Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 25 de Agosto de 2016
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Geneton Moraes Neto (1956-2016)

23 de Agosto de 2016 às 00:23
Homero Fonseca

Zoom
Geneton, quase garoto, entrevistando Miguel Arraes

 
Profunda tristeza com a morte de Geneton Moraes Neto. Nem me ocorre direito o que dizer. Reproduzo, então, o perfil que fiz dele para a revista Continente, edição de março de 2013.

O homem que sabe perguntar

A redação do Diario de Pernambuco nos começos dos anos 70 parecia uma velha repartição pública: entre as paredes de cor ocre com barras de um metro e meio de um marrom a óleo tenebroso, espalhavam-se caoticamente altos armários de madeira escura descascada e trôpegas escrivaninhas de aço sobre as quais pousavam robustas máquinas Olivetti. O clima geral condizia com o ambiente físico: sob o guante da censura (e sua filha dileta, a autocensura), a maior parte dos jornalistas compactuando gostosamente com o ideário da ditadura vigente, um punhado de renitentes tentava praticar o jornalismo possível naqueles anos de chumbo.
Corria o ano de 1972. Uma tarde, o marasmo cotidiano foi quebrado pelo crítico de cinema Fernando Spencer. Dirigindo-se ao chefe de reportagem Ricardo Carvalho, a mim, então editor da 1ª página e outros companheiros, Spencer mostrava o tablóide Junior, com incomum entusiasmo:

- Vocês prestaram atenção nesse menino que escreve todo sábado para o suplemento infantil ? É um arretado!

Com efeito, os textos do garoto eram surpreendentemente bons. Mandaram chamá-lo. Aparece um adolescente guenzo, cara de palestino, sorriso encabulado. Chamava-se Geneton, tinha 16 anos, ainda não ingressara na universidade, mas topava ser jornalista. Uma das primeiras matérias de que foi incumbido seria uma reportagem sobre o Hospital da Tamarineira, o depósito de loucos do estado. Tontonzinho, como o chamávamos, infiltrou-se no inferno e saiu de lá formado em jornalismo. Viu cenas degradantes e ouviu lamúrias desconexas dos internos. Depois, apresentou-se como repórter à direção do hospício e lhe deram uma versão cor-de-rosa da situação. Nascia ali um dos grandes repórteres da imprensa brasileira.

Décadas depois, Geneton Moraes Neto ouviu de um jornalista inglês, Louis Heren, o conselho dado por um editor: “Sempre que você estiver entrevistando um ministro ou um líder sindical, um empresário ou um astro de rock, seja quem for, pergunte sempre a si próprio: Por que será que esse bastardo está mentindo para mim?”
Era a mais perfeita tradução da primeira experiência que o jovem foca tinha vivido no Recife naquele seu batismo de fogo na reportagem.

Poucos anos depois daquela estreia fulgurante, o magricela, já com uns fiapos de barba, ingressou no curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Aí aflorou uma paixão que duraria toda a vida: o cinema. Ele, Amin Steple, Paulo Cunha e Camilo Brolo formavam uma turma unida que, além do cinema, amava os Beatles & e os Rolling Stones, Gláuber Rocha, os tropicalistas e, pelo menos no caso de Geneton, o futebol de botão. Com uma câmera super 8 na mão e muitas ideias na cabeça, fizeram filmes que causaram algum estardalhaço na cena cultural do Recife.

Essa experiência seria um ingrediente importante no caldo de cultura de sua formação, que desembocaria na síntese atual: o brilhante repórter televisivo que, na maturidade, alcançou o status de documentarista. É um dos poucos profissionais desse meio que produz matérias rigorosamente autorais. Ele se pauta, pesquisa, cai em campo, faz entrevistas e edita seus próprios programas.

