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Guerra x literatura

11 de Dezembro de 2014 às 00:59
Homero Fonseca

Flávio de Barros/Museu da República Zoom
Guerra de Canudos: irmão contra irmão sem saber porque estão lutando

 

Às vezes, me parece que a vida real é um grande romance, escrito coletivamente pela humanidade. Essa sensação vem quando me deparo com textos de não-ficção narrando episódios verdadeiramente épicos, por vezes dramáticos, trágicos, poéticos ou engraçados. Comparando-os à ficção, vem-me a certeza desoladora de que toda nossa literatura não passa de um pálido pastiche de acontecimentos daquela envergadura. Mas logo esse pensamento com o seu quê de depressivo e paralisante se esvai, quando lembro que essas cenas arrepiantes chegam ao nosso conhecimento por meio de narrativas, orais ou escritas, densas e intensas, logo são também literatura, lato sensu.

Dois exemplos essenciais, ambos com a qualidade de mostrar o absurdo das guerras.

1 – Guerra do Paraguai (1864-1870): houve momentos em que paraguaias, argentinas e brasileiras se uniram no esforço ingente de encontrar em pleno campo de batalha seus maridos soldados, mortos ou feridos. O episódio está contado no livro Elisa Linch – mulher do mundo e da guerra (Biblioteca do Exército Editora, 2007), de autoria do jornalista e economista gaúcho Fernando Baptista, morto em 1993. É uma biografia romanceada da irlandesa que viveu maritalmente com o general Solano López, tendo como pano de fundo o desenrolar da guerra que envolveu, no século 19, Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai. Nas 550 páginas do livro, Baptista adota uma posição tão imparcial que foi condecorado com a medalha do Ministério da Defesa e acolhido como sócio honorário vitalício do Instituto de História e Museu Militar do Paraguai. A biografia obteve o 1º Prêmio Literário Nacional, em 1985. A cena de mulheres de soldados de exércitos diferentes unidas para salvar seus homens, numa guerra que não lhes diz respeito, é um soco no estômago dos belicistas de todos os matizes.

O trecho:

             Esta noite passou sem ninguém dormir em Passo Pocu. As mulheres que acompanhavam os soldados, que somavam quase um outro exército, vindas de Assunção e dos departamentos do interior, prestaram, nessa dolorosa vigília, colaborações valiosíssimas. Iam, elas mesmas, pelas picadas e banhados, no meio dos juncos, onde viviam jacarés, decididas a encontrar seus maridos, filhos e companheiros, ou aproximavam-se a tiro de revólver das trincheiras aliadas, cujos comandantes, percebendo, através da noite iluminada por milhões de estrelas e pela metade de uma generosa Lua, de quem se tratava, advertiram seus soldados para não atirarem. Às vezes, se misturavam paraguaias e argentinas, assuncenas e baianas, mesmo grávidas, auxiliando os padioleiros. Já alta madrugada e de manhã cedo aquela confraternização humanitária havia-se generalizado. Aconteceu um verdadeiro armistício. (...) Dessa forma samaritana, de tão nobre conteúdo humano, alguns milhares de paraguaios, argentinos, brasileiros e orientais foram reconduzidos à vida, tratados e devolvidos às suas famílias, , ainda que sem membros ou cegos pelos estilhaços da tempestade de tiros e granadas.

