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Corrupção, motos e contínuos

26 de Dezembro de 2011 às 18:53 em
por Homero Fonseca

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Brasão da Casa de Itararé

 
Em meados dos anos 50, o Barão de Itararé (Aparício Torelly) deu uma definição do sistema vigente no Brasil em seu Almanaque: como o povo só conseguia ver o Estado em ação quando os batedores de motocicletas abriam caminho nas ruas para as autoridades em seus carros de luxo ou então, quando, ao adentrar uma repartição pública para resolver qualquer problema, se defrontava com um contínuo que logo se oferecia para levar uma propina a fim de facilitar as coisas, nosso regime seria um misto de motocicleta com  contínuo, isto é, o moto-contínuo!

Não sei se rio ou choro com a piada, sociologicamente engenhosa, pois, nada mudou nessas seis décadas. A elite continua divorciada do povo e a corrupção está em toda a parte. Acho até que as coisas pioraram.

Certos grandes males sociais continuam persistindo nas mentalidades, mesmo após sua extinção formal, jurídica.
Joaquim Nabuco disse que o grande problema nacional, após a abolição do cativeiro, era erradicar a escravidão da alma das pessoas. Quando Canudos foi destruído, já sob o regime republicano, em 1897, os vencedores distribuíram entre si e seus amigos, como um butim, algumas crianças órfãos aprisionadas no assalto final. Era o monstro escravocrata levantando a cabeça .

(O próprio Euclides da Cunha ganhou um “jaguncinho” de presente do general Artur Oscar, e entregou-o a um amigo em São Paulo, o renomado professor Gabriel Prestes, que o criou decentemente, deu-lhe seu sobrenome e educação, formando-se Ludgero Prestes professor e tendo chegado a diretor de grupos escolares em duas cidades paulistas, casado e pai de quatro filhos. Euclides acompanhava os progressos do seu protegido, por meio de correspondência com o velho Gabriel Prestes e com o próprio Ludgero. O final feliz da história não altera o caráter essencial da tragédia: centenas de órfãos de Canudos foram apropriados e distribuídos como “coisa”, ou seja, escravos.)

Ainda hoje milhões de empregadas domésticas são tratadas como semi-escravas, quase sem direitos trabalhistas, morando nas senzalas modernas (as tais “dependências de empregada”), servindo de babás e pajens nos sábados, domingos e feriados, sem vida própria, privacidade etc.
As ditaduras, mesmo depois jogadas na lata de lixo da História, continua m entranhadas ainda por um tempo no ethos das sociedades, na forma de um autoritarismo introjetado pelas pessoas, o que permite que os superiores tratam mal os inferiores e qualquer autoridadezinha de meia tigela aja arbitrariamente, prendendo, torturando e matando à margem (claro) da lei. Isso ocorre todo dia e só causa indignação quando a vítima é branca e da classe média pra cima.

O mesmo ocorre com a corrupção. Longe de ter sido extinta, é um fenômeno que se alastrou, desde quando Rui Barbosa, em 1914, fez o célebre discurso no Senado (“Vergonha de ser honesto”), até hoje. Não creio que a corrupção tenha aumentado com o PT, mas foi lamentavelmente tolerada nos últimos anos em nome da governabilidade. O que cresceu muito foi sua exposição, por meio de denúncias da imprensa e investigações pirotécnicas da PF.

Tenho visto alguma mobilização, ainda tímida, contra a corrupção. Claro que isso é positivo e o ideal é que cresça e vire onda. Mas vejo alguns problemas:

Primeiro, muitos desses movimentos me parecem politicamente estreitos, uma manipulação de setores de classes médias e altas que, no fundo, querem atacar é os avanços sociais dos governos recentes. A indignação é contra “a corrupção do PT”. E o resto, meus camaradinhas?

