Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 29 de Maio de 2017
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A memória dissolvida

21 de Maio de 2017 às 22:27
Homero Fonseca

 

As artes narrativas tratam primordialmente da memória. Contar histórias é acessar um inconsciente coletivo formado por códigos emocionais partilhados histórica e socialmente: de que outra maneira nos emocionaríamos com um personagem inexistente? Quem conta a história o faz também acessando suas próprias memórias, emprestando-as aos personagens como se deles fossem, para trazer-lhes à vida e uni-los ao caldo coletivo do que é humano.

Sendo assim, o que sobra de alguém, artista ou não, quando a memória falha? É possível existir sem lembrança?

Não são questões novas, mas a ampliação da longevidade humana talvez as tenham tornado uma preocupação cada vez mais ampla. Se nos anos 1940 a expectativa de vida dos brasileiros era de 45,5 anos, em 2015 já era de 75,5 anos. Com a idade, a prevalência de doenças da velhice também aumenta – dentre  elas o Mal de Alzheimer, que ataca justamente a memória. É inevitável que a arte pense a respeito.

À espera do Tio Alois, novela de Homero Fonseca, se insere nesse contexto. Livro artesanal publicado pela Mariposa Cartonera, o texto surge das inquietações do próprio autor a partir de episódios pessoais de esquecimento, ainda isolados. O medo de que sejam sinais de Alzheimer o fizeram transformar a inquietação em narrativa. A novela é um diário que o personagem Hermano Fontes anota as falhas de memória do cotidiano, na intenção de poder avaliar, semana após semana, o quão grave é a doença.

Em nota de abertura, Homero Fonseca alega ter recebido o diário das mãos da viúva de Hermano Fontes, logo após a morte deste. Teria então decidido publicá-lo por inteiro, com algumas notas explicativas que julgou conveniente incluir. O recurso é pouco original, mas serve aqui para gerar algum distanciamento entre texto e autor – li em uma entrevista ao Jornal do Commercio que Homero não queria ter sua obra tomada como autoficção (leia na íntegra aqui), ainda que o texto tenha sido inspirado em fatos pessoais.

Hoje sabe-se muito mais sobre o Alzheimer do que há um par de décadas, o que faz com que a chegada da doença seja claramente percebida pelos seus portadores. Como lidar com esse momento passou a ser um dos grandes dilemas do envelhecimento contemporâneo, um que muitas vezes vem atrelado à possibilidade do suicídio. Essa possibilidade dá o tom do livro: o personagem Hermano Fontes não quer morrer, mas também não quer permanecer morto em vida. Então, imagina de que forma pode preparar a própria morte, e teme que a doença o atrapalhe:

As complicações são facilmente imagináveis:
– Onde está o arquivo das anotações?
– O que é mesmo que eu preciso anotar?
– O que danado este revólver está fazendo na gaveta?
– Quem sou eu?

A coisa toda tem seu humor negro, mas é séria. O suicídio, monseigneur Camus, não é o grande problema filosófico. Esse é a morte. O suicídio é uma questão de cronômetro. 

O diário segue entre desesperançoso e autoirônico. Aos poucos, as anotações objetivas sobre os pequenos esquecimentos diários são substituídas por pensamentos mais profundos sobre a vida e a sociedade, tendo a memória sempre como eixo. Em um dos melhores trechos, o personagem pensa em como a humanidade se divide entre as atitudes “do caçador de luzes” e “do disseminador de trevas”. Chega à conclusão de que ambos os grupos estão em permanente tensão, mas se complementam em uma relação dialética e vital. Nas entrelinhas, o personagem ressente-se de sair desse campo de jogo – sem memória, não enxergará luzes nem trevas.

A novela faz referência a pessoas reais que sofreram ou sofrem de Alzheimer, como o empresário Antônio Ermírio de Moraes e o ex-vice-presidente Marco Maciel, assim como a outras obras de ficção. Uma delas, recente, é o filme Para sempre, Alice, com Julianne Moore no papel de uma professora de linguística que sofre da doença. A despeito de todo o planejamento que o doente possa fazer, o esquecimento acaba se instalando de maneira repentina, como em todos esses casos, e também no do livro, que se soma a uma recente (e crescente) produção artística sobre o evanescimento da memória – uma das condições mais dramáticas e humanamente complexas da contemporaneidade.

