Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 23 de Janeiro de 2017
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O destino de Donald Trump

14 de Janeiro de 2017 às 20:15
Homero Fonseca

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O método americano: Lincoln, James Garfield, William McKinley e John Kennedy foram assassinados durante o mandato

 Pelo andar da carruagem, o stablishment político americano não digeriu a derrota de Hillary Clinton, e Donald Trump — com sua valiosa própria ajuda — não governará até o fim do mandato.

A dúvida é se será pelo inédito (lá nos States) processo de impeachment ou se eles usarão o método tradicional (Lincoln, James Garfield, William McKinley e Kennedy, assassinados durante o mandato).

Intuo que arranjarão uma fórmula jurídica para defenestrar Trump.

Se essa “profecia” se cumprir, vou querer minha carteirinha de adivinho mundial.

O SANTA MARIA

14 de Janeiro de 2017 às 20:10
Homero Fonseca

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O sequestro do transatlântico português incendiou a imaginação dos jovens

 Crônica de Paulo Afonso Paiva

    Em janeiro de 1961, um vendaval sacudiu a minha turma, em Caruaru. Gianinni Mastroianni, Inaldo Pereira e eu, nos entusiasmamos com o sequestro do Santa Maria - um navio de passageiros lusitano - pelo Capitão Galvão e seus partidários, inimigos do ditador Salazar, de Portugal. Era o primeiro sequestro náutico dos tempos modernos.

            Pelo Repórter Esso e jornais, que acompanhavam o caso, soubemos que o navio se dirigia para o Brasil, possivelmente para o Nordeste. Depois de alguns dias a notícia se confirmou. Rumava para Pernambuco.  Próximo ao porto do Recife, fundeou, esperando o desenrolar dos trâmites diplomáticos com o pedido de asilo dos revoltosos.

            Nossa imaginação fervia. Aos quinze anos, a aventura e o fato de sermos assíduos visitantes da Barraca dos Comunistas, uma banca de jornal existente na frente do Jardim Siqueira Campos - onde os frequentadores apoiavam os rebelados - nos fez querer aderir aos insurgentes.

            Fizemos planos de irmos para o Recife onde alugaríamos um barquinho no Porto, dizendo que queríamos tirar fotos da cidade. Quando saíssemos Barra a fora, pediríamos ao barqueiro para nos levar até o navio. Caso ele não aceitasse eu sacaria uma Comblair, também conhecida como dois tiros e uma carreira, de meu pai, e o obrigaria a nos atender.

            Na véspera de viagem, Inaldo desistiu. Disse que pensou bem e que se fosse conosco sua incorporação na Marinha seria negada. Gianinni também esfriou. Meditara e chegara a conclusão que aquilo ia ser uma fria. Eu ainda pensei em tocar o plano sozinho, mas depois vi que não dava. Assim nossa aventura malogrou.

            Naquela noite, fomos ao Bar de Risto Welkovick, que ficava na Rua da Matriz. Depois de algumas Cubas Libres fizemos um discurso esculhambando o Ditador Salazar, o Prefeito, o Governador de Pernambuco, o Presidente da República e todos os tiranos. Em continuação, nos solidarizamos com os revolucionários portugueses e nos declaramos em Estado de Prontidão Democrática, seja lá o que isso significasse.

           Aquela aventura juvenil – que acabou não acontecendo – foi o primeiro dos moinhos com os quais duelaria pela vida a fora.

A arte de delirar politicamente

11 de Janeiro de 2017 às 00:22
Homero Fonseca

Em recente postagem no portal da Veja, um jovem blogueiro com nome de colírio, notório pelo fanatismo ideológico, excedeu-se em suas fabulações delirantes, ao atribuir ao PT e às Farcs a responsabilidade pela pavorosa chacina do presídio de Roraima.

Discípulo de Olavo de Carvalho, o colunista Não-sei-quem-lá Moura Brasil maneja o delírio como arma para combater o Dragão da Maldade Esquerdista no Brasil. Seu artigo, intitulado “O legado do PT nos presídios”, prima, como sempre, pela cavilação, juntando informações desconexas, omissões, inverdades e calúnias, num malabarismo não de todo isento de graça para atingir seu objetivo supremo: denunciar os horrores do perigo vermelho que, desde 1848 pelo menos, ronda o Brasil.

