Após sobrevoar o arquipélago de Marajó, o avião cruza a linha
do Equador e aterrissa em Macapá, única cidade brasileira de importância
cortada pelo traçado imaginário que divide em dois o Planeta Terra.
A cidade, de 400 mil habitantes, é urbanisticamente
planejada, com largas avenidas cruzando ruas retas, todas em péssimo estado de
conservação, motivo de chiadeira geral contra a Prefeitura. Está à margem do
rio Amazonas, perto de sua foz, o que torna o cenário deslumbrante. É toda
horizontal (vi apenas um edifício residencial de uns 10 andares, outro em
construção; o resto tem apenas um, no máximo dois andares superiores). É
pequena, porém decente. Não há muito sinal de riqueza, exceto por carrões
reluzentes circulando pra lá e pra cá, nem de miséria extrema, tipo favela,
mendigos etc. Há comércio informal nas ruas, razoavelmente discreto. A orla é
linda e bem conservada, com calçadões, parques, jardins, bares, lojas de
artesanato, píeres e cais onde atracam as embarcações típicas do Amazonas: gaiolas,
catraias, voadeiras e barcos turísticos. Ao largo, fundeados à espera de
atracação no porto de Santana, um pouco abaixo, uma dúzia de grandes cargueiros
em busca do manganês da Serra do Navio. O Forte de São José, construção do
século 18, é esplêndido e bem conservado.
Há museus de história local, de assuntos indígenas e
afro-brasileiros. No povo nas ruas, não vejo predominância de traços indígenas,
como esperava, mas a miscigenação da maioria da população brasileira.
Estou aqui em pesquisa, não há tempo para muita curtição
turística, mas o escritor Paulo Tarso Barros me ciceroneia por alguns locais
“obrigatórios”: o Marco Zero do Equador, que lembra estarmos “no meio do
mundo”; o sambódromo à imagem e semelhança da Marquês do Sapucaí no Rio; o
estádio Zerão, cuja divisa de meio campo coincide com a linha equatorial (está
em reforma; nas partidas de futebol, os locutores ressaltam estar tal time no
hemisfério norte e o outro, no hemisfério sul); o Mercado de Artesanato.
Fico num simpático Hotel do Forte, bem na orla, diante da
imensidão do Amazonas que, no horizonte, parece despencar nos confins do mundo.
Da janela do meu quarto, no 1º andar, vejo a silhueta das ilhas do Marajó. Vou
ao acanhado Mercado Central, desisto de almoçar lá, termino, num restaurante
perto, comendo um soberbo pirarucu grelhado com
jambu, a erva que se usa nas receitas do tacacá e que anestesia a boca.
O Amapá tem uma área de 142.814,6
km2. Um relevo onde
predominam planície com mangues e lagos no litoral e depressão na
maior parte, interrompida por planaltos residuais, tudo coberto por uma vegetação que vai dos mangues
litorâneos ao cerrado, os chamados campos gerais, à Floresta Amazônica., que,
descobrirei, não é só uma.
Segundo leio na Wikipedia, origem do nome do estado é
controversa. Na língua tupi, o nome amapá significaria 'o lugar
da chuva' :ama (chuva) e paba(lugar, estância, morada). Segundo a
tradição, porém, o nome teria vindo do nheengatu
- língua geral
da Amazônia, uma espécie de dialeto tupi jesuítico
- significando "terra que acaba" ou "ilha". Segundo outros,
a palavra amapá é de origem aruaque e
identificaria uma árvore da família das Apocináceas.
(Esta é a versão minha favorita, vejam porque:) A árvore produz um fruto saboroso, em formato
de maçã, de cor roxa, que é parte da farmacopeia
amazônica. Da casca do tronco dessa árvore, o Amapá (Hancornia amapa),
típica da região e cujo desenho está no brasão do Estado, é extraído o látex
(chamado leite de amapá) usado na medicina
popular como fortificante, estimulante do apetite e também no
tratamento de doenças respiratórias e gastrite. Popularmente conhecida como
"amapazeiro", a espécie encontra-se ameaçada, dada a sua exploração
predatória para extração da seiva.
Preparo-me para uma viagem pelo interior a dentro do Amapá.
Mas aí será outra história.
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