Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 20 de Setembro de 2017
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Com Sartre, num banheiro

07 de Setembro de 2017 às 00:19
Homero Fonseca

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Sartre, no Les Deux Magots, momentos antes de ir ao banheiro

 Estou tendo o privilégio de ler nos originais “Contos da era das canções e outros escritos”, de Aluízio Falcão, uma antologia de crônicas e artigos sobre música popular brasileira e outros temas, como literatura e linguagem.

Não é uma coletânea qualquer: os textos do pernambucano-paulistano estão sempre muito além da banalidade, contendo reflexões e informações valiosas. Traz nada menos de 50 “biografias” de clássicos do nosso cancioneiro, revelando as origens e processo criativo de composições de várias épocas.

E, para satisfação dos futuros leitores, também muitos casos pitorescos e/ou engraçados envolvendo cantores, compositores, escritores, intelectuais, gente do povo. É daí que extraí a história mais engraçada envolvendo o filósofo Jean-Paul Sartre que já li ou ouvi até hoje.

 

Com a palavra, Aluízio Falcão:

“Contaram-me que um brasileiro, ávido e informado leitor de Jean Paul Sartre, nutria pelo filósofo uma reverência extraordinária. Exilado pela ditadura militar, passou a morar em Paris. Frequentando assiduamente bares e cafés do Quartier Latin era possível que, de repente, avistasse o seu ídolo, mesmo de longe. Isso aconteceu, e não foi de longe, mas de muito perto. Encontraram-se ambos, por artimanhas do acaso, usando o mesmo banheiro de um restaurante. Olhando de lado, o brasileiro descobriu, estupefato, a     inesperada companhia. Balbuciou, trêmulo, com a genitália na mão: “Monsieur Sartre?”. “Sim”, respondeu o filósofo. E o brasileiro, sem achar outras palavras: “É uma honra mijar ao seu lado!”

 

A causa secreta da depressão

29 de Agosto de 2017 às 00:36
Homero Fonseca

Zoom
Natascha Kinski em "Tess" (1979)

 Vou passando pela calçada de um bar e ouço o grito:

– Careca filho da puta!

Há meses fora de circulação por conta de um quadro depressivo severo, meu amigo José Alonso de Arruda me ressurge em carne, osso e álcool.

Abraço-o com efusão e, apesar de seu estado lamentável – aliás, por isso mesmo – aceito seu convite para sentar à mesa. Meio sem graça e sem assunto, pergunto-lhe como tem andado, o que anda fazendo, banalidades do gênero. De repente, depois de um longo trago no uísque já meio diluído, ele bota pra chorar, resmungando uma algaravia onde só distingo uma palavra, ou melhor, um nome de mulher: Natascha.  Julguei entender a situação: Zé devia estar com dor de cotovelo ao ser abandonado por alguma nova namorada. Pergunto-lhe quem é Natascha e a resposta me deixa perplexo:

– Natascha Kinski.

–Natascha Kinski?!

– Sim, Natascha Kinski.

Lembrei-me da bela atriz alemã, que descobrimos em 1979, no filme “Tess”, dirigido por Roman Polanski. Na época, ela tinha 18 anos e era casada com o diretor. Hoje, é uma senhora de 56 anos. Pois, Zé Alonso chorava por uma ninfeta que não mais existe. Descobri quando ele me levantou os olhos vermelhos e perguntou, mais para si próprio, a bem da verdade:

– O que é que aquele merda de Polanski tem que eu não tenho?

E danou-se a chorar novamente. Tentei consolar meu amigo, inclusive explicando que ela hoje deveria ter um monte de rugas, pregas e pelancas. Mas ele nada ouvia. Apenas repetia, inconsolável:

– Eu nunca a comi, não como, nem comerei. Isso é insuportável, cara, insuportável.

Foi assim que eu soube a causa secreta da depressão do meu amigo.

O Uno e o Astro

26 de Agosto de 2017 às 23:51
Homero Fonseca

 O Uno e o Astro

 Garagem apertada, entre pilotis. Pilotando meu reluzente Uno Mille negro semana passada amassei a lateral contra a parede, ao estacionar, ganhando uma sólida mancha branca. Ontem, nova manobra, nova mossa, ainda maior e mais branca.