PS: Tio Alois é uma referência ao cientista alemão que descobriu a doença, Alois Alzheimer.

Gostou? O livro está a venda no site da Mariposa Cartonera:http://www.mariposacartonera.com/site/

https://lombadaquadrada.com/2017/04/26/a-memoria-dissolvida/

 

Lula x Moro: o grande embate político

13 de Maio de 2017 às 19:38
Homero Fonseca

Foto: colagem do Blog do Patrocínio, Portal Belterra, s/créd Zoom
Audiência foi na realidade um debate que influirá no futuro de nossa democracia

Desta vez, as revistas semanais de “informação” acertaram. Meio sem querer, por um ato falho. As capas das revistas Veja (“O primeiro encontro cara a cara”) e Istoé (“Ajuste de contas”), da semana que antecedeu o depoimento de Lula perante Moro no palco da Lava-jato, anunciavam o “confronto” entre o juiz e o réu. Era um erro grosseiro do ponto de vista processual – uma vez que juiz não se opõe a réu – e um apelo sensacionalista, mas foi certeiro do ponto de vista político.

Assim como os célebres “processos de Moscou” da era stalinista, ou a audiência de Fidel Castro nos tribunais da ditadura de Fulgêncio Batista (e seu famoso discurso “A História me absolverá”), esse julgamento da Lava-jato, da forma como vem sendo conduzido por Moro, é um evento eminentemente político. E o encontro de 10 de maio foi um formidável embate em que, como é comum nessas ocasiões, um dos atores assumia explicitamente o caráter político do fato e outro o negava, por conveniência própria (afinal, do ponto de vista da formalidade jurídica, um juiz não poderia admitir isso).

Para compreender as motivações, as ideias e o comportamento do juiz de Curitiba é fundamental remeter ao seu famoso artigo sobre a Operação Mais Limpas, na Itália, em que ele escancara seu ideário jurídico-ideológico. Está tudo lá, meus camaradinhas, não vê quem não quer. No artigo, Moro defende “o largo uso da imprensa”, inclusive os vazamentos (“A investigação vazava como uma peneira”), anotando que “o constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”.

            No texto, Moro defende o estado de exceção, relativizando o conceito fundamental da presunção de inocência e enaltecendo o novo tipo de juiz surgido na Itália, os chamados pretori d’assalto (juízes de ataque, i.e., juízes que tomam uma postura ativa, confundindo-se com o promotor). Por fim, salienta ter a magistratura ganho ‘uma espécie de legitimidade direta da opinião pública”. Aí estão a perfeita concepção messiânica de Justiça e a justificativa do estado de exceção para atingir fins nobres, numa versão sofisticada e racionalizada da velha máxima “os fins justificam os meios”. Este é um resumo muito drástico, mas suficiente para revelar as ideias básicas do líder da República de Curitiba[1].

Quando caiu no seu colo a investigação da Operação Lava-jato, Moro julgou-se o homem certo, no lugar certo, na hora certa. E atribuiu-se a missão de acabar com a corrupção no Brasil. O único problema, como demonstra o encaminhamento dado ao processo, é que ele, de uma forma meio autista, colocou todo o foco no PT e em Lula: qualquer indício nessa direção é suficiente para formar a convicção de culpa, independentemente de provas, valendo o contrário para os restantes partidos e atores políticos, todos tão ou mais envolvidos historicamente com práticas ilícitas nas campanhas eleitorais e no exercício dos mandatos quanto a gente das camisas vermelhas (não resisto a uma imagem um pouco cômica: Moro é como um miúra, aqueles touros das arenas da Espanha que, dizem, somente enxergam o pano vermelho).

