19 de Maio de 2012 às 12:06 em por Homero Fonseca
Ascom/CliSertão
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O poeta Rei Berroa no CliSertão, em Petrolina
Em Petrolina, participando do I Congresso Internacional de Literatura e Leitura do Sertão. Conheço, então, pessoalmente, o poeta dominicano Rei Berroa, sobre o qual eu havia blogado aqui em 2008 uma nota que começava assim:
"Rei Berroa, 59 anos, poeta dominicano, professor na George Mason University no estado da Virginia, EUA, regressava do Recife para Miami, após participar da Fliporto, domingo 9 de novembro, quando o avião em que viajava sofreu uma pane numa turbina e teve de retornar uma hora depois de estar sobrevoando o Atlântico. Foi uma hora de pânico, choro e reza entre os passageiros. O poeta, entretanto, resolveu escrever um poema sobre aquele momento extremo que estava vivendo. Foi uma atitude verdadeiramente poética. O poema me comoveu, como raramente me ocorre com a poesia contemporânea.”
No pôste, apresentei o poema em espanhol e numa tradução minha. O poema me fora remetido pela poeta e professora Lucila Nogueira, sabedora da poesia da América Latina.
Aqui em Petrolina, Berroa, que também é crítico e ensaísta brilhante, fez uma palestra sobre a poesia na República Dominicana, onde a mirada crítica era temperada com um fino senso de humor.
Lembrei o episódio do avião e o professor Alexandre Furtado, mediador da mesa, leu o trecho final do poema que Berroa compôs durante o incidente aéreo, em que o Poeta, diante da eminência de um desenlace fatal, fala para si próprio:
“Se é verdade que esta é tua hora,
deves seguir escrevendo com lápis e papel
e que a morte te flagre entregue
à dona de todas tuas idades e atenções,
à tua amiga, amante e companheira,
tua senhora, a Poesia.”
Pois bem, enquanto Alexandre lia, num átimo, me vi num impasse, digamos, cognitivo.
Eu sempre defendi que literatura é um processo comunicativo no campo estético e, como tal, só se completa com a recepção. Reconheço a dimensão expressiva da poesia, aquele algo a dizer imperativo. Entretanto, ninguém escreve apenas para si. Há sempre um outro a quem nos dirigimos e valida o que escrevemos. O oposto a isso é o autismo.
Pois bem, o notável poema de Berroa, na iminência de um desenlace fatal, me trazia, pois, um problema: por que ele escrevia, era claro: a necessidade interior de expressão. Mas para quem ele escrevia, se o avião parecia à beira do mergulho fatídico nas profundezas do oceano?
Não cheguei a formular esse problema, até porque não tinha cabimento na ocasião.
Mais eis que Berroa, com seu típico senso de humor, resolveu o impasse ao brincar com a situação, dizendo algo mais ou menos assim, em meio aos risos da platéia: no meio do pânico, pegou o caderninho companheiro inseparável e escreveu o poema, na expectativa remota (como a de um náufrago ao lançar sua garrafa na imensidão do oceano) de que algum tubarão engolisse o caderno, fosse pescado por alguém e o poema finalmente encontrado.
Rssssssssss.
A boutade fechava a equação: escrevemos por necessidade interior de expressão, mas também pelo imperativo de nos comunicarmos com alguém.
Afinal, como ensinou Montaigne: “A palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem a ouve."
16 de Maio de 2012 às 01:02 em por Homero Fonseca
Está rolando em Petrolina, às margens do São Francisco, o CliSertão – 1º CONGRESSO INTERNACIONAL DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA NO SERTÃO, promovido pela Universidade de Pernambuco e Fundarpe. A programação, aberta segunda-feira com uma aula-espetáculo de Ariano Suassuna, se encerra na sexta-feira, com a encenação da peça Roliúde, seguida de conversa entre o autor (o locutor que vos fala) e o ator-diretor João Ricardo Oliveira. A apresentação será precedida da Mesa Redonda - “Sertões estrangeiros”, com o escritor Ronaldo Correia de Brito e jornalista Fabiana Moraes, com mediação de Schneider Carpeggiani. (No sábado pela manhã haverá ainda um encontro de escritores da região). A programação é uma bem dosada mescla de produção acadêmica e participação de escritores do Brasil e outros países.