Nado, o porteiro do prédio, testemunhou as duas barbeiragens. Esperei algum comentário, mas ele não disse nada.

Hoje, ao presenciar quando estacionei o carro incolumemente, ele não se conteve:

- Tá aprendendo, NE, chefe? Já viu as manchas aí do lado? Seu Fiat é feito Michael Jackson: tá ficando branco.

 

 

São João e ditadura

13 de Junho de 2017 às 00:32
Homero Fonseca

O ano de 1969 foi todo de ressaca política: o AI-5 implantara o golpe dentro do golpe, cassando parlamentares da oposição, reprimindo duramente o movimento estudantil, prendendo e arrebentando. As cadeias regurgitavam de gente, professores universitários escapados das grades partiram para o exílio, milhares de estudantes foram expulsos das universidades pelo famigerado Decreto 477.

Eu, aos 21 anos, atrasado nos estudos devido à militância política e problemas de saúde, fazia o cursinho gratuito mantido pelo DCE da Federal na antiga Fafipe – Faculdade de Filosofia de Pernambuco, na Boa Vista. Tinha participado das grandes passeatas estudantis de 1968, mas, depois de uma passagem intensiva no Partido Trotskista, tinha resolvido me afastar de qualquer organização política. Vivia então na mais salutar vagabundagem: fora as quatro horas do curso noturno, o resto do tempo era dormir, comer, ouvir MPB e rock, ler autores latino-americanos, ir toda tarde ao “quem-me-quer”  da Rua da Aurora ver o footing das garotas e, quando o dinheiro dava, tomar umas e outras. Fim de semana, todas as atenções da minha turma de estudantes lisos eram focadas em descobrir uma boca livre onde se comesse, bebesse e eventualmente dançasse.

Lembro de uma vez em que, depois das aulas, cheguei a uma “república” ali nas imediações do Parque 13 de Maio e o pessoal tinha descoberto um casamento em Tejipió e estava se preparando para o assalto. Eu, que nunca me distingui pela elegância, estava em estado deplorável: uma calça de sarja verde-escuro com umas riscas pretas e uma camisa de mangas curtas amarelo claro. Estava pronto para um botequim, não para um casamento. Alguém me emprestou um paletó quadriculado de azul, branco e preto, cujo dono era mais baixo e franzino do que eu, de modo que as mangas terminavam no meio dos braços. Eu parecia um espantalho, mas depois de duas ou três caninhas de esquente, tomamos um ônibus e seguimos lépidos e fagueiros. Fomos muito bem recebidos pela modesta família da noiva ou do noivo e me embriaguei com gim e caranguejo – mistura que nunca mais ousei tornar a experimentar em minha vida.

Mas o que o que queria contar mesmo foi a extraordinária noite, em plenos  festejos juninos, em que fui parar numa quadrilha de universitários, num casarão das Graças, em plena Rui Barbosa. Dessa vez eu tinha sido avisado com antecedência e fui um pouco mais composto. O que me deixou meio constrangido foi quando soube que aquela era a mansão do professor Newton Sucupira. Explico: o professor alagoano radicado no Recife desde menino era talvez o mais brilhante quadro universitário do regime militar, um nome demonizado pela estudantada de esquerda. O homem era uma sumidade e tinha sido ninguém menos que o principal responsável pela implantação da famosa reforma universitária, posta em vigor em novembro de 68. Com efeito, a reforma tinha aspectos positivos, até hoje vigentes, como a extinção das cátedras vitalícias, a aglomeração das faculdades em departamentos e a valorização da pesquisa acadêmica, mas vinha no bojo da repressão e desmobilização de professores e estudantes, enfatizando em demasia a formação para o mercado. Por isso, nosso lema era: Hay reforma? Soy contra! Esse era o motivo do meu constrangimento e certamente de outros, mas logo insinuou-se o prazer de se divertir em plena toca do leão.

O professor Sucupira, católico e conservador, estava em pessoa supervisionando a festa, a partir de um ponto estratégico: uma cadeira de balanço num canto da comprida varanda, na penumbra. A festa se desenrolava um pouco afastada, mais embaixo, nos magníficos jardins da casa. À medida que a cachaça circulava e o forró imperava, acentuava-se a sensação solerte da transgressão. Lá pras tantas, começou a quadrilha, com o pessoal devidamente caracterizado. O marcador era um sujeito magro, alto, gaiato, vestido de padre, um desses exímios animadores de festas. Foi ele quem protagonizou a cena inesquecível daquela noite junina, puxando um diálogo com a plateia, entre um anarriê e um alavantu:

– Viva Santo Antônio!!

