do extraordinário romance citado do nosso Guimarães Rosa, cujo título, ao meu ver, não faz jus à potência do texto. Grande sertão tudo bem, dá uma ideia do vasto espaço geográfico cenário das aventuras e reflexões de Riobaldo Tatarana. Mas os dois pontos, seguidos da palavra Veredas, sempre me pareceram uma demasia, uma informação boba, um penduricalho. Parece ser um caso de obra que se impõe por sua qualidade, apesar desse ou outros senões. Também existem títulos excelentes para livros fracos, como todo mundo já se iludiu um dia.

Que fique claro que não estou defendendo títulos óbvios, mas chamando a atenção para possibilidades: ótimos livros com títulos nem tanto ou ótimos títulos para livros nem tanto.

O caso mais curioso de todos é O apanhador no campo de centeio, de Salinger. O apanhador no campo de centeio? O que diabo isso quererá dizer? Não tem sentido. No original: The catcher in the rye. Isso também não faz sentido para a maioria dos falantes de inglês. Rye, tudo bem: é campo de centeio, literalmente. Mas: catcher? Vem do verbo to catch, que significa: agarrar, apanhar, capturar, alcançar, pegar. Então, literalmente é O apanhador no campo de centeio. O problema é que o significado mais difundido de catcher, pelo menos nos Estados Unidos, é o jogador de beisebol, o cara com uma máscara de ferro que se agacha atrás do rebatedor para agarrar a bola que esse não conseguir acertar com o bastão. Mesmo quem não conhece bulhufas de beisebol, feito eu, saca a figura, bastante frequente em filmes hollywoodianos. Bom, é aí que os próprios gringos se enrolam: o que estará fazendo um catcher num campo de centeio? O título é enigmático.

Os leitores atentos encontrarão o trecho do livro de onde foi retirado o título. É quando o adolescente Holden Caulfield, protagonista da história, conta à sua irmã Phoebe que sonha estar num campo de centeio, à beira de um precipício, onde milhares de garotinhos cantam uma canção: "Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer."

Holden, adolescente revoltado, confessa à irmã menor ter, no fundo, um ideal de generosidade, solidariedade, ao salvar os guris do abismo. Então, tá explicado. Mas não é tão simples assim. Para complicar as coisas, na mesma cena Holden revela que a imagem do catcher in the rye era de conhecida canção infantil – a que os meninos cantavam. Mas Phoebe, estudiosa que só, corrige o mano: a expressão original não está na canção, mas num poema de Robert Burns e o verbo não era to catch (apanhar, agarrar) e sim to meet (encontrar-se com). É aí que a coisa se complica, pois o poema, escrito em escocês do século 18, narra a história de Jenny, uma pobre garota que arrasta sua saia molhada por um campo de centeio, quando se encontra com alguém (meets). O poema do bardo escocês tem clara conotação erótica, e esse encontrar, no contexto, é o mesmo que transar, pegar alguém. Tudo isso ficaria ao largo se o autor não houvesse metido Burns na história.

Quanta confusão, quantos mistérios jogados num título que, afinal, resta absolutamente incompreensível para a maioria dos leitores. O velho Salinger exagerou na dose nesse caso, talvez sob a influência de Joyce que se jactava de no Ulisses haver “plantado” centenas de enigmas que os professores levariam séculos para decifrá-los.

Pois bem, apesar do título não ajudar em nada, a obra prima de Salinger tornou-se um clássico, continua sendo reeditada em todo o mundo, encantando milhões de leitores com sua narrativa extraordinariamente fluida e seu personagem construído com uma verdade plena de empatia. Ou seja, apesar do título esquisito, a qualidade do romance se impôs aos leitores.

Um último toque: mais do que o original em inglês, O apanhador no campo de centeio soa ainda mais estranho, pois beisebol não é esporte popular por aqui e pouquíssimos brasileiros conhecem alguma roça de centeio, pois o grão é cultivado no Brasil em exíguos três ou quatro mil hectares em pequenas fazendas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, principalmente. O embaixador Jorio Dauster, um dos tradutores do livro, conta as circunstâncias curiosas da tradução. Ele e seus companheiros Álvaro Alencar e Antônio Rocha logo perceberam que a tradução literal soaria incompreensível ao leitor brasileiro. Para eles, “intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição”. Quebraram a cabeça e depois de inúmeras tentativas, chegaram à solução A sentinela do abismo, em total coerência com o teor do texto, mantendo o mesmo tom de mistério, e muito menos esdrúxula.

