Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 01 de Junho de 2016
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Quem são os golpistas e quais suas motivações?

29 de Maio de 2016 às 14:13
Homero Fonseca

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Miguel Nicolelis, um dos maiores cientistas em atividade no mundo

 

Bresser Pereira já havia esclarecido os aspectos políticos e econômicos do golpe (compartilhei antes no Facebook). Agora, o neurocientista Miguel Nicolelis, uma das glórias intelectuais brasileiras, enxerga os agentes do golpe: os envolvidos em corrupção, que querem manipular as investigações em concluio com setores do judiciários, e os neoliberais, decididos a, à revelia da vontade popular, entregar riquezas estratégicas ao capital internacional.Eis um destaque de sua entrevista a Alex Solnik, publicada no portal 246 anteontem (27/05/2016):

– ... Eu estou preocupado é com a sanha... um governo que era para ser interino, num período de transição, não poderia estar tomando as decisões, a magnitude das decisões que eles estão tomando sem ter uma legitimidade eleitoral. Eles estão desmontando o país, com uma sanha neoliberal, tentando impingir ao Brasil uma agenda que foi rejeitada em quatro eleições presidenciais.

– Não é nem neoliberal, é a agenda da direita mais retrógrada... –

– Meu receio é que existem dois golpes misturados um com o outro. O golpe de uma classe de gangsters que está tentando escapar da cadeia, que é o primeiro nível do golpe, representado principalmente por setores do PMDB, mas tem o segundo bloco, que tem basicamente uma agenda de destruição da soberania nacional. Com a entrega não só de recursos naturais e de “assets” do estado, mas o total desmantelamento da indústria, da ciência, da educação, de tal maneira que o Brasil se perpetue como um estado vassalo. Eu acho que são dois blocos misturados e a briga intestina que nós estamos vendo na imprensa e nesses vazamentos todos é porque existem facções uma brigando com a outra.

A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE NICOLELIS ESTÁ AQUI:


http://www.brasil247.com/pt/247/cultura/234717/Nicolelis-ao-247-o-Brasil-est%C3%A1-nas-m%C3%A3os-

As entranhas do golpe

23 de Maio de 2016 às 12:41
Homero Fonseca

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O senador e ministro Romero Jucá: diálogo cristalino

 A gravação da conversa, em março passado, entre o senador e atual ministro Romero Jucá e o então presidente da Transpetro, Sérgio Machado, é a mais cristalina exposição das entranhas do golpe e suas motivações -- tirar Dilma, atingir Lula e parar a Lava-jato. Além, acrescento eu, da implantação, sem consulta eleitoral, do ideiário neoliberal (privatização geral, incluindo do pré-sal, destruição de direitos trabalhistas e sociais, retrocesso amplo, geral e irrestrito).

Depois dessa, continuar negando o golpe passa a ser ingenuidade ou adesão escancarada.

PRINCIPAIS E REVELADORES TRECHOS DA CONVERSA - publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...

JUCÁ - É, a gente viveu tudo.

JUCÁ - [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem 'ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca'. Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.

MACHADO - Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. [referência possível ao pedido de prisão de Lula pelo Ministério Público de SP e à condução coercitiva ele para depor no caso da Lava jato]

JUCÁ - Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento...

MACHADO -...E burro [...] Tem que ter uma paz, um...

JUCÁ - Eu acho que tem que ter um pacto.

O COMPUTADOR QUE QUERIA SER GENTE, AO VIVO E EM CORES

21 de Maio de 2016 às 16:16
Homero Fonseca

 

Amanhã, domingo, às 16 horas, dentro da programação do Passeio Literário, promoção conjunta da Cepe e Plaza Casa Forte, no piso L3 do Shopping, haverá contação de história do livro "O Computador que queria ser gente”, pela atriz Sissi Loreto.

Estarei presente para eventualmente assinar autógrafo para algum leitor mirim. Quem tiver filhos ou netos entre seis e doze anos está especialmente convidado, com os guris, claro.

Paulo Meireles (13/10/1931 – 11/05/2016)

13 de Maio de 2016 às 18:24
Homero Fonseca

Foto: Aeroclube Campina Grande Zoom
Dr. Paulo Meireles: coerência até o fim

 

 Morreu anteontem, no Recife, aos 84 anos, dr. Paulo Meireles – professor, clínico e cardiologista –, um dos grandes nomes da medicina em Pernambuco.

O Jornal do Commercio de hoje publica um dos mais singulares anúncios fúnebres que já vi. Assinado por ele próprio, em perfeita coerência com suas ideias sobre a vida e a morte.

Ateu, como dr. Dráuzio Varela, não ornou sua nota de falecimento com nenhum símbolo religioso, não quis missa de corpo presente nem de sétimo dia. Foi cremado numa cerimônia íntima, a que compareceram apenas seus familiares mais próximos.

Sua última mensagem é uma demonstração de que não é necessário qualquer forma de misticismo para se amar a vida e as pessoas e se viver honrada e eticamente até o último suspiro, com alegria e a sensação do dever cumprido.

Salve Paulo Meireles. 

 

NOTA DE FALECIMENTO

PAULO NUNES MEIRELES 13.10.1931.- 11.05.2016

Comunico meu último suspiro,às 20:27 do dia 11 de maio de 2016 - Eu e meu modelo biológico cumprimos bem nossas missões. Agradeço aos que me amaram e admiraram com profunda alegria!  Amei a vida, a família, os amigos, a profissão. A vida continua bela. Ame-a.