            Alguém tem dúvida de que se Moro, mais que indícios e convicções, tivesse uma única prova concreta teria esmagado Lula no confronto da quarta-feira? Sua postura não foi a de um magistrado, mas de um visitador inquisitorial (inclusive praticando a tortura psicológica de quatro horas e meia de interrogatório repetindo as mesmas perguntas, o que fez a defesa, por seu turno, repetir os mesmos argumentos, numa guerra de trincheiras em que ninguém conseguia avançar um palmo). Na maior parte do tempo, a inquisição, digo inquirição, foi um espetáculo cansativo para quem assistiu depois aos vídeos. Em sua sanha acusatória, o juiz-promotor pagou o mico de apresentar um documento sem assinatura para incriminar sua vítima – somente acreditei nos meus olhos depois de assistir várias repetições, por canais diferentes!

Na histórica audiência de 10 de maio, Moro negou na maior cara de pau  os postulados defendidos por ele próprio no artigo sobre a Operação Mãos Limpas e postos em prática nesses três anos de Lava-jato: em posição defensiva, disse que ia se ater apenas às provas (que provas?), que a imprensa não tinha nada a ver com o caso (humm), que nunca houve vazamento (?!) e acrescentou algo desnecessário: que não tinha “desavença pessoal” com o réu. E, enfaticamente, negou de mãos juntas ser esse um processo político. Ora, ora. Um juiz que ocupa as redes sociais na internet para “agradecer o apoio da maioria da população, senão sua totalidade” – o que está fazendo senão política pura e simples?[2] Ou isso está previsto em alguma lei, algum parágrafo, algum inciso, alguma alínea de algum código de processo penal, civil, constitucional ou o escambau (para rimar)?

Sérgio Moro é um jogador inteligente, frio e extremamente ousado.  Com o apoio de vasta parcela da opinião pública intoxicada pelo noticiário, o patrocínio da grande mídia e o poder de justiça nas mãos, tem avançado celeremente em seus objetivos, atropelando regras e ritos. Ninguém se atrevia a contestá-lo. Ao enfrentar Lula, Moro se deparou, pela primeira vez, com seus limites. E teve de rever seu delírio populista de contar com o apoio da “totalidade da população”. Além de se manter na defensiva, justificando o tempo todo sua “neutralidade” (que juiz é esse?), temeu que a situação saísse de controle e, mais vez, foi às redes sociais e à imprensa pedir aos seus “partidários” evitassem confronto com os simpatizantes do petista, recuando do apelo ao apoio solicitado algumas semanas antes.

Lula não falou para os autos, falou para o público (que assistiria depois os vídeos) e para a História. “J’Acuse” – parecia dizer ele, denunciando o caráter político do processo, a fragilidade das acusações, a participação fundamental da grande imprensa na construção de sua culpabilidade, os métodos insólitos da Polícia Federal, do Ministério Público e do próprio juiz-acusador. Pediu Justiça e respeito.

Como em todo grande debate político, houve momentos em que um lado saiu-se melhor do que o outro: as torcidas comemoram detalhes de uma vitória percebida emocionalmente. A grande imprensa, repetindo seu papel de agente político comprometido com a destruição de uma liderança popular, vem dando tratos à bola na tentativa atabalhoada de desconstruir o discurso de Lula, apegando-se a contradições irrelevantes e falhas verbais comuns num debate. Faz o seu jogo de desinformação que tem levado leitores e telespectadores a formar um juízo sobre os fatos, com base em mentiras ou meias-verdades. Por exemplo, no caso do triplex de Guarujá (objeto específico da denúncia e da audiência), tem escondido o fato de que foi dona Marisa Letícia sim quem se pôs à frente das negociações, adquirindo, em 2005, cotas-partes da Bancoop - Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, dona e responsável pela construção do prédio. Quando a cooperativa dos bancários não conseguiu tocar o projeto e passou-o à construtora OAS, dona Marisa prosseguiu as negociações e por fim desistiu, após a visita do marido ao local. Isto está nos autos, documentado pela defesa. Que a OAS tenha se disposto a fazer um mimo ao ex-presidente, providenciando reformas e tudo o mais, está na raia das possibilidades. Mas a transação jamais foi feita. Lula nunca foi proprietário nem usufruiu com a família do imóvel, não assinou documentos, não fez escritura e a OAS relacionou o prédio e o apartamento na esfera judicial, mais de uma vez, como propriedade sua. Mas isso não é dito, nem mostrado. Mas a acusação é justamente de ocultação de patrimônio, dirão os ventríloquos da imprensa. Apresentem então as contraprovas, ora. E como dona Marisa (ou Lula) iria adivinhar que o apartamento pretendido e desistido fosse passar das mãos da cooperativa dos bancários para a empreiteira e daí servir de propina ao ex-presidente? Mas, nessa hora de profunda fratura política e ideológica, poucos estão interessados em fatos e4 argumentos. Querem reforçar suas convicções e fazê-las prevalecer, na lei ou na marra.

