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AS CATILINÁRIAS

27 de Janeiro de 2012 às 09:45 em por Homero Fonseca

Por PAULO AFONSO PAIVA


Em fins dos anos cinqüenta eu estudava no Ginásio Sete de Setembro, em Caruaru. O Professor Kermógenes, que ensinava latim, era mais sisudo que os outros, de naturezas solenes. Uma vez o vi discutindo com o Professor Adérito, professor de matemática, por este ser brincalhão, não cultivando a liturgia do cargo.
Quando um mestre entrava na sala todos ficavam em pé. Um dia passei para Júlio um papel. Professor Kermógenes viu e exigiu que lhe fosse entregue. Escrevera algumas frases que terminavam assim: Fioforius beborum, dominum non hacet.
- O senhor é muito engraçado. Dou-lhe duas alternativas: copiar esse livro, de forma legível, ou contar para seu pai. Se aceitar copiar, nem tente suprimir textos.
Meu pai era de Vitória de Santo Antão e quem teve pai nascido naquela operosa cidade entende porque nem titubeei em aceitar a primeira proposta. Estendendo-me um livro, mandou que assistisse a aula em pé, enquanto me chamava de estulto, energúmeno e outros adjetivos que não lembro, tão impressionado fiquei com os dois primeiros, tentando gravá-los para depois saber o significado.
O livro chamava-se As Catilinárias, de Cícero, escrito em latim. No dia marcado apresentei o trabalho – com os dedos da mão ainda me doendo – tendo de ouvir, de pé, um sermão.
Enquanto isso, Júlio passava pela classe outro papel, desta vez não detectado pelo Sr. Kermógenes. Nele estava escrito: Refrescatum cunis patus, lacuna est.






Leis da Integridade Criativa, segundo Nélson de OLiveira, ops, Luiz Brás

27 de Janeiro de 2012 às 08:54 em por Homero Fonseca

 
Com seu jeito de monge budista – a magreza, os cabelos raspado, a fala suave, os gestos comedidos – Nélson de Oliveira me entregou um exemplar do livro Muitas Peles, de Luiz Bras, que vem a ser ele próprio.

Autor de uma obra consistente (e já extensa) e consagrada em ficção e ensaio, ganhador de vários prêmios expressivos, doutor em Letras pela USP – pouco eu teria a acrescentar a respeito desse intelectual paulista, na faixa dos 46 anos, que para além dos seus escritos, exerce uma militância literária intensa e profícua, seja divulgando suas ideias em artigos na imprensa, seja participando dos eventos literários Brasil afora, seja ainda como organizador de antologias que classificam e revelam o que há na produção contemporânea brasileira, não sem provocar polêmicas e discussões. Isso só acresce sua importância no cenário atual, a lembrar, mutatis mutantis, a atuação plurifacetada de um Mário de Andrade, mais focado na Literatura e ainda em construção.


Já li vários livros dele e acompanho a coluna mensal do agora Luiz Braz no Rascunho, o jornal literário de Curitiba, heroicamente editado por Rogério Pereira. Admiro sua prosa de ficção e mais ainda seus ensaios, que trazem sempre reflexões serenas, mas incisivas, sobre a arte literária. Considero-o, inclusive, um raro e dos mais felizes casos de escritor que, com formação acadêmica, maneja com destreza esse conhecimento a favor da Literatura (para entender melhor o que digo com isso, remeto à notável autocrítica de Todorov no brilhante A Literatura em Perigo), não se deixando soterrar pelas avalanches teóricas que viram moda e, em muitos casos, mais confundem que esclarecem. Tanto na esfera da criação, quanto no campo da recepção.


[À propósito, digo algo que talvez seja meio simplista e com o que provavelmente Nélson não concordará: me parece haver uma conexão invisível e fluída, não mecânica, produto entretanto do tempo e das mentalidades, entre o neoliberalismo, provisório triunfante no terreno político, e um difuso neoformalismo nas artes, cujo resultado tem sido o de alargar o fosso entre criadores e o público, na minha opinião numa escala sem precedentes, mesmo se levarmos em conta o analfabetismo disseminado no passado.]


Voltando à vaca fria, ao cabo da leitura desse Muitas Peles, me sinto impelido a compartilhar com os eventuais leitores desse blogue  as Leis da Integridade Criativa enunciadas por Nélson de Oliveira, digo Luiz Brás, como roteiro para si próprio ao escrever, mas, que contêm, sem qualquer pompa, um verdadeiro manifesto artístico.


Ei-las:
1ª Lei: ESCREVER APENAS O QUE ME DÁ PRAZER ESCREVER
Muitas vezes um jornal, uma revista ou um editor que planeja publicar uma coletânea temática convidam o escritor para escrever um conto ou um poema. Mas se o tema proposto não estiver sincronizado com a rotina criativa do escritor, ou se o prazo for pequeno, ou se o estilo já estiver pré-definido, a escritura pode ser muito penosa. Se você não estiver curtindo escrever, não continue. As chances de que o texto saia com problemas é grande. Então, diante da queixa do Leitor Qualquer Que Seja, você não poderá sequer responder que escreveu por puro prazer.


