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  • DataPernambuco, 27 de Fevereiro de 2015
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Humanos, demasiado humanos

23 de Fevereiro de 2015 às 10:33
Homero Fonseca

Zoom
Neruda cachimbando: um baú de insultos

Embora possam eventualmente se considerar uma espécie de semideus, escritores (e críticos e jornalistas culturais et alli), costumam, quando vistos de perto, exibir os mesmos defeitos e baixezas de todo ser humano. Nos meios literários pululam, pois, como em todo ambiente humano, atos e cenas de inveja, despeito, ciúme, vaidade, soberbia, traição, pusilanimidade e por aí vai.

A fama, por exemplo, atrai invariavelmente , como poderoso ímã, a inveja e o despeito. Como se demonstra nesse engraçado depoimento do escritor Vargas Llosa, sobre um encontro numa festa com o poeta chileno Pablo Neruda.:

- Eu recebera naqueles dias um artigo - nem me lembro mais sobre qual  assunto - que me entristeceu e enfureceu terrivelmente, porque me insultava e  mentia a meu  respeito.  Mostrei-o a Neruda.  Então nessa festa, e de porre, ele  profetizou: "Você está começando a ser famoso. Quero que saiba o que lhe espera: quanto mais famoso você for, mais  ataques como esse vai receber. Por  cada  elogio,  virão   dois ou três insultos desses. Eu tenho um 1baú  no qual estão  todos os  insultos, infâmias e vilezas que se  podem atribuir a um homem. Não   existe uma que não me tenha sido atribuída:  ladrão, maric6n, traidor, canalha,  cornudo... -tudo! Se você se tornar famoso, terá que passar por uma  experiência  parecida" .

 Foi uma grande verdade: realmente o prognóstico de Neruda se cumpriu de forma absoluta, com todo o rigor. Eu não tenho apenas um baú, mas várias maletas de artigos onde existe toda classe de insultos, onde estão absolutamente todos os insultos que se podem atribuir a uma pessoa.

 In: Conversas com Vargas Llosa – Ricardo Setti – São Paulo: Brasiliense, 1986.

 

 

 

O nome oficial do vilarejo é Mijada da Véia

19 de Fevereiro de 2015 às 02:45
Homero Fonseca

 

            Tanto na ida quanto na volta a Garanhuns, onde durante os dias de carnaval rolou o 8º festival de jazz (um grande programa alternativo), passamos por São Benedito do Sul, cuja principal atração são suas 10 cachoeiras e duas bicas naturais. No distrito de Igarapeba, há um povoado típico da Zona da Mata pernambucana, às margens da PE 126. São 38 casas onde moram 160 pessoas, cujo rendimento médio foi estimado pelo IBGE em R$ 149,64. O lugarejo conta com uma escola municipal. Uma construção em fase adiantada ostenta a tradicional placa informativo-propagandística, onde se lê: “Construção da Unidade Básica de Saúde Mijada da Véia – S. Benedito do Sul - PE”.

            Durante minhas pesquisas para escrever o livro Pernambucânia – O que há no nome das nossas cidades, encontrei topônimos os mais pitorescos por todo o Brasil: Lagoa da Confusão (TO), Alpercata (MG), Arame (MA), Maribondo (antiga Alemoa, MG), Moeda (MG), Não-Me-Toque (RS), Pai Pedro (MG), Ressaquinha (MG), Tuntum (MA), Varre-e-Sai (RJ), Ventania (PR)  e Zé Doca (MA). (Alinhados assim parecem até a escalação de um bando de cangaceiros.)

            Em Minas, há ainda uma cidade chamada Japonvar. Suas três sílabas vêm dos três municípios vizinhos: Januária, São João da Ponte e Varzelândia. O nome estranho foi ideia do pároco local, preocupado com a antiga denominação do distrito do qual se originou a cidade: Cacete Armado.

        Agora, deparo-me com esse lugarejo do município pernambucano de S. Benedito do Sul: Mijada da Véia. Como acontece com frequência, o nome vem de algum acidente geográfico ou coisa assim. No caso, uma das bicas do município, de débil jorro, assim batizada pelo populacho. O nome da bica passou para o engenho onde estava situada e do engenho passou para a povoação ali surgida. Assim nascem muitos topônimos brasileiros.  Só que até agora não apareceu nenhum cura para mudar a denominação do povoado. Que é oficial, como consta no aviso de Tomada de Preços 001/2014 /Processo 006/2014 da Prefeitura para construção da unidade básica de saúde, publicado no Diário Oficial do Estado. A comunidade aparentemente assume com naturalidade o topônimo, a julgar pelo Restaurante Mijada da Véia, a Associação dos Comerciantes e Agricultores da Mijada da Véia e a página Mijada da Véia no Facebook.