Pouco tempo depois de sua chegada ao sesquicentenário DP – que foi como que uma lufada de vento fresco a levantar a poeira do marasmo da velha repartição -, Geneton transferiu-se para a sucursal do Recife do Estadão, onde estávamos eu e Ricardo Carvalho, mais Paulo Cunha, Paulo Moraes e o fotógrafo Josenildo Tenório, sob o comando sereno de Carlos Garcia.

Era o auge da ditadura militar. O jornalão dos Mesquita assumiu uma corajosa postura de oposição e por isso era açoitado impiedosamente pela censura. No lugar das matérias vetadas, começou a publicar receitas de bolo, inclusive na primeira página. E depois os versos de Camões (desconfio que todo Os Lusíadas foi desfiado). Era uma maneira de fazer os leitores entenderem a situação, uma forma tão sutil e ardilosa de denunciar a censura que os próprios censores não tinham como impedir. Meninos, vocês que vieram depois não sabem como viver (e trabalhar em jornal) era perigoso naquela era. Carlos Garcia foi preso e torturado pelo coronel Cúrcio Neto , sua casa vasculhada e sua família ameaçada pelos esbirros da repressão. Aprendemos todos a fazer uma espécie de jornalismo de guerrilha: ocupar os espaços possíveis para denunciar o totalitarismo e fazer eco às aspirações democráticas de políticos oposicionistas, profissionais liberais, intelectuais, estudantes, sindicalistas, parte do clero.

Invariavelmente ao fim do expediente quase sempre tenso, formava-se na sucursal uma roda de dominó, esse “esporte nacional” do Recife. Geneton era dos mais assíduos. Aquilo funcionava como espécie de catarse.
No Estadão, pela reduzida equipe, a convivência era inevitavelmente intensa. Então pude observar de perto o cara que ainda não completara 20 anos no seu afazer jornalístico. Em primeiro lugar, não era um deslumbrado, apesar dos constantes elogios – dos chefes, dos colegas, dos leitores – ao seu trabalho. Em segundo lugar, era um leitor voraz e, portanto, bem formado e informado. Em terceiro lugar, nunca caía em campo sem antes pesquisar e estudar minimamente o assunto (esse minimamente é por conta das vicissitudes da profissão, os prazos curtíssimos para elaborar as matérias). E isso, garotada, é mais incomum do que pensa nossa vã filosofia (é cruel ver a enxurrada de repórteres tontos que no dia a dia de uma redação saem às ruas para entrevistar alguém ou cobrir um assunto sobre os quais não têm a menor ideia).

Por fim, mas não menos importante, uma característica de GMN é a total ausência de arrogância no trato com as fontes ou com quem quer que seja. No nosso meio, onde a fatal combinação de ego inflado com insegurança produz toneladas de prepotência, chega a ser espantoso. Mas isso não é só fruto do caráter amável do camarada. É também a consciência do seu papel de transmissor de informação ao público. (Quão patéticos são jornalistas que competem com seus entrevistados ou que se valem do texto para arrotar erudição! Desconfiem de entrevistadores que comumente fazem perguntas mais compridas do que as respostas dos entrevistados!)

Mas voltando ao nosso personagem, aquela velha paixão pela arte da imagem em movimento levou-o à televisão onde está desde 1985. Foi repórter, correspondente em Londres, editor do Jornal da Globo e do Fantástico. E nessa armadilha que pode ser mortal para quem se forma no jornalismo impresso (ou escrito, como ele observou outro dia, face às novas mídias digitais) seu texto se manteve incólume - criativo e refinado, levemente superlativo. Nessa labuta televisiva revelou-se outro traço notável do sujeito: a persistência. Pense num repórter carrapato! Para fazer uma boa matéria ou uma entrevista exclusiva, liga ou bate à porta da “vítima” 10, 12, inúmeras vezes. Leva muito “não”, mas consegue façanhas. A célebre entrevista com Carlos Drummond de Andrade, feita por telefone menos de um mês antes da morte do poeta (e que rendeu um livro notável), é exemplar. Geneton descobriu que o vate mineiro, avesso a entrevistas, tinha mania por conversar ao telefone. E foi utilizando esse aparelhinho neutro que conseguiu fazer 75 perguntas, obtendo revelações até da vida íntima do arisco poeta.

