Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 23 de Fevereiro de 2019
  • AumentarDiminuirNormal

A imprensa e o homem que sabe demais

26 de Dezembro de 2018 às 12:44
Homero Fonseca

 A Globo foi até o Panamá, em 2013, para tentar comprometer José Dirceu mas, assim como toda a grande mídia, não consegue encontrar nem entrevistar aqui mesmo o motorista de Bolsonaro, Fabrício Queiroz

 

Em novembro de 2013, José Dirceu, preso no chamado escândalo do mensalão, obteve na Justiça o direito de trabalhar durante o dia. E conseguiu emprego de gerente do Hotel Saint Peter, de Brasília, de propriedade de um seu amigo, Paulo Masci de Abreu. No dia 3 de dezembro, o Jornal Nacional da TV Globo deu com grande estardalhaço a notícia de que o hotel, na verdade, estava no nome de um laranja, o cidadão panamenho José Eugênio Silva Ritter, e encontrou-o lavando o carro na porta de sua casa, num bairro pobre da Cidade do Panamá. Toda a grande mídia deitou e rolou em cima na “sensacional revelação”, embora a reportagem não provasse qualquer envolvimento de Zé Dirceu com o fato. A reportagem e sua repercussão melaram o emprego do petista, que continuou por uns tempos atrás das grades.

Posteriormente vieram à tona detalhes do caso. Na realidade, o tal laranja era funcionário do escritório de advocacia Morgan & Morgan, especializado em abertura de firmas em paraísos fiscais, como o Panamá. Assim como no caso do hotel, ele e outros funcionários da banca constavam como diretores de milhares de empresas de vários países, cujos verdadeiros donos, fugindo do rigor do fisco, recorriam aos préstimos da Morgan & Morgan. Prática usual entre grandes e médios empresários brasileiros e de alhures. Se puxassem o fio da meada, vinha muita, muita gente conhecida. Não acho que Dirceu seja nenhum santo, mas recorrer a firmas em paraísos fiscais, criar offshores, abrir contas secretas na Suíça são estratégias usadas por todo mundo no meio empresarial para praticar sonegação de impostos e esconder a origem de certas fortunas. Como ouvi certa vez da boca de um banqueiro: “Isso aqui não é um convento de freiras”.

Vejamos o caso das contas secretas no banco britânico HSBC, revelado em 2015, onde mais de seis mil brasileiros tinham 7 bilhões de dólares depositados (em parte dinheiro  ilícito ou escondido do fisco). Muita gente graúda e conhecida estava envolvida e, por isso mesmo, o escândalo rapidamente foi esquecido pela imprensa. O esquema do HSBC envolvia também criação de offshores nas Ilhas Virgens Britânicas, onde coincidentemente a própria Rede Globo tinha uma empresa de fachada, a Empire Investment Group Ltd, criada em 1999. (O Jornal Nacional não noticiou isso, claro.)

Relembro esses fatos para observar como a grande mídia age com dois pesos, duas medidas: ao contrário do “esforço de reportagem” da Globo no caso José Dirceu, investigando a propriedade do hotel onde ele arranjou um emprego e deslocando uma equipe até o Panamá, a Vênus Platinada, assim como todo o resto da imprensa corporativa, não move um dedo mindinho para encontrar e entrevistar o ex-PM e motorista do Sr. Jair Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que recolhia salários dos servidores do gabinete do deputado Flávio Bolsonaro e fez pelo menos um depósito na conta da futura primeira dama.

Como se vê, para os donos da mídia, liberdade de imprensa é poder escolher livremente o que noticiar e escandalizar e o que omitir, minimizar, 

Sérgio Moro passo a passo: cronologia de uma ação política

01 de Outubro de 2018 às 23:24
Homero Fonseca

 A operação Lava Jato poderia ter sido um importante instrumento para combater a corrupção geral, não fosse o viés ideológico de delegados da PF, procuradores e, sobretudo, do juiz Sérgio Moro. Ele voltou a atacar hoje.

Acompanhem ações e decisões tomadas por Moro e demais protagonistas da Lava Jato ao longo do processo de Lula, que demonstram uma clara estratégia política, atropelando prazos e leis, com o apoio incondicional da mídia:

Novembro de 2014: Moro decreta prisão de Leo Pinheiro, presidente da empreiteira OAS. No pedido de prisão preventiva, o MPF informou que ele estava envolvido “em vários tipos de crimes em contratos da Petrobras, do Metrô de São Paulo e da Arena Fonte Nova”.

05 de agosto de 2015: Pinheiro é condenado pelo juiz Sérgio Moro a 16 anos e 4 meses de cadeia. 