Entretanto, o ermitão rabugento, por meio de sua agente literária, exigiu uma tradução literal. E repetiu-se o fenômeno: apesar do horrível apanhador e da plantação desconhecida, o livro emplacou entre nós, como em todo o mundo. Certamente, por sua qualidade intrínseca. Mas, eu pergunto se um outro fator não teria talvez pesado na sua aceitação: a sonoridade e a cadência. Um décima quase cantante:  O_a-pa-nha-dor-no-cam-po-de-cen-teio. Um fenômeno parecido ao que faz multidões de semiletrados, por esse Brasilzão afora, continuarem admirando e repetindo os versos rebuscados e preciosistas do Augusto dos Anjos do “Eu”. Vão pela sonoridade, ritmo, cadência, mais do que pelos versos em si.

(O saboroso artigo de Jorio Dauster, com sensacionais revelações sobre a tradução portuguesa, está no site do jornal Candido: http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=274).

Por fim, e voltando aos contemporâneos, sugiro ao autor embatucado em encontrar um título para seu romance, assistir ao filme Domicílio conjugal,  de François Truffaut. Numa cena, o protagonista Antoine Doinel – que está escrevendo seu primeiro livro – confessa ao quitandeiro, que perguntara sobre o andamento da obra, sua dificuldade em criar um título perfeito. Ao que o bom homem pergunta: – Tem trompete no livro? – Não. – Tem trombone? – Não. – E então!  –Então o quê? Não entendi. – Ponha o título Nem trompetes, nem trombones.


Um gesto humilde de Gilberto Freyre (acredite, ele praticou)

10 de Janeiro de 2015 às 13:44
Homero Fonseca

Zoom
Permínio Asfora, autor de "Fogo verde" e desafeto de Gilberto Freyre

 

 

  

 

Em meados dos anos 30, Gilberto Freyre tinha posições avançadas de esquerda.

De esquerda, mas não socialista ou comunista. Nesse período, escreveu dois livros fundamentais da cultura brasileira: Casa-grande & senzala (1933) e Sobrados & mocambos (1936), ambos de forte conteúdo de denúncia social, sobretudo o segundo, e, quase como um “intelectual orgânico” gramsciano, passou para a ação, envolvendo-se com sindicatos de trabalhadores do Recife. Em sua ficha do Dops, em 1935, constava ser “agitador, organizador da Frente Única Sindical, orientadora das greves preparatórias do movimento comunista”. O resto todos sabem: foi deputado constituinte em 1946, quando criou o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, de que se tornaria  mentor por toda a vida, e foi endireitando, endireitando, até apoiar o golpe militar de 1964, tornando-se conservador e direitista assumido (apoiava até a ditadura salazarista em Portugal).

Mas esta nota não tratará de sua obra de escritor e sociólogo e sim de um surpreendente gesto pessoal.

            O outro personagem deste comentário é o escritor piauiense Permínio Asfora (1913-2001), que se formou em Direito no Recife, foi jornalista no Rio (Última Hora) e militou por toda a vida na esquerda. Hoje prática e injustamente esquecido, Asfora, filho de imigrante palestino, escreveu sete romances e um folhetim. Sua obra mais famosa é Fogo verde, lançada em 1951 pela Editora Brasiliense, um clássico do romance social brasileiro, elogiado por gente do calibre de Álvaro Lins, Guimarães Rosa e Octávio de Faria.

            Pois bem. Em meados dos anos 60, eu, praticamente um garoto, tornei-me rato da Biblioteca Municipal de Caruaru, onde a afabilidade da bibliotecária Glória tornava o ambiente mais claro e arejado. Li bastante coisa lá, sem qualquer sistemática, do modo mais caótico possível. E, claro, deixei de ler uma porção ainda maior. Três romances habitavam as prateleiras (às quais tínhamos acesso direto) e estavam na minha mira: Cascalho, de Herberto Sales; Chapadão do bugre, de Mário Palmério, e Fogo verde. Não lembro por que cargas d’água terminei por nunca lê-los. Mas sei que são obras importantes da nossa literatura. Agora, passados 50 anos, pude ler a reedição de Fogo verde  (2003), pela Editora Scortecci, numa iniciativa dos filhos do escritor.

            O romance trata dos conflitos humanos e sociais no interior do Piauí, na primeira metade do século passado, quando foram descobertas cobiçadas minas de cobre, desencadeando disputas econômicas, tramoias políticas e dramas familiares e pessoais, numa linguagem ágil, enxuta, com alguns rasgos líricos. A obra merece, não apenas a fama, mas ser lida e estudada hoje em dia.

            Mas onde entra Gilberto Freyre nessa história?