A máscara do golpe

12 de Maio de 2016 às 23:01
Homero Fonseca

Foto: Igashiyama Zoo Zoom
Os "gorilas" de 1964 também negavam que o movimento fosse um golpe

 Tenho entrado em divergência com alguns amigos a propósito da situação política, me esforçando para não ser dominado pela raiva e, sobretudo, para não traduzi-la em agressividade e irracionalidade. Não é fácil pra mim, não deve ser pra eles.

De qualquer maneira, a discussão central é se o afastamento da presidente Roussef foi ou não um golpe. Geralmente, os que defendem o impeachment argumentam com o cumprimento de formalidades jurídicas que dariam um caráter constitucional ao kalten putsch (golpe frio, como chama a imprensa alemã).

Para mim, o processo nasceu no exato momento em que, derrotadas nas eleições de 2014, as oposições não se conformaram com o resultado. A partir dali, a grande mídia e os setores mais conservadores do empresariado (que nunca se conformaram de verdade com a ascensão de um operário sem um dedo à presidência da República, nem com as políticas inclusivas do PT) se uniram aos derrotados e passaram a fustigar violentamente o governo, aproveitando a conjuntura de uma séria crise fiscal (logo amplificada desproporcionalmente até se transformar, pelo terrorismo das expectativas, numa crise geral, recessiva).  Os erros do PT (muitos e indesculpáveis) foram usados para justificar a campanha massiva então deflagrada, mas o real objetivo eram os acertos do PT e a perspectiva de sua permanência no poder.

A Operação Lava-jato (em si, uma iniciativa positiva contra a corrupção sistêmica que grassa entre nós há muito, muito tempo) paulatinamente se desviou para uma rota política, dirigida exclusivamente contra o partido do governo e seus aliados, com vazamentos seletivos, conduções coercitivas injustificáveis e outras truculências, que se constituíram num autêntico estado de exceção comandado pelo aparato da “República de Curitiba”. O processo foi se autoalimentando  dialeticamente, até formar uma bola de neve que, com o combustível diário despejado na fogueira da opinião pública pela TV Globo, Veja e a maioria da grande imprensa, criou as condições psicossociais para a derrubada do governo, suprimindo ou minimizando as vozes da resistência, arrastando o próprio Supremo na “grande onda cívica” gestada por esse formidável complexo conspiratório, até elevar o clima nas ruas a um grau de hostilidade e ódio nunca antes visto na história deste País.

Fotos Públicas Zoom
A grande mídia foi um dos principais protagonistas do golpe, mobilizando a opinião pública a seu favor

 Foi essa maré montante que permitiu as estranhas cenas de antigos militantes contra a ditadura de 1964 marchando nas mesmas passeatas em que marcharam Bolsonaro, Eduardo Cunha (simbolicamente), as dondocas perfumadas da Avenida Paulista e os brucutus portadores de faixas pedindo a volta dos militares. Sentiam-se incomodados, mas estavam lá, na mesma trincheira. Depois pediram a cabeça de Bolsonaro e festejaram a suspensão do mandato de Cunha para apaziguar as consciências.

“Pedaladas” e créditos suplementares ao orçamento foram usados como pretexto – nem se deram ao trabalho de provar cabalmente a ocorrência de crime de responsabilidade fiscal. Valia tudo para defenestrar a presidente e torpedear a presumível candidatura Lula em 2018.

O resultado dessa vasta articulação é o tsunami conservador que ameaça varrer o país, afogando conquistas sociais e trabalhistas (nem em 1964 os milicos ousaram estuprar a CLT, como farão agora), entregando o petróleo (a ala majoritária do Exército tinha um viés nacionalista) como já anunciaram com o pré-sal, instaurando um clima de caça às bruxas em matéria de direitos humanos e diversidade de gênero, sexo, cultura, etnias, religião etc. No campo político e econômico, o velho Entreguismo está de volta, travestido de moderno ideário neoliberal. Em termos de costumes, a Idade Média bate às nossas portas vestida de Prada.

Os que negam o golpe branco de hoje alegam as diferenças com o ocorrido há 52 anos. Claro que há diferenças. Os métodos se tornaram mais sofisticados, privilegiando a via institucional, como fizeram em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e agora no Brasil. Tanques nas ruas só em último caso.

Entretanto, é bom lembrar que, em 1964, os autores da deposição do presidente da República negaram veementemente que se tratava de um golpe, afirmaram que agiam justamente em defesa da democracia e cumpriram rituais pseudolegais, para manter a aparência de constitucionalidade: o presidente do Senado, Áureo de Moura Andrade, proclamou legalmente vaga a presidência da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a chefia do governo. Também no Recife improvisou-se uma “solução jurídica”: o impedimento de Arraes foi aprovada pela Assembleia Legislativa por 45 votos contra 17, numa votação "democrática".

Em 1964 era, como hoje é, fundamental para os conspiradores manter a aparência de legalidade, tanto para efeito interno quanto, e principalmente, para o público externo. Os golpes sempre usam máscaras.

Se é certo que a História se repete como farsa, suas consequências, porém,  podem ser trágicas. Quem viver verá.

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