Olinda, festa e fé

14 de Fevereiro de 2015 às 02:27
Homero Fonseca

Fotos: 1) Jan Ribeiro/PCO / 2) Ascom AOR Zoom
Sagrado e profano se misturam em Olinda

  

Suada na noite tropical, a multidão sobe e desce, comprimida nas ladeiras de Olinda, acompanhando a orquestra e os estandartes.

Ano após ano, repete-se o ritual, durante quatro dias. São as procissões da Semana Santa (Encerro, Passos, Senhor Morto e Ressurreição) que, aglomerando os fiéis, derramam-se pelas ruas tortuosas do sítio histórico, ecoando nas pedras do calçamento irregular e nas paredes vetustas dos sobrados de varandas mouriscas as notas plangentes dos hinos sacros.

As procissões são organizadas pelas Irmandades, entidades leigas responsáveis pela mobilização, coleta de fundos, organização e saída dos cortejos, a exemplo da Irmandade do Bom Jesus dos Passos e da Ordem Terceira de São Francisco.

Quarenta dias antes, as mesmas pessoas, suadas nos dias caniculares do verão tropical, sobem e descem, comprimidas nas ladeiras de Olinda, acompanhando as orquestras e os estandartes das troças, clubes e blocos, despertadas pelos clarins de Momo e eletrizadas pelo som dos frevos rasgados. São os foliões fazedores da festa. Ano após ano, repetem os preparativos e o ritual da saída das agremiações que integram e dirigem, como O Homem da Meia Noite, Ceroula, Elefante, Pitombeira.

O desfile das procissões e o cortejo carnavalesco exibem rostos conhecidos: são os mesmos os dirigentes das irmandades e das troças, os mesmos músicos, os mesmos responsáveis pela confecção dos andores e dos adereços, os mesmos costureiros das túnicas e das fantasias, os mesmos encarregados de ornamentar as ruas com flores e lanternas ou fitas e máscaras. São os mesmos que arrecadam dinheiro, de porta em porta, para preparar o espetáculo sagrado e o profano. Com a mesma seriedade e dedicação. São católicos fiéis à sua crença e foliões fiéis aos seus clubes. De geração em geração. Todos que moram na Olinda histórica sabem disso, todos se conhecem. O primeiro a registrar a coincidência foi o historiador popular José Ataíde[1], jornalista, funcionário público aposentado, ex-publicitário, ex-vendedor, ex-muita coisa, até figurante menino no filme O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti: “Hoje, como antigamente, os mesmos que dirigem as entidades carnavalescas dirigem, também, as entidades religiosas”.(1)

Trecho do texto "Fiéis foliões", do meu livro Pequeno teatro da vida (Recife: Comunigraf, 2002), base para o roteiro do filme 40 dias (produção: Ricardo Carvalho/RTV, direção: Clara Angélica, roteiro: Homero Fonseca/Pedro Fonseca, fotografia: Jacaré, 2002).

[1] Ataíde, José: Olinda, Carnaval e Povo – 1900-1981 – Edição Fundação Centro de Preservação do Sítio Histórico de Olinda, 1982

O superfolhetim de Jonathan Franzen

23 de Janeiro de 2015 às 16:00
Homero Fonseca

 

 

Terminei de ler Liberdade, o celebrado romance do americano Jonathan Franzen, a sensação literária do momento. (Depois de 14 anos, a revista Time publicou um escritor em sua capa – e o rotulou como “um grande romancista americano” – e o jornal britânico The Guardian classificou a obra como “o livro do século”. Hipérboles à parte, um estímulo e tanto para que a pequena semente de inveja que todos carregam dentro de si encontre um terreno fértil para medrar.)

 De quarta-feira a domingo passados, atraquei-me com a leitura do catatau de 605 páginas, praticamente sem sair de casa e postergando algumas obrigações.

