Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 21 de Janeiro de 2018
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PF agora indicia por intuição!

16 de Janeiro de 2018 às 12:02
Homero Fonseca

Quando se pensava que as acusações e condenações sem provas, respaldadas tão somente nas convicções de procuradores, policiais e juízes, seriam o máximo que o aparato político-jurídico-policial em ação no Brasil poderia produzir, inventou-se agora a acusação baseada na “intuição policial”. É o que vem explicitado no indiciamento do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, pela Polícia Federal, de crime eleitoral na campanha de 2012. A PF apresentou documentos que demonstrariam o recebimento de Caixa 2, mas não provam a participação direta de Haddad no crime, como a lei exige. Baseando-se em um vídeo de 2016, no qual Haddad, depois das eleições, pede doações à militância pela internet para cobrir dívidas dessa campanha, o delegado da PF João Luiz Moraes Rosa, responsável pelo inquérito, tasca:

Embora referido vídeo não faça prova cabal de que FERNANDO HADDAD possuía ciência do montante total dos valores relativos à prestação de serviços da empresa gráfica LWC, no pleito de 2012, porque diz respeito à campanha de 2016, constitui significativo elemento indiciário de que o candidato a Prefeito em tela tem (...) pleno conhecimento de quem foram os prestadores de serviço de sua última campanha eleitoral, bem como os respectivos valores dos serviços contratados. Ora, se assim ocorreu em relação ao pleito de 2016, é intuitivo que também tenha ocorrido em relação à eleição de 2012.” (Grifos meus.)

É mais uma das incontáveis demonstrações do estado de exceção kafkiano vigente no Brasil e ocorre num momento estratégico: às vésperas da condenação (alguma dúvida?) de Lula em segunda instância, dia 24 próximo, pelo TRF da 4ª região.

No mesmo dia (15/01/2018) a PF anunciou a abertura, no âmbito da Operação Lava-jato, de novas investigações com base na famosa delação premiada do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, em que o senador Romero Jucá foi flagrado explicando o golpe em andamento (“Com Supremo e tudo”) e envolvia altos figurões do PMDB e do PSDB, inclusive o senador Aécio Neves, lembram? Pois os novos inquéritos da PF envolvem apenas políticos do PT: os ex-ministros petistas Ideli Salvatti e Edson Santos e os ex-deputados Cândido Vaccarezza e Jorge Bittar, além de Henrique Eduardo Alves (PMDB), já preso.

Seria coincidência que o PT seja novamente fustigado em momentos politicamente cruciais, como agora, quando o partido prepara uma mobilização para se contrapor à crônica de uma condenação anunciada?

Como teria sido coincidência a condução coercitiva de Lula sem justificação, apenas nove dias antes das passeatas pró-impeachment de março de 2016? 

Ou as prisões, em ações espetaculares, de duas das mais altas figuras do PT, ex-ministros dos governos Lula e Dilma  — Mantega, no dia 22 de setembro e Palocci, no dia 26, uma semana antes das eleições municipais de 2 de outubro de 2016?

Você acredita em coincidência? E em Papai Noel?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Longa jornada ao desespero

14 de Janeiro de 2018 às 15:20
Homero Fonseca

Zoom
Kate Winslet: atuação soberba

 O que dizer de um filme cujo gênero somente se revelará na última cena?

Assim é Roda Gigante (Wonder Wheel), o último Wood Allen, em cartaz na cidade.

A obra rachou a crítica ao meio e agradou em cheio ao público (claro, não um público qualquer, mas aquele dos aficionados do talvez mais prolífico diretor de cinema A da atualidade). É também um dos raros trabalhos do diretor sobre o qual, se você entrasse no cinema um pouco depois dos créditos e nada soubesse sobre ele, teria dificuldades em identificar a autoria, ao contrário da maior parte de sua filmografia.

O tema é relativamente batido: Ginny é uma ex-atriz que abandona a carreira após ser deixada pelo primeiro marido (que ela amava) por infidelidade dela e, depois de uma profunda crise, casa com Humpty, viúvo, às voltas com o alcoolismo. São dois náufragos que se agarram um ao outro como tábuas de salvação. Vivem uma vidinha medíocre em Coney Island, na década de 50: ela é garçonete, defrontando a crise dos 40 anos e tem um filho problemático (o personagem mais original do velho diretor, oscilando com grande sutileza entre o dramático e o cômico), Richie, um garoto de uns 10 anos, cujo desajuste se expressa numa piromania incontrolável.O marido gerencia um carrossel num parque de diversões, onde moram. Humpty é um americano de baixa classe média típica, bruto e terno ao mesmo tempo. Ginny se amargura por ter abandonado seus sonhos artísticos. Eles se apoiam de certo modo, melhor seria dizer se suportam. Dois fatos quebram a rotina miúda do casal e impactam dramaticamente suas vidas: o envolvimento de Ginny com um estudante de teatro que trabalha durante o verão como salva-vidas na praia e a chegada da filha de Humpty, Caroline, que rompera com o pai, bem jovem, para casar com um gângster, do qual acabara de se separar e estava jurada de morte por tê-lo denunciado à Polícia. Pra piorar tudo, Caroline também se envolve com Mikey (o estudante salva-vidas).