04 de março de 2016: Sérgio Moro decreta a condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor, sem qualquer justificativa, apenas nove dias antes das passeatas pró-impeachment marcadas para dia 13.

16 de março de 2016: Depois de a imprensa haver revelado a intenção da presidente Dilma de nomear Lula ministro, Moro divulgou ilegalmente a gravação de conversas entre os dois, inviabilizando a nomeação. O ministro do STF, Teori Zavaski, então relator da Lava Jato no Supremo, considerou publicamente ilegal o vazamento, mas não tomou nenhuma providência.

1º de junho de 2016: A Folha de S. Paulo informa que a delação premiada de Leo Pinheiro, acertada depois de muitas tentativas, “trava após ele inocentar Lula”.

22 de agosto de 2016: O jornal O Globo informa que foi suspensa a delação premiada de Leo Pinheiro.

22 e 26 de setembro de 2016:Moro manda prender duas das mais altas figuras do PT, os ex-ministros Guido  Mantega e Antonio Palocci, às vésperas das eleições de 02 de outubro. 

20 de abril de 2017: Depois de novas tratativas, o presidente da OAS volta a depor e, desta vez, acusa Lula de ser o proprietário do triplex do Guarujá. As referências ao metrô de São Paulo são esquecidas.

12 julho de 2017: Com base nessa segunda delação de Pinheiro, Sérgio Moro condena Lula a 9 anos e 6 meses de prisão.

24 janeiro de 2018: A turma do TRF4, que havia furado a fila de processos colocando o de Lula na frente de 257 outros, confirmou a condenação e aumentou a pena para 12 anos e um mês de prisão.

04 de abril de 2018: O STF nega habeas corpus de Lula, por 6 votos a 5.

5 de abril de 2018: Um dia depois da decisão do STF, o TRF4 autoriza o juiz Sérgio Moro a decretar a prisão de Lula. Dezenove minutos depois, Moro expede o mandado de prisão. A Justiça brasileira, neste caso, deve ter batido o recorde mundial de celeridade.

22 de junho de 2018: TRF4 homologa acordo de delação premiada de Antonio Palocci com a Polícia Federal, que havia sido rejeitado pelo Ministério Público Federal por falta de provas.

08 de julho de 2018: Moro se insurge contra decisão de desembargador que concedeu habeas corpus a Lula e, mesmo de férias, entra em cena para impedir que “seu preso” seja solto.

01 outubro de 2018: Moro, que andava sumido, volta à tona e, sem justificativa convincente, libera parte da delação de Palocci que incrimina Lula e o PT, faltando seis dias para as eleições.

Conforme demonstramos, há um padrão nos movimentos do juiz-justiceiro de Curitiba: influir nas mobilizações e nas eleições, de modo a prejudicar um determinado político e o seu partido, caracterizando o viés político-partidário-ideológico de suas decisões.


O Grande Dilema

19 de Setembro de 2018 às 12:16
Homero Fonseca

Uma curiosidade: como se posicionarão certas pessoas diante de um segundo turno Bolsonaro x Haddad?

É lugar-comum entre os analistas da atual campanha eleitoral dizer que “tudo pode acontecer”. E é verdade.

Entretanto, neste momento, pelo andar da carruagem, está se configurando um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad.

E diante do clima radicalizado e irracional prevalecente, em que o PT foi demonizado pela mídia há anos – no que o próprio partido ajudou, com seus erros consideráveis – fico curioso sobre como se posicionarão:

1 – Os liberais clássicos que, sinceramente ou da boca pra fora, abominam o totalitarismo encarnado na figura do capitão.

2 – Os intelectuais “isentos” que utilizam metáforas ambíguas e sobre os quais paira a dúvida razoável se não serão direitistas enrustidos.

3 – Os ex-comunistas que têm vergonha de se assumirem neoliberais e direitistas.

 

Lições das letras

16 de Maio de 2018 às 12:40
Homero Fonseca

Foto: Ana Fonseca Zoom

 

 Nas minhas

longas andanças

de leitor,

aprendi duas

ou três coisas:

 Todo escritor é um domador de palavras: tira-as do estado bruto de dicionário e ensina-as a dizer o mundo.

Um romancista inventa vidas e nos convence a viajar nelas.

Poeta é quem come música, vê o vento, ouve as pedras, cheira emoções, apalpa sentimentos.

Autor da 2ª divisão cita; autor da 3ª divisão cita muito; autor da 1ª divisão é citado.

