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Sarau Plural com Mariane Bigio

25 de Maio de 2013 às 09:54 em por Homero Fonseca

 

 

Terça-feira, 28 de maio, tem Sarau Plural.

A convidada especial é a jovem e bela poeta Mariane Bigio, que assim se auto-apresenta:

Nasci no Recife, em 16/12/1987. Sou Poeta e Comunicadora Social, formada em Radialismo e TV na UFPE e Pós-graduada em Cultura e Comunicação na AESO. Comecei a declamar poesia nos mercados públicos do Recife, após ter conhecido, por intermédio de minha mãe, o fundador da UNICORDEL, José Honório, que soube do meu apreço pela poesia e me ganhou para os recitais. Em Maio de 2007 escrevi meu primeiro Folheto de Cordel: “A Mãe que Pariu o Mundo“, publicado em Agosto desse mesmo ano pela Prefeitura da Cidade do Recife. Desde então, a poesia tem ocupado um espaço cada vez maior e mais importante na minha vida. Tem sido minha companheira nos momentos difíceis e minha confidente de todas as horas.
Em 2008 formei, junto a Susana Morais, Cida Pedrosa e Silvana Menezes, o Grupo Vozes Femininas. Nosso caminho, vocês já podem imaginar: trilhar a Poesia.
Em 2012 me lancei oficialmente no mundo mágico das histórias infantis, apesar de já publicar e recitar cordéis para crianças desde 2008. Este ano lancei a Coletânea “O Que Sou Eu?” de cordéis infantis para ler e colorir, premiada pelo Ministério da Cultura. Possuo outros tantos textos infantis, publicados e não publicados. Recentemente criei, junto à minha irmã, Milla Bigio (multi-instrumentista e estudante de música da UFPE) o projeto Cordel Animado!, que tem feito diversas apresentações para a criançada. Concebi também o espetáculo Circo dos Astros, junto a Milla Bigio, Bruno Albuquerque, Cayo César Gomes e Simone São Marcos, baseado no livro homônimo da maravilhosa escritoraJanice Japiassu.



A moda das bikes e os sem-capacete

23 de Maio de 2013 às 13:02 em por Homero Fonseca

 

 
- É quase comovente!

Zé de Arruda diz a frase e fica pensativo, cofiando a barba ruiva.

Conversávamos num dos boxes externos do Mercado de S. José, destrinchando uma macaxeira com charque. O assunto era a moda das bicicletas no Recife. À nossa direita, com visibilidade prejudicada pela floresta de barracas e guarda-sóis onde os ambulantes comerciam uma infinidade de bugigangas, via-se um pedaço da fachada cor de rosa do antigo Cinema Glória.

Zé de Arruda elogiava, com ressalvas, a moda da classe média recifense no uso das bicicletas. Temia que não passasse mesmo de uma moda, como foi o Polo Pina, o Polo Torre (quem lembra?) e a Rua do Bom Jesus.

Argumentei que a coisa pode ser diferente, pois a ciclomania atual tem a ver com algo maior, a questão da sustentabilidade. E com essas discussões todas sobre mobilidade.

Ele concordou. E discorreu sobre a cena presenciada num final de semana, aqui no Recife:

- Dr. Fonseca, li nos jornais sobre a iniciativa da Prefeitura do Recife. Isso de fechar o Recife Antigo para os pedestres e fazer as ciclovias móveis. Fui dar uma espiada. Uma beleza! Ali pelo Parnamirim, colocaram cones por toda a Av. Rui Barbosa e uma multidão de orientadores, fardados, com apitos, o escambau. Tava bonito! Muita gente sarada, com suas bikes de não sei quantas marchas, vestida a caráter, capacetes, luvas, bermudas e camisetas especiais. Uns pais desajeitados com suas criancinhas em pequenas bicicletas, com aquelas rodinhas sobressalentes. É quase comovente!

Notei um toque de ironia na fala. Pedi explicação.

- Veja só. Sem dúvida é louvável esse despertar para o transporte ecologicamente correto. Tá prestando atenção?

A pergunta, meio reprovativa, era porque eu não parava de olhar a fachada do falecido Cinema Glória.