Nesses 40 anos de profissão, passaram pelo crivo de Geneton, só para citar os mais cintilantes: Jorge Amado, Millor Fernandes, Jarbas Passarinho, Roberto Carlos, Leonel Brizola, Geraldo Vandré, Mário Quintana, Nelson Rodrigues, Pelé, Luiz Inácio Lula da Silva, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Francisco Julião, Geraldo Vandré, João Saldanha, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, o ex-presidente americano Jimmy Carter, o Nobel José Saramago, o cardeal sul-africano Desmond Tutu, os escritores Carlos Fuentes, Cabrera Infante, Norman Mailler, Anthony Burguess, o cineasta Woody Allen, o jornalista Gay Talese, a atriz Janet (Psicose) Leigh, o astronauta Eugene Cernan (o homem que bateu o recorde de permanência na Lua), Theodore Van Kirk (o navegador do avião que jogou a bomba atômica sobre Hiroshima), Eva Schloss (sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz).

Publicou mais de uma dezena de livros de reportagens, entre os quais Hitler/Stalin: O Pacto Maldito (em parceria com Joel Silveira; Editora Record - 1990), Nitroglicerina Pura (em parceria com Joel Silveira, Editora Record - 1992), Dossiê 50: Os Onze Jogadores Revelam os Segredos da maior Tragédia do Futebol Brasileiro (Editora Objetiva - 2000), Dossiê Moscou (Geração Editorial – 2004) e Dossiê Brasília: os Segredos dos Presidentes -  Editora Globo - 2005).

Ano passado, recebeu a Medalha João Ribeiro, da Academia Brasileira, por proposta do acadêmico Ledo Ivo na qual, comentou modestamente, o poeta “comete exageros – a meu favor”. Se pesquisarmos no Google, seu nome obtém 86.100 resultados. No Face Book, na secção “Sobre” (onde as pessoas escrevem sua autobiografia), está registrado apenas: Repórter.

Aos 56 anos, três filhos (Clara, jornalista; Joana, pintora e Daniel, estudante), quatro netos, o recifense tem se preocupado com a História ("Fazer jornalismo é produzir memória", afirma, convicto). Deu um passo decisivo em sua carreira, ao largar a edição do Fantástico para fazer matérias especiais e editá-las no canal GloboNews, onde já produziu documentários de fôlego como Canções do exílio (com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner) e o mais recente Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças, sobre Joel Silveira, que ele reputa o maior repórter brasileiro de todos os tempos, de quem se tornou-se amigo, parceiro e filho espiritual, digamos assim, e com quem gravou horas de entrevistas, transformadas agora num valioso documento sobre a imprensa brasileira.

Nessa linha de reportagens históricas, um exemplo são as conversas com os quatro ex-presidentes do Brasil pós-ditadura (Collor, Itamar, FHC e Lula), em que arrancou revelações sobre as entranhas do poder, e as entrevistas com personagens centrais dos “anos de chumbo”, dos dois lados do espectro ideológico, como os generais Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz e o ex- guerrilheiro Carlos Eugênio Paz, comandante militar da Ação Libertadora Nacional (ANL).

Essas três últimas entrevistas são especialmente reveladoras do “método” GMN: nas duas primeiras, afável, mas incisivo, fez algumas perguntas que foram “devolvidas” com certa agressividade pelos dois militares. Impassível, continuou a inquiri-los. (“Nem sempre respondi, porque meu papel, ali, não era o de fazer ‘discurso’, mas o de ouvi-los, para levar ao público o que duas figuras importantes do regime militar tinham a dizer” - pontuou.)
Na conversa televisiva com Carlos Eugênio Paz foi direto a um ponto muito delicado: os rumores de que teria participado da execução de um companheiro de luta. O ex-guerrilheiro confirmou o fato e explicou porque não tinha confessado antes: “Os jornalistas nunca me perguntaram diretamente sobre o assunto”.

