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Cléitson Feitosa, de Caruaru para o mundo

22 de Novembro de 2011 às 20:42 em
por Homero Fonseca

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Cléitson com Jorge Amado e Zélia Gattai, numa de suas exposições, na Embaixada brasileira em Paris

 
Aí pelo final dos anos 60, em Caruaru, formávamos o Grupo Evolução, reunindo a turma jovem interessada em teatro, literatura, cinema, poesia, música, dança, política e futebol . Lembro, dentre os participantes, de meus irmãos Humberto e Héber (i.m.), Lucélcito Cintra, Vital Santos, Alcimar Vólia, Graça, Adilson Barbosa, Arnóbio Costa, Zito e mais um monte de gente. Havia algumas figuras de peso, já artistas reconhecidos, que nos apoiavam e nos transmitiam experiência e saber, como Antônio Medeiros (saudoso diretor), Argemiro Pascoal e Arary Marrocos (que ainda hoje tocam heroicamente o Teatro Experimental de Arte) e o também saudoso poeta Lício Neves. A eles, minha homenagem.


Editamos uma revista mimeografada, chamada Evolução, com poemas, contos, resenhas e pequenos ensaios que, salvo engano, teve dois números publicados. Encenamos peças e esquetes, não apenas em Caruaru, mas em Taquaritinga do Norte, Panelas, Bezerros, São Caetano e outras cidades.


Quando não estávamos ensaiando, escrevendo, lendo ou encenando algo, costumávamos, após o encerramento das aulas noturnas, ficar conversando até tarde na Rua da Matriz ou bebendo no bar de Raminho, em frente ao Cinema Santa Rosa. Éramos “gauches” (nos dois sentidos), não frequentávamos a chamada sociedade local (exceto em porres homéricos no Clube Intermunicipal, onde éramos penetras) , sonhávamos com a Revolução e tínhamos uma solidariedade abstrata, ideológica com setores marginais. Lembro de um dia em que alguém, creio que Adalberon, levou à nossa mesa no bar, orgulhoso e excitado, um amigo recém-conquistado. Era um negro de uns 30 anos, magro, de olhos injetados, já bastante biritado, que nos foi apresentado não pelo nome mas pela profissão: “Turma, esse é um amigo que conheci esta noite. Ele é ladrão”. Ficamos siderados com a visita ilustre, a quem adulamos bastante e pagamos algumas cervejas. Na expectativa de narrativas eletrizantes, saí um pouco decepcionado pois, durante toda a noite, o notável personagem somente repetia: “O bom cabrito não berra!”


Pois bem, foi a essa turma que um dia se incorporou, numa das rodas de bate-papo na Rua da Matriz, um cara que se chegou timidamente e logo se tornou um dos “notáveis” do grupo. Chamava-se Cleitson Feitosa, era do Recife (de Casa Amarela, o mitológico bairro dos grandes comícios da esquerda na capital) e estava morando com a avó nas imediações da Rua Preta, que mais que uma rua indicava um bairro popular de Caruaru. Assim que se enturmou, Cleitson revelou-se um conversador de mão cheia, irônico e inteligente, e, principalmente, um ator nato. Imitava Marlon Brando, John Wayne e tudo que era astro do cinema e logo se incorporou ao braço teatral do grupo, com talento reconhecido.


Depois, nos dispersamos, cada um foi cuidar de sua vida. Vital Santos se transformou num diretor e dramaturgo premiado internacionalmente. Cleitson me informou que estava indo tentar a sorte no Rio de Janeiro. Fora indicado para a Aldeia de Arcozelo, uma espécie de albergue e centro de treinamento para a turma de teatro, mantido pelo embaixador Paschoal Carlos Magno (dramaturgo, diretor, crítico, fundador do Teatro do Estudante do Brasil e uma espécie de padroeiro das artes cênicas brasileiras).


Depois disso, nunca mais tive notícia de Cleitson, até ler uma nota na coluna Repórter JB, do então influente Jornal do Brasil, aí por volta de 1980, dando conta de que um ator brasileiro, Cléitson Feitosa, fazia sucesso nos cafés de Paris. Visitei-o na França, em 2000, em seu apartamento, onde vivia com a mulher Nicole, jornalista francesa, e o filho Guarany (para quem levei uma camisa do Guarani Futebol Clube, com grande receptividade!). Cleitson encenava espetáculos teatrais, musicais e folclóricos, com elencos multinacionais, em várias cidades francesas, especialmente as administradas pelo Partido Comunista, e em outros países. Também estava se dedicando às artes plásticas, pintando e produzindo uns estandartes com uma estética personalíssima.


Há uns três anos, reencontrei Cléitson, por acaso, na Bienal do Livro do Rio. Ele estava de volta ao Brasil, vivendo entre um apartamento em Botafogo e um sítio na bucólica Paty do Alferes. Onde andou recolhido nos últimos meses, pintando e confeccionando seus estandartes e máscaras, que agora serão exibidos na Galeria Manuel Bandeira, da Academia Brasileira de Letras. Aos amigos cariocas e quem estiver no Rio nesse período, aqui vão as dicas:


Exposição - Cleitson Feitosa: A Arte dos Estand’Artes, máscaras e pinturas
Galeria Manuel Bandeira - Academia Brasileira de Letras
Inauguração: 25 de novembro de 2011, às 18:30h.
Coordenação: Nicole Nicolas Feitosa / Curadoria: Alexei Bueno.
Período de exposição: 25 de novembro a 16 de dezembro.

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