Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 20 de Fevereiro de 2017
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Roliúde no Carnaval de São Paulo

13 de Fevereiro de 2017 às 16:23
Homero Fonseca

Em março do ano passado, recebi um e-mail de Thiago Morganti, que se apresentava como compositor, fanático por literatura e por samba, de São Paulo. Dizia que havia lido o romance Roliúde e pedia autorização para utilizá-lo no enredo de uma escola de samba em 2017. Informou que se tratava de uma integrante do Grupo de Acesso do Carnaval de Sampa, a Colorado do Brás. Autorizei e me esqueci do assunto.

Surpreso, recebi, em janeiro agora, nova mensagem do Thiago dizendo que “estava tudo pronto” e me convidando para participar do desfile. Justificava que, como se tratava de uma pequena escola, eles não podiam arcar com as passagens, mas garantiam estadia e transporte.

Como seria de se esperar (para quem a conhece), Iracema se entusiasmou muito mais do que eu. Fui dar uma olhada no portal da agremiação, nascida de um time de futebol de várzea: é uma típica escola de comunidade, no caso Pari-Brás, centro-leste da capital paulista. Antiga, mas nunca logrou subir ao Grupo Especial. As fantasias, este ano, estão muito bonitas e o samba-enredo é de arrasar. Acho que tem tudo para subir de categoria. Resolvi acompanhar essa “epopeia”. E lá vamos nós para o Carnaval de São Paulo, coisa que nunca imaginei na vida. O desfile será no domingo, 26, no sambódromo do Anhembi, construído pela prefeita Luíza Erundina, nordestina de fé, como Severino (Bibiu), o personagem do romance que inspirou o tema e o enredo da escola, cujo título é “Luz, câmera, ação! A Colorado apresenta: a Roliúde no Sertão”.

Se eu estiver mentindo, eu choche. Quem duvidar, confira no portal da escola (em especial os enlaces Sinopse, Samba Enredo e Fantasias):

http://www.coloradodobras.com.br/index.php

 

Artur e o pecado de fumar

03 de Fevereiro de 2017 às 00:53
Homero Fonseca

  

Artur, 5 anos, nunca tinha visto ninguém fumar.

 Pai, mãe, tios, avós – todo mundo geração-saúde.

 Na escola, também nem sinal de tabaco.

 Ambientes limpos, saudáveis.

 Um dia, num parque... 

 O que seria aquilo? Uma mulher guenza, nervosa, encostada a uma árvore, olhava o filho brincando num balanço. Tinha entre os dedos um canudo fininho, branco, com uma brasa na ponta, que de vez em quando levava à boca, sugava, e expelia uma fumaça cinzenta, como se estivesse pegando fogo por dentro. Perguntou:

– Olhe aquela mulher, vovó. O que ela está fazendo?

A avó respondeu que ela estava fumando e a mais uma infinidade de perguntas: Por que ela fuma? Faz mal? E se ela pegar fogo?

Artur não entendeu: fazia mal e mesmo assim ela fumava? A avó minimizou, mentindo: só faz mal a ela mesma. Também é um jeito de que ela tem de relaxar, mas não é aconselhável ninguém seguir o exemplo etc. etc.

O guri ficou ligado. Outro dia, viu uns rapazes fumando em frente a uma loja. Novos questionamentos. A cada pessoa da família ou do seu limitado círculo de relações, perguntava: você fuma? Descobriu um tio-avô fumante. Ouviu muita preleção antifumo.

Ficou elaborando o assunto na cabeça e, um dia, chegou com a seguinte historinha para vovó Salete:

Era uma vez um país bem longe. Nele ninguém fumava. Quando alguém fazia uma malvadeza, era obrigado a fumar, para ficar doente e não fazer mais mal a ninguém.”

A lógica de Artur é impecável: se cigarro faz mal, devia ser um castigo. É um pequeno filósofo.

               

Raymond Chandler e a engrenagem da corrupção do Brasil

29 de Janeiro de 2017 às 23:48
Homero Fonseca

Romance policial de 1953 do consagrado escritor americano ajuda a compreender como funcionam as coisas no Brasil de 2017.

 Raymond Chandler, o grande autor de romances policiais modernos, sempre esteve muito atento ao entorno social de suas histórias detetivescas. Algo a que o cubano Leonardo Padura deu continuidade, com maestria.

Há um trecho de um dos mais badalados romances do americano Chandler – O longo adeus, de 1953 – , em que o detetive protagonista, Philip Marlowe, é recebido pelo milionário Harlan Potter, ex-sogro do seu amigo Terry Lennox, cujo desaparecimento o investigador está tentando esclarecer.