Calendas de abril (I) - O golpe que não queria ser chamado de golpe

02 de Abril de 2018 às 22:22
Homero Fonseca

Foto: José Belém / O Cruzeiro Zoom
Marechal Castelo Branco toma posse cercado de líderes civis e militares

A narrativa dos vencedores, civis e militares, negava veemente que fosse um golpe.

O fato é que, num dia como hoje, em 1964, o golpe civil militar estava consolidado.

O presidente João Goulart havia seguido para o Rio Grande do Sul e o Congresso declarou vaga a presidência da República. Essa espécie de impeachment de Jango ocorreu em nome do combate ao comunismo e à corrupção.

Havia sido precedido de intensa e histérica campanha da imprensa, pregando sua deposição. Intoxicada pela mídia, grande parcela das classes médias havia ido às ruas em passeata nas famosas “Marchas da Família, com Deus pela Liberdade”. O empresariado conspirava nos quartéis, nas caladas da noite. O golpe estava em gestação desde que Goulart, um grande fazendeiro gaúcho herdeiro político de Getúlio Vargas assumira em 1961 e tentava implementar um programa de reformas populares, apoiado pelas esquerdas. O Governo dos Estados Unidos, por meio do embaixador Lincoln Gordon, respaldou a sublevação, primeiro financiando candidatos e movimentos oposicionistas e mantendo estreito contato com os conspiradores; depois deslocando parte de sua poderosa frota do Caribe para o litoral brasileiro, a fim de intervir, se houvesse necessidade. Dia 2 de abril os conservadores brasileiros de todos os matizes estavam eufóricos: a mídia cantava vitória e disseminava a narrativa de que não houve golpe, mas uma revolução. Bispos e padres conservadores celebravam missas de ação de graças para senhoras ricas. Policiais, soldados e jagunços a serviço de latifundiários e industriais prendiam e arrebentavam comunistas e esquerdistas em geral, sindicalistas, estudantes, operários e camponeses.

Isso tudo é história: os militares gostaram do poder, descartaram os líderes civis da insurreição (Carlos Lacerda, Magalhães Pinto et caterva), cancelaram eleições, mandaram a democracia às favas, ficaram no governo por 21 anos e aplicaram um programa neoliberal que “modernizou” a economia (incluindo a infraestrutura) e agravou dramaticamente os problemas sociais brasileiros.

Estavam as Forças Armadas unidas e perfilhadas em torno de um ideal único pela grandeza do Brasil? A paz reinou entre nós, a subversão foi varrida e a corrupção eliminada? Respostas no próximo post, na voz de um dos principais protagonistas do golpe.

 

Últimas Atualizações

Últimos Clips

AchaNotícias

Pernambucânia

Descubra o que há no nome das cidades pernambucanas

Iteia

O Nome da Minha Cidade

Colabore! Mande-nos o que sabe sobre o nome de sua cidade, origens e significado.









Ver mensagens enviadas

Indique

Indique o blog para um amigo





Tags

roliúde teatro evangélicos periferia parcialidade romance twitter lula falcão menos luíza - ascenso ferreira - comunicação - celebridades josué de castro josé lins do rego mangue caranguejo chico science charge política mídia rio amazonas amapá macapá cidades viagem equador marco zero pirarucu jambu luiz ruffato literatura proletários amapá rio amazonas macapá linha do equador floresta amazônica zé de arruda - filosofia - chistes e tiradas - jovem recém-casada roliúde - amor - joseph ratinger - guerra dos mundos orso welles maranhão quito - fernando pessoa - josé paulo cavalcanti filho - poesia portuguesa - sarau plural jazz adorno hobsbawn brubeck america latina - marcus accioly boato pânico recife tapacurá cheias cinema homem de moral paulo vanzolini literatura fantástica lampião cordel corrupção barão de itararé eliana calmon escravidão democracia corintiana sócrates mino carta bienal, centro de convenções, escritor, homenagem, mauro mota, poeta geneton moraes neto - geraldeo vandré - calúnia na internet manifestações corrupção confronto de ideias sarau paixões sidney rocha anaïs nin raymond radiguet stefan zweig steve jobs design jonatah mak amazônia amapá macapá - contestado frança brasil - república do cunani - história sarau plural joca souza leão índice nático flimar literatura marechal deodoro lêdo ivo cléitson feitosa - exposição - grupo evolução, caruaru - sarau plural 21 crônica: a poética do cotidiano - joca souza leão flávio brayner - educação - libertação - crônicas ue encorpo olinda - nome de cidade - lenda de iangai - lula cardoso aires - história - tiponímia dois pesos, duas medidas sarau papa-figo humor bione nélson de oliveira - leis da integridade criativa pedro juan - ofício de escritor

Arquivo