Repórter, demonstra Geneton, é essencialmente um ser que pergunta.

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FRASES DE GENETON MORAES NETO
“Pertenço ao PPB: Partido dos Perguntadores do Brasil. Sem pretensões risíveis, sem delírios megalomaníacos (tão comuns em jornalistas...), penso que posso, como jornalista, dar uma contribuição mínima ao meu país: fazer do jornalismo que pratico uma fonte de produção de memória.”
“Sou repórter, não sou militante. Como personagem jornalístico, George Walker Bush me interessa tanto quanto - por exemplo - Vladimir Ílitch Uliánov, o popular Lênin.”
“Não existe nada tão triste quanto a figura do velho jornalista, pretensamente ‘sábio’, que passa o tempo todo jogando no lixo as matérias (e o entusiasmo) dos repórteres. Eles fazem mal à saúde da profissão, porque sofrem de uma doença que cataloguei como Síndrome da Frigidez Editorial (SFE). É um mal que acomete os ‘derrubadores de matérias’”.
“Quem eu gostaria de entrevistar? Deus, é claro. Apontaria para o planeta Terra e perguntaria: “Seja sincero: era isso o que o Senhor queria?”.


Memória de Caruaru

22 de Agosto de 2016 às 17:54
Homero Fonseca

Foto: Revista Caruaru Hoje Zoom
Caruaru na década de 60, com a feira no centro da cidade

 

 

 No último dia 13, estive em Caruaru para participar de algumas atividades da Fenagreste - I Feira Literária do Agreste. Revendo amigos e parentes, relembrei a quase uma década (entre fins de 1950 e fins de 1960) em que lá morei e que foi fundamental para minha formação pessoal e intelectual. E resolvi tirar do baú o discurso que fiz na Câmara Municipal da cidade, no dia 4 de dezembro de 1999, quando recebi o título de Cidadão Honorário de Caruaru. Aqui vai:

Uma cidade é feita de pedra e cal. Mas não apenas de pedra e cal. É feita de encruzilhadas e caminhos. Mas não apenas de pedra e cal e encruzilhadas e caminhos. Uma cidade é feita de história e tradição, renovação e sonhos. Por isso, uma cidade é feita sobretudo pelos homens e mulheres que sobre ela ergueram suas casas, suas dores e seus desejos.

A cidade de Caruaru tem tudo isso de todas as cidades e certa singularidade, como cidade pólo do Agreste, caracterizada por uma ebulição permanente, em especial nos campos político e cultural. É uma honra, pois, estar aqui de volta, para receber a certidão cívica de caruaruense honorário.

Ao retribuir essa homenagem que Caruaru me presta, não sei se justamente, inverto a ordem protocolar e homenageio a cidade que me abrigou numa idade em que tudo é aprendizado. Esta cidade me ensinou a vida, na convivência diária dos estudos, dos primeiros trabalhos, dos primeiros amores, das amizades que o tempo solidificaram.

Por isso, eu só tenho a agradecer.

Inicialmente, aos meus antigos mestres: professor Euclides Leite, do Instituto Platino, mestre-escola inesquecível; professor Kermógenes Dias, que me conduziu pelos caminhos cheios de surpresas da História e da Geografia; professora Eunice Tabosa, renovadora da pedagogia no Colégio Municipal; professora Carminha Pessoa, que me mostrou o charme da língua francesa; e, sobretudo, Cybelle Raposo, minha mestra favorita, sacerdotisa do conhecimento, cujos ensinamentos de Português e de princípios éticos e morais seriam pedra angular da minha formação. Sua influência se estendeu pela minha vida afora e, embora em certos momentos e em alguns pontos nossas idéias tenham se diferenciado, dela herdei a lição do respeito e da tolerância.