  2 – Guerra de Canudos (1893-1897): na noite escura, entrincheirados frente a frente, guerrilheiros (jagunços) do arraial sitiado e soldados do Exército brasileiro, enviados para exterminá-lo, travam um diálogo inacreditável. A lição clara é a de que soldados e jagunços eram elementos do mesmo povo, jogados numa guerra fraticida por imperativos políticos e ideológicos que nem conheciam. Com intensa poesia e uma pitada de humor, o episódio está em Os sertões (Editora Francisco Alves, 1997), de Euclides da Cunha, o republicano convicto que foi cobrir a guerra do ponto de vista do “Brasil institucional e civilizado” e terminou produzindo uma contundente denúncia do genocídio praticado no sertão baiano. Eis a cena:

  A vida normalizara-se naquela anormalidade. Despontavam peripécias extravagantes. Os soldados da linha negra, na tranqueira avançada do cerco, travavam, às vezes, noite velha, longas conversas com os jagunços. O interlocutor da nossa banda subia à berma da trincheira e, voltado para a praça, fazia ao acaso um reclamo qualquer, enunciando um nome vulgar, o primeiro que lhe acudia ao intento, com voz amiga e lhana, como se apelidasse algum velho camarada; e invariavelmente, do âmago  da casaria ou, de mais perto, de dentro dos entulhos das igrejas, lhe respondiam logo, com a mesma tonalidade mansa, dolorosamente irônica. Entabulava-se o colóquio original através das sombras, num reciprocar de informações sobre tudo, do nome de batismo, ao lugar do nascimento, à família e às condições da vida. Não raro a palestra singular derivava a coisas escandalosamente jocosas e pelas linhas próximas, no escuro, ia rolando um cascalhar de risos abafados. O diálogo delongava-se até apontar a primeira divergência de opiniões. Salteavam-no, então, de lado a lado, meia dúzia de convícios ríspidos, num calão enérgico. E logo depois um ponto final – a bala.

 

Salinger e o prazer de ler

08 de Dezembro de 2014 às 18:00
Homero Fonseca

Zoom
Salinger: uma prosa que respeita os direitos do leitor

Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymor, uma introdução são duas novelas interligadas de J.D. Salinger e por isso publicadas sempre juntas.A nova edição é da LP&M. (Acho melhor a tradução do título de uma edição anterior – Pra cima com a viga, moçada –  da Editora Brasiliense, 1984.) 

São um bálsamo para leitores, como eu, ainda em busca do prazer da leitura – colocado, esse prazer, no índex dos pecados mortais literários pelo ainda hoje onipresente Roland Barthes.

Pois eu, pecador,  me confesso: prefiro Salinger ao teórico francês. E não me venham com  a conversa de que são coisas diferentes. É uma opção ideológica – a ideologia do leitor-ralé em oposição às teorias aristocráticas..

Não preciso mais dizer da minha admiração pelo recluso escritor americano (1919-2010), que juntamente com Nabokov e Conrad, compõe um dos mais afinados trios de narradores magistrais do século 20.

Mas pra não ficar tecendo loas, compartilho com vocês uma amostra da prosa arrebatadora de Salinger.

Carpinteiros conta um episódio de um casamento não realizado de um irmão do narrador que, no tumulto da cerimônia desmantelada, termina de carona numa limusine, em que seguem ainda a Dama de Honra do frustrado casamento, seu marido, uma tia da noiva e um simpático velhote, também da família ultrajada, surdo-mudo como uma pedra. O assunto naturalmente é a afronta cometida pelo noivo em não comparecer, com destaque para a santa ira da Dama de Honra. Só que ninguém sabe no carro que Buddy é irmão do noivo fugitivo (depois ficamos sabendo ter sido a presepada combinada com a própria noiva, sem conhecimento da família, nem dos convidados). Os diálogos e caracteres dos viajantes na limusine são construções soberbas e vão criando um suspense em crescendo, até quase a exasperação. Então, o mastodôntico automóvel encalha numa rua, onde passava um interminável desfile cívico, justamente no momento em que a identidade de Buddy é revelada e a Dama de Honra cometia uma de suas frases peremptórias. Então...