Potter é um lídimo exemplar de um certo tipo de elite, um potentado, dono de um império financeiro e uma cadeia de jornais. No trecho, o bacano dá um chega pra lá no detetive pobretão, mostrando como funciona a engrenagem do poder, dando a entender que “pra cachorro novo, ele estava entrando demais no mato”.

A fala de Potter tem tudo a ver com a realidade brasileira de hoje, da Lavajato, Odebrecht, Eike Batista e “democratas” de todos os naipes (embora queira se pegar apenas o PT).

Atentem na fala do milionário:

"Nós vivemos no que se chama uma democracia, governada pela maioria do povo. É um ideal muito bonito, pena que não funciona. As pessoas elegem, mas é o partido quem nomeia, e as máquinas partidárias, para serem eficientes, precisam consumir muito dinheiro. Alguém tem que lhes dar esse dinheiro, e esse alguém, seja um indivíduo, um grupo financeiro, um sindicato profissional ou qualquer outra coisa, espera algum tipo de consideração em troca.”

E mais adiante:

“Existe algo peculiar acerca do dinheiro,” continuou.  “Em grandes quantidades ele tende a ganhar uma espécie de vida própria, até mesmo uma autoconsciência. O poder do dinheiro fica muito difícil de controlar.”

E por aí vai.

Qualquer semelhança com o Brasil das delações premiadas não é mera coincidência.

 

O destino de Donald Trump

14 de Janeiro de 2017 às 20:15
Homero Fonseca

Zoom
O método americano: Lincoln, James Garfield, William McKinley e John Kennedy foram assassinados durante o mandato

 Pelo andar da carruagem, o stablishment político americano não digeriu a derrota de Hillary Clinton, e Donald Trump — com sua valiosa própria ajuda — não governará até o fim do mandato.

A dúvida é se será pelo inédito (lá nos States) processo de impeachment ou se eles usarão o método tradicional (Lincoln, James Garfield, William McKinley e Kennedy, assassinados durante o mandato).

Intuo que arranjarão uma fórmula jurídica para defenestrar Trump.

Se essa “profecia” se cumprir, vou querer minha carteirinha de adivinho mundial.

O SANTA MARIA

14 de Janeiro de 2017 às 20:10
Homero Fonseca

Zoom
O sequestro do transatlântico português incendiou a imaginação dos jovens

 Crônica de Paulo Afonso Paiva

    Em janeiro de 1961, um vendaval sacudiu a minha turma, em Caruaru. Gianinni Mastroianni, Inaldo Pereira e eu, nos entusiasmamos com o sequestro do Santa Maria - um navio de passageiros lusitano - pelo Capitão Galvão e seus partidários, inimigos do ditador Salazar, de Portugal. Era o primeiro sequestro náutico dos tempos modernos.

            Pelo Repórter Esso e jornais, que acompanhavam o caso, soubemos que o navio se dirigia para o Brasil, possivelmente para o Nordeste. Depois de alguns dias a notícia se confirmou. Rumava para Pernambuco.  Próximo ao porto do Recife, fundeou, esperando o desenrolar dos trâmites diplomáticos com o pedido de asilo dos revoltosos.

            Nossa imaginação fervia. Aos quinze anos, a aventura e o fato de sermos assíduos visitantes da Barraca dos Comunistas, uma banca de jornal existente na frente do Jardim Siqueira Campos - onde os frequentadores apoiavam os rebelados - nos fez querer aderir aos insurgentes.

            Fizemos planos de irmos para o Recife onde alugaríamos um barquinho no Porto, dizendo que queríamos tirar fotos da cidade. Quando saíssemos Barra a fora, pediríamos ao barqueiro para nos levar até o navio. Caso ele não aceitasse eu sacaria uma Comblair, também conhecida como dois tiros e uma carreira, de meu pai, e o obrigaria a nos atender.

            Na véspera de viagem, Inaldo desistiu. Disse que pensou bem e que se fosse conosco sua incorporação na Marinha seria negada. Gianinni também esfriou. Meditara e chegara a conclusão que aquilo ia ser uma fria. Eu ainda pensei em tocar o plano sozinho, mas depois vi que não dava. Assim nossa aventura malogrou.

            Naquela noite, fomos ao Bar de Risto Welkovick, que ficava na Rua da Matriz. Depois de algumas Cubas Libres fizemos um discurso esculhambando o Ditador Salazar, o Prefeito, o Governador de Pernambuco, o Presidente da República e todos os tiranos. Em continuação, nos solidarizamos com os revolucionários portugueses e nos declaramos em Estado de Prontidão Democrática, seja lá o que isso significasse.

           Aquela aventura juvenil – que acabou não acontecendo – foi o primeiro dos moinhos com os quais duelaria pela vida a fora.

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