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  • DataPernambuco, 04 de Dezembro de 2016
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A PEC 55 é o AI-1 do golpe de 2016

26 de Novembro de 2016 às 20:22
Homero Fonseca

Foto: Mídia Ninja Zoom
À medida que vão se conhecendo as armadilhas da PEC, os protestos espoucam pelo país

 

 

Não sei se por desatenção ou ironia, a mesa do Senado marcou a votação final da PEC 55 (PEC 241 na Câmara), que institui o chamado Novo Regime Fiscal, para o próximo dia 13 de dezembro. Nesta data, em 1968, o governo militar promulgou o AI-5 (Ato Institucional nº 5), o golpe dentro do golpe. Aliás, a coincidência não fica só nisso das datas. Há outra mais grave: as medidas devem vigorar por 20 anos (afetando toda uma geração e as seguintes), quase exatamente a mesma duração do golpe de 1964, ou seja, 21 anos. E para isso, lança mão de medidas autoritárias que manietam os futuros governantes brasileiros, como veremos adiante.

O Novo Regime Fiscal é muito mais do que o mero estabelecimento de um teto de gastos do governo para debelar a crise. É o AI-1 do golpe parlamentar de 2016. Ele consolida, ideológica e pragmaticamente, o movimento que destituiu uma presidente eleita, uma ortodoxa política neoliberal, com destaque para o estado mínimo, sem que tão drástica mudança tenha sido debatida e submetida ao crivo popular.

Somem-se a isso a reforma educacional por decreto, o desmantelamento da CLT e outros direitos dos trabalhadores, a entrega do pré-sal às petrolíferas estrangeiras e teremos o império do laisser-faire, a ditadura do mercado. Tudo aparentemente seguindo trâmites legais, porém sem a legitimidade de um único voto.

 A PEC é antipopular

 Cansei de ver os defensores da PEC brandir os argumentos de que as medidas propostas são “a única alternativa para a crise” e que “não afetarão os programas sociais do governo”. Falácias, como será demonstrado, com base em pareceres oficiais, análises técnicas de economistas e sociólogos e outros documentos. Também explicam que são um remédio amargo e momentâneo necessário para fazer a economia crescer mais na frente e, então, o emprego e a renda. Isso é desmentido pela própria PEC, ao estipular em 20 anos o prazo de vigência de suas regras draconianas.

Em relação ao primeiro argumento (alternativa única), em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em 11 de outubro de 2016, a economista Laura Carvalho, doutora em economia e professora da Universidade de São Paulo – USP, esclarece: “Não é por falta de alternativas, há diversas”. E cita uma “proposta de reforma tributária que não só eleva impostos, que reduz alguns impostos e eleva outros, que é progressiva e que resolveria o problema de curto prazo; coisa que a PEC não resolve”.  Exibindo tabelas e gráficos, ela defendeu que a crise fiscal não é resultado do aumento desenfreado dos gastos, mas de queda na arrecadação.  No entanto, é o diagnóstico errado (aumento de gastos) que vem sendo brandido pelos arautos da PEC.

A economista bate de frente nessa visão, filha das políticas econômicas ortodoxas, que o discurso dominante tenta nos impor:

Precisa-se de uma agenda de crescimento econômico. Enquanto não se estiver falando em crescimento, renda e emprego, esqueçam qualquer tipo de estabilização da dívida pública. Investimentos públicos são essenciais nessa retomada. Então, isso tem que estar em qualquer agenda.

O Orçamento Público não é o orçamento de uma família, como se costuma colocar – não é! Os gastos que você faz afetam o quanto você ganha. Na família, não. Os gastos, os investimentos de Governo têm um efeito não só de aumentar produtividade, melhorar custos para os empresários, como também de gerar emprego, renda. Isso, por sua vez, ajuda a dinamizar uma economia que não tem hoje nenhum motor – nenhum motor de crescimento! E isso é muito relevante[1].

A professora Laura Carvalho, que não poupou críticas às ao governo Dilma Roussef, finalizou comparando a PEC a uma camisa de força, da qual somente conseguirão desvencilhar-se “aqueles que têm mais condições, são mais organizados, têm poder econômico e político mais forte”.