  “Ela foi interrompida, súbita e decisivamente, pelo mais estridente, mais ensurdecedor, mais impuro mi bemol que já ouvi na vida. Todos nós, no carro, literalmente pulamos em nossos assentos. Naquele instante começou a passar diante de nós uma banda composta do que pareciam ser uns cem ou mais Escoteiros do Mar absolutamente desprovidos de ouvido musical. Com ardor quase delinquente, os rapazes acabavam de abalroar pelo flanco o Hino Nacional. A Sra. Silsburn, muito sensatamente, tapou os ouvidos com as mãos”.

 Não é uma delícia?

 

O grande beijo

30 de Novembro de 2014 às 11:37
Homero Fonseca

Foto: Alfred Eisenstaedt Zoom
Famosa foto tirada em Times Square quando se anunciou o fim da 2ª guerra mundial

  
Bem no meio da conversa, eles se fitaram demoradamente. Todo o ambiente estava impregnado do perfume de jasmim. De súbito, tiveram consciência de sua avassaladora paixão. Ele soube, naquele momento, que a amava intensamente. Ela deixou-se arrebatar por aquele instante encantador. Então, lentamente, eles se aproximaram. Eles pôs a mão direita na cintura dela e enquanto a enlaçava com a esquerda, puxou-a para junto de si. Ela pôs suas mãos em volta do pescoço dele. Nunca haviam estado tão próximos assim.
Aquela era uma oportunidade dourada que os dois amantes selaram com um beijo apaixonado.

Leram aí em cima? Subliteratura pura. E então? Explico.

Estava a ler o chamado “livro perdido de James Joyce”, Finn’s Hotel, escrito em 1923, logo depois do  Ulisses e antes de Finnegan’s Wake, do qual seria uma espécie de ensaio. O problema é que Finnegan’s é ilegível. Somente os especialistas (críticos, professores universitários, teóricos da literatura e leitores tomados pela soberba) conseguem entender – ou fazer que entendem – aquele texto de um experimentalismo ultrarradical.

Não é o caso de seu suposto protótipo, somente publicado décadas depois da morte do irlandês.

Não que Finn’s Hotel seja fácil. Mas é plenamente legível e fluido. São pequenos textos interligados fazendo referência a episódios da história da Irlanda, intertextualizando obras, como Tristão e Isolda – base do texto a seguir – e uma pitada autobiográfica, tudo servido no molho do peculiar humor irlandês.

O trecho é o mais inusitada, sensacional e engraçada descrição de um beijo em toda a história da literatura. Vamos a ela:

“Foi bem aqui que se deu uma coisa bonita. Quando a lisonjeira mão da moça, de pura diversão, quiçá houvera jasmimente bem na hora exata fechado-lhe a casota ela vívida, surda de amor (Você a conhece, aquele ser tão anjo, uma das mulheres de fado encantadas da paixão! Você cai por ela! Você a acha linda de morrer!), com um estranho gritinho reuniu labiolacteamente a dela a dele então as deles desunidas bocas quando prelinguavam a dourada oportunidade de uma vida veloz como porco ensebado o campeão de Armórica com uma só viril estocada línguea mandou o mensageiro avançado do amor direto para lá da dupla linha de centroavantes ebúrneos como artilheiro benhalinaquelafresta rumo à meta da garganta.”

Resta ao leitor gritar: goaaaaaaaaal!

Retomo agora ao início. O texto do início é um pastiche do joyceano. Sentimental, previsível, repleto de lugares comuns.
(Poderia ser um excerto de Sabrina).

Lendo um e outro fica clara a diferença entre literatura e subliteratura.

Erudição canina

01 de Novembro de 2014 às 09:36
Homero Fonseca

 

 

Nina telefona, informando estar numa fase de curtir muita música erudita.

E acrescenta que costuma se trancar no quarto com  Bob, seu dachshund (o popular salsicha). Ele também está gostando bastante.

Pergunto qual a preferência dele? Será Mozart?

Não, não – responde ela. Ele ama Bach.

Ah!

Ontem, ela ligou novamente. Estava indo a um concerto no Teatro de Santa Isabel. E pretendia levar Bob.