A catilinária do rapaz com nome de colírio deixa de  levar em conta que o socialdemocrata Partido dos Trabalhadores não está mais no governo (e eu ia escrevendo no poder, mas isso é uma imprecisão, pois ele nunca esteve realmente no poder, exercido nas sombras ou às claras, como agora, pela Confraria do Privilégio) e que as Farcs aderiram à democracia representativa, assinando um complicado acordo de paz com o Governo da Colômbia, graças, em parte, à atuação conciliadora do antigo governo petista e do papa Francisco (aguardem quando Não-sei-quem-lá Moura Brasil acusará o sumo pontífice católico de agente soviético), entre outros atores internacionais.

Mas o que interessa ao trêfego blogueiro não é analisar os fatos, mas, no espírito do personagem Maxwell Scott do filme O homem que matou o facínora, o importante é a versão disseminada, pois, no mínimo, o delírio direitista cairá no agrado de leitores da Veja e similares e será propagado pelas redes sociais, na esperança de que, repetido mil vezes, ganhe o carimbo de verdade.

Tudo na linha da igualmente trêfega diva do impeachment, Dra. Janaína Pascoal, que revelou, recentemente, um suposto plano da Rússia de invadir o Brasil via Venezuela, defendendo uma intervenção preventiva das forças armadas brasileiras na vizinha República Bolivariana (não na Rússia, claro!). Agora que o novo presidente dos EUA, Donald Trump, é parceiro amigo do peito irmão camarada de Vladimir Putin, Dra. Janaína não voltou mais ao assunto. Será o Trump o mais disfarçado dos agentes comunistas infiltrados no mundo ocidental cristão da livre iniciativa? Alô, Janaína.

O jovem Não-sei-quem-lá Moura Brasil, que classifica seus textos como irreverentes – como se isso o liberasse para delirar, mentir e caluniar -, é discípulo devoto de Olavo de Carvalho, o maluco filósofo guru da direita tupiniquim, assim como seu colega guerreiro-frio Rodrigo Constantino. Para entender a cabeça desses militantes do olavismo, remeto para o artigo “Precisamos falar de Olavo de Carvalho”,  de Joel Pinheiro da Fonseca, um economista neoliberal, ex-simpatizante do olavismo, publicado na Café Colombo n. 4, de outubro de 2015, disponível no portal da revista, no endereço: http://www.cafecolombo.com.br/ideias/precisamos-falar-sobre-olavo-de-carvalho-2/

É um texto muito esclarecedor sobre Olavo e o olavismo.

Um trecho do artigo:

“Apesar dos erros, Olavo tem a força de estilo, o carisma e a retórica para conquistar o público. Seus leitores e ouvintes assíduos tornam-se incapazes de avaliar racionalmente qualquer ideia que venha do outro lado do espectro, por estar envenenada de marxismo cultural. Aderem às mais irrisórias conspirações que circulam por correntes de WhatsApp e sites de notícia falsas, referências que o próprio Olavo já compartilhou. Adicione a isso doses de milenarismo católico (como as aparições de Fátima) e tem-se noção do nível de delírio.”

Eles não são imbecis

04 de Janeiro de 2017 às 13:33
Homero Fonseca

Por Joca Souza Leão

Recebi e-mail de um conhecido (que já me teve na conta de amigo, mas não tem mais; logo, logo você vai saber por quê), com uma foto de Chico Buarque ao lado de Lula, num evento recente.

Dizia o conhecido: “Chico tá achando ruim porque perdeu a boquinha da Lei Rouanet para patrocínio dos seus shows e projetos culturais. ” (Se Chico não é mais cultura neste país, quem é?)

O conhecido (que já me teve na conta de amigo) foi fã de Chico no passado, desses que tinha todos os discos, inclusive em vinil, desde A banda. Hoje, ele se diz na “nova e verdadeira esquerda”; mas, fã de Chico, acho, não se diz mais.

 “Este é tempo de partido / tempo de homens partidos” – previu Drummond. O partido do meu conhecido é o partido do bem, segundo ele. O partido dos outros é o do mal. Ele é inteligente, moderno, democrata, ético, honesto e íntegro. Os outros são burros, imbecis, retrógrados e, pior, desonestos e mal-intencionados.

Ele quer o bem do Brasil. Os outros, o mal. O meu conhecido e seus companheiros de partido julgam que o que houve no Brasil recentemente foi um processo de impeachment. E condenam ao fogo eterno aqueles que, como Chico, acham que o que houve não passou de um reles golpe parlamentar.

Joaquim Barbosa sabe – ou pelo menos sabia na época do julgamento do mensalão – alguma coisa sobre Direito e Constituição. Meu conhecido e seus companheiros (além da grande mídia) o alçaram à condição de “Paladino da Justiça”. Ou não?