Aos muito apegados à letra da lei, a insistir por aí no caráter estritamente jurídico do encontro: aquilo não foi audiência, foi um debate, sim. Sobretudo nos 20 minutos finais, quando foi dada a palavra ao réu para suas considerações finais, interrompidas a todo instante pelo adversário, digo, juiz, rebatendo as alegações mais contundentes. Era o momento da autodefesa – totalmente cerceado pelo “imparcial” Moro, cuja máscara caiu na frente de milhões de espectadores.

Anotem: Lula será condenado (Moro não pode mais recuar diante da pressão da mídia e dos seus partidários). O jogo é político. O “timing” da condenação dependerá da intricada tramitação judicial brasileira. O objetivo é tirá-lo da disputa presidencial de 2018 e dar uma satisfação à pequena burguesia açulada em sua sede de sangue vermelho. E o povão assistindo a tudo, ruminando, tirando suas conclusões. De sua reação e da capacidade das reais lideranças populares se posicionarem nesse momento decisivo dependerá o futuro da nossa combalida democracia. Quem viver verá.

NOTAS

[1] Aos realmente interessados em conhecer os fundamentos das posições de Moro, recomendo fortemente a leitura na íntegra do artigo: “Considerações sobre a operação mani pulite”, in Revista CEJ (Centro de Estudos Judiciários) do Conselho da Justiça Federal, n. 26, jul/set 2004.

[2] Publicado em 19 de março de 2017 na página 'Eu Moro com Ele', mantida em uma rede social pela esposa do juiz , Rosângela Wolff  Moro: https://www.facebook.com/rosangelawolffmoro/  

A “modernização” e o fantasma do desemprego

05 de Maio de 2017 às 18:25
Homero Fonseca

 O discurso hegemônico — na mídia, na esfera política, na propaganda do governo, nas discussões intelectuais — sustenta que a reforma laboral em vias de ser aprovada no Congresso significaria “a modernização das relações trabalhistas no Brasil”. Insiste em que as normas protetivas da CLT são um empecilho à contratação de pessoal pelas empresas e que, uma vez removidas, serão abertas milhões de novas ocupações. Pura falácia.

Foi esse o tom do discurso do usurpador Michel Temer no 1º de Maio, brandindo o fantasma do desemprego para justificar o esculacho nos direitos trabalhistas da turba. Num país socialmente fraturado como o Brasil, de enormes disparidades socioeconômicas, a legislação implantada por Getúlio Vargas é o único amparo de milhões de trabalhadores, os quais, sem ela, estariam à mercê da sanha do mercado. Imaginem a plena prevalência das negociações num ambiente em que uma maioria de trabalhadores pouco qualificados, desorganizados, sem consciência de classe e assombrada pelo fantasma do desemprego terá de enfrentar empresas que dispõem de poder desmesurado, fartas informações, meios comunicativos à disposição, assessorias de grandes bancas de advocacia etc. Excetuando-se, talvez, os metalúrgicos do ABC paulista, teremos um massacre institucional. Será a decretação do reino da mais-valia.

Recentemente, o primeiro ministro espanhol Mariano Rajoy visitou o Brasil, abraçou Temer e o encorajou na direção das tais reformas, já postas em prática na Espanha e inspiradoras da brasileira. E o que aconteceu em terras espanholas? Segundo relato do jornal El País, há cinco anos o país europeu vivia uma crise semelhante à brasileira, com o nível de desemprego atingindo 22,5% (atualmente no Brasil está em torno de 13%). O governo conservador aprovou a tal “modernização das relações trabalhistas” sob fortes protestos populares e, meia década passada, os resultados, segundo o jornal, são uma queda da desocupação para 18,6% hoje (muito sacrifício para muito pouco resultado). O problema maior, no entanto, é que os novos empregos são mais precários e com salários mais baixos (o paraíso para o empresariado brasileiro) e a desigualdade social aumentou[1]. É esse o futuro que nos espera, num país de mais desigualdade, mais precariedade e mais injustiça. Essa é a proposta de sociedade do governo ilegítimo de Michel Temer, cuja divulgação massiva sem qualquer contraditório pela mídia está engrossando um caldo de cultura bárbaro com disseminação de todo tipo de recuo até mesmo à pré-história do capitalismo, como o projeto do deputado ruralista Nilson Leitão (PSDB-MT), que prevê o pagamento com casa e comida ao trabalhador rural, ou seja, a desmonetização do trabalho no campo, a volta da senzala, a revogação da abolição da escravatura. Trabalho por casa e comida: o mínimo restrito à reposição da força de trabalho, a desumanização completa do trabalhador.

Já em julho do ano passado, após uma reunião de líderes empresariais com Temer, o presidente da Confederação Nacional da Indústria — CNI, Robson Braga de Andrade, defendeu medidas duras, entre as quais um aumento drástico na jornada de trabalho, citando a França — que segundo ele permitiu a extensão até 80h semanais (na verdade, 60h em casos excepcionais). “A razão disso é muito simples: a França perdeu competitividade na indústria e a França está revendo [a legislação trabalhista]. E nós temos de estar abertos a mudanças”. Depois deu uma nota oficial negando o que disse à imprensa. Mas esse é seu pensamento e de sua turma.[2]

O mito da “modernização” é antigo no Brasil. Perguntemos: modernizar o que, como, para quê, para quem? A ditadura militar promoveu uma brutal modernização da economia brasileira, às custas dos trabalhadores e do povo em geral. O campo foi esvaziado para o ingresso glorioso do agronegócio e nossas cidades sofreram um processo de urbanização acelerada sem precedentes, que está na raiz da violência e da criminalidade, com a inchação das favelas e a incapacidade dos poderes públicos de ofertar a mínima condição de cidadania para os imigrantes internos.

“Modernizar” as relações trabalhistas, na ótica do patronato mais atrasado do mundo, é terceirizar tudo, acabar com os sindicatos, destruir a identidade profissional dos operários, aumentar a jornada de trabalho, rebaixar salários (lembram as constantes declarações dos economistas tucanos contra o aumento progressivo do salário mínimo ocorrido durante as gestões Lula?), explorar a mão de obra ao limite. Essa modernização é um retrocesso aos primórdios da Revolução Industrial.

Se a classe trabalhadora brasileira precisa de (re)qualificação e de aumentar sua produtividade, o conjunto das empresas precisa muito mais se modernizar. O patronato acusa sempre a mão de obra pela falta de competitividade das empresas nos mercados internacionais. Esquecem, convenientemente, que tão ou mais importante do que isso é a própria modernização das empresas, com novas formas de gestão, incorporação de inovações, investimentos em pesquisa e desenvolvimento etc. Desde a ditadura militar que as corporações vivem num “capitalismo de laços”, como demonstrou o professor Sérgio Lazzarini, do insuspeito Insper, instituição de ensino e pesquisa ligada ao mercado de capitais[3]. Esses “laços” apontados por Lazzarini são a dependência empresarial ao protecionismo de Estado e as relações perigosas, incestuosas e corruptas entre empresas e governo no Brasil, cuja ponta do furúnculo ganhou visibilidade com a Operação Lava-jato (a coisa vai muito mais longe do que as gestões do PT, que por governabilidade, desejo de perpetuação no poder, fraqueza diante da corrupção, impotência para mudar a engrenagem, optou por “dançar conforme a música” e deu no que deu).

Modernização é o empresariado brasileiro abandonar o velho patrimonialismo, o capitalismo de laços, a corrupção como ação sistêmica, a gestão provinciana, e por em prática o discurso de livre concorrência.

Modernização, do ponto de vista do trabalhador, é a humanização de suas condições de trabalho, com a redução gradativa da jornada, a criação de novos empregos e maior tempo para dedicação à família, ao lazer, ao ócio criativo. Isso, inclusive, fortaleceria o mercado interno e beneficiaria as empresas. Mas pra que se dar ao trabalho, se elas sobrevivem muito bem mamando nas tetas do governo?

Fontes citadas:

[1] El País — edição online, 27 de abril de 2017: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/27/internacional/1493296487_352960.html

[2] G1 — Globo on line: http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/07/cni-elogia-meta-fiscal-de-2017-mas-se-diz-contra-aumento-impostos.html

[3] Insper Conhecimento — edição online, 8 de janeiro de 2014: https://www.insper.edu.br/conhecimento/estrategia-e-gestao/leia-entrevista-com-prof-sergio-lazzarini-sobre-seu-novo-livro-capitalismo-de-lacos/

Greve geral, a festa foi bonita, pá

01 de Maio de 2017 às 11:03
Homero Fonseca

Zoom
Av. Conde da Boa Vista, no Recife, tomada pelos manifestantes

Digo com Chico Buarque: a festa foi bonita, pá. Estive no Derby (bairro do Recife) ontem (28/4/17), vi uma manifestação gigantesca, colorida, vibrante contra os retrocessos das reformas trabalhista e previdenciária. Já era hora. Antes de fazer algumas considerações objetivas sobre a greve e o momento que vivemos, permitam-me uns toque subjetivos. Fazia muitos anos que eu não sentia essa vibração das massas, esse sopro de vida cívica varrendo as ruas e encontrei muitos camaradas, homens e mulheres, de lutas passadas. Com o mesmo brilho no olho e a disposição de não ficar parado diante da injustiça e da iniquidade. Somos todos uns dinossauros? Estávamos ali porque não aprendemos a criar juízo? Construimos um estilo de vida e dele não conseguimos mais nos desvencilhar? Ou simplesmente estávamos nas ruas porque o que conseguimos até agora foi muito pouco, e mesmo assim sob ameaça, e ainda há muito que conquistar? Escolham a opção. A luta dos humilhados e ofendidos é antiga, desigual e árdua - muito sangue, suor e lágrima ainda haverão de rolar, infelizmente.
Senti falta de velhos companheiros, alguns que na juventude foram mais generosos e mais corajosos do que eu e se meteram de corpo (literalmente) e alma no bom combate. Muitos mudaram de lado. Ou porque fizeram uma autocrítica tão feroz dos velhos erros da esquerda que terminaram por justificar a opressão da direita. Ou porque, pequenos burgueses apressados, ansiosos por fazer a revolução num passe de mágica, desiludiram-se e voltaram ao leito da classe paterna. Ou o que mais? O fato é que se tornaram neoliberais e aliaram-se aos velhos setores reacionários que continuam onde sempre estiveram, embora vocalizando o discurso demagógico da modernidade, da atualização, das transformações da sociedade. Não há nada de novo debaixo da sol, mas o capitalismo tem exercido sua incrível capacidade de adaptação e sobrevivência, cedendo os anéis e ficando com os dedos. E alguma coisa que cedeu, meus amigos, não foi por bondade, racionalidade ou o que seja: foi arrancado com porrada, sacríficio, distúrbios e mortes por doença ou violência.
Agora, os eternos arautos da ordem estabelecida, do golpe de 2016, da dominação dos pequenos pelos mais espertos, fazem a sua narrativa, nos poderosos canais da grande mídia, tentando minimizar o movimento, ridicularizar, desqualificar. É o jogo deles.
Aspectos importantes dos eventos de ontem:
COBERTURA - Desde cedo, a TV Globo procurou mostrar que "a situação está normal" e focava pequenos grupos obstruindo vias. Com a evolução da greve, centrou o foco em "pessoas desejosas de ir trabalhar", mas impedidas pela paralisação dos transportes coletivos. Para cada manifestante ouvido, dava voz a sete ou oito "prejudicados". (Detalhe sociológico: a maioria comerciários, categoria que é o elo fraco da estrutura sindical pelo enorme exército de mão-de-obra disponível a rondar seus empregos e pela pressão direta dos patrões). Ao longo do dia, passou a mostrar ações dos "vândalos" e choques com a Polícia, especialmente no Rio e SP. (Vale salientar o papel desempenhado nos últimos tempos pela PM de Alckmin que, se nas passeatas perfumadas pelo impeachment se deixava fotografar em "selfies" pelos manifestantes, age com extrema truculência contra a esquerda em geral.) A Globo procurou a todo momento minimizar o alcance da greve, atribuindo-a única e exclusivamente à paralisação do transporte público, omitindo professores públicos e privados, bancários e outras categorias. Sem falar que parar ônibus e trens em todas as capitais brasileiras (exceto o Rio) e em algumas grandes cidades é uma façanha e tanto. Vi pessoalmente o Recife totalmente parado e uma grande passeata à tarde. A TV mostrou poucos segundos dessa realidade. Imagino por aí afora.
À noite, o JN fez uma matéria esquisita, na defensiva, demonstrando que desde cedo o canal dos Marinhos vinha cobrindo o movimento. O problema era: como cobriu, tentando sempre esvaziá-lo. Seguindo a estrela-guia, as outras TVs não fizeram por menos. A Band apelou para o terrorismo, enfatizando e amplificando os incidentes mais violentos e a tal "ação dos vândalos".
Um dado mais abrangente a observar é que, durante todo o tempo de tramitação das reformas conservadoras a Globo, congêneres e a mídia impressa fecharam amplamente em favor das propostas do Governo, apresentando supostos aspectos positivos e suprimindo radicalmente o contraditório. Também receberam um derrame de verba publicitária governamental.Manipulação pura da opinião pública, escondendo os fatos e anestesiando reações mais enfáticas dos futuros esbulhados.
Os conservadores, nas redes sociais, vocalizaram os argumentos da mídia e travaram uma guerra de narrativas em que tentaram fazer prevalecer a tese de que a greve havia fracassado. Intoxicados pela propaganda ideológica, não argumentam muito, limitando-se a repetir xingamentos e destilar a ódio (petralhas, vagabundos, ladrões etc.).
GREVE E VANDALISMO
A classe média histérica, manipulada pela mídia, costuma demonizar os movimentos populares. No fundo, teme a perda de alguns privilégios recebidos da elite pela ascensão do povo. E cobra "ordem" e "direito de ir e vir". Infelizmente, cidadãs e cidadãos de bem, a história mostra que sem desordem e violência não se conquista nada das classes dominantes. Todo pequeno avançõ conseguido pelos oprimidos passou por uma longa, dura, por vezes sangrenta luta, de Spartacus aos movimentos dos sem-terra. Se a classe trabalhadora fosse bem comportada como quer a turma da tradição-família-e-propriedade, ainda estaríamos na 1ª Revolução Industrial e a jornada de trabalho continuaria de 16 horas.
A atuação violenta dos mascarados, conhecidos por black blocs, durante as mobilizações populares é assunto bastante explorado pela mídia, repercutido intensamente pelos conservadores e já razoavelmente estudado por pesquisadores. É um fenômeno complexo e que geralmente ocorre à margem das entidades organizadoras dos protestos. São jovens de baixa renda, sem futuro algum na sociedade competitiva e excludente que os oprime e asfixia. De certa maneira, eles atacam alvos seletivos: equipamentos públicos menores (lixeiras e orelhões), simbolizando o poder estatal que os abandona (já que é difícil demolir palácios governamentais e monumentos de granito); ônibus que não lhes oferecem transporte decente no dia a dia; vitrines de lojas de luxo e agências bancárias - símbolos maiores de sua exclusão do sistema. Existe sim, eventualmente, extravazamento de ódio cego e violênca sem direção: o que se pode esperar de quem não tem nada a perder? Os bem nutridos, bem empregados, bem educados e bem estabelecidos que os condenam têm uma vaga ideia do que é não ter nada a perder? Ao contrário, espumam ódio pelo muito de privilégios de que temem ser privados...
Enfim, em minha avaliação, o movimento foi bem sucedido, mas um pouco tardio. Espero que influencie o parlamento, mas estamos a um passo do estupro dos direitos sociais pretendido pelo governo ilegítimo do Brasil. A luta é longa e árdua, camaradas. A reação pública foi basicamente obra do movimento sindical e popular. O povão mesmo está olhando, desconfiado. Mas apressam-se os arautos do golpe, na imprensa e fora dela, ao proclamarem que com isso o povo estaria passivo diante do descalabro. As pesquisas indicando Lula à frente de toda simulação eleitoral para 2018 não lhes dizem nada?:

 

ANÚNCIO MENTIROSO

27 de Abril de 2017 às 19:22
Homero Fonseca

 A mídia tem martelado, sem qualquer contraditório, a versão do governo favorável às reformas trabalhista e previdenciária, que são um retrocesso dos direitos dos trabalhadores para pré-1930. O governo, por seu lado, tem despejado uma fortuna de verba publicitária na mídia para defender suas reformas neoliberais — e assim junta-se o útil ao agradável.

Naturalmente, os empresários — principais beneficiários da revogação na prática da CLT — engrossam o coro único, alegando a necessidade de “modernização das relações trabalhistas”. Modernização para quem, cara pálida?

Hoje, vejo anúncio de página inteira nos jornais de um tal LIDE — Grupo de Líderes Empresariais, seção Pernambuco, sob título REFORMAS, onde se proclama: “Nosso compromisso é com o que mais importa: a geração de emprego e renda”. E por aí vai o blá-blá-blá. A peça é minha candidata ao Troféu Propaganda Enganosa do Ano. É mentira de cabo a rabo.

Compromisso de empresário é com seu lucro, bah. Emprego é o que conta menos, exceto no discurso demagógico para enganar os trouxas. Empresário vive babando por sistemas operacionais que substituem centenas de milhares de trabalhadores (o setor bancário que o diga; estão intentando demitir os cobradores de ônibus para implantar um cartão-passagem etc.), gozam quando inventam um robô que faz o trabalho de mil homens (não é, indústria automobilística?). Sonham, desde que Getúlio Vargas morreu, em revogar a CLT, para não pagar direitos trabalhistas. E põem a culpa de seus insucessos exclusivamente na “falta de competitividade”, sempre atribuída à mão-de-obra desqualificada. Esquecem que preferem viver às custas do protecionismo do Estado, são absenteistas, não procuram se atualizar e, no fundo, têm medo da competição. Adoram uma inflação porque ganham mais na venda unitária de produtos do que na escala e, principalmente, porque multiplicam os lucros no mercado financeiro, sem precisar modernizar sua produção — isso sim.

Agora vêm com essa conversa pra boi dormir de que seu maior compromisso é com o emprego?! E que emprego eles terão a oferecer com as novas leis que precarizam as relações de trabalho, esvaziam os sindicatos, privilegiam as negociações quando estão em posição de força contra uma classe trabalhadora que não terá como se organizar com a terceirização dos contratos e por aí vai? Faltou anunciar que estão preparando o programa “Minha senzala, minha vida” para enfiar milhões de trabalhadores que voltarão a uma condição muito próxima da dos escravos. Eis a modernização neoliberal dos sonhos da LIDE, Fiesp, Fiepe etc caterva.

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