Com certa cara de pau, transcrevo a seguir material de divulgação do espetáculo:
SOBRE O ROMANCE:
Roliúde, de Homero Fonseca, lançado pela Editora Record, é um “romance picaresco, aventuroso e cinematográfico”, que narra as peripécias de Bibiu, um contador profissional de filmes pelo interior do Nordeste, na década de 40.
OPINIÕES:
“Bibiu e Macunaíma são irmãos siameses.”
Nélson de Oliveira, escritor.
“Recomendo Roliúde, de Homero Fonseca. Um livro divertidíssimo.”
Edney Silvestre, jornalista e escritor.
“Li de um jato as histórias de Bibiu. Já o tenho como um desses personagens que a gente não esquece. Você, como poucos, soube juntar, numa mesma fornalha verbal, a tradição oralcordelista com as imagens cinematográficas, gerando, assim, uma terceira via estética das mais prazerosas.”
Hildeberto Barbosa, crítico.
“Quem começa a ler o romance Roliúde, de Homero Fonseca, não sente mais vontade de parar.”
Luiz Carlos Monteiro, crítico.
“Finalmente saiu a edição digital do livro do Homero Fonseca e que eu só agora pude conhecer. Depois do Quixote, é o livro mais engraçado que já li na minha vida. Fica aqui minha entusiasmada recomendação.”
Jairo Lima, poeta.
“A trama é bem urdida e desperta interesse até o fim. Mas , o melhor nele (...) é dosar bem a linguagem popular , sem torná-lo exagerado, apelando para o eye dialect , que deturpa o falado.”
Nely Carvalho, doutora em Letras.
“Uma ideia sensacional e muito bem realizada.”
Paulo Betti, ator.
“As versões de Bibiu para clássicos como ... E o vento levou, Casablanca, Sansão e Dalila e No tempo das diligências são impagáveis e merecem figurar desde já entre as mais divertidas páginas da literatura nacional.
Luiz Paulo Faccioli, escritor, no jornal Rascunho.
“É um livraço.”
Xico Sá, jornalista e escritor.
SOBRE A PEÇA ROLIÚDE
A peça Roliúde é uma adaptação do romance homônimo de Homero Fonseca, com dramaturgia, direção e interpretação de João Ricardo Oliveira. Produzida pela companhia carioca Emcartaz, já fez temporadas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Pernambuco (Recife, Caruaru e Garanhuns) e Ceará.
OPINIÕES:
“Um personagem que só poderia ter saído da imaginação (mas, reza a lenda, existiu "de verdade"): o contador de filmes. Você vai gostar de conhecê-lo. (...) Os filmes que ele narrava eram melhores, mais divertidos e mais fantásticos do que os concebidos pela imaginação dos pobres roteiristas milionários de Hollywwod, coitados, incapazes de reinventar a vida com tanta picardia quanto Bibiu - o nome do nosso herói. Bibiu é o personagem principal do romance "Roliúde", escrito por Homero Fonseca. Cedo ou tarde, ganharia vida num palco. Como se diz, "é diversão garantida".
Geneton Moraes Neto, editor e repórter especial da GloboNews.
“João Ricardo-Bibiu compreendeu o romance e criou um espetáculo teatral cuja capacidade imagética lembra o cinema. No centro da cena, a palavra veste o ator e faz o espectador ver na tela imaginária todos os filme reinterpretados de forma criativa.”
George Moura, roteirista e crítico teatral.
“Com onomatopéias e um timing perfeito, João Ricardo de Oliveira utiliza o corpo como importante instrumento em Roliúde. Usando mímicas, a peça nem parece um monólogo, já que o ator consegue criar todos os personagens que aparecem nas histórias.”
Norton Tavares, no site Teatrando.com
Além de cortar e costurar o texto com cuidado e esmero, João Ricardo é um ator com talento para dar, vender e trocar. Em alguns momentos, a transição entre uma fala e outra é assustadora. Parece coisa de espiritismo ou transe mediúnico. Quando a peça terminou e voltou a falar em “carioquês”, o teatro ficou mudo de espanto. Pensávamos todos que ele era de Caruaru.”
Inácio França, jornalista.
“A peça Roliúde abriu o festival em grande estilo com sucesso de público e crítica.”
Revista Continente.
14 de Maio de 2012 às 11:04 em por Homero Fonseca
Agência Talent de Publicidade
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Genial ilustração de anúncio do patrocinador Votorantim pela conquista da "Cobra Coral"
29 de Abril de 2012 às 15:43 em por Homero Fonseca
UM CONTO DE SÉRGIO C. BUARQUE
Confusão de tiros e gritos se espalhava pela cidade. No seu pequeno e desordenado gabinete, o filósofo ainda escrevia e meditava. Parecia ausente e surdo ao infernal barulho do confronto militar da frágil resistência às tropas inimigas. Muita fumaça avançava nas ruas e logo o incêndio entrou pela janela e passou a queimar os armários e livros do filósofo. Acordou da transcendente reflexão e descobriu que sua biblioteca provisória estava sendo devorada pelo fogo. Agitado e bastante nervoso, as pernas vacilando, o filósofo alemão recolheu seus apontamentos, vestiu um casaco e saiu para rua, abraçado com as suas ideias mesmo sem saber o que poderia fazer para escapar da violência que entrava pelas ruas da cidade.
A chuva fina e as ruas empoçadas emolduravam o ambiente de desolação da cidade universitária com sua tranquilidade destroçada pela guerra. O filósofo temia o avanço dos franceses; mas sentia a força da modernidade no rufar dos tambores anunciando a entrada triunfante do grande general e, principalmente, na melodia, carregada de promessas, da Marselhesa que ocupava a pequena cidade. No dia anterior, da sacada dos aposentos, ele tinha vislumbrado de longe a figura do imperador comandando as tropas no cerco da cidade; pensava na força excepcional de um indivíduo que, montado num cavalo e concentrado num objetivo, abarcava e dominava o mundo.
Na medida em que os tiros escasseavam, as ruas vazias eram ocupadas pela tropa em formação marchando na direção da Prefeitura. Diante do cortejo vitorioso, imponente no seu belo e elegante cavalo, Napoleão confirmava seu poderio e a posse da cidade, desfilando sua superioridade e seu domínio. Apenas um ano mais velho que o filósofo alemão, Napoleão já dominava a parte ocidental da Alemanha como protetor e autoridade máxima da Confederação do Reno. A tomada de Iena preparava o caminho para a conquista da Prússia, deixando no rastro uma mistura de destruição material e desestruturação da aristocracia feudal com novas instituições políticas. A Europa se curvava diante do poder das armas e dos novos ventos de mudanças sociais e reconstrução dos Estados.
O filósofo caminhava pela calçada, abraçado com seus manuscritos por baixo do casaco; pensava no papel de um grande homem na história da humanidade e, mesmo angustiado com a ocupação e com seu próprio destino, via em Napoleão a expressão operacional da revolução francesa, mensageira da liberdade e da abolição da servidão. Divagando sobre a história e o espírito dos tempos, o professor procurava um caminho seguro para sair da cidade e encontrar um abrigo para seus manuscritos. Quando virou a primeira esquina, deu de cara com o monumento imperial saltando de leve na sela do belo cavalo em um trote suave e deslumbrante. O filósofo ficou paralisado diante daquela imagem de poder, glória e renovação que dominava a Europa e mudava o mundo; como se tivesse sido empurrado com força pelo ar exalado pelo imperador, seu corpo foi colado na parede do prédio, com as pernas vacilantes, enquanto seu olhar acompanhava o movimento do general com sua vestimenta de gala e seu gesto poderoso saudando o povo humilhado e deslumbrado que se escondia por trás das cortinas e sacadas num misto de medo e incontida curiosidade.
Olhando para o lado, Napoleão percebeu a presença do filósofo, grande e pesado, encostado na parede e seus olhos se encontraram por um segundo, suficiente para provocar uma estranha inquietação no imperador francês. Parou o cavalo e sentiu no olhar do filósofo uma mistura de medo, revolta e admirada reverência pelo portador da modernidade na velha e decadente Europa; não reconheceu o homem, mas teve a impressão nítida de que estava diante de uma grande personalidade da Alemanha. Deu ordens para que o trouxessem até ele e continuou a cavalgada na direção da Prefeitura; entrou e se instalou na primeira poltrona, depois de tirar o casaco e estirar as pernas. Logo seu ajudante de ordens entrou com o filósofo, agora caminhando com segurança e visível surpresa, observando o símbolo do poder e da inovação diante dele; parou a poucos metros do imperador e cumprimentou-o com tímido e imperfeito francês.
O imperador pediu que o filósofo sentasse e interpelou: “O senhor não aprova minha causa, pelo que percebo no seu olhar. Vejo que o senhor não é um nobre, mas não parece perceber que estou enfrentando o despotismo no seu país”.
O filósofo ainda vacilou e temeu, sentiu-se intimidado diante do espírito do mundo representado por aquele homem baixo mas pleno de energia e poder; aos poucos, levantou a cabeça na direção do imperador e respondeu: “Vossa majestade está enfrentando o despotismo com métodos despóticos. Admiro os objetivos mas repudio os meios”. Ao mesmo tempo em que censurava os métodos do grande general, Hegel sentia, em silêncio respeitoso, que ele estava fazendo a história da humanidade, o imperador dos franceses derrubando a ´Bastilha da Alemanha´ e avançando sobre a Prússia feudal, autocrática e anti-iluminista
Napoleão ficou incomodado com a referência crítica aos seus métodos, mas não resistiu ao encanto dos conceitos do seu atrevido interlocutor. Olhou nos olhos de Hegel e perguntou: “Como é o seu nome, meu caro senhor?”
- “Georg Wilhelm Friedrich Hegel, majestade”, respondeu o filósofo, suspeitando que Napoleão não reconheceria um simples pensador alemão com sua arrogância militar e imperial. O imperador levantou de um salto, acompanhado de um grito de surpresa e admiração; fez uma reverência e com grande animação pediu desculpas por não ter reconhecido o filósofo.
“Hegel! O grande Hegel, Que honra conhece-lo, professor”. Depois de uma pausa, perguntou: “Por que estava fugindo?”
- “Temo o poder de um monarca que invade as nações vizinhas impondo o domínio francês aos povos renanos e às nações alemãs”. O general parecia irritado com a afirmação mas estava fascinado com aquele contato surpreendente com o homem que melhor pensava o seu destino como imperador da Europa. “Além do mais, completou Hegel, seu exército destruiu minha casa”. O filósofo sentia a emoção de dialogar com o homem que considerava a encarnação da história e o construtor do Estado moderno, mas não queria ceder a esta admiração pelo Imperador francês.
- “Meu caro, filósofo, o senhor sabe melhor que ninguém que eu sou o construtor da história e o porta-voz das mudanças que trazem a modernidade para a Europa. Não vejo porque temer, menos ainda me chamar de autocrata. Quanto à sua casa, caro professor, mando construir uma nova residência com uma bela biblioteca para sua reflexão filosófica”.
- “Perdoe minha petulância, Imperador, perdoe”, respondeu Hegel com sincero reconhecimento. “Mas eu entendo que o senhor é apenas um instrumento da história e do progresso da humanidade”.
- “Bom, meu caro Georg Wilhelm, assim está bem melhor. O senhor reconhece a minha missão, embora, convenhamos, está subestimando minha liberdade de escolha e meu talento militar. Mas, não me importo”. Napoleão parou, houve um breve silêncio, até que retomou a conversa: “O senhor acha que a história seguiria o progresso mesmo sem mim, sem minha ousadia e decisão, sem minha organização militar perfeita?”
- “A história tem uma sabedoria e força interior, Imperador”, retrucou Hegel com sutil ironia, “se não fosse o grande general Napoleão, outro faria o que o senhor está fazendo de forma muito competente; ousaria apenas dizer que preferia que um outro o fizesse com mais brandura e respeito, principalmente sem se declarar imperador”.
Napoleão não retrucou à provocação do filósofo, que agora se sentia mais seguro da sua posição, e retomou o controle da conversa com uma pergunta simples mas inquietante para Hegel: “O que o senhor esconde por baixo do sobretudo?”
- “Nada demais, Imperador. Alguns manuscritos filosóficos rabiscados”.
- “Alguns manuscritos filosóficos!!!!???”, comentou o general com certa ironia. “O grande Hegel, filósofo da modernidade tem apenas alguns manuscritos filosóficos. Ora, senhor Hegel, eu quero ver esses manuscritos. Peço que me permita ao menos olhar e apalpar as notas em que sua aguda inteligência interpreta o mundo”.
O filósofo recuou, apertou os papéis no peito e negou-se a entregar seus manuscritos a Napoleão. O general teve um impulso de empurrar o insolente alemão e mandar seu ajudante arrancar os seus papéis – “ora, afinal, com quem ele pensa que está lidando?”; controlou sua irritação, chegou a admirar o apego do professor aos seus textos e sentou na poltrona com um forte incômodo no estômago. Hegel percebeu a tensão e pediu autorização para se retirar.
- “Me permita antes manifestar minha surpresa, caro professor; o senhor parece preferir o Estado aristocrático prussiano aos princípios da revolução francesa e ao Estado racional que estamos difundindo na Europa. Onde terminam as suas convicções e onde começam seus sentimentos patrióticos alemães?” Hegel sorriu comovido com o interesse do homem mais poderoso do mundo pelas suas ideias filosóficas.
- “Majestade, eu penso que o senhor é o grande responsável pela propagação dos ideais da revolução francesa na Europa mas, ao mesmo tempo, me permita dize-lo, o grande general cedeu aos encantos da monarquia. Neste aspecto não difere muito do imperador Frederico Guilherme III da Prússia”.
Napoleão ouviu com condescendência e respeito o duro julgamento do filósofo. Não estava acostumado a tanta franqueza, sentindo uma mistura de irritação e prazer intelectual com um diálogo que já há muito não tinha tido. Resolveu contra-atacar o filósofo com sua própria filosofia. “Caro professor, eu sou a síntese do processo revolucionário francês; a queda da Bastilha foi a irrupção das energias contra a monarquia absolutista e a servidão, mas o Terror foi a antítese dialética que resultou no 18 Brumário e no Consulado; eu assumi o poder como a síntese para retomar em novas bases os princípios e propósitos da revolução em desagregação, para difundir a modernidade pelo continente”.
Hegel observava admirado o edificante manejo da dialética pelo grande general, utilizava suas armas para convencê-lo da legitimidade do império francês. E, embora aceitasse a argumentação do imperador, o filósofo não queria sair perdendo na discussão; na verdade, se divertia com o jogo da dialética e estava fascinado com a inteligência do interlocutor e sua condescendência para a ousadia de um simples filósofo.
- “É verdade, majestade, o senhor é a síntese; mas, como tal, o senhor, sendo o novo, carrega também o velho dentro de si”. Fez uma pausa intencional para sentir a reação do interlocutor e retomou. “Tudo indica, imperador, se estamos certos na dialética, que seus exércitos propagam a liberdade e a igualdade mas, ao mesmo tempo, novas forças estão se formando que preparam o mais novo que amadurece dentro do seu império”.
- “O senhor está dizendo que a síntese – no caso o Império Napoleônico – já é velha no momento em que se consolida, começando a conviver com sua negação?”, perguntou Napoleão com um gesto cético e arrogante.
Nesse momento, entrou um oficial anunciando que os aposentos do Imperador na estalagem estavam preparados e que ele poderia subir para se banhar antes do jantar. O general não gostou da interrupção, ficou indeciso e resolveu convidar Hegel para se alojar na mesma estalagem e se encontrarem depois para jantar, quando continuariam a conversa.
Surpreso e muito honrado, Hegel aceitou o convite. Não tinha mesmo para onde ir e não queria interromper este encontro do pensamento com a vontade daquele homem que estava modernizando e humanizando a Europa. O filósofo lembrava aquela manhã do verão de 1789 quando, ainda jovem estudante, plantara a “árvore da liberdade” com os colegas Hölderlin e Schelling como uma homenagem eufórica à Revolução Francesa; agora estava alí diante do grande condutor das transformações no continente, representante e, ao mesmo tempo, coveiro dos sonhos românticos e heróicos da sua juventude.
No jantar, Napoleão estava mais descontraído e afável. O garçon serviu um champanhe Moët
& Chandon que o imperador saboreava com um riso de grande prazer. “Sabe, professor, eu tenho um ponto frágil nas minhas campanhas; transporto um estoque de vinhos, conhaques e champanhes, especialmente estes doados por Jean-Rémy; tomo o vinho merecido nas vitórias e, embora não espere ser derrotado, posso necessitar do vinho para me afagar quando chegar a hora”. Hegel não parecia conhecer o proprietário da casa Moët & Chandon mas estava deliciado com o buque e as espumas do champanhe, olhava a taça com alegria e saboreava o frescor do líquido. Napoleão continuou falando da bebida: “Nós conseguimos controlar a força da fermentação que explodia as garrafas. Agora temos um espumante com equilíbrio e um néctar dos deuses, meu caro Hegel”.
A cidade se organizava depois da batalha, as ruas readiquiriam movimento e alguns burgueses arriscavam se aproximar do imperador com admiração e respeito, e com uma descarada submissão. Hegel se irritava com a entrada dos burgueses que interrompiam a conversa e o Imperador se mostrava solícito apesar da arrogancia da vitória e da demonstração de pusilaminidade dos cidadãos de Iena. Para incômodo do filósofo, alguns olhavam para sua posição na mesa de Napoleão como cúmplice na bajulação do poderoso invasor, pareciam reconfortados por estarem ao lado de um respeitado representante do espírito alemão. Estava indignado com a humilhação vergonhosa a que levaram a cidade, a Iena da brilhante universidade recriada por Goethe, onde ensinaram Fichete e Schiller, a cidade que foi o berço do movimento dos românticos - o Círculo dos Primeiro Românticos – a cidade com a maior efervescência intelectual da Alemanha.
Quando voltaram a conversar, Napoleão tomou a iniciativa: “Então o senhor considera que não existem diferenças entre o império Napoleônico e o absolutismo prussiano! Pois eu vou dizer, meu caro filósofo, eu estou acabando com a servidão que sustenta o seu Imperador, eu estou implantando a racionalidade do Estado que o senhor defende, enquanto ele subjuga as várias nações alemãs aos interesses prussianos e conserva as tristes formas de servidão humana”. Hegel não podia discordar da argumentação do Imperador e embora tivesse certeza que a unificação da Alemanha seria comandada pela Prússia, reconhecia que era o invasor francês que estava construindo o Estado racional.
- “Pela primeira vez, general, tenho que concordar com sua majestade”, respondeu Hegel intencionalmente misturando a patente militar com detestado título monárquico. “Mas, me permita acrescentar um leve detalhe na sua argumentação: a história costuma se vingar dos homens que pensam comanda-la e os resultados da sua ação quase sempre saem do controle e, muitas vezes, vão na direção contrária às pretensões dos líderes. As transformações que seu exercito está promovendo na Alemanha podem construir uma poderosa nação e um Estado mais racional e perfeito que o francês do Império Napoleônico. Sabe por que, general? Porque o espírito alemão é superior ao francês na racionalidade e na disciplina”.
- “Bobagem, patriotismo ridículo”, reage com mistura de raiva e ironia o Imperador. “Eu construí o mais poderoso, disciplinado e racional exercito do mundo, eu estou implantando o Estado e o reino da razão e da lei nos territórios alemãs. Não foi o seu Imperador prussiano que espalhou a liberdade e a razão no continente”. Naquele momento, Hegel pensava que, realmente, era aquele homem excepcional que representava a razão da história: ´parece que nem ele está consciente do seu papel na moderna sociedade e na razão do Estado, abrindo a porta para o meu pensar filosófico e político´, refletia o filósofo.
Ainda conversaram bastante durante o jantar, tomaram uma taça de conhaque anes de recolherem aos aposentos. Quando chega ao seu quarto, Hegel percebe que seus manuscritos foram roubados. Soltou um grito de terror e fúria e sentiu-se traído pelo imperador, tinha certeza que ele tinha mandado seus oficiais retirarem o texto. Correu pelo corredor procurando o quarto de Napoleão, foi imobilizado por um soldado da guarda do general; reagiu gritando em alemão, atacando o general e explodindo numa intensa mágoa e decepção.
De repente, a porta do quarto da direita se abre e Napoleão, com roupa íntima, aparece com um texto mão e lê em voz alta: “Não é difícil dar-se conta, entre outras coisas, de que vivemos em tempo de gestação e de transição para uma nova época. O espirito rompeu com o mundo anterior, com o seu modo de ser e com a sua representação e dispõe-se a lançá-lo no passado, entregando-se a tarefa da sua própria transformação. O espirito, certamente, não permanece nunca quieto, senão que se acha sempre em movimento incessantemente progressivo. Mas, assim como uma criança, depois de um período de silenciosa nutrição, no primeiro alento rompe bruscamente com a gradualidade do processo puramente acumulativo num salto qualitativo, e a criança nasce, assim também o espirito que se forma vai amadurecendo lenta e silenciosamente até assumir uma nova figura, vai desprendendo-se de uma partícula atrás da outra da estrutura do mundo anterior e os estremecimentos desse mundo se anunciam somente por meio de sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que se apoderam do existente e o vago pressentimento do desconhecido são os sinais premonitórios de algum outro se avizinha. Tais paulatinos despreendimentos, que não alteram a fisionomia do todo, se vêem bruscamente interrompidos pela aurora que de pronto ilumina como um raio a imagem do mundo novo”.
Quando termina a leitura, Napoleão conclui: “O senhor está falando de mim neste belo ensaio, caro filósofo. Eu sou esta aurora que nasceu da revolução francesa para criar o mundo novo”. Hegel já está quieto embora ainda decepcionado com a traição; de qualquer forma, sente profundo orgulho ouvindo o imperador lendo o seu manuscrito e, aparentemente, compreendo sua mensagem. “É ele mesmo”, pensou. O imperador organiza os papéis e passa o oficial assistente, que o leva para Hegel. “Continue escrevendo, meu caro filósofo, enquanto eu cumpro a missão que me confere em seu pensamento, enquanto eu torno realidade a sua filosofia. O senhor entende melhor a minha guerra que eu próprio. Boa noite”.
Hegel recolheu os manuscritos com cuidado. Desceu a escadaria do hotel e saiu no meio da noite, o ar frio de outono refrescando sua mente, abraçou os papéis por dentro do sobretudo. Parecia ainda ouvir as últimas palavras de Napoleão enquanto seguia pelas ruas vazias de Iena com seu inquietante pensamento: “a filosofia está vivendo a sua verdade pelas patas do cavalo do imperador”.
20 de Abril de 2012 às 10:23 em por Homero Fonseca
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Leda Alves e Hermilo Borba Filho
ARTE PLURAL GALERIA
Apresenta
SARAU PLURAL 24
RAPSÓDIA PERNAMBUCANA – NEM CAVALCANTIS, NEM CAVALGADOS
Com Homero Fonseca, Marco Polo, Geraldo Maia e Vinícius Sarmento.
Convidada especial: LEDA ALVES, atriz, pesquisadora de cultura popular, gestora cultural.
Textos de Adriana Falcão, Gerusa Leal, Hermilo Borba Filho, Jerônimo Vilela, Luiz Berto.
Poemas de César Leal, Cida Pedrosa, João Cabral, Joaquim Cardoso, Marcus Accioly, Micheliny Verunschk.
Trilha sonora: Alceu Valença, Banda de Pífanos de Caruaru, Caetano Veloso, Capiba, Dudu Falcão, Gerado Azevedo, Lenine, Teca Calazans.
Terça-feira, 24 de ABRIL de 2012
19 horas
No local de sempre: Arte Plural Galeria – Rua da Moeda, 140 – Recife Antigo. Fone: 3424.4431.