“Impeachment tabajara (...) espetáculo patético (...) coup de baguette juridique (...) golpe certeiro na democracia (...) é de fazer chorar de vergonha” – disse o ex-presidente do Supremo. Quer dizer, pra ele, tecnicamente falando, GOLPE.

E disse mais: “forças altamente conservadoras tomaram o Brasil, tomaram conta de tudo (...) Temer pode ser comparado aos velhos caudilhos latino-americanos (...) quem vai investir num país que derruba presidente com tanta ligeireza, facilidade e afoiteza? ” 

Joaquim e Chico não são a favor da corrupção nem são contra a Lava-jato. Eles foram – e são – contra o golpe que alguns chamam de impeachment. (Aliás, a vocação golpista de alguns vem de longe, pois saudaram o golpe militar de ’64 como “revolução democrática”.)

Joaquim e Chico não são imbecis. Joaquim e Chico sabem que o dinheiro da Previdência foi – e é – desviado para pagamento dos juros da dívida pública (R$ 110 bilhões ao ano – 30% do que é arrecadado para a seguridade social), para a concessão de incentivos e renúncia fiscal, para o bolso de alguns empregadores que descontam dos seus empregados e não recolhem, além de sonegarem a sua parte. Joaquim e Chico sabem, como todo mundo, que a conta da Previdência não fecha. Mas eles não são idiotas. Eles sabem porque não fecha. 

Joaquim e Chico não são contra reformar o ensino médio. Joaquim e Chico são contra é a reforma conservadora que está sendo feita a toque de caixa e por medida provisória.

Joaquim e Chico não são contra um teto para os gastos públicos. Eles são contra é a redução dos investimentos constitucionais em saúde e educação.

Joaquim e Chico não são contra a flexibilização e modernização da legislação trabalhista. São contra é a extinção das conquistas do trabalhador brasileiro.

Meu caro conhecido (que já me teve na conta de amigo), senhores do partido do bem e guardiões da ética: Joaquim e Chico são contra a privataria que está em curso porque Joaquim e Chico são a favor do Brasil. 

Para os fundamentalistas de plantão, ser contra significa ser mau. E não ser contrário. Isso cheira mal.

Entre Chico Buarque de Holanda e o meu conhecido (que já me teve na conta de amigo), não tenho nem que pensar. E mais: o avô de Chico, como o meu, era pernambucano.

A nossa pátria mãe tão / distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações (...)

Mas o estandarte do sanatório / geral / Vai passar.

Joca Souza Leão é cronista.

Os Corumbas, personagens de três autores

25 de Dezembro de 2016 às 19:44
Homero Fonseca

 

 

A família Corumba é composta dessa espécie muito singular de personagens literários que saltam do livro original para morar em textos de outros autores, como citação ou homenagem.

O romance Os Corumbas, de Amando Fontes[1], foi lançado em 1933, mesmo ano de Cacau, de Jorge Amado. Foram a sensação editorial do ano, esgotando edições rapidamente e merecendo enorme atenção da crítica. No país extremamente polarizado de então, as duas obras foram o foco de um retumbante debate sobre literatura proletária, provocado pelo escritor baiano. É que, na célebre nota introdutória de Cacau, o jovem autor, já então filiado ao Partido Comunista, se coloca como fundador de uma nova vertente, ideológica, da literatura brasileira, disparando: "Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário?” A resposta, com aplausos à esquerda e críticas à direita, foi sim.

Mas vem Amando Fontes, católico, político conservador moderado, e lança, quase simultaneamente a Cacau, a história da família de agricultores pobres do interior sergipano que, tangida pela seca, vai tentar a sobrevivência na capital, Aracaju, no início do século 20. O pai, Geraldo, e os filhos Rosenda, Albertina, Pedro e Bela tornam-se operários; a mãe, Sá Josefa, cuida da casa, e Caçulinha é mandada para a escola pública, para se formar professora, melhorar de condição e ajudar a família. O romance é a narração da degradação econômica, moral e física da família proletária, vitimada por uma engrenagem gigantesca que tritura os corpos e as almas de trabalhadores ferozmente explorados. Todo o drama é uma sucessão de desgraças: três filhas terminam jogadas na prostituição, uma morre tuberculosa, o filho se envolve em agitação sindical, é preso e deportado, e os dois velhos, na última cena do romance, uma das mais tristes da literatura brasileira, estão num trem, derrotados, humilhados e ofendidos, na viagem de volta à terra de onde migraram. Tudo sem adjetivos, sem pieguice, sem idealização, sem proselitismo.  Uma narrativa essencialista, onde o narrador não toma partido, não intervém, não dá “avisos ao leitor”.