2ª Lei: ESCREVER TEXTOS COM ALTA DENSIDADE POÉTICA, EXCETO QUANDO ISSO CONTRARIAR A PRIMEIRA LEI
O objetivo maior da literatura não é apenas entreter e deleitar . É também, e principalmente, provocar e inquietar o leitor. Não existe boa literatura fácil de ler. As obras-primas, mesmo as do presente, exigem sempre um pouco de esforço. Isso não significa que quanto mais hermética e obscura melhor. No equilíbrio entre a forma e o conteúdo está todo o segredo de um bom texto literário. Mas toda essa discussão é inútil e idiota se, para atender a uma demanda ou agradar alguém (os leitores, os intelectuais, a crítica), o escritor não estiver escrevendo o que verdadeiramente gosta de escrever: textos obscuros e cifrados, textos claros e luminosos, qualquer outra coisa entre um e outro, de acordo com sua inclinação.


3ª Lei: AGRADAR O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE LEITORES, DESDE QUE TAL DESEJO NÃO ENTRE EM CONFLITO COM A PRIMEIRA OU A SEGUNDA LEI
O escritor precisa de leitores. Isso é inegável. Ninguém escreve para si mesmo, ou para a gaveta. Tentar cativar o maior número possível de leitores é um propósito legítimo. Vender cem mil exemplares, um milhão, oh, que destino glorioso. Desde que não seja o primeiro objetivo do escritor. Na verdade esse tem que ser o último objetivo. No fim das contas, não existe escritor sem leitor. Vivemos numa épocxa em que as mais diferentes tendências literárias convivem pacificamente. A obra tanto do Escritor Hermético quanto do Escritor Não Hermético, e dos vários matizes que ligam um ao outro, sempre encontrará quem a aprecie.

O vazio da comunicação (Luíza no Canadá, Ascenso Ferreira e duas lições)

20 de Janeiro de 2012 às 14:43 em por Homero Fonseca
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Ascendo: pra que, Luíza?

 

O poema “Gaúcho”, de Ascenso Ferreira, é uma brincadeira com o estereótipo do pampeiro:

Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das coxilhas!
Sai de meus pagos em louca arrancada!
– Para quê?
– Pra nada!

Conta o advogado e ambientalista Caio Lustosa, gaúcho filho de pernambucano, que em 1961 o poeta ligou para o governador Leonel Brizola, solidarizando-se com a Campanha da Legalidade pela posse  de Jango, após a renúncia de Jânio. Ascenso teria dito que mudou o verso final do poema:


– Prá quê?
– Pra tudo!


E daí foi convidado por Brizola pra visitar o Rio Grande do Sul, onde fez sucesso. A historinha está no blogue Sul21 (http://sul21.com.br/jornal/2011/08/poeta-pernambucano-muda-verso-sobre-gaucho-em-apoio-a-resistencia/).


Sempre lembro desses versos para definir situações em que a pompa é maior que a circunstância ou quando a forma se esquece do conteúdo.


É o caso, agora, desse trend topic (lista em tempo real das frases mais publicadas no Twitter) com a frase “Menos Luíza, que está no Canadá”.

A filosófica afirmação mereceu dezenas de milhares de acessos, republicações mil, circulando a uma velocidade vertiginosa e tornando a Luíza citada uma dessas celebridades instantes.


Pra quem está por fora, eis os fatos:


O colunista social de João Pessoa, Gerardo Rabelo, protagonizou um comercial de 30’ de um lançamento imobiliário em que, no take final aparece com a mulher e os filhos, concluindo:


“Fiz questão de reunir toda a família, menos Luíza que está no Canadá, para recomendar esse empreendimento.”


É um texto publicitário banal. E a informação de Luíza está no Canadá soa realmente deslocada, motivando, talvez, um sorriso sardônico.


Luíza é a filha adolescente do colunista, que estava em viagem de intercâmbio no Canadá.
[Logo a informação boba, reparando bem, tem uma função: faz parte do universo do público-alvo, os ricaços que têm condições de mandar os filhos para o exterior e, por analogia, podem comprar um apartamento de luxo.]


De toda a forma, mesmo uma parte do público-alvo, ao que parece, julgou cabotina a frase destacada do contexto e tome a espalhar pelas redes sociais, gerando uma desses fenômenos comunicativos voláteis dos dias de hoje. A jovem Luíza, de 17 anos, sem ter feito absolutamente nada para merecer, tornou-se célebre de um minuto para o outro. Já voltou ao Brasil, deu entrevistas para um monte de jornalistas e recebeu convites para estrelar campanhas publicitárias.