É uma daquelas obras que você agarra e não quer mais largar (os inclinados a metáforas e fantasias diriam que foram agarrados pelo livro), apesar de seus vários senões. Antes do aclamado romance, eu tinha lido do autor os ensaios de Como ficar sozinho (Companhia das Letras, 2012), onde ele aclara o que podemos chamar de seu programa literário:

 Meu trabalho representa uma campanha ativa contra os valores de que não gosto: sentimentalidade, narrativa débil, prosa abertamente lírica, solipsismo, autocomplacênca, misoginia e outros provincianismos, jogos de palavras estéreis, didatismo patente, simplicidade moral, dificuldade desnecessária, fetiches de informação, e por aí vai. 

 Simpatizei bastante: nem as facilidades das exigências idiotizantes do mercado, nem as dificuldades de livros que ninguém lê e que fazem a glória efêmera entre a coorte literária.

 Em Liberdade, Franzen seguie à risca sua plataforma, buscando um equilíbrio entre os extremos, ora alcançado de forma magistral, ora pifiamente falhado. A trama é uma saga de quatro gerações de uma família de classe média liberal, os Berglund: Walter, um nerd ambientalista e racionalista (com abundantes traços patéticos); Patty, sua mulher, ex-campeã de basquete estudantil, eternamente em dúvida sobre suas escolhas pessoais (que sempre se revelam erradas); Jéssica, a filha certinha; e Joey, o filho yuppie e simpatizante do Partido Republicano.  Outro personagem chave é Richard Katz, um roqueiro culto e desencantado que formava um trio inseparável e conflituoso com Walter e Patty nos tempos de universidade, anos 70. Há várias subtramas, envolvendo a família de classe média baixa de Walter e de ricos meio falidos de Patty, as experiências de Joey no mundo dos negócios e da corrupção e sua relação com Connie, uma garota bonita, meio autista, que lhe devota um amor incondicional. O drama vai se desenrolando tendo por pano de fundo um vasto painel da sociedade americana nos últimos 40 anos, a que não faltam ascensão e descensão social, embates ideológicos entre liberais e conservadores, a guerra do Iraque, o 11 de Setembro, questões ambientais (preservação de espécies em extinção, aquecimento global, superpopulação), racismo latente, tramoias financeiras envolvendo o governo Bush, exército, ONGs, magnatas e jovens executivos dispostos a ganhar seu primeiro milhão antes dos 30 anos, custe o que custar – enfim, o páthos americano.

 No núcleo da história está o  triângulo amoroso entre Walter-Patty-Richard. Walter é transparente, certinho, idealista, um apolíneo. Richard é sombrio, cético, mulherengo, perturbadoramente (para Patty) dionisíaco. Patty ama os dois e os dois se amam de uma forma quase platonicamente homoafetiva e amam igualmente Patty, que termina escolhendo a segurança de Walter e passa o resto da vida torturada por ter aberto mão de tudo de aventura e imponderável que o amigo roqueiro representava, até que décadas depois se encontram a sós numa cabana de veraneio. Pra botar mais tempero nessas relações perigosas, surge uma jovem ecologista de origem indiana, Lalitha (quase Lolita, né ?), que trabalha com Walter numa ONG conservacionista e se apaixona pelo seu chefe e ídolo.

 Com todos os ingredientes dos grandes folhetins - amor, ódio, traição, lealdade, desejo e culpa –, e até a ocorrência de suspense entre os capítulos, a narrativa ziguezagueia ao longo do tempo, sem nunca perder o fio da meada. Contém momentos maçantes, como a digressão sobre pássaros (Franzen é um experiente observador de pássaros) ou detalhadas descrições dos negócios escusos, envolvendo exploração de carvão mineral numa área destinada à preservação das mariquitas-azuis. Cortar umas 100 páginas do texto seria uma boa pedida. 

Tudo é contado por um narrador onisciente, exceto alguns trechos narrados pela protagonista, numa clave bem esquisita: ela se refere a si mesma na terceira pessoa, como “autobiógrafa”, no mesmíssimo registro de voz do narrador principal. Não há pois mudanças perceptíveis no modo de narrar, de forma que o uso do recurso “moderno” soa como um adereço supérfluo.  A construção dos personagens (densos, confusos, contraditórios, às vezes patéticos) e os diálogos (ágeis, precisos, vívidos) são pontos fortes de Franzen.  Mas mesmo aí há certos escorregões, como quando, em alguns momentos, os personagens analisam seus conflitos em diálogos mais longos, artificiais, “sociológicos” e intelectuais em excesso.