– Viva!!!

– Viva São João!!

– Viva!!!!!

– Viva São José!!!

– Viva!!!!!!!!!!!

– Abaixo a ditadura!!!!

– Abaixo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Não lembro se, na saída, o insigne professor ainda estava lá em cima, em seu posto de observação solitário. Mas ficou gravado em minha memória combalida o gostinho da presepada: uma vitória simbólica na guerra das forças progressistas brancaleônicas contra o Dragão da Maldade da direita tupiniquim.

 

O Diabo na Avenida Norte

12 de Junho de 2017 às 12:05
Homero Fonseca

 

 Entro no café, vou direto ao balcão, peço um capuccino.

O cidadão já estava lá, sorvendo lentamente seu expresso. Me olha com olhos vivos e simpáticos e dispara sem bons dias nem preâmbulos:

– Hoje eu vi o Diabo na Avenida Norte!

Espera para ver o efeito de sua frase bombástica.

Viro-me para ele, interessado. Ele explica:

– Eu seguia no meu Opala Diplomata bem conservado, meio distraído, tentando me lembrar do que precisava comprar para terminar a reforma do meu apartamento em Jardim São Paulo, quando avistei a figura...

– A figura? De chifres, rabo e tudo o mais?

Ele sorveu o café com prazer, apertando os olhos miúdos, e me explicou condescendente:

– Não, meu amigo. A figura que vi não era nenhum capeta desses que a gente via no catecismo quando era menino. Não, senhor. Nada disso.

Olhou ao redor. Havia umas poucas mesas ocupadas àquela hora. No balcão só havíamos eu e ele, o Homem que Viu o Diabo. A balconista trouxe meu capuccino, foi a minha vez de sorvê-lo prazerosamente. O cidadão pegou o fio da meada de volta:

– Foi mais ou menos à altura da esquina da Rua da Harmonia, em Casa Amarela.

– É lá que eu moro.

– Ah, então conhece... Pois bem, na esquina do outro lado estava parada uma mulher, esperando para atravessar. E que mulher!

Nesse momento, seus olhos cintilaram com um brilho antigo. Continuou, eu cada vez mais atento:

– E que mulher! Morena, alta, tinha mais curvas que a estrada de Santos da música de Roberto Carlos. Um vestido vermelho, bem justo, curto... um par de coxas! Um decote desses que deixam os dois ombros de fora... cabelos pretos, meio compridos, cacheados... Um batonzão vermelho na boca...

Descrevia a mulher de olhos fechados, como quem revia na memória a cena agradabilíssima.

– De repente... BRRRUM. Me enfiei na traseira de um caminhão-tanque que seguia em frente e parou no sinal. Felizmente eu tava com o cinto de segurança e ia em baixa velocidade. Senão, esse seu amigo não estaria aqui pra contar a história. Mas a batida acabou com a dianteira do meu carrão. Ela encolheu como um fole quando o sanfoneiro juntas as duas mãos, assim... Um prejuízo enorme.

Comecei a rir e o simpático velhote me acompanhou, divertindo-se com a própria desgraça.

– Mas como é que o senhor tem essa certeza de que a mulher bonita era o Diabo?

– O Diabo em figura de gente. Por que, com o estrondo do choque, o trânsito parou e todo mundo ficou olhando a barroada. Pelo retrovisor, vi a morena. Ela estava sorrindo! Um sorriso malvado, safado, como quem diz: “Bem feito!” Eu, um velho, casado, olhando uma gostosa na esquina...

Deu uma gargalhada, agora foi minha vez de acompanhá-lo.

– Pra finalizar, deixa eu lhe contar. Tudo isso aconteceu em poucos segundos. O radiador do carro ainda estava fumaçando, abri ligeiro a porta, desci e olhei em volta procurando a morena... Nada! Ela tinha sumido de repente. Era o Diabo!

Pagou a conta e saiu lampeiro. Fiquei rindo em silêncio, curtindo a história. Quando lembrei do meu café, ele já tinha esfriado na xícara.

 

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