Foto: Ana Fonseca
  • DataPernambuco, 25 de Julho de 2016
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Futebol, guerra e sublimação

06 de Julho de 2016 às 21:58
Homero Fonseca

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A população inteira nas ruas pela seleção

 

 Impressionante a força do futebol!

As cenas multitudinárias da recepção da seleção da Islândia, após a “heroica” (como assinalou a imprensa internacional)  participação na Eurocopa, são uma estonteante expressão da força do futebol no imaginário coletivo em todo o mundo.

A Islândia é uma república fincada numa ilha gelada perto do Ártico, com 103 mil quilômetros quadrados onde vivem 330 mil habitantes. Praticamente todos os islandeses foram às ruas recepcionar os craques que pela primeira vez disputaram a copa de seleções europeias e conseguiram a façanha de chegar às quartas-de-final.

 Vendo as cenas, relembrei o filme butanês A Copa, lançado em 1999, dirigido por Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, com atores amadores. A trama: numa aldeia do Butão, reino da Ásia de menos de 800 mil habitantes, imprensado entre a China e a Índia, noviços de um mosteiro budista, com a cumplicidade dos monges, se mobilizam para conseguir uma TV (preto e branco) para assistir à Copa de 98. O tempo todo, o garoto líder do movimento, veste uma camisa 10 da Seleção Brasileira, com o nome Ronaldo.

 Outro filme – a produção espanhola-alemã A Grande Final, de 2006, direção de Gerardo Olivares – tem roteiro semelhante, só que mais abrangente: se passa em três comunidades isoladas em três cantos distintos do mundo – numa aldeia indígena em plena floresta amazônica, entre nômades nas geleiras da Mongólia e numa comunidade africana no deserto de Níger, todos empenhados no mesmo propósito: fazer um velho aparelho de TV funcionar para acompanhar a partida final da Copa do Mundo de 2002.

O primeiro é uma ficção pobremente produzida pelo incipiente cinema butanês, a ponto de ser comovente. O segundo, um documentário, é uma suprodução de duas potências europeias, Espanha e Alemanha. O único ponto a uni-los é o futebol.

Além do aspecto espetáculo – hoje levado ao paroxismo pelo espírito mercenário da Fifa – o futebol, como esporte coletivo e solidário, tem se constituído um poderoso fator de identidades nacionais. Basta ver o comportamento das torcidas durante as competições internacionais, especialmente durante a Copa do Mundo.

É nesse quadro que se compreende a emoção dos islandeses ao receber de volta seus “heróis” da Eurocopa.

Entretanto, ainda persiste a indagação: mas por quê esse esporte tem esse poder mobilizador das nacionalidades tão grande em todas as latitudes?

Para além do espetáculo global de hoje, só me ocorre uma resposta capaz de explicar esse apelo aos sentimentos mais profundos das multidões: é porque o futebol é a mais perfeita sublimação da guerra. Nas competições oficiais, são duas nações que se enfrentam, com suas cores, suas bandeiras, seus hinos, seus gritos de guerra. Os estádios são simulacros de campos de batalha. E o jargão futebolístico diz tudo: os arremessos são tiros, os jogadores de ataque são artilheiros e enfrentam defesas que tentam impedi-los e por aí vai. É uma simulação de guerra em que não se produz mortos e feridos (a violência em certas jogadas e entre torcidas são manifestações do instinto primitivo tentando atropelar o ritual, resquícios da barbárie querendo romper o pacto de civilização).

Nélson Rodrigues sabia o que estava dizendo quando, num dos seus típicos desbordamentos retóricos, definiu a seleção como “a pátria de chuteiras”.

 

 

 

Carlos Garcia - Um mestre no meio do redemoinho

03 de Julho de 2016 às 11:24
Homero Fonseca

 

Nesta terça-feira, 5 de julho, às 19 horas, no Museu do Estado, estarei lançando o perfil biográfico Carlos Garcia - Um mestre no meio do redemoinho.

O texto enfoca não apenas a pessoa e a vida daquele que foi uma referência no jornalismo de Pernambuco por toda a segunda metade do século 20, catalisando um importante foco de resistência à ditadura militar quando chefiava a sucursal do Estadão no Recife - sendo preso e torturado por isso -, como traça um retrato ao mesmo tempo sombrio e luminoso do que era o exercício do jornalismo independente nos anos de chumbo.

Vossa presença será muito bem-vinda.

​Também serão os lançados os perfis de Pelópidas Silveira (por Evaldo Costa e Aquiles Lopes) e de Armando Monteiro Filho, por Mário Hélio.

O sargento, o garoto, as ariranhas e o jornalista

29 de Junho de 2016 às 01:37
Homero Fonseca

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Lourenço Diaféria (1933-2008)

 

A prisão por corrupção, em Brasília, dia 24 passado, pela Polícia Federal, do ex-diretor financeiro do Postalis – o fundo de pensão dos Correios – Adilson Florêncio da Costa, reavivou na imprensa um episódio de quase 40 anos atrás.

No dia 27 de agosto de 1977, o sargento do Exército Sílvio Delmar Hollenbach passeava com a mulher e os filhos no Jardim Zoológico de Brasília, quando presenciou o acidente da queda no fosso das ariranhas de Adílson, então um garoto de 14 anos. O sargento Sílvio jogou-se no fosso, salvou o garoto, porém foi mordido ferozmente pelas ariranhas e morreu três dias depois em consequência da infecção causada pelas mordidas das lontras.

O noticiário registra que nem Adílson nem sua família jamais agradeceram à família do sargento pelo gesto heroico (o que me lembra o caso da senhora Helena Brennand, salva pelo morador de rua Paulo Henrique de Brito, ao cair com o carro no Canal de Setúbal, na madrugada de 07/12/2012).

O caso do sargento Sílvio e do garoto Adilson teve no jornalista e escritor Lourenço Diaféria, o terceiro vértice do triângulo