- Tô sim. Esse despertar para o transporte ecologicamente correto é positivo, não?

- Claro. O problema é o seguinte: e o dia a dia? Claro que a Prefeitura tá surfando no marketing do politicamente correto: sustentabilidade, mobilidade, modos alternativos de locomoção. Mas e daí? No dia a dia não existem os cones nem os instrutores de apito, ajudando a controlar o trânsito e sincronizar a marcha das bicicletas com os semáforos.

- É verdade, concordei, voltando a olhar para os lados do antigo cinema.

Zé de Arruda tossiu. Deu uma garfada na macaxeira com charque, mastigou meio ligeiro e voltou ao tema:

- Mas essas bicicleatas de final de semana – mesmo se continuarem após a moda - são um paliativo. Certo? Deixam o prefeito bem na fotografia e a classe média feliz por estar na onda ecológica.

Ponderei que isso não era um mal em si.

- Claro que não. Mas e os trabalhadores?

Esqueci por um momento a antiga sala de projeção.

- Os trabalhadores?

- Olhaí, dr. Fonseca. Até mesmo você esqueceu que são os trabalhadores os verdadeiros ciclistas. Essa turma aí toda tem carro. Dois, três, por família. Pegam a biclicleta incrementada nos finais de semana. Mas com poucas exceções, aboletam-se nos carros na segunda-feira e o nó do trânsito e todos os seus malefícios voltam com tudo! Um ou outro, mais ousado, mais alternativo, tá indo de bike para o trabalho. Ótimo, ótimo.

- Mas não há condições pra eles usarem as duas rodas diariamente...

- Exatamente. Porque, até agora, não se investiu numa infra-estrutura concreta para o tráfego das bicicletas. João da Costa, por quem não nutro especial simpatia, foi o primeiro prefeito a fazer alguma coisa, muito pouca, para implantar ciclovias permanentes. E também nos chamados bairros nobres. Sabe por que? Porque dão visibilidade. Quem usa a bicicleta como transporte pra valer é o povão. E por necessidade, não por modismo ideológico.

- Interessante.

- Mas o povão não tem o poder de vocalizar suas necessidades como a classe média. Nisso, como em tudo, fica com o osso duro para roer.

Tomou um gole de água (Zé não bebe no almoço) e arrematou:

- Todo esse lindo movimento dos ciclistas chiques tem cobertura de jornal e televisão. Mas o biscateiro que vai e vem todo dia sobre duas rodas não tem espaço. Aliás, são invisíveis. Somente os vemos quando fazem uma manobra desajeitada e xingamos sua imprudência. Não temos estatísticas, nem estudos, nem projetos, nem obras, para essa multidão de ciclistas profissionais: entregadores de água mineral, de gás, de pão; vigias, porteiros, encanadores, eletricistas, vendedores de tudo que é mercadoria. Quem se acordar às cinco da manhã, se depara com um trânsito muito diferente, poucos carros e uma multidão pedalando suada, carregando maletas de ferramentas, filhos e mulheres, canos, caixas, gaiolas. Em dias de chuva, muitos vão com uma mão no guidão e outra segurando o guarda-chuva, num malabarismo danado. As bicicletas velhas não têm marchas, às vezes são adaptadas para carregar bujões, e eles não usam capacetes apropriados. Só os operários, que vão com seu equipamento de segurança do trabalho. Tirando eles, são todos uns sem-capacete!

Ri com a tirada. Ele continuou:

- Qualquer dia, vai surgir o Movimento dos Sem-capacete. Reivindicando ciclovias permanentes pra quem é ciclista profissional e não de fim de sema. Pra se juntarem aos Sem-terra, aos Sem-teto e tantos outros desprovidos.

E riu com gosto. Então, virou-se para mim e perguntou:

- O que tantos olhas para a fachada do antigo Cine Glória?

- Ah... é uma história comprida. Esse cinema é um dos cenários do meu romance Roliúde. Lembra?

- Humm...

Não esperei pela resposta.