Foi aqui, no Colégio Municipal, que aprendi as noções básicas de civismo e participação, fundando o grêmio Humberto de Campos e a liga interna de futebol, ao lado de Haroldo Renato Benigno, Pedro de Souza – Pedrosa, Geová Bezerra, Ernandes Valença, Socorro Silva e de Maria do Carmo Messias, companheira de muitas batalhas e amiga dileta.

Aqui, na sede acanhada da Uesc-União dos Estudantes Secundaristas de Caruaru, iniciei meu aprendizado político, ao lado de Luélcito Cintra, Édson Souza, Jorge, Manuel de Freitas, Antônio Cláudio Pedrosa, João Tibúrcio, Zacarias Barreto, Luiz Teófilo, Paulo Brito, Adilson Gomes, Fernando Spinelli, Edileusa Portela, meu querido amigo e vereador aqui presente Rui Lira, minha querida amiga Maria Régis, mulher valorosa e militante aguerrida.

Na rua Saldanha da Gama, teci minhas primeiras amizades de infância, duradouras como lhe são inerentes: José Rodrigues – Zito, eterno fabricante de utopias; Sóstenes Fonseca, leal competidor nas disputas infantis; Tadeu Vieira de Melo, menino-capitalista que, nas festas de Natal, sendo de família abastada, via oportunidades de negócios com balões coloridos; seu irmão João Alfredo, um pouco mais velho, que nem se lembra que me emprestou um livro de Stefan Zweig; Dorgival Caetano, com quem compartilhei angústias juvenis e a leitura subversiva de Albino Forjaz Sampaio.

Foi aqui, caminhando em meio aos mangalhos da antiga feira, que meus olhos descobriram o encanto do barro nos bonecos de mestre Vitalino e seus continuadores e meus ouvidos gravaram indelevelmente o som do pandeiro das emboladas e das violas dos cantadores, entre eles o grande Ivanildo Vila Nova, meu companheiro de pichações contra a ditadura.

Aqui, nas calçadas da Rua da Matriz, conheci as estranhas figuras de jovens preocupados em mudar o curso injusto da nossa história social: Manoel Messias, Romero Figueiredo, Jurandir Terror, Pato Preto, João Bosco, Índio, Biu Moscouzinho, Lourdinha Silva, Hiran Menezes.

Aqui, nos botecos e nos bares, nas indefectíveis noites de boemia, destilei quimeras e utopias, ao lado de Carlos Bezerra, Gianninni Mastroianni, Tarcísio Danda, Adalberon Gomes, Ésio Rafael, Miguel Ferraz, Ernani Aguiar, Ivan Falcão, bebendo todas as cervejas, desejando todas as mulheres e imaginando todas as revoluções.

Foi aqui, sob o encantamento do luar do Agreste e o desabrochar dos sentimentos amorosos, que, sem ser poeta, escrevi meu primeiro poema, e sem ser cantor, soltei a voz desafinada na madrugada impaciente.Lembra, Régia?

Foi aqui, junto com padre Pedro Aguiar, Edna Aguiar e Neide Jordão, que sonhei e agi no desejo de alfabetizar adultos pelo método Paulo Freire no Salgueiro, primeiro no MCP, sob a batuta de Benjamin Santos, depois no MEB-Movimento de Educação de Base.

Foi aqui, em reuniões semiclandestinas, que tantos de nós inventamos a Frente Estudantil Progressista – tosco instrumento de resistência ao regime que nos afrontava e intimidava.

Nesta Caruaru, aprendi a amar o teatro e a literatura, a poesia e a verdade, no Movimento Evolução, de onde surgiram talentos como Cleytson Feitosa, hoje artista em Paris, e Vital Santos, autor teatral premiado no continente. Pelas mãos do mestre Antônio Medeiros, fui apresentado às obras de Ariano Suassuna e Dias Gomes, de Nelson Rodrigues e Gianfrancesco Guarnieri, de Pirandello e Shakespeare. Aqui vi como são pessoas dedicadas ao teatro: Argemiro e Arary Marrocos. Aqui, em toscos mimeógrafos, o grupo se atrevia a produzir poesia e crítica, ensaios e contos. Dele faziam parte, ainda, meus irmãos Humberto e Héber, Nivaldo Pinheiro, Arnóbio Pereira – o Noba,  Arnóbio Costa e Jovenildo Pinheiro.