Ponderei que certamente ele seria barrado na entrada.

Ela não se fez de rogada: Mas eu direi que ele é um cão erudito!

O voto é secreto, mas...

25 de Outubro de 2014 às 18:00
Homero Fonseca

 
Zé de Arruda, que andava meio desaparecido – ou por que estivesse envolvido com namorada nova ou por que estava deprimido -, me ligou esta manhã. Como se as palavras estivessem represadas, a conversa saiu num jorro só. Praticamente me limitei a ouvir, pois com sua peculiar vivacidade narrativa, o professor prendeu minha atenção desde o início. Transcrevo o quase monólogo:

- Doutor Fonseca. Tive um encontro memorável agora há pouco. Não sei se já te falei alguma vez, mas conheço um cara que mora aqui perto e me fez revelações espantosas. Esse sujeito, um cinquentão bem apessoado, era gerente de uma agência bancária até o ano passado, quando se aposentou. Até então, nossos contatos se limitavam a um bom dia eventual quando ele saía de casa num carrão potente, de paletó e gravata. Depois que se aposentou, encontramo-nos com frequência na padaria ou na farmácia do bairro. Começamos a trocar um dedo de prosa e, nesse período, não sei por que cargas d’água, o homem deu de contar praticamente toda a sua vida, com uma franqueza desconcertante. Deve ser coisa de aposentado. Além de se gabar dos casos extraconjugais frequentes, ele conta coisas curiosas, com bastante naturalidade. Ele também parece ter satisfação em se apresentar como uma pessoa “inventiva”, quero dizer, esperta. Nesses encontros casuais, fiquei sabendo por exemplo que ele mora na confortável casa perto do meu prédio há mais de 10 anos e nunca pagou luz e água: dribla a conta com um macaco e um jacaré. Fiz um cálculo mental: 10 anos dá 120 meses. Assumindo que as contas somadas girem em torno de R$ 300,00 (por baixo, pois a moradia do homem é avantajada), a fraude já lhe rendeu algo em torno de R$ 36.000,00. Parece que esse valor dá pra comprar à vista um carro compacto zerinho, de um belo modelo. Ou seja, falando sem eufemismos, ele roubou um Pálio ou outro carro melhor. Mas esse tipo de raciocínio está longe de passar pela cabeça dele. Quando me fez a confissão, a atitude dele parecia com aquela do Gérson, na propaganda de cigarro: “Eu levo vantagem em tudo!” Outro dia o vi furando a fila no banco, aparentemente ostentando sua condição de ex-gerente de agência bancária. Por essas e outras, meio sem querer passei a observá-lo melhor. Às vezes, ele estaciona o carro em plena calçada, atravancando o caminho do pedestre. Outro dia, apareceu um guarda de trânsito, de talão de multa na mão. Percebi claramente ele tirar a carteira e pagar uma propina ao guarda, livrando-se da multa. Imagino os estratagemas da declaração de imposto de renda dele. Mas paremos por aqui. Não sou fiscal da moralidade pública, nem tenho nada a ver com a vida de quem quer que seja. O curioso é que agora há pouco cruzei com ele na calçada. Com uma camiseta e boné com propaganda de seu candidato, ele me mostrou uma revista Veja que carregava embaixo do sovaco e perguntou em quem eu iria votar amanhã pra presidente, mas nem esperou por minha resposta. Revelou seu voto (o que era desnecessário!) e, julgando-me um eleitor indeciso, tentou me convencer a votar no seu candidato. Fez um proselitismo danado, alinhou uma série de argumentos, tipo “O bolsa família é uma fábrica de desocupados”, “Contra a violência temos de diminuir imediatamente a maioridade penal desses meliantes mirins”, ficou rubro de indignação e por fim tirou da manga o argumento final, definitivo, demolidor:

- Precisamos de mudanças, professor Arruda. Ninguém aguenta mais tanta corrupção no Brasil!

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