            É que, nessa reedição, consta um artigo do sociólogo-escritor, estampado no livro Vida, forma e cor, de 1962. (Portanto, quando o mestre de Apipucos já se alinhava às correntes conservadoras e, por conta disso, andou às turras com Permínio Asfora, renitente esquerdista.)

            A leitura dessas duas páginas, uma espécie de resenha de Fogo verde, causou-me profunda impressão. É que Freyre, conhecido por sua vaidade extrema (vaidade “justa”, isto é, em total proporção com seu talento e a importância de sua obra), pratica nesse texto um exercício de humildade e grandeza pessoal e profissional muito, mas muito raras nos meios intelectuais.

 Vamos aos fatos.

 O artigo se intitula "Fogo verde e Permínio Asfora" e começa com a seguinte afirmação: “Há romance ‘social’ e romance ‘social’”. Em seguida, as definições. Um é social porque o romancista quase inconsciente “racionaliza” (...) aspecto ou estado social de civilização ou de cultura, por ele mais agudamente sentido ou observado. Cita Dickens, José Lins, Lima Barreto, Marques Rebelo e outros. Já o outro tipo de romance “social” é deliberadamente social e até socialista, sectário, doutrinário, veículo de propaganda política, “quase sempre um risco para a arte”. E logo em seguida, vai direto ao assunto:

           “Comecei a ler o novo romance de Permínio Asfora  –  meu veIho conhecido do Recife que de repente se separou de mim por motivo sectariamente político e deu até para agredir-me em jornais, – com receio de encontrar em suas páginas simples caricatura daquele primeiro tipo de romance social; e explosão ou crua expressão do segundo. Mas aqui estou para dizer bem alto e bem claro que meu receio desfez-se no começo, ainda, da leitura do vigoroso livro; tão vigoroso que, a meus olhos, toma de súbito lugar ao lado de Cascalho, de Herberto Sales; e aproxima-se em qualidade e virtudes dos melhores romances de Jorge Amado e das melhores páginas de José Américo de Almeida,  o que escrevo pesando bem as palavras e sem desejo algum de ser agradável a um escritor que pessoalmente antes repugna do que me atrai”.

 Diz ainda  Freyre:

 “Vê-se que o autor, em quem cedo se revelou a vocação de romancista, vem procurando aperfeiçoar-se na arte nada fácil do romance. Que sua linguagem vem ganhando em vivacidade e naturalidade, sem resvalar em  excessos  de plebeísmo. Que seu  modo  de associar situações dramáticas às formas e cores de paisagem regional vem aproximando-se de alturas que, em nossas letras só foram atingidas, até hoje, por mestres autênticos. Que o diálogo de seus personagens é solto, puro, simples sem parecer disco etnográfico, gravado em feira ou em reunião de família sertaneja”.

 Fico por aqui. Vocês se lembram de algum intelectual brasileiro referindo-se nesses termos à obra de um desafeto? Correspondências para esse blogue.

Um réveillon fora da curva

31 de Dezembro de 2014 às 08:56
Homero Fonseca

 

 Entrei no cinema para fazer hora, talvez até dar um cochilo – sessão das 13 horas, o ar condicionado um bálsamo para o calor sufocante lá fora. A sala quase vazia – também pudera, além do horário inconveniente, era véspera de Natal. O filme: isso que se chama uma comédia despretensiosa,  A noite da virada (Fábio Mendonça, 2014). Como a tal noite do título é a do réveillon, o lançamento nessa época é uma clara jogada de marketing (mais um fator para baixar minha expectativa).

 Eis que, mal começada a projeção, percebo estar diante de algo diferente: o tom um pouco caricatural e alguns estereótipos estão lá, mas a linguagem cinematográfica era ágil, moderna, eficiente; a interpretação do conjunto de atores uma agradável surpresa (até porque a maioria é relativamente desconhecida); fotografia e direção de arte corretíssimas (Marcelo Trotta e Cassio Amarante, respectivamente), e – o melhor – um roteiro (Nina Crintzs, Claudia Jouvin  e Pedro Vicente) consistente, muito acima da média nacional em qualquer gênero (sou dos que acham que o ponto fraco do cinema brasileiro é o roteiro, ao contrário, por exemplo, do cinema argentino).