 O conceito de liberdade, fulcral na cultura americana, está presente transversalmente em toda a narrativa, tanto na vida pública quanto na esfera privada. Mas, os personagens, atordoados pelas exigências do ofício de viver, parecem se perguntar perplexos: o que fizemos com nossa liberdade?

 A linguagem está muito acima do ramerrão da literatura comercial, sem resvalar para os floreios formais tão ao gosto dos doutores da literatura, com direito a momentos memoráveis, como na cena em que Walter e Richard vão assistir a um concerto de uma banda de rock cujo jovem líder é definido como o  Artista Inspirado Sofredor:

  Ele encenava sinceridade, e quando sua encenação ameaçava  desmentir a sinceridade, ele encenava sua angústia sincera diante do quanto era difícil ser sincero.

 Até alfinetadas viperinas em um desafeto literário, praticamente nomeado: Ele tirou da sacola o livro que sua irmã lhe dera no Natal, Reparação, se esforçando para se interessar por suas descrições de salas e jardins...

 Ou dando-se o direito de certo lirismo, contido: No fim da noite, quando o trânsito diminuía, os pinheiros próximos ao escritório cuidavam, honestamente, de sussurrar.

Há um episódio digno de nota, que a meu ver constitui um exímio exercício de metaliteratura, embora alguns comentaristas de má vontade tenham enxergado uma demonstração de imodéstia. É uma das cenas mais dramáticas do livro, quando se materializa a traição de Patty com Richard. Ela passa dias com o marido numa casa à beira de um lago, convidam Richard, mas antes que ele chegue Walter vê-se obrigado a viajar imprevistamente. Patty está lendo Guerra e Paz. Está grudada na leitura, mas tem dificuldades em entender as descrições das sucessivas manobras militares. Com a saída de Walter, desata-se uma tensão sexual de alta voltagem entre os dois. Ela doida pra dar, mas sentindo uma culpa paralisante. Para fugir ao constrangimento, Patty volta à leitura do romance russo. Ela própria conta depois em suas memórias: A autobiógrafa não sabe dizer se as coisas teriam tomado um rumo diferente caso ela não tivesse chegado justamente às páginas em que Natacha Rostova, obviamente destinada ao aparvalhado e bom Pierre, se apaixona pelo grande amigo deste, o elegante príncipe Andrei. (...) É provável que as coisas não tivessem ocorrido de maneira diversa, mas o efeito que essas páginas tiveram sobre ela, sua pertinência,  foi quase psicodélico.

 Por que considero essa cena um exercício magistral de metaliteratura? Por que ela tem uma função. Não é gratuita. Os dois textos ficcionais se entrelaçam e a ação de uma personagem age como gatilho para liberar a ação da outra. Patty se identifica com Natacha, dividida entre o amor por dois homens, dois amigos. E fica espantada com a pertinência da situação de ambas, quando ela estava justamente enredada no angustiante dilema entre o prazer e a lealdade, entre trair ou não trair. E à noite, num estado indefinido entre a vigília e o sonambulismo, na escuridão e no silêncio da noite, ela se levanta, envereda pelo corredor e se aninha na cama de Richard, dando vazão a 30 anos de desejo represado. Em tempo: a descrição é elíptica, sugestiva, ambígua.

 Franzen conclui o livro exatamente como nossos teledramaturgos encerram uma novela da Globo: no último capítulo, todas as pendências se acertam. A diferença é que, em seu superfolhetim não há heróis nem vilões. E mesmo quando ocorre a triunfante convergência final entre os personagens, de certa forma eles são apenas as ruínas de si mesmos. E no melodramático fecho da história, a coisa toda é descrita com maestria: a cena é áspera, sombria, quase inconclusiva. O amor triunfa claro, mas tem um gosto amargo: e a expectativa sobre se triunfará ou não deixa o leitor em suspenso até os últimos parágrafos.

 Liberdade é um livro montanha-russa: cheio de altos e baixos e de vertigens. Ao  fim e ao cabo, e apesar dos pesares, o romance consegue nos restituir o raro prazer da leitura, terminantemente proibido por Roland Barthes e seus epígonos..

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PS: Lastimável a edição sumamente desleixada do livro – recorrentes erros de revisão, gralhas, supressões, truncamentos – inadmissível para uma casa do porte e do retrospecto da Companhia das Letras.