Esse quadro é formado por cenas fortes (como o reencontro de pai e filha e o longo plano sequência final) costuradas com surpreendente suavidade, fazendo com que o filme resvale pelo melodrama, sem cair na pieguice. A história tem uma inspiração mais ou menos evidente na peça Longa jornada noite adentro (Eugene O’Neil, 1941), devidamente citada, como um dos seus antecessores – Blue Jasmine– era uma releitura de um Um bonde chamado desejo (A Streetcar Named Desire), de Tennessee Williams (1947). Mas tudo é recriado e as marcas de Wood Allen se mostram no texto (desta vez bem mais enxuto), com diálogos precisos. Entre a obviedade e o paradoxo, o filme parece haver confundido a crítica e feito a delícia dos espectadores: a temática sombria, a fotografia extraordinária de Vitorio Storaro (praticamente um personagem), a direção de arte acurada, o ritmo estranho (às vezes dando a sensação de marasmo, outras acelerando os conflitos), o roteiro oscilando o tempo todo entre o previsível e a surpresa (difícil saber se é falha ou mérito do autor) fazem de Roda gigante uma obra meio fora da curva na filmografia de WA. A história vai avançando do banal à tensão mais aguda, com atuações dos atores acima da média, e  questões como o destino, a culpa, o ciúme, a loucura e, sobretudo, a desesperança são expostas sem saltos, mas com uma intensidade contida (nesse ponto, o tango “Beijos de fogo”, que pontua a trilha sonora sem jazz, funciona como uma nota irônica ao drama que se desenrola). Um exemplo é a perseguição dos gângsters a Caroline: são apenas duas cenas sugestivas, sem correria, sem tiros, sem sangue, sem cortes alucinantes – o que diferencia marcadamente a obra do autor, às vezes prolixo, roçando a repetição – dos produtos hollyoodianos. Roda gigante é, sem dúvida, a mais bem sucedida incursão de Allen fora da comédia (sem a chatice de Interiores, de 1978, imitação do estilo de Ingmar Bergman, ídolo do neurótico cineasta nova-iorquino). Haveria muito a dizer, mas me faltam tempo e competência. Chamo a atenção para um ponto central: a atuação soberba de Kate Winslet. Sua personagem vai crescendo ao longo da trama, dando-lhe margem para uma interpretação impressionante, à altura (maior até) de uma Gloria Swanson em Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder, 1950). Só La Winslet vale a ida ao cinema. E pra quem não pode passar sem a indicação do gênero de um filme, Roda gigante é, sim, uma tragédia americana.

 

 

 

Marcelo Odebrecht solto. Eu não disse?

19 de Dezembro de 2017 às 12:53
Homero Fonseca

Há pouco mais de um ano (em 7/11/2016) escrevi num blogue um longo e pesquisado artigo intitulado “O homem mais poderoso do Brasil”, no qual procurei analisar, com base em farta documentação (com os devidos créditos), a atuação do juiz Sérgio Moro à frente da Lava Jato. Expus, resumidamente, o seguinte: até prova em contrário, Moro é um homem honrado (princípio da presunção de inocência, que ele relativiza). Em decorrência de sua ideologia, o Savonarola do século 21 vem agindo de forma gritantemente parcial, atropelando as leis, para mandar um líder político de esquerda para a prisão (ao cair em suas mãos, Lula já estava previamente condenado – afirmei no artigo, muito antes da sentença.)  Reproduzo um parágrafo – ponto central do artigo:

“Até agora, o comportamento objetivo de Moro tem sido escancaradamente parcial: depois de quase três anos do processo, ações espetaculares da Polícia Federal, prisões a rodo, delações premiadas às pencas, o saldo, até agora, é o PT seriamente abalado em suas fundações e o ex-presidente Lula moralmente linchado e às vésperas de ser preso. Altos funcionários do esquema da Petrobrás, como Paulo Roberto Costa e Sérgio Machado, e empresários e operadores do esquema vão sendo colocados em liberdade, à medida que fazem suas delações premiadas (por exemplo, o doleiro Alberto Youssef teve pena fixada em três anos, dois quais dois anos e oito meses já cumpridos, e, a partir deste mês cumprirá os quatro meses restantes em prisão domiciliar). O empresário Marcelo Odebrecht, cujo acordo para “a delação do fim do mundo” (como classifica a Veja desta semana) acaba de ser fechado após demoradas e intrincadas negociações, ficará preso em regime fechado até dezembro de 2017, segundo a edição do jornal Folha de S. Paulo desta quarta-feira. Ou seja, na peneira só estão ficando o PT e aliados, o resto pega pena levinha e vai pra casa.”