Lições do fato:


1 - o enorme poder dos meios digitais, fazendo com que uma peça publicitária veiculada localmente na capital da Paraíba ganhasse o mundo. Ponto para a era internética.


2 – a fatuidade de que se reveste muita coisa (certamente a maioria) do que é divulgado, reproduzido, comentando, curtido nessas redes. Ou seja, tanto barulho por nada.


E volto a Ascenso: neste caso, a eficácia e o poder da comunicação instantânea, a serviço de um conteúdo vazio, merece a indagação:


– Para quê?
– Pra nada!


Bibiu, o Papa e o amor

16 de Janeiro de 2012 às 00:08 em por Homero Fonseca
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Joseph Ratinger, o papa Bento XVI: vasta gama de significados para amor

 
No romance Roliúde, Bibiu, o protagonista, é interpelado pelo narrador oculto sobre sua vida afetiva e faz uma digressão sobre o amor, na sua ótica poética-picaresca:


“Contado bem contado, há sete qualidades de amor: o amor a Deus, o amor à mãe, o amor ao pai, o amor aos filhos, o amor aos irmãos, o amor ao próximo e – digo por último, mas é tão importante quanto os outros, se não mais–, o amor de homem e mulher. Tem quem fale no amor aos primos, mas isso tá mais pra safadeza do que pra amor.”


Ele explica as sete qualidades do amor, culminando com a descrição do amor erótico, em sua peculiar prosódia:


“Agora, o amor entre homem e mulher, e vice-versa, é o mais movimentado. Por causa dele, a gente goza, a gente sofre, a gente briga, a gente se amostra, a gente se abestalha. Pode trazer felicidade ou um par de chifres de entronchar o cidadão. É o que dá mais história, poesia, cantoria, filosofia e outras escritas, e é importantíssimo, porque sem ele a vida não tinha graça. Aliás, não haveria nem vida, não é verdade?”


Pois bem, outro dia, em conversa vadia com meu amigo Sérgio Buarque, concordamos em nossa desconfiança de que o papa Bento XVI bem poderia ser ateu. Brincadeira, claro. Mas Sérgio me chamou a atenção para a primeira carta encíclica (Deus Caritas Est) do culto e polêmico ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, lançada já no primeiro ano do seu pontificado, em que ele, eruditamente, disserta sobre o amor.


Fui ler o importante documento e encontrei, para minha surpresa, um trecho em que, guardadas as devidas proporções, Joseph Ratinger diz algo, em linguagem culta e elegante, que em muito se assemelha à peroração do ardiloso personagem.


Confiram:


“Em primeiro lugar, recordemos o vasto campo semântico da palavra ‘amor’: fala-se de amor da pátria, amor à profissão, amor entre amigos, amor ao trabalho, amor entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, amor ao próximo e amor a Deus. Em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam.”


Não é uma coincidência curiosa?


Eu, virtual e digitalizado!

10 de Janeiro de 2012 às 12:35 em por Homero Fonseca

 
O jovem acadêmico e jornalista Eduardo César Maia, que trabalhou comigo nos tempos da revista Continente e com quem travava quase diariamente estimulantes debates ideológicos (eu, dinossauro socialista e ele, mutante-neoliberal) costumava, nos nossos embates, me acusar (injustamente, penso eu) de misoneísta (quem tem horror ao novo, à novidade).

Na realidade, sempre combati a ideia de que algo é bom somente porque é novo.

 Mas isso é outra discussão.

O que quero tratar aqui é de algo mais prosaico: o lançamento do romance Roliúde em formato digital (o que prova que estou up-to-date, ó Eduardo!).


Eu tinha assinado, há alguns meses, contrato com a editora Record para lançamento do livro em formato digital. Agora, Sérgio França, coordenador editorial da Record, manda a boa notícia:


“Já está à venda nas livrarias digitais o livro eletrônico (eBook) Roliúde. O eBook está no formato ePub, o mais aceito nos variados aparelhos onde se pode ler livros digitais, dos eReaders (Nook, Sony Reader, Alpha e outros) aos Smartphones, do iPad ao iPhone, passando ainda pelos PCs (computadores pessoais). Só não é aceito, por enquanto, no Kindle, que exige o formato Mobi, que é exclusivo da Amazon. (Mas negociações estão em curso e imagina-se que no meio do ano que vem estejam por lá também).

Os livros podem ser comprados através de download nas seguintes livrarias on line:

Saraiva (http://www.livrariasaraiva.com.br)

Cultura (http://www.livrariacultura.com.br)

Curitiba (http://www.livrariascuritiba.com.br)

Copia (Submarino)(http://submarino.thecopia.com/home/index.html)

Livraria Abril(www.iba.com.br)

Livraria positivo(https://livros.mundopositivo.com.br)”

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