 

Reflexões meio na contramão sobre o atentado ao Charlie Hebdo

12 de Janeiro de 2015 às 22:25
Homero Fonseca

Imagem de TV Zoom
Uma manifestação inesquecível: repúdio ao terror, defesa da liberdade de expressão e unanimidade midiática

 

Vi pela TV a monumental manifestação de ontem em Paris em solidariedade às vítimas e em repúdio ao atentado terrorista contra a redação do jornal satírico Charlie Hebdo.

 Sinto-me, como todo o mundo (exceto uma minoria de fanáticos islamistas) indignado contra a brutal ação contra a liberdade de expressão e o horrendo assassinato de 12 pessoas pacíficas.

 Vendo a extensa cobertura da TV francesa (e mundial) sobre a mobilização daquela enorme multidão, me vieram algumas reflexões que compartilho com quem eventualmente me ler.

 - Premissa geral: o atentado foi abominável e burro.

Abominável porque uma ação anti-humana.

Burro, por suas consequências políticas, ou seja, termina por reforçar as posições do "inimigo" (um exemplo: Bush estava em baixa, apagado politicamente etc., quando aconteceu o 11 de Setembro, criando uma onda patriótica que o salvou e, mais ainda, permitiu a ele expandir seus planos militaristas e econômicos no Oriente Médio, com apoio da mídia e da população americana.)

 - No caso Charlie, a mídia, por indignação legítima, e por oportunismo (aumentar tiragens e audiências), como aliás sói acontecer em tais casos (vide a morte de Lady Day), deu uma cobertura espetacular, explorando ao máximo os aspectos emocionais.Isso cria um clima de unanimidade, mas com certo respaldo na "solidariedade fácil", que se alastra por imitação e faz com que um anônimo morador de uma vilazinha nos confins do mundo, sem a menor ideia do conflito terrível no Oriente Médio, bole um cartaz EU SOU CHARLIE, acenda uma vela na praça... e saia na TV.

 - Como consequência, a emoção pura afastou a possibilidade de reflexão (ver a complexidade da questão, o enorme imbroglio no Oriente Médio, seus antecedentes, a violência dos dois lados, os grandes interesses internacionais em jogo, a estupidez do fanatismo religioso  etc). Em nenhum momento, estou justificando o atentado, mas tentando entender e explicar.

 .- A manifestação foi realmente um fato extraordinário. Algo inesquecível, aquela multidão desfilando com seus cartazes, a presença de 50 chefes de Estado, inclusive o Abbas, presidente da Autoridade Palestina (a assessoria da presidente Dilma pisou na bola: ao invés de se fazer representar pelo  embaixador brasileiro , ela devia ter ido pessoalmente). Um basta monumental ao terror. Um desses momentos cívicos que nos reconforta enquanto cidadãos.

 - O atentado e outras ações tresloucadas de extremistas islâmicos abriram caminho para retaliações de grupos igualmente radicais de antiislamistas, que atacaram mesquistas etc., iniciando uma espiral de violência.

 - Além disso, criou um terreno fértil para a proliferação do ideal conservador na Europa (em todo o mundo), reforçando os partidários das políticas antiimigratórias e estimulando a xenofobia.

 - Particularmente, me deu um calafrio as cenas apresentadas na TV de pessoas gritando em coro VIVA A POLÍCIA e aplaudindo um desfile de viaturas policiais (a mesma Polícia que em maio de 68 atacou brutalmente os estudantes nas ruas).

 Fica a pergunta:

Quantos daqueles franceses (e pessoas de outras nacionalidades) brancos (era reduzida, ao que vi, a presença de negros ou gente de procedência árabe na manifestação, exceto líderes religiosos moderados, preocupados com a imagem dos muçulmanos), de boa aparência, orgulhosos com absoluta razão das tradições de Liberté, Igualité, Fraternité, ao aplaudir e entoar palavras de ordem à ação policial, não estavam se regozijando do fato de os terroristas terem sido mortos e não capturados, achando, no fundo da sua alma, que bons eram os tempos em que essa escória terceiromundista não tinha invadido seu território e, mais no fundo ainda, que árabe bom é árabe morto?

 - São ideias provocadas pelas imagens e falas globalizadamente transmitidas.

 Bem, que fique claro que se eu estivesse em Paris estaria na passeata.

 VIVA A LIBERDADE, VIVA A PAZ. ABAIXO O TERRORISMO E CUIDADO COM O FACISMO!

 

 

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