(Um exemplo emblemático da preocupação de Fontes com a postura essencialmente narrativa, é trazido pelo crítico e historiador literário Luís Bueno: descrevendo a cena em que, numa manhã chuvosa e fria, Sá Josefa deixa-se ficar um pouco mais na cama de tábuas, encolhida, o autor acrescenta “debaixo da sua miserável coberta de retalhos”. Numa revisão posterior, o adjetivo miserável seria substituído por desbotada.)[2]

O livro fez um sucesso retumbante, teve três edições num semestre e venceu o Prêmio Felipe D’Oliveira de Literatura daquele ano.  Mas foi engolfado pelo debate um tanto bizantino, atiçado pela provocação de Jorge Amado: seria um romance proletário ou sobre proletários? No auge do sectarismo stalinista e, talvez, cioso de marcar como seu o território, Jorge – que deixara a interrogação estratégica no caso de Cacau – nesse caso responde com um rotundo não. E explica, lançando uma espécie de cartilha programática: “A literatura proletária é uma literatura de luta e revolta. E de movimento de massa. Sem herói nem heróis de primeiro plano. Sem enredo e sem senso de imoralidade. Fixando vidas miseráveis sem piedade, mas com revolta. (...) Ora, acontece que Os Corumbas é o romance de uma família e não o romance de uma fábrica. (...) O romance proletário deve inspirar o sentimento de revolta e de luta. Fazer do leitor um inimigo da outra classe. Comover não basta. É Preciso revoltar.”[3] Saliente-se que, apesar de negar o rótulo de romance proletário a Os Corumbas, Jorge Amado em linhas gerais elogia a obra.

Todo mundo elogiou, de João Ribeiro, que o considerou “um romance comunista” a Otávio de Faria, para quem Fontes pinta um quadro amplamente desfavorável à burguesia, porém imparcial. Alcântara Machado acolheu-a entusiasticamente. Alguns escritores fizeram algumas ressalvas. Estranharam o estilo enxuto, “sem poesia”, como escreveu José Lins do Rego. Houve até quem sentisse falta de palavrões, como o escritor Dias da Costa, salientando a ausência no texto da “linguagem um tanto escabrosa dos miseráveis” (certamente usando como parâmetro Cacau). (Ora, Os Corumbas é um romance de mulheres: são elas, as operárias, as filhas de seu Geraldo, as protagonistas; submetidas, além da exploração fabril, ao severo poder patriarcal e à repressão moralista da igreja católica, aquelas mulheres do início do século 20 não falavam palavrão.) Quem compreendeu perfeitamente a questão estilística — adequação linguagem-conteúdo e proposta estética — foi Manuel Bandeira, já no primeiro momento, quando enaltece o estilo direto e sem firulas de A.F., ao seu ver um escritor “só atento ao que é essencial no romance, ao movimento do romance, às suas exigências de construção e de verossimilhança psicológica”.[4][4]

Embora um tanto esquecido nos últimos anos, o belo romance de A.F. permanece no coração dos leitores (em 2003 foi lançada, pelo José Olympio, sua 25ª edição) e recebe certa atenção da academia, em dissertações e teses várias. E mereceu duas homenagens de outros escritores, que incluíram como personagens em suas obras ficcionais membros ou descendentes da sofrida família Corumba. Esse fato eleva, ao meu ver, a obra de Amando Fontes à categoria dos clássicos, que é quando nós passamos a encarar e a citar os fatos e pessoas narrados como se fossem reais.

 MUDANÇA DE DOMICÍLIO LITERÁRIO

             Curiosamente, partiu do próprio Jorge Amado, tão zeloso do título de romance proletário, a primeira citação de uma criatura de Amando Fontes em obra alheia. E foi apenas dois anos após o lançamento de Os Corumbas, no seu romance Jubiabá, de 1935.

Nos dois terços iniciais, o protagonista, o negro Antonio Balduíno, exerce suas atribuições de boxeador, artista de circo, malandro, perseguido da polícia e amante vigoroso. É a parte mais bem realizada do romance, onde predominam a sensualidade, o colorido, os sons e cheiros da Bahia e do seu povo, características que se tornariam a marca do escritor e seria aprofundada e alargada após seu rompimento com o Partido Comunista. Na seção final desse consagrado romance, como um Deus ex machina, Balduíno se torna um dos líderes das massas operárias nas batalhas campais entre capital e trabalho na ensolarada cidade do Salvador. É quando, para surpresa do leitor que já tenha lido o livro de A.F., entra em cena, numa assembleia sindical, um novo personagem:

Um rapaz pede a palavra. Começaram a bater palmas mal ele aparece na mesa.