No Beco da Estudantil, na livraria de S. Galvão, “filei” página a página, dia após dia, romances inteiros de Eça de Queiroz e Machado de Assis, e, mais adiante, na Hi Fi Discos, de Djalma Lourenço e João Florentino, escutei pela primeira vez Chico Buarque e Caetano Veloso, Bach e Vivaldi, Cole Porter e Duke Ellington.

Foi aqui, em discussões homéricas, que o guru intelectual de nossa geração, Paulo Sá, nos ensinou poesia e filosofia, versos de Drumonnd (poeta do sentimento) e Vinicius (poeta da sensualidade) e certezas dialéticas de Marx e Engels, que nos faziam acreditar num futuro melhor para todos os oprimidos.

Foi ali, na Rádio Cultura do Nordeste, de Onildo e Zé Almeida, que me iniciei no jornalismo, garimpando notícias e redigindo textos, com Romildo Gouveia Pinto, Osório Romero e Nélson Brandão. Eu e Osório persistimos na profissão. Os outros, tiveram mais juízo.

Foi lá, no chão duro do Dom Bosco, que deitei meus mortos mais queridos, aqueles com quem aprendi, na vida, as lições da retidão e da simplicidade: meu pai Eduardo Honório, meus avós, Erasmo Honório e Mãezinha, meu tio Severino Honório. Eles, ao lado do irmão Héber Fonseca, que decidiu partir tão cedo deixando um enorme vácuo, juntam-se a inúmeros que já citei e não estão mais entre nós, mas que vivem no meu coração e na minha mente.

Se esqueci algum nome, atribuam às falhas da memória, não a qualquer falta de consideração. A lista dos que me agraciaram com sua amizade nesta cidade singular é muito extensa.

Por fim, senhores vereadores, Maria Régis, Sr. Prefeito, meus amigos, meus familiares aqui presentes, agradeço emocionado essa homenagem. Embora, nascido em Bezerros, num recentíssimo janeiro de 1948,  considerava-me de fato cidadão caruaruense pois, como se sabe, Bezerros, desde aquela época, nada mais era que um dos burgos da consabida Grande Caruaru.

Foto: Wikipédia Zoom
Caruaru atual, com 350 mil habitantes

 

Zadock, adjetivo, singular

15 de Agosto de 2016 às 23:10
Homero Fonseca

Zoom
Zadock Castelo Branco

Voltando hoje de Caruaru com Iracema, onde fui participar da Fenagreste – I Feira do Livro do Agreste, resolvi entrar em Bonito para prestar minha última homenagem a Zadock Castelo Branco, amigo querido e companheiro de redação e farra de muitos anos, falecido na última qiinta-feira. No cemitério, infelizmente, não consegui localizar seu túmulo. O humilde funcionário que nos atendeu mostrou os locais onde houve vários sepultamentos nos últimos dias – parece que morre-se muito em Bonito atualmente – e não deu para identificar exatamente onde jaz meu velho camarada. Acho que vale a intenção da homenagem.

Zadock foi uma das figuras mais extraordinárias com quem cruzei nesta vida. Menino-homem, era a pessoa mais pura que conheci. Também foi um repórter  idiossincrático, um colega solidário, um conselheiro dos jovens e um boêmio antológico. Uma de suas marcas registradas era sempre solfejar melodias improvisadas ao se aproximar da mesa dos amigos no legendário O Mustang dos anos 70/80, onde se encontravam todas as tribos do Recife. Meu amigo Eurico Rodolfo, médico e boêmio, primo do grande Antônio Maria, me telefonou sexta-feira para lamentar o passamento do nosso amigo e confessou: “Foi ele quem me iniciou no jazz.”