- O Cinema Glória foi inaugurado em 1926 e desde os anos 80 entrou em decadência, como todos os cinemas de rua. Sobreviveu um tempo aos trancos e barrancos passando filmes pornôs e fechou definitivamente em 2002. Agora é uma galeria comercial, tá vendo?

- Já tinha visto. O que há de interessante nele?

- É que, nos tempos áureos, era freqüentado nas soirées pelas famílias daqui do bairro de São José. Mas durante o dia os principais freqüentadores era a fauna do Mercado. E aí o dono do cinema bolou um negócio engraçado: uma sessão às 13 horas da tarde, com um baita desconto no preço do ingresso. Então, o cinema ficava lotado. Era a “sessão jibóia”.

- Sessão jibóia?!

- Sim, porque os camaradas se empanturravam de chambaril e mão-de-vaca aqui nesses boxes, pagavam um precinho barato e lotavam o cinema, para cochilar enquanto começavam a fazer a digestão. O filme lá rolando e todo mundo dormindo e roncando, com os chapéus cobrindo a cara.

- Hahahahahaha!

- Só tinha um freqüentador que ficava acordado, prestando atenção nos filmes...

- Já sei! Bibiu, o protagonista do teu romance.

- Esse mesmo.

Viagem sentimental a Caruaru

21 de Maio de 2013 às 11:20 em por Homero Fonseca

Foto Iracema Rodrigues Zoom

 

 

Estive em Caruaru, para participar, na sexta passada, dentro do Festival Pernambuco Nação Cultural, de um debate na Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, presidida pelo compositor Onildo Almeida (A Feira de Caruaru).
Oportunidade de rever velhos amigos e conhecer novas pessoas. Estavam lá Wellington de Melo (o idealizador do encontro) e Meca Moreno (convidado, como eu), Arari Marrocos (musa do teatro caruaruense), o professor e poeta Reginaldo Melo, o editor Valmiré Dimeron (que publicou uma bem cuidada nova edição de Terra de Caruaru, de José Condé), o professor e historiador Josué Eusébio, a cronista Malude Maciel, o jovem poeta Hérlon Cavalcanti, autor de um livro sobre as xilogravuras do mestre Dila. Prazer especial no encontro com Assis Claudino (um figuraço, sindicalista, professor e escritor, preso em 1964 pela surrealista acusação de que pretendia envenenar a água servida à população da cidade e autor do curioso O Monstro Sagrado e o Amarelinho Comunista, em que, por um viés ideológico, bate de frente com... Gilberto Freyre!).
Na plateia, pouca gente e o tema era justamente sobre as vicissitudes do fazer literário por estas bandas. Defendi a profissionalização do escritor e, embora reconhecendo o notável trabalho de Wellington de Melo à frente da coordenadora de Literatura da Fundarpe, cobrei dos tais setores responsáveis um tratamento mais digno à prima pobre das Artes.
Lembrei ter vivido nessa cidade dos 9 aos 19 anos de idade, período crucial de minha formação. Aqui vivenciei a notável experiência do Ginásio Municipal na primeira metade dos anos 60, sob a condução da pedagoga Eunice Tabosa, com o privilégio de ter como professora de Português e incentivadora literária Cybelle Gomes Pires Raposo. Morei com a famosa feira à porta e ouvi grandes cordelistas, cantadores e emboladores, no meio da rua. Aqui comecei a construir a carreira de jornalista na Rádio Cultura do Nordeste, ainda aos 16 anos. Tive o alumbramento do primeiro amor (Régia Ferreira, filha do grande cordelista e almanaquista João Ferreira de Lima). Participei do movimento estudantil e fui secretário-geral da Uesc – União dos Estudantes Secundários de Caruaru. Fui simpatizante do Partido Comunista (a quem entreguei clandestinamente o mimeógrafo da Uesc, quando da auto-dissolução da entidade.) Trabalhei no MEB – Movimento de Educação de Base, da ala progressista da igreja católica. Fiz parte do grupo Evolução, com Rui Lira, Cléitson Feitosa, o depois dramaturgo nacional Vital Santos, Luélcito Cintra, Arnóbio Costa, Paula Frassinetti, Alcimar Vólia, meus irmãos Humberto e Héber, o hours concours poeta Lício Neves e mais muita gente, nova em sua maioria, disposta a mudar o mundo pelas artes. Doce pássaro da juventude!
Por um feliz acaso, encontro depois com o sociólogo e advogado Luiz Teófilo, velho amigo, colega do curso clássico, companheiro de ideais e, ninguém é de ferro, de papos & biritas. Iracema presenciou e participou da conversa um pouco nostálgica, relembranças de cenas e figuras, notícias de vivos e mortos (Antonio Medeiros, Luélcito, Carlos Bezerra, Gianninni Mastroianni, Adalberon Gomes, Chico Gavião, Miguel Ferraz), balanço de perdas e ganhos. Lula, apesar das seqüelas de um AVC, é um cara bem resolvido com a vida, fala de todos com carinho e humor. Anda feliz com as proezas do filho mais velho Hugo Henrique, mágico profissional, entrevistado na Rede Globo, ganhou um caminhão-baú novinho que é seu palco e camarim nas apresentações pelo mundo velho sem porteira.
Almoço na casa de Humberto, com Sílvia, Kalina e Amora e, à noite, uma quase divina pamonha numa padaria simpática.
Sou um produto de Caruaru. Por isso, sempre que venho aqui é uma viagem sentimental.

"Roliúde" sob análise acadêmica

14 de Maio de 2013 às 19:01 em por Homero Fonseca

Foto: UFPR Zoom
A professora Marilene Weinhardt

 
Trânsito possível entre as três instâncias – modelo buscado na criação ficcional

Prof. Dr. Marilene Weinhardt (UFPR)

Resumo:

Em Roliúde (2007), o pernambucano Homero Fonseca ficcionaliza um narrador que, entre outras tantas ocupações que lhe garantem sustento material e experiência de vida, viaja de uma povoação a outra entretendo o público com a narração de filmes. O sucesso da atividade depende da capacidade de adaptar os clássicos dos tempos áureos do cinema norte-americano à vivência cotidiana dos ouvintes. Propõe-se, a partir desse modelo buscado na ficção, refletir sobre os trânsitos possíveis entre as instâncias regional, nacional e internacional no plano da literatura comparada, à vista dos trabalhos apresentados nas mesas realizadas nos últimos eventos da ABRALIC.

Palavras-chave: literatura comparada, trânsitos, internacionalização, Roliúde.


(...)

Para a questão que temos em vista, o percurso dos Estudos Literários do regional ao internacional, ou melhor, o trânsito nos dois sentidos, como espero que fique claro nesta exposição, vou me servir da leitura do romance de estreia de um jornalista pernambucano, Homero Fonseca, lançado em 2007. O título, Roliúde, deve ser visto, não apenas para que não se julgue que a pronúncia resulta de meu sotaque marcado, mas também para que se apreenda o modo como os caracteres aparecem dispostos sobre o cenário de uma colina, revestida de vegetação típica. A apropriação, operada no plano verbal, é reforçada no plano visual, nas duas instâncias em mão dupla, seja no que evoca, seja no que mantém de local. Essa duplicidade – o cruzamento de uma prática cultural calcada na narrativa oral, como se verá a seguir (o recurso narrativo é o discurso de memórias) com uma prática cultural construída sobre o visualismo, a arte cinematográfica – constituirá o romance. Ficcionaliza-se um discurso autobiográfico relatando a experiência de um indivíduo que, entre outras tantas ocupações que lhe garantiram sustento material e experiência de vida, transitava de uma povoação a outra entretendo o público com a narração de filmes. O sucesso da atividade dependia da capacidade de adaptar os enredos dos clássicos dos tempos áureos do cinema norte-americano e da nacional Vera Cruz à vivência cotidiana dos ouvintes.
Leio o parágrafo de abertura e o início do segundo, como amostra de uma série de procedimentos disseminados ao longo da narrativa:

Sem pabulagem, a minha vida daria um filme, desses bem movimentados. No capítulo das ingresias, Carlitos e Oscarito podem empatar comigo, mas vencer, não. Na parte da galanteria, embora feio e mirrado, não tenho do que me queixar. A representação feminina sempre me tratou com a fidalguia merecida por Rodolfo Valentino ou Tyrone Power. Isso, claro, nos tempos em que eu vivia amontado num trem, visitando tudo que era lugarejo destas brenhas, quando juntava gente pra me ouvir, talqualmente fosse eu um Leandro Gomes de Barros ou um Pinto do Monteiro.
Posso mesmo lhe dizer que a história da minha outrora afamada pessoa é uma mistura de lenda inventada e verdade verdadeira, um eninhado de acontecências que nem eu mesmo sei mais o que é de vera, o que é invenção. A começar pela escuridão que assombrou o mundo na hora em que eu me inaugurei. (FONSECA, 2007, p. 13)

Quem viveu de um ganha-pão que repousa no poder narrativo demonstrado oralmente, depende do equilíbrio no consórcio tripartite entre memória, imaginário e recursos linguísticos. A capacidade de falar com desenvoltura, encadeando as frases sem hesitações, demonstrando domínio de rico e variado vocabulário, de diferentes extrações, associando elementos de ordens várias sem solavancos, é condição primordial de sucesso. O convívio pacífico entre vocábulos que demonstram incorporação de determinada tradição de nível de vida, como galanteria e fidalguia, de mistura com outros da coloquialidade, como pabulagem, inclusive incorporando efeitos da oralidade, como ingresias, amontado, talqualmente, e especialmente o sabor renovador de expressões como eninhado de acontecências produz o primeiro efeito de atualização de narrativa.

A circularidade entre vida se transformando em filme, o que quer dizer narrativa, filme se transformando em vida, sempre narrativa, começa no paralelo com Carlitos e Oscarito, tomando a denominação já abrasileirada de Charles Chaplin, de modo que a indiferenciação entre o cinema americano e o nacional aparece nos nomes. A condição de ídolo encontra paralelo no ator americano de clássicos de capa-e-espada, que viveu também personagens românticos, Tyrone Power. Mas é preciso mais para fazer paralelo expressivo com Bibiu, de batismo Severino Ramos Soares da Silva, alcunha tão simplória, nome tão brasileiro, designando indivíduo que se qualifica como feio e mirrado. É preciso citar Rodolfo Valentino, italiano de nascimento, americano por adoção, o símbolo sexual à altura do sucesso do narrador junto à representação feminina, figura de linguagem significativa da sua capacidade de torneios linguísticos para renovar o sabor do lugar comum. Se as aventuras e o sucesso sexual são ilustrados no cotejo com figuras buscadas no universo cinematográfico, a capacidade encantatória de suas narrações encontra analogia adequada na sedução dos repentistas, cordelistas, poetas populares Leandro Gomes de Barros e Pinto do Monteiro. O leitor familiarizado com a história da literatura brasileira percebe ainda o eco de Macunaíma nesse herói que nasce no horário de escuridão e que também fará “coisas de sarapantar”. Enfim, destaco ainda no trecho o dado metanarrativo, evocado como que incidentalmente, em construção pseudo descuidada, repetitiva, colocando em evidência o estatuto da ficção, “mistura de lenda inventada e verdade verdadeira (...) o que é de vera, o que é invenção.”

A narrativa, composta de 21 capítulos, alterna capítulo que narra a vida de Bibiu e capítulo que contém a narrativa de um filme, no registro do relato de Bibiu. O mais antigo é o chapliniano Em busca do ouro (1925), o mais recente o brasileiro Aviso aos navegantes (1950), passando por Casablanca (1942), ...E o vento Levou (1936), O ébrio (1946), Sansão e Dalila (1946), King Kong (1933), A dama das camélias (1937), No tempo das diligências (1939), Tarzan, o Rei da Selva (décadas de 30 e 40).

Obviamente o registro de datas não constava do relato oral, não faria sentido para aquele público. Informá-las aqui, bem como de indicar os títulos do filmes, que também não constavam necessariamente do relato oral, mas aparecem nos títulos dos capítulos, é pela função como elemento do panorama que se intenta delinear. São produções pioneiras, de uma época anterior à difusão da televisão. Esta representou a morte da atividade de Bibiu, como ele mesmo registra, quando, próximo ao final, informa a falência do ofício. São narrativas que apresentam aventuras, amores, mitos. Ou seja, alimento do imaginário de todas as épocas e espaços.

O que releva destacar aqui não é a alternância biografia, filme, biografia, filme... até fechar o ciclo com esse longo relato da vida, já que não há mais interessados nos relatos de filmes, mas sim a contaminação. Por exemplo, quando relata a primeira viagem de trem, ainda menino, na companhia do pai, no percurso de “Rucinha, um lugarejo perdido no cocoruto da Serra da Ruças” (p. 29), a Recife, comenta: “Viagem bonita, o trem comendo as distâncias, apitando e soltando um rolo de fumaça no ritmo das rodas nos trilhos. Só não apareceu apache nem sioux pra nos atacar, pois por ali só tinha fulniô e xucuru, que são índios que não gostam de atacar os trens, felizmente.” (p.30-31) Ou, ao espiar uma prima no banho, registra: “o trinco da porta estalou, eu bati em retirada feito os comanches com a chegada da cavalaria.” (p.36) O relato não é o da impressão do momento vivido, construído que é pela experiência posterior, de admirador de cinema. Qualificá-lo como cinéfilo pode não ser adequado.

O movimento no outro sentido, a cena cinematográfica adaptada para aproximar da experiência de vida dos ouvintes, ou, mais sutilmente, de ecos culturais cultos buscados na experiência nacional, é constante. Assim, no relato de Sansão e Dalila, a heroína tem “cabelo preto feito a asa da graúna” (p. 104); o “general Artur pula de lado, inchando feito um cururu” (p. 105); quando Sansão flagra a noiva nos braços de outro, diz “se arreta: ‘Traidora! Quenga safada!’” (p. 105) A propósito desse registro, vale observar que, em nenhum momento o narrador faz qualquer referência às limitações da sonorização. As personagens dos filmes não apenas falam, como falam no registro dos ouvintes. Em A dama das camélias, na cena em que o barão rapta Margarida, Armando saíra da sala para comprar “um pacote de mariola” (p.150). Os exemplos desse tipo multiplicam-se, sempre com efeitos hilariantes para quem reconhece o jogo entre o original e essa espécie de adaptação. Fecho os exemplos com a cena de No tempo das diligências, em que a mesa está posta, “com cuscuz, macaxeira, jerimum, queijo de coalho, carne-de-sol e paçoca”. (p. 172)  

A narração dos filmes é ainda enriquecida com observações pessoais a propósito das situações narradas, como quando relata os esforços de Carlitos quando se apaixona por Geórgia e opina “o que mulher não consegue fazer do homem!...” (p.26), e com muitas expressões feitas para sublinhar situações, ao mesmo tempo que as aproxima da experiência de seus ouvintes – “contente feito mosquito em pereba” (p. 27); “pra molhar o biscoito, que ninguém é de ferro” (p. 53).

Aproximando-se do final, da vida do narrador e do relato, adensa-se a presença dos cordelistas, dos poetas populares, dos estudiosos da cultura popular, dos interessados no resgate de manifestações culturais, como pabulagem na voz do narrador (Ariano Suassuna, Gilberto Freyre, Bráulio Tavares e tantos outros o assistiram), como homenagem na voz do autor.

A presença do período histórico, no plano regional, no plano nacional e no internacional, o leitor apreende perfeitamente integrada às informações sobre a vida do herói, sem hierarquização. Tendo nascido em 1911 e informando, no desfecho, que está para completar 85 anos, presenciou quase todo o século XX. Sobre como foi afetado e mesmo usou a chegada do cinema já ficou evidenciado. A cronologia não é seguida rigorosamente, como convém às memórias. Uma situação puxa outra, não necessariamente próxima no tempo, sofre interrupções, é retomada logo adiante. Na Revolução de 30 era recruta, o que lhe rende aventuras:

Enquanto, na Paraíba, Juarez Távora, Agildo Barata e Juraci Magalhães tramavam contra o governo do presidente Washington Luiz por causa das eleições que diziam não ter sido muito católicas, eu ficava rondando pela praça do Derby, nas noites chuvosas, fardado e de guarda-chuva engatilhado, tocaiando as empregadinhas que por ali passeavam, depois de terem lavado os pratos da janta dos barões. (FONSECA, 2007, p. 78)

Relatar a época da Revolução de 30 dá oportunidade para falar também nos episódios de 64, quando estava morando em São Paulo e tinha grande amizade com um rapaz que foi preso como comunista. Uma vez que prestava o serviço militar na época, poderia ter integrado as forças que vão para a Itália. Não foi, mas constrói relato em que foi diretamente responsável pelo fim de Hitler.

Enfim, a tentação de me alongar comentando o romance é grande, há ainda muitos outros detalhes que servem aos meus objetivos, mas é preciso lembrar a propósito do que veio sua evocação. Creio que tenha ficado claro o paralelismo que pretendo estabelecer. Tal como no relato de Bibiu, o trânsito dos Estudos Literários, atualmente, não é do local para o regional, seguindo para o nacional, que enfim atinge o internacional, em escala. Os movimentos se dão em todas as direções, dos cruzamentos podem surgir novos caminhos. Não há hierarquização, as relações não são disjuntivas, excludentes, a dinâmica nasce das relações de heterogeneidade e de contradição. Bibiu relata eventos que se dão em outras geografias, que supõem experiências muito diversas, mas as adapta à vivência de seus ouvintes, sem explicar as diferenças entre uma cultura e outra, independente de os acontecimentos terem lugar no estrangeiro ou no Brasil. Nova York ou o Rio Janeiro eram igualmente espaço estranho para seus ouvintes. Importava o enredo, não o cenário. O processo de adaptação não precisa, nem deve, aparecer na superfície, evidenciando seus mecanismos. Em movimento inverso, a sua vida de nordestino brasileiro que faz de tudo um pouco para sobreviver, no relato recebe tintas de aventura de galã de cinema americano ou das comédias da Vera Cruz, ao mesmo tempo que se apresenta como discípulo de cordelistas, e também de fornecedor de matéria para estes.

 Gostaria de deixar muito claro que não estou propondo um vale-tudo geral e irrestrito. Bibiu, na sua fala aparentemente desenfreada e incontida, controla seu discurso com mão de ferro. Suas palavras derradeiras são: “Minha história é essa, doutor. Espero que tenha gostado. Agora, amizade, por favor, passe a grana que apalavramos.” (p. 236) Nada é acidental, nada é casual. Se antes ele viveu de contar o enredo de filmes, quando já não há audiência interessada nesses relatos, ele conta, ou inventa, não faz diferença, sua vida, mas não gratuitamente, tinha a “grana apalavrada”. Os trânsitos são muito, mas não são aleatórios. Insisto é na ruptura com hierarquias, o que não significa indistinção. O enredo cinematográfico aparece influenciado pela narrativa do cordelista, como o cordelista busca matéria para sua narrativa nos mitos clássicos, nos heróis romanescos de-capa-e-espada da tradição europeia ou nas aventuras de cangaceiros, mas as técnicas de cada manifestação cultural mantêm um pé na sua linhagem de tradição. Porosidade não é apagamento de fronteiras.

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Comentário pela professora doutora Marilene Weinhardt no 13º Congresso da Abralic – Associação Brasileira de Literatura Comparada, em Campina Grande, outubro de 2012.

No tempo de Roliúde

14 de Maio de 2013 às 18:44 em por Homero Fonseca

 Quando o romance "Roliúde" foi lançado (faz mais de cinco anos, parece que foi ontem)

bolei uma chamada em VT que a Globo Nordeste divulgou, durante uns dias, nos "buracos" da grade

de comerciais, por uma deferência/mecenato de Iuri Maia Leite. A produção, também na base da

brodagem, foi no estúdio da RTV (Ricardo Carvalho).


O vídeo (30 segundos) está em minha página do Facebook:

https://www.facebook.com/FonsecaHomero

 

 

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