 O filme é uma adaptação da peça O banheiro, do dramaturgo e ator mineiro Pedro Vicente, estreada em 1996, com boa recepção de crítica e público. O enredo é o seguinte: Ana (Júlia Rabello), uma profissional bem sucedida, vai dar uma grande festa de fim de ano em sua casa, quando é informada por seu companheiro de muitos anos, Duda (Paulo Tiefenthaler) – um músico quarentão mal sucedido – que ele vai abandoná-la e se mandar pra uma praia selvagem no Nordeste. Bem, são esperadas 300 pessoas, e ela tem de se recompor para receber os convidados, entre os quais estão os vizinhos ricos Mário (Marco Palmeira)  e Rosa (Luana Piovani), o casal amigo Rica fissurado em sexo (João Vicente de Castro) e Alê (Luana Martau), a irmã da anfitriã, Sofia (Marta Nowill) – uma ninfomaníaca com uns quilinhos a mais, e Paulão (Taumaturgo Ferreira), um desses caras de classe média que entrega drogas a domicílio.

 Numa subtrama paralela, perfeitamente encaixada no tema principal, um traficante do morro, Fumaça (Rodrigo Sant’Ana), que iria à festa cobrar uma dívida de Rica, acorda preso acidentalmente dentro de um banheiro químico. Dois jovens maconheiros, André (Juliano Enrico) e Matias (Daniel Furlan), estão na festa meio que de penetras, numa “viagem” eterna, e suas presenças no filme parecem a princípio meio gratuita, mas se revela central no desenlace da trama. Quase todas as cenas são de interiores (a casa de Ana, e mais especificamente seus dois banheiros). Não bastassem os dissabores da moça, abandonada em plena véspera de Ano Novo, ela descobre acidentalmente que o motivo da separação é Rosa, a riquinha mimada, casada com o “coxinha” Mário, e que, ainda por cima, a rival está grávida e não sabe quem é o pai.

Bem, o que temos aí? Alguns clichês, algumas situações inusitadas, uma sucessão de subtramas entrelaçadas, numa equação que tinha tudo para desandar, não fossem a direção segura e criativa de Mendonça (estreante em longa, com experiência em curtas, produções para a HBO e publicidade) coordenando a movimentação de 10 personagens centrais, num espaço exíguo, enquanto a multidão de extras se esbalda no salão da festa, num na adequada condição de pano de fundo); as exuberantes interpretações dos “novatos” (Júlia Rabello, Paulo Tiefenthaler,  João Vicente de Castro, Luana Martau, Marta Nowill e Rodrigo Sant’Ana – os dois últimos roubam a cena em suas aparições; curiosamente, as celebridades globais, Marco Palmeira e Luana Piovani, têm uma atuação correta, mas longe do brilho dos demais); os diálogos enxutos, lapidares, um pouco crus, como sói acontecer na vida e dificilmente são ponto de destaque no cinema brasileiro, em qualquer gênero; montagem (Deo Teixeira) de um dinamismo na medida.

 Com essa miríade de ingredientes, a produção nos serve um prato saboroso, bem acima do nível das comédias tipo besteirol tão comuns por aí: uma comédia inteligente feita para adultos.

 Justamente as características a que, infelizmente, a maior parte do público (atraído aos cinemas pelos nomes globais e a quem são servidos comumente enredos toscos), não está acostumado a assistir. Para piorar (no meu ponto de vista, melhorar) a trama contém um quê de sombrio (enganos, traições, agressões verbais, rivalidades, brigas e um suposto assassinato não intencional; este nada original, mas com desfecho menos óbvio) perfeitamente captado/transmitido pela direção de fotografia.

 Voltei no dia seguinte com Iracema e ratifiquei a qualidade geral do filme, apesar dos clichês, estereótipos e certo tom caricatural, quase incontornáveis nesse tipo de produção. Novamente um público pequeno (dia de Natal!), que, por algumas manifestações que ouvi, esperava outra coisa e saiu insatisfeito da sala de projeção. Também em inúmeras críticas de cinéfilos na internet percebe-se uma certa perplexidade e uma recepção mais pra fria que calorosa, expressa em comentários como “Não é uma comédia rasgada” (para mim um elogio); “Em alguns momentos a piada já parece meio sem graça”; “Para aqueles que estiverem procurando algo bem leve para assistir com a família nesse final de ano, talvez Noite da Virada não seja o filme mais indicado”.

Mas parece que o comportamento do público, em geral, tem sido razoavelmente receptivo. A informação disponível indica que, na primeira semana de exibição, a comédia nacional produzida pela 02 Filmes atraiu 134 mil espectadores, o que não é uma marca milionária, mas com essa performance havia desbancado Jogos vorazes do segundo lugar no ranking das melhores bilheterias (o primeiro lugar, pela segunda semana consecutiva, era previsivelmente do infanto-juvenil  O Hobbit).

 No frigir dos ovos, para um cinéfilo mais experiente tais restrições são vistas com sinal invertido: comédia despretensiosa, sim, com competente carpintaria cinematográfica e abordagem inteligente e adulta. Valeu. 

 

 

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