Num Pernambuco sempre polarizado politicamente, admirava igualmente Miguel Arraes e Roberto Magalhães. Em 1980, quando do retorno de Arraes nas asas da anistia, ele se tornou o setorista do escritório político do ex-governador. Arraes era uma figura reverencial por sua história e uma esfinge para todos que por dever de ofício passaram a conviver com o mito. Decorridos uns três meses de cobertura diária do “Velho”, Zadock não só chegou à conclusão de que desvendara o enigma, como dialogava com ele com a mais natural intimidade. Uma tarde, Arraes fumava seu indefectível cachimbo, de pé, encostado à moldura da porta da varanda do escritório, quando Zadock deu-lhe um leve tapa com as costas da mão na barriga e sentenciou: “Doutor Arraes, o senhor é um velho pessedista com uma tintura marxista”, provocando uma daquelas famosas gargalhadas.

Seu estilo era de frases definitivas, irretorquíveis, imortais. Costumava dizer: “O povo brasileiro não presta” – para arrematar: “E a elite é muito pior”. Era capaz de abrir uma matéria escrevendo: “A Universidade Católica, último bastião platônico...”

Por essas e outras, inspirou Ronildo Maia Leite a criar um personagem  recorrente em suas crônicas: o filósofo Zada.

               Em algumas reuniões abertas à imprensa do secretariado de Jarbas Vasconcelos em seu primeiro mandato de prefeito do Recife, Zadock não raras vezes intervinha para corrigir ou aconselhar os secretários sobre as melhores medidas a serem adotadas para o bem do Recife. Quebrava o protocolo com uma candura encantadora, inibindo qualquer reprimenda oficial. Todos sabiam que não havia nenhuma empáfia, nenhum vislumbre de arrogância naquelas intervenções extemporâneas, mas tão somente a melhor das intenções de um homem que queria o bem de sua cidade e eventualmente, pelo fato de exercer um ofício que lhe permitia esse contato imediato com o poder público, externava livremente sua opinião.

               Apenas uma vez um secretário reclamou de uma matéria de Zadock. Chegara a época da sucessão de Jarbas e o complexo jogo de xadrez político começava a se armar, com as especulações e os balões de ensaio preenchendo o noticiário político. O nome do secretário era um dos citados como prefeituráveis e, na entrevista, com a usual manha dos políticos, ele declarou a Zadock que não era candidato, mas se os companheiros se unissem em torno de sua eventual candidatura não se negaria a enfrentar o desafio e blá-blá-blá.

               No dia seguinte, o secretário me procurou, preocupado e irritado: “Você ouviu o que falei pro Zadock. Pois leia o que ele escreveu." E mostrou o jornal, com a notícia de que ele negava categoricamente ser candidato a prefeito. À tarde, quando Zadock apareceu, o secretário o interpelou:

               – Zadock, eu lhe declarei isso que você escreveu no jornal? 

               – Não, Fulano.

               – E por que você escreveu que eu disse isso?

               – Porque era o que você deveria ter dito.

               E explicou que a candidatura do secretário não tinha força política nem eleitoral, somente serviria para dividir o bloco da situação e, com isso, facilitar a vitória da oposição. E ponto final.

               Era assim o velho camarada, que sabia tudo da política pernambucana e compartilhava esse conhecimento generosamente com os focas e repórteres mais jovens. Zadock esteve sempre presente durante quase três décadas no redemoinho da História em construção. E não se limitava a narrar os fatos. Sentia-se à vontade para neles intervir, a seu modo.Por isso era adjetivo e singular.

Descansa em paz, meu camarada.

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Cemitério de Bonito, em 14/08/2016

 

I FEIRA DO LIVRO DO AGRESTE - FENAGRESTE

10 de Agosto de 2016 às 16:45
Homero Fonseca

Zoom
Gabriela Kopinits, a Cigana Contadora de Eswtórias

 

Sábado próximo, 13 de agosto, estarei em Caruaru, participando da

I FEIRA DO LIVRO DO AGRESTE - FENAGRESTE.

