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Olinda ou a lenda de Iangai

12 de Junho de 2011 às 15:40 em
por Homero Fonseca

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Olinda: várias interpretações para o seu nome

“A ORIGEM DO NOME ‘OLINDA’”
A Lenda de Iangai

Na apresentação de Pernambucânia - O que há nos nomes das nossas cidades, enfatizei que se tratava de um trabalho em progresso. Ou seja, sempre poderiam surgir novas versões para os nossos topônimos pois raras são as cidades que têm documentada origem de seu nome. Até casos aparentemente simples, como o de Olinda - com a versão consagrada de uma interjeição de Duarte Coelho, seu fundador, diante do belo sítio que, diga-se de passagem, era ocupado pela etnia caetés - comportavam várias interpretações. Agora mesmo me deparo como uma nova lenda a respeito e que, numa eventual terceira edição do livro, incorporarei.

Está registrada num antigo número da revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco e é da lavra de Luiz Cardoso Aires.
Eis o texto:

"As malocas dos caetés amanheceram em azáfama. Até as mulheres atendiam ao chamado dos borés. A valente tribo dos nativos brasileiros se preparava para assaltar o acampamento dos brancos, onde Duarte Coelho Pereira, recenvindo de Portugal com sua esposa d. Brites de Albuquerque e o cunhado Jerônimo de Albuquerque, tomara posse da Capitania de Pernambuco, doada por d. João III, e dera início à povoação.
Os fidalgos e amigos, companheiros do donatário, sabem, por informações dos índios tabaiaras que, além dos morros, existe a poderosa nação dos caetés.
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É o ano de 1535. Tarde de verão. Duarte Coelho e sua gente descobrem, no morro onde está a Sé, o sinal guerreiro, denunciador das hostilidades dos aborígenes. Todos se preparam e esperam. Os tabaiaras são aliados dos brancos. Um pouco mais e uma saraivada de flechas dá início ao combate.
A luta se encarniça.
Cai em poder dos brancos, como prisioneiro, um pugilo dos bravos caetés. Há entre eles também mulheres. E no meio delas está Iangai, a bela índia, de contornos sazonados, seios túrgidos, formosos olhos mongóis e impregnada de perfumes silvestres. Tem os dentes alvos e corretos, e os lábios carnudos envolvem-lhe a boca louçã e sedutora. Embora prisioneira, Iangai com altivez deliciosa zomba dos brancos.

Duarte Coelho é atingido por uma flecha. Recolhe-se, com a ferida sangrando.
E a batalha prossegue, sem desfalecimentos.
Tabira, chefe dos tabaiaras, aliado aos colonizadores, conduz os prisioneiros à presença do donatário. Duarte Coelho, ao ver Iangai, radiosa de revolta e envolvida pelo frescor de sadia juventude, exclama fascinado: ÓLINDA!

Pede-lhe Tabira, então, consentimento para sacrificar os prisioneiros. Duarte Coelho, porém,, exclui Iangai.
E a formosa índia, quando partem seus companheiros para o sacrifício, envolve-os com um olhar doloroso de angústia, seus lábios balbuciam qualquer coisa e uma lágrima cristalina ilumina-lhe a face crestado pelo sol dos trópicos. Entre os condenados à morte está Camura, o eleito do seu coração bravio – um guapo rapagão, de olhar penetrante, tez descoberta e músculos sedutores.
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Hajissé e Piragibe, valorosos guerreiros tabaiaras, desconfiam sempre dos propósitos de Iangai que permanece fiel ao juramento de amor a Camura.
Vigiam-na secretamente.
Duarte Coelho se desespera ante o desprezo de Iangai, a quem visita escondido de sua esposa.
A índia d. Maria do Espírito Santo Arcoverde, tabaiara, que se havia batizado casando com Jerônimo de Albuquerque, um dia conta discretamente a Duarte Coelho que a sua ÓLINDA, como ele a apelidara, tenciona matá-lo. O donatário da Capitania de Pernambuco, entretanto, não acredita. Ele a ama, e o amor condescende sempre.
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Desprezado assim por Iangai, Duarte Coelho se consola em citar o seu nome. E o faz com volúpia. E quando escreve para Portugal, vai datando as suas cartas: Deste Pernambuco, ou desta Olinda da Nova Lusitânia etc.
A nobreza de uma homenagem a quem lhe despertara o amor e o desprezo.

Um dia, a notícia se avoluma: o último dos caetés desaparecera – Iangai fugira!
Saem em sua perseguição.

E, após incessante batida, encontram o cadáver da linda autóctone afogado em folhas de curare, o tóxico que abundava nas matas de Palmira, próximas das atuais ruínas.

Pelo poente, a saudade do sol debuxa o último adeus às terras americanas do Brasil.
Iangai se suicidara!

Vencido, assim, o derradeiro caeté que fora o próprio amor de Duarte Coelho, este incrementa a construção da cidade e lhe dá o nome do seu sonho – OLINDA.

Diz-se que ainda hoje, quando o sol desce no ocaso, viandantes ouvem, pelas imediações das ruínas de Palmira, de envolta com o sibilar modulado das cigarras, o cantar longínquo duma mensagem de saudade.

Mas ninguém ainda pôde identificar aquela voz misteriosa de mulher."

Luiz Cardoso Aires
in Revista do IHAG de PE, volume XXXII, n. 151 a 154, Recife, 1932.

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