Hoje, a imprensa noticia: o empresário Marcelo Odebrecht, depois de colocar um enfeite em seu tornozelo, foi solto por Moro. Condenado a 28 anos de prisão, estava preso havia dois anos e meio. Por conta da delação premiada, a pena foi reduzida a 10 anos e transformada em prisão domiciliar. Ficará morando com a família numa mansão de três mil metros quadrados no bairro chic do Morumbi. Os empresários corruptores e os altos funcionários da Petrobrás comprovadamente corruptos estão todos soltos ou em vias de. Só sobrarão Lula e outros petistas. Durante o processo, choveram menções a corrupção envolvendo outras pessoas, outras épocas e vários partidos, mas as investigações se concentraram no PT. O pai de Marcelo, Emílio Odebrecht, relatou em seu depoimento tramoias desde a época da ditadura militar, mas ninguém ligou a mínima. Justiça seletiva é isso.

O artigo completo de um ano atrás está neste endereço:

https://medium.com/@homerofonseca/o-homem-mais-poderoso-do-brasil-77176876d6ed

 

Com Sartre, num banheiro

07 de Setembro de 2017 às 00:19
Homero Fonseca

Internet Zoom
Sartre, no Les Deux Magots, momentos antes de ir ao banheiro

 Estou tendo o privilégio de ler nos originais “Contos da era das canções e outros escritos”, de Aluízio Falcão, uma antologia de crônicas e artigos sobre música popular brasileira e outros temas, como literatura e linguagem.

Não é uma coletânea qualquer: os textos do pernambucano-paulistano estão sempre muito além da banalidade, contendo reflexões e informações valiosas. Traz nada menos de 50 “biografias” de clássicos do nosso cancioneiro, revelando as origens e processo criativo de composições de várias épocas.

E, para satisfação dos futuros leitores, também muitos casos pitorescos e/ou engraçados envolvendo cantores, compositores, escritores, intelectuais, gente do povo. É daí que extraí a história mais engraçada envolvendo o filósofo Jean-Paul Sartre que já li ou ouvi até hoje.

 

Com a palavra, Aluízio Falcão:

“Contaram-me que um brasileiro, ávido e informado leitor de Jean Paul Sartre, nutria pelo filósofo uma reverência extraordinária. Exilado pela ditadura militar, passou a morar em Paris. Frequentando assiduamente bares e cafés do Quartier Latin era possível que, de repente, avistasse o seu ídolo, mesmo de longe. Isso aconteceu, e não foi de longe, mas de muito perto. Encontraram-se ambos, por artimanhas do acaso, usando o mesmo banheiro de um restaurante. Olhando de lado, o brasileiro descobriu, estupefato, a     inesperada companhia. Balbuciou, trêmulo, com a genitália na mão: “Monsieur Sartre?”. “Sim”, respondeu o filósofo. E o brasileiro, sem achar outras palavras: “É uma honra mijar ao seu lado!”

 

A causa secreta da depressão

29 de Agosto de 2017 às 00:36
Homero Fonseca

Zoom
Natascha Kinski em "Tess" (1979)

 Vou passando pela calçada de um bar e ouço o grito:

– Careca filho da puta!

Há meses fora de circulação por conta de um quadro depressivo severo, meu amigo José Alonso de Arruda me ressurge em carne, osso e álcool.

Abraço-o com efusão e, apesar de seu estado lamentável – aliás, por isso mesmo – aceito seu convite para sentar à mesa. Meio sem graça e sem assunto, pergunto-lhe como tem andado, o que anda fazendo, banalidades do gênero. De repente, depois de um longo trago no uísque já meio diluído, ele bota pra chorar, resmungando uma algaravia onde só distingo uma palavra, ou melhor, um nome de mulher: Natascha.  Julguei entender a situação: Zé devia estar com dor de cotovelo ao ser abandonado por alguma nova namorada. Pergunto-lhe quem é Natascha e a resposta me deixa perplexo:

– Natascha Kinski.

–Natascha Kinski?!

– Sim, Natascha Kinski.

Lembrei-me da bela atriz alemã, que descobrimos em 1979, no filme “Tess”, dirigido por Roman Polanski. Na época, ela tinha 18 anos e era casada com o diretor. Hoje, é uma senhora de 56 anos. Pois, Zé Alonso chorava por uma ninfeta que não mais existe. Descobri quando ele me levantou os olhos vermelhos e perguntou, mais para si próprio, a bem da verdade:

– O que é que aquele merda de Polanski tem que eu não tenho?

E danou-se a chorar novamente. Tentei consolar meu amigo, inclusive explicando que ela hoje deveria ter um monte de rugas, pregas e pelancas. Mas ele nada ouvia. Apenas repetia, inconsolável:

– Eu nunca a comi, não como, nem comerei. Isso é insuportável, cara, insuportável.

Foi assim que eu soube a causa secreta da depressão do meu amigo.

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