O segundo problema é que, além de pecar pelo casuísmo, digamos assim, boa parte (não digo toda) dessa mobilização me cheira a um exercício de hipocrisia. Muita gente que entope as cartas às redações dos jornais e revistas e as redes sociais da internet com protestos indignados contra a corrupção pratica a sua corrupçãozinha em causa própria, quando se vê apertada. Caso do pai do rapaz que atropelou e matou o filho da atriz Cissa Guimarães e ofereceu propinas as policiais para livrá-lo do flagrante e levou imediatamente o carro para uma oficina para esconder os vestígios do crime praticado pelo filho. Essa mentalidade é muito mais difundida do que se admite, basta ao olhar ao redor.

Lembremo-nos como a corrupção é uma mão dupla, formada por corrompidos e corruptores. Então, se você paga a um guarda de trânsito para não levar uma multa, você é tão corrupto quanto ele. E a diferença entre a sua gorjeta e a milionária propina paga por um empreiteiro a um ministro é apenas quantitativa! Se existem políticos corruptos é porque existem empresários corruptores dispostos a vencer a qualquer custo as milionárias (ou bilionárias!) concorrências. Feito o ovo e galinha, não se sabe quem veio primeiro, mas são parte constitutiva do mesmo sistema.

Não faz muitos anos, a dona da Daslu, a loja dos ricaços e novo-ricaços brasileiros, foi presa por sonegação de impostos. E as entidades patronais de São Paulo, à frente a Fiesp, promoveram uma comovente reunião de solidariedade... à empresária pega com a boca na botija. Estavam presentes representantes de uns 70% do PIB brasileiro. Que belo exemplo!

Agora, a ministra Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, está sendo apedrejada por seus pares, por denunciar e investigar a corrupção no Poder Judiciário, um dos organismos que deveriam ser baluarte do combate à desonestidade, mas onde, conforme as próprias palavras da corregedora, se aninham um bocado de “bandidos de toga”. Um bom mote para uma mobilização urgente agora é a defesa da ministra cuja vida, na minha opinião, não corre menos perigo que a da juíza Patrícia Acioli, que teve a coragem de enfrentar a corrupção da PM no Estado do Rio e foi sumariamente eliminada.

Outro dia, estava eu num restaurante em certa capital brasileira, quando o dono fazia um discurso contra a roubalheira reinante, para mim e mais dois ou três clientes. Logo em seguida, entrou sua esposa, afogueada e indignada, informando ter acabado de pagar mais de R$ 10 mil em propinas para os fiscais da obra de expansão do seu estabelecimento! Ora, se eles estavam pagando o toco era porque havia alguma irregularidade! E agora, José?

Quantas pessoas teriam a dignidade do jogador Sócrates, recentemente falecido por problemas hepáticos causados/agravados pelo alcoolismo, que declarou se recusar a tentar usar seu prestígio e influência de celebridade nacional para furar a fila dos transplantes de fígado? Quem fizer um exame de consciência e se convencer de que agiria igualmente, atire a primeira pedra.

Portanto, lutemos contra a corrupção generalizada, começando por nossas ações e omissões no dia a dia. É uma luta enorme, difícil, penosa e que só será vencida quando o conjunto da sociedade despertar para a consciência ética da necessidade de sua extirpação.
Enquanto o brasileiro vociferar pelos cantos, escrever cartas à redação, participar de uma ou outra passeata nas “zonas sul” contra a corrupção, ao mesmo tempo em que fura filas, oferece dinheiro para não ser pego pela lei seca, se beneficia de parentes e conhecidos nos escalões governamentais para apressar a aprovação de seus projetos ou esquecer uma multa – nada mudará. A corrupção tem que ser enfrentada no campo externo das instituições e no campo interno das pessoas. Pra cima com a viga, moçada!

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Aos mais jovens
Aparício Torelly (1895-1971) , o Barão de Itararé, foi um jornalista gaúcho, militante político e um dos maiores nomes do humor brasileiro. Trabalhou em vários jornais e fundou alguns, como A Manha e o Almanaque da Manha.
Algumas de suas célebres tiradas:


De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
. Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
. Quem empresta, adeus...
. Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
. Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
. Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.
. Quem só fala dos grandes, pequeno fica.
. Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
. A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
. Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

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