 Minha programação ​será a seguinte:

 SÁBADO, 13 de agosto

 11 horas - Sala 1

 Palestra: "O que há nos nomes das nossas cidades". É o tema do meu livro Pernambucânia. Um estudo sobre nossa toponímia, do ponto de vista linguístico, histórico, geográfico, político e sociológico. Os nomes das cidades são muito mais relevadores sobre nossa índole (ethos) do que se pode imaginar à primeira vista.

 

15 horas - Fenagrestinha (Espaço Infantil)

 Contação de história, com a Cigana Contadora de Estórias, Gabriela Kopinits (FOTO), do livro O Computador que queria ser gente, seguindo-se brincadeira com as crianças (tipo teste de múltiplas escolhas) sobre os nomes das cidades pernambucanas.

O escritor e as palavras

06 de Agosto de 2016 às 16:33
Homero Fonseca

 Veio morar aqui perto um escritor. Caladão, olhar sempre baixo, não incomoda ninguém. Alguns o acham excêntrico, estranham seu comportamento, inclinam-se a hostilizá-lo, mas percebem-no inofensivo, deixam-no de lado.

Eu o observo com simpatia. Gosto de ler e quando um livro me agrada seu autor meio que se torna um amigo, alguém em quem se pode confiar, algo assim.

 Esse anda para cima e para baixo com uma porção de palavras. Às vezes enche os bolsos com elas, outras as carrega num balaio grande. Na maior parte do tempo, leva-as sobraçando, um monte delas, espremidas entre a circunferência dos seus longos braços e a barriga um pouco saliente. Por isso, está sempre afobado, suado e com cara de angústia.

É que as palavras parecem ser muito inquietas, travessas, briguentas. Mexem-se o tempo todo, escapolem do torniquete dos seus braços, rolam pelas suas pernas, se evolam no ar, se estatelam no chão.

Seu esforço por domá-las é quase comovente, quase patético: quando consegue segurar uma na mão, numa desajeitada pirueta, duas escorregam por baixo de suas axilas e se penduram perigosamente nas bordas do bolso da bunda.

Às vezes, vejo-o da janela, em seu escritório, tentando juntar essas criaturinhas rebeldes em algum tipo de formação que não consigo vislumbrar, mas dá pra enxergar as brigas em que elas se envolvem, lutando umas contras as outras, dando pernadas, cabeçadas, dedadas, socos e pontapés. Inutilmente ele afasta umas, substitui outras, forma novas combinações, mas as desgraçadas persistem em seu aparente propósito de esgotar-lhe a paciência, o que conseguem com relativa facilidade. Ei-lo vermelho de raiva, jogando-as todas, num safanão, escrivaninha abaixo e depois, de joelhos, recolhendo-as uma a uma num grande saco de juta, amarrando-o a seguir com uma fita vermelha. Não raro, nota duas ou três que haviam se escondido debaixo do sofá ou do tapete, agacha-se ofegante, pega-as com dificuldades. E abre o saco novamente e as enfia dentro com raiva, mas outras cinco ou seis aproveitaram a brecha e já saltaram para fora e recomeça todo o trabalho de caçá-las e guardá-las de volta. Vê-se que uma mais atrevida morde-lhe a mão, pois ele solta um grito, pragueja e desvencilha-se da maldita com um safanão. Depois, já aprendi, irá procurá-la por toda a casa, lhe falará com voz macia e prometerá mundos e fundos para tê-la de volta ao redil.

Enterneço-me com a luta diária, permanente, sofrida do escritor com suas palavras indomáveis... 

 

(A imagem foi construída por meio de um simpático aplicativo gratuito - o Wordle - que permite formar "nuvens de texto", destacando as palavras mais usadas pelo autor. No caso, usando um trecho de Grande Sertão: Veredas.)

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