– Quem é? – pergunta Antonio Balduíno ao negro Henrique.

– É um operário das oficinas. Se chama Pedro Corumba. Um homem escreveu o ABC da família dele que passou o diabo em Sergipe. Eu já li... Ele é um lutador velho. Grevista velho. Já fez greve em Sergipe, no Rio, em São Paulo. Eu conheço ele. Depois lhe apresento.

E Pedro Corumba faz um discurso candente, desmascara o advogado conciliador, incendeia a plateia.

No romance de Amando Fontes, Pedro, jovem operário, é catequizado por um colega mais velho, José Afonso, lê livros que ele lhe passa, participa de uma greve, torna-se um destacado ativista sindical, é preso e deportado para o Rio de Janeiro – em mais um dissabor para os seus que, além do impacto afetivo, sofrem também com a diminuição da renda familiar. Os fatos se dão no primeiro terço da obra e Pedro somente reaparece, já para o final, numa carta aos pais e irmãs enviada do Rio, onde depois de libertado conseguira emprego, vivia em situação precária e continuava participando dos movimentos operários, sem maiores detalhes.

Jorge Amado vai buscá-lo já calejado nas lutas proletárias, para participar e dar uma força na greve dos trabalhadores baianos. “Continuando” a  trajetória do personagem, apenas insinuada no romance original. Uma bela homenagem do escritor comunista ao colega católico, inclusive citado indiretamente, pois o “ABC da família dele”, como explica Henrique a Balduíno,  se trata exatamente de Os Corumbas, sabendo-se que na literatura de cordel ABC é uma das modalidades dos folhetos ou romances de feira.

A segunda “mudança de domicílio” de um personagem vai ocorrer 63 anos depois e, com o decorrer do tempo, envolverá “descendentes” da família original. Será no último romance do escritor Herberto Sales, A prostituta, de 1996. A protagonista chama-se Maria Corumba e, como a Caçulinha de Amando Fontes, é sergipana, operária, deflorada pelo próprio noivo, igualmente um militar e, por isso, jogada “na vida”.

O romance de Herberto tem um tom e um desfecho completamente diferentes do outro, centrando-se na heroína que, ao contrário de suas “parentas” – e apesar da queda – vai parar no bordel por decisão própria e termina redimida por um casamento meio inverossímil.

Conforme Manuela Cunha de Souza, em trabalho acadêmico, “a família retratada em A prostituta, ou o que restou dela, é uma mescla de elementos que Herberto buscou no romance de Fontes e o que ele imaginou que poderia acontecer com os integrantes daquela família. De certo modo, a criação de A prostituta é a continuação da leitura do romance de Amando Fontes pelo autor. Ele resume quem era aquela família na voz de um dos operários que conversavam no início da obra, afirmando que seus primeiros integrantes trabalharam naquela fábrica e que todas as moças acabaram ‘se perdendo’ e entrando na prostituição. A protagonista vinha a ser ‘prima longe’ dessas jovens que foram dispensadas do ambiente fabril e partiram para os bordéis...”

Herberto explicaria assim sua motivação: “Na impressão sensível que me deixou no espírito essa família [Corumba], criei a fantasia romanesca dela, a jovem sergipana que se tornou a heroína deste meu último romance.” [5]

E assim as criaturas de Amando Fontes sobreviveram e abrigaram-se em obras de Jorge Amado e Herberto Sales.

Vale a pena, pois, ler essa obra-prima do romance social brasileiro. Melhor dizendo, obra-prima do romance brasileiro.

 

[1] Amando Fontes (1899-1967), de família sergipana, nasceu em Santos e voltou ainda criança para Sergipe. Além de Os Corumbas, publicou Rua do Siriri, em 1937. Deixou inacabado o romance O Deputado Santos Lima, no qual eram retratados os últimos anos da República Velha e o começo do novo regime.

 [2] BUENO, Luís - Uma história do romance de 30 – São Paulo: Edusp, 2006.

 [3]AMADO, Jorge. "P.S.".ln: Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, (li, li) 1933. APUD Bueno, obra citada.

 [4] APUD BUENO, na obra citada, acrescentando: “A compreensão de Manuel Bandeira é perfeita”.

 [5] SOUZA, Manuela Cunha de. “Entre tantas Marias: nuances da identidade feminina no romance A prostituta, de Herberto Sales”. Dissertação para o Programa de pós-graduação em Estudo de Linguagens, UFBA, 2011. http://www.ppgel.uneb.br/wp/wp-content/uploads/2011/09/souza_manuela.pdf

 

 

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