Já em relação ao segundo ponto, os defensores da PEC asseguram que o teto de gastos se refere às despesas globais e não especificamente às áreas de saúde e educação, que poderão hipoteticamente ser beneficiadas com recursos remanejados de outros setores. É aqui onde a porca torce o rabo.

Em palestra no dia 06/11 no Clube Universitário do Recife, a economista Tânia Bacelar foi didática, explicando que a PEC exclui do teto, em seu artigo 102, as despesas financeiras (os pagamentos da dívida pública e dos juros, cujos credores são os bancos, as grandes empresas e investidores no mercado financeiro), centrando-se nas chamadas despesas primárias (pagamento de pessoal, custeio da máquina pública, transferências e investimentos). Assim, ela revela “quem pagará o pato pela crise”.

Tânia Bacelar põe por terra a falácia de que “o teto de gastos é para todas as despesas, podendo saúde e educação receber remanejamento se necessário”, demonstrando que, como Previdência, Saúde e Educação concentram as despesas primárias, não haverá de onde tirar tais verbas, a menos que se esvaziem áreas igualmente estratégicas como Ciência, Tecnologia e Inovação. E acrescenta: “O quadro é insustentável. Nenhum país de mundo realizou uma agenda tão radical de corte por tanto tempo. Tão danosa à população de mais baixa renda.”[2]

Outro ponto da argumentação chapa branca é a de que os investimentos em saúde e educação não sofrerão maiores danos.

Saúde, Educação, Previdência, Políticas Sociais. Tudo está na mira do golpe neoliberal em curso. Uma análise da PEC feita pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado Federal desmonta enfaticamente a falácia da preservação pelo Novo Regime Fiscal das áreas sociais:

Assim, a partir de 2018, em vez de ser uma função da receita corrente líquida (15% da receita corrente líquida do respectivo exercício financeiro) no caso da saúde, e de uma função da arrecadação com impostos (18% no caso da União) na educação, os recursos mínimos aplicados nessas duas áreas estratégicas da atuação do Estado brasileiro que buscam assegurar acesso universal a dois dos mais importantes direitos sociais fundamentais, passam a ser uma mera atualização monetária (correção pela variação inflação do ano anterior medida pelo IPCA) dos recursos alocados em 2017.

O ano de 2017 passa a ser, num delírio ficcional constitucional, arbitrado artificialmente, a base ideal de recursos mínimos em saúde e educação sobre a qual incidem as revisões inflacionárias para os próximos dezenove anos na área da educação e da saúde.

Trata-se, na realidade, de congelamento dos gastos em educação e saúde de 2018 até 2036, com o agravante de saber que os recursos atualmente alocados são incapazes de atender a demanda de universalização do atendimento na área de saúde e de educação.

O mero reajuste pela inflação não é suficiente para suprir a despesa gerada pelo simples aumento da população que, em situações de crise da economia depende ainda mais dos serviços públicos.

(...) Trata-se, na realidade, de congelamento dos gastos em educação e saúde de 2018 até 2036, com o agravante de saber que os recursos atualmente alocados são incapazes de atender a demanda de universalização do atendimento na área de saúde e de educação[3]. 

O documento cita ainda estudo do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) corroborando suas afirmações:

(A PEC) impactará negativamente o financiamento e a garantia do direito  à saúde no Brasil. Congelar o gasto em valores de 2016, por vinte anos, parte do pressuposto equivocado de que os recursos públicos para a saúde já estão em níveis adequados para a garantia do acesso aos bens e serviços de saúde, e que a melhoria dos serviços se resolveria a partir de ganhos de eficiência na aplicação dos recursos existentes. Ademais, o congelamento não garantirá  sequer o mesmo grau de acesso e qualidade dos bens e serviços à população brasileira ao longo desse período, uma vez que a população aumentará e envelhecerá de forma acelerada. Assim, o número de idosos terá dobrado em vinte anos, o que ampliará a demanda e os custos do SUS”[4].

 (Logo ao assumir, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, disse que será preciso “repensar” o acesso universal à saúde[5], reiterando em 11 de novembro em entrevista à BBC Brasil que um sistema, que atenda todos os segmentos da população – era “só um sonho”. (Será coincidência o fato, revelado na reportagem, de que o maior doador individual do ministro, em sua campanha de  deputado federal pelo PP em 2014, foi o empresário Elon Gomes de Almeida, presidente da Aliança, administradora de planos de saúde?)[6].”

 Um golpe também político

 O horizonte de 20 anos de vigência do Novo Regime Fiscal é também um golpe político, pois impede todos os governos brasileiros até 2036 de atuarem com autonomia na área orçamentária. Ou seja, não importam o partido, o presidente eleito, os parlamentares, os compromissos de campanha, as negociações políticas e eleitorais, todo mundo tem que rezar pela cartilha do Meirelles. Retorno ao documento do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado Federal:

Eliminar, como pretende a PEC nº 55, de 2016, a possibilidade de o Chefe do Poder Executivo – legitimamente eleito pelo povo, por intermédio do voto direto, secreto, universal e periódico – definir o limite de despesas de seu Governo significa retirar-lhe uma de suas principais prerrogativas de orientação, direção e gestão. Significa atar-lhe as mãos e impedi-lo de fixar suas diretrizes e definir suas estratégias. Em última análise, significa impedi-lo de exercer, em sua plenitude, o mandato que lhe foi conferido pela soberania popular, prevista no parágrafo único do art. 1º da CF.

 A PEC é inconstitucional

 Por fim, a PEC viola a Constituição de 1988 em inúmeros aspectos (separação dos poderes, retirada de direitos sociais), como apontam a Consultoria do Senado Federal[7] e a Procuradoria Geral da República (Nota Técnica PGR/SRI nº 82/2016, da sua Secretaria de Relações Institucionais, de 7/11/16, aprovada pelo procurador da República[8].

A defesa da PEC é uma posição ideológica como outra, não é a Verdade Única que se pretende impor. Repudiá-la cabe aos humilhados e ofendidos.

FONTES:

[1] http://legis.senado.leg.br/comissoes/comissao?0&codcol=38&data1=2016-10-11&data2=2016-12-14

 [2] http://marcozero.org/tania-bacelar-na-ufpe-a-pec-55-e-a-maquina-brasileira-de-produzir-desigualdade/

 [3] Ronaldo Jorge Araujo Vieira Junior. “As inconstitucionalidades do Novo Regime Fiscal instituído pela PEC nº 55, de 2016 (PEC nº 241, de 2016, na Câmara dos Deputados)”In Boletim Legislativo 53 / Novembro de 2016. https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/boletins-legislativos/bol53

 [4] Fabíola Vieira e Rodrigo Benevides: “Os impactos do Novo Regime Fiscal para o financiamento do Sistema Único de Saúde e para a efetivação do direito à saúde no Brasil” (Nota Técnica nº 28. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Brasília: setembro/2016, 25 páginas.

[5] Folha de S. Paulo on line – 17/05/2016.

[6] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37932736?ocid=socialflow_twitter

[7] Documento citado anteriormente.

[8] http://www.mpf.mp.br/pgr/documentos/nota-tecnica-pgr-sri-no-082-2016-pgr-00290609-2016.pdf

 

O salto radical de Geraldo Maia

22 de Novembro de 2016 às 22:28
Homero Fonseca

Foto: Teresa Maia Zoom
Um show onde tudo funciona

 

Se o poeta Manuel Bandeira estivesse de bobeira sábado passado no Recife e flanando por aí fosse dar com os costados no Teatro Capiba, do Sesc Casa Amarela, com certeza teria um novo alumbramento. O que ele veria/ouviria pra deslumbrar seu calejado coração?

No palco nu, sem qualquer acompanhamento a não ser seu violão, o cantor e compositor Geraldo Maia proporcionou à seleta plateia – como diriam os cronistas de antigamente – uma daquelas raras experiências de um espetáculo perfeito.

 No auge de sua maturidade como intérprete e autor, Geraldo Maia desfiou um extenso repertório luso-brasileiro, povoado de fados e modinhas, gerando uma experiência sensorial poucas vezes alcançadas.

O intenso lirismo das canções é uma revisita a uma sensibilidade antiga, feita de paixão e delicadeza, cristal e veludo. Mas poderia descambar facilmente para um sentimentalismo barato, não fosse a capacidade interpretativa do cantor. Explico: de “Noite cheia de estrelas” (Cândido das Neves) a “Cabecinha no ombro” (Paulo Borges), dos fados “Foi Deus” (Alberto Fialho) a “Olhos castanhos” (Alberto dos Anjos) era enorme o perigo de o intérprete resvalar para o derramamento excessivo, para o brega puro e simples. Mas Geraldo atinge aquele equilíbrio entre o arrebatamento e a contenção, fácil de teorizar e extremamente difícil de realizar.

“Fazer um show sozinho, acompanhado apenas do meu violão (meus recursos de instrumentista são parcos!) – confessa o artista – foi também um ato de coragem; extrema coragem. É um show difícil, que exigiu de mim esforço e muita concentração na hora da execução. Ele alia canções, textos e uma dinâmica no repertório que exigem acuidade e solidez na voz, coisas que já não são meu lado mais forte. Minha força maior, talvez, esteja no aspecto da interpretação, que acaba por 'compensar' um pouco as falhas vocais.”

Modéstia surpreendente nos meios do show-biz, até porque voz e violão alcançam notável nível de expressividade. É o caso da interpretação do fado “Maldição” (Armando Vieira Pinto - Alfredo Marceneiro), um dos pontos altos da noitada.

               O repertório, intercalado por poemas de Vinicius, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Ascenso Ferreira, faz uma ponte sobre o Atlântico unindo canções tradicionais portuguesas e brasileiras, entre elas “Milho verde” e a pungente “Ró-ró”, (canção tradicional da região do Minho, cantada em mirandês, um dialeto do português) e a belíssima “Moreninha”, apresentada como modinha imperial, adaptada por Teca Calazans. E, pura alquimia, ainda joga no mesmo tacho nomes contemporâneos, como Chico Buarque, Marco Polo, Tito Lívio, Tom Zé, o próprio Geraldo, sem desandar a receita, digo, o roteiro.

               Essa liga Brasil-Portugal tem razão de ser, como explica o artista:

               “A raiz lusitana (pai e mãe portugueses) é um fato marcante da minha vida, e de algum modo minha discografia revela, em doses leves e suaves, esse laço. Esse show, porém, foi um salto radical na busca de um encontro mais íntimo, digamos assim, com minhas raízes”.

Minimalista, o recital teve direção e roteiro do próprio Geraldo Maia (grande sacada: o xale na canção de ninar “Ro-Ró”), som irretocável de Matheus Rodrigues, luz de Daniel Farias e figurino de Cássio Bomfim.

O show, sem nome, vai ser apresentado em Salvador, no Sesi do Rio Vermelho, em começos de dezembro. Que tenha uma temporada pra valer no Recife. Se o marketing precisar de alguns adjetivos para anúncios e cartazes, aqui vão alguns:

                “Raro!Perfeito! Brilhante! Único!Emocionante!”

               E sugiro o título “Alumbramento”. Manuel Bandeira apoiaria.

 

Os estudantes, a PEC 55 e o discurso dominante

19 de Novembro de 2016 às 13:16
Homero Fonseca

Foto Sinsej Zoom
Ocupação estudantil: jovem líder discursa

 

Na aprovação da PEC 55 (241 na Câmara), como na destituição da presidente eleita,  a mídia joga um papel preponderante na manipulação da opinião pública. Antes foi a amplificação da crise fiscal (transformada numa crise econômica) em paralelo ao denuncismo escandaloso proporcionado pelos vazamentos seletivos da Operação Lava-jato, que acabou com o PT e agora, numa bola de neve, ameaça a instituição política como um todo, abrindo caminho para o imponderável (e vocês sabem o nome do imponderável).

Agora, o discurso dominante – vocalizado avassaladoramente na mídia pelos colunistas políticos e econômicos, economistas ortodoxos, comentaristas de televisão e rádio, e replicado vigorosamente nas mídias sociais – tenta fazer crer que a PEC é a única alternativa para combater o déficit fiscal e não implicará em perdas para a área social, notadamente saúde e educação.

É a tática da naturalização de ideias, isto é, apresentar como naturais e do interesse de toda a sociedade as reivindicações de um setor social, no caso, as classes privilegiadas. O que é um posicionamento político e ideológico, como qualquer outro, passa a ser vendido como “A Verdade”. Quem pensar diferente é logo desclassificado como um farsante, cujas posições escondem sua verdadeira ideologia (exatamente o que eles fazem). É comum inclusive denunciar a “ideologização” do debate, como se eles não tivessem ideologia, fossem avatares mensageiros de verdades divinas.

Essa velha tática é usada sempre para que reivindicações de privilégios sejam assimiladas como destinadas ao todo social. Como quando a Fiesp fez a famosa campanha de marketing “Quem vai pagar o pato?”. Hoje está ficando cada vez mais evidente que quem vai pagar são os trabalhadores e os mais pobres em geral, o que explica o crescendo de manifestações estudantis e sindicais por todo o país.

 Os golpistas costumam também proclamar que todos os protestos são feitos por estudantes e proletários teleguiados, que sequer conhecem o teor da PEC. Novamente é um velho argumento elitista. A história e a sociologia demonstram que os participantes de movimentos massivos não são necessariamente PhDs em economia ou política, agem intuitivamente na defesa de seus interesses e confiam na interpretação de seus líderes. Por isso é sacanagem entrevistar adolescentes ocupantes de escolas, como se todos estivessem aptos a discorrer fluentemente sobre suas motivações (isto fica para lideranças como Ana Júlia Ribeiro, 16 anos, de Curitiba, lembram?).

Ora, nas passeatas perfumadas pró-impeachment, alguns repórteres alternativos tentavam demonstrar a ignorância de manifestantes brancos e bem vestidos que não conseguiam emendar duas palavras com sentido lógico sobre seus objetivos. Mas os participantes dos protestos estavam lá confiando na palavra dos Alexandre Garcia, Augusto Nunes, Demétrio Magnolli, Eliane Cantanhêde, Marco Antônio Vila, Merval Pereira, Miriam Leitão, Olavo de Carvalho, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e outros porta-vozes dos donos dos veículos de comunicação engajados na derrubada do governo.

Tanto num caso como no outro, essa coisa de descerrar a ignorância dos manifestantes não passa de pegadinha. E o rótulo de teleguiados vale para os dois lados, pois não.

 

As Catilinárias

17 de Novembro de 2016 às 23:23
Homero Fonseca

Foto Revista Caruaru Zoom
Caruaru nos anos 60

 

Por Paulo Afonso Paiva

Em fins dos anos cinqüenta eu estudava no Ginásio Sete de Setembro, em Caruaru. O Professor Kermógenes, que ensinava latim, era mais sisudo que os outros, de naturezas solenes. Uma vez o vi discutindo com o Professor Adérito, professor de matemática, por este ser brincalhão, não cultivando a liturgia do cargo.

 Quando um mestre entrava na sala todos ficavam em pé. Um dia passei para Júlio um papel. Professor Kermógenes viu e exigiu que lhe fosse entregue. Escrevera algumas frases que terminava assim: Fioforius beborum, dominum non hacet.

  - O senhor é muito engraçado. Dou-lhe duas alternativas: copiar esse livro, de forma legível, ou contar para seu pai. Se aceitar copiar, nem tente suprimir textos.

          Meu pai era de Vitória de Santo Antão e quem teve pai nascido naquela operosa cidade entende porque nem titubeei em aceitar a primeira proposta. Estendendo-me um livro, mandou que assistisse a aula em pé, enquanto me chamava de estulto, energúmeno e outros adjetivos que não lembro, tão impressionado fiquei com os dois primeiros, tentando gravá-los para depois saber o significado.

          O livro chamava-se As Catilinárias, de Cícero, escrito em latim. No dia marcado apresentei o trabalho – com os dedos da mão ainda me doendo – tendo de ouvir, de pé, um sermão.

          Enquanto isso, Júlio passava pela classe outro papel, desta vez não detectado pelo Sr. Kermógenes. Nele estava escrito: Refrescatum cunis patus, lacuna est.

 

 

A esquerda voadora, a direita oportunista e o povo

15 de Novembro de 2016 às 13:28
Homero Fonseca

 

Reproduzo artigo do jornalista e escritor Leandro Demori, editor do portal Medium Brasil, que é uma síntese perfeita dos discursos e das ações predominantes hoje no mundo político e no universo virtual. Vale muito a pena ler.

 Trump é a voz do povo

Uma análise rápida sobre Trump (e Bolsonaro)

 A carta de agradecimento de Hillary ao final da campanha postada aqui no Medium é conciliadora, mas mostra claramente o que ela pensa de Trump: um sujeito perigoso que precisa ser monitorado por quem perdeu a campanha. Essa postura reflete em parte os motivos que levaram Trump a vencer: o descompasso entre Hillary e Trump está, justamente, nos corações das pessoas que votaram nele, e que estão pouco preocupadas com as questões mais caras ao que se convenciona chamar de esquerda nos Estados Unidos.

Lembrei de um mini-documentário do The Guardian feito em uma cidade do interior do país. Era um povoado em torno de uma mina de carvão abandonada. Desemprego galopante e pobreza pra todo lado, quase toda a pequena população votaria em Trump. Por que?

Porque ele oferecia soluções claras para problemas reais, mesmo que soluções aparentemente impossíveis de executar (como reativar a mina). Olhando pelo lado das pessoas: promessas por promessas, todos os políticos fazem, e boa parte delas são demagogias de campanha. O povo daquela cidade votaria nas promessas que faziam sentido pra eles, e pra boa parte do povo americano que viu os empregos sumirem e a renda derreter na última década.

Trump não está preocupado com as pautas da Internet (os ativismos de direitos civis que vemos todos os dias, que nos últimos tempos se refletem nos movimentos de ocupação e nas passeatas). Ele deveria se preocupar com essas pautas? Claro que sim, elas são importantes. Mas ele sentiu que a população clamava por algo anterior a poder andar de bicicleta, casar com alguém do mesmo sexo ou fumar maconha em paz. Os trabalhadores, nos EUA, se sentem abandonados, acham que a Ásia roubou suas fábricas e que os imigrantes roubarão seus empregos — mesmo muitos imigrantes pensam isso, o cara saiu do México e foi pros EUA mas não quer que mais mexicanos se mudem pra lá. O mundo de 20 anos atrás, mesmo com maconha proibida, era melhor que o de hoje, na visão dessas pessoas. Elas pagavam a casa, o carro, tiravam férias e viviam felizes no sonho americano.

Mesmo que não sejam coisas excludentes (é possível ter pleno emprego e legalização das drogas), as campanhas políticas fazem isso, elas jogam com as falsas dicotomias para que as pessoas tenham ideias claras, mesmo que fantasiosas, ao fazerem suas escolhas: qual desses dois mundos você quer, o que tenha emprego ou o que se preocupe com o feminismo? É uma racionalização quase primitiva, mas é assim que funciona na cabeça de muitas pessoas. E parte da militância da esquerda tem culpa nisso, por levar essas dicotomias até o fim.

Não vivo em uma cidade americana nem sou especialista em política americana, mas de longe me parece que essa leitura tem algum sentido.

No Brasil teremos esse teste nas próximas eleições, com Bolsonaro, Ciro e quem mais vier. Nenhum deles é igual a Trump, mas é bom ficar de olho neles. Não por eles, mas para quem eles discursam, basicamente a pessoa que perdeu renda e direitos nos últimos anos, que viu o Minha Casa, Minha Vida ter juros maiores, que viu o salário encolher, o supermercado ficar mais caro, o FIES ter “um problema técnico” que levou gente a perder o financiamento, que teve que entregar o carro pra financeira, que está com o cartão de crédito no limite do insuportável. Acho que boa parte de nós pode se ver em algumas dessas situações. A chave é essa: Trump, Bolsonaro e outros não falam “pra meia dúzia de malucos como eles”, falam pra maioria, ou, no caso do Brasil, a “classe média” que tanto se insiste em demonizar e culpar pelos males do mundo. É ali que o jogo é jogado.

 https://trendr.com.br/trump-bolsonaro-elei%C3%A7%C3%B5es-%C3%A9-a-voz-do-povo-5bbfd8ce045c#.gh5vpm5nb

 Também estou no Medium Brasil: //medium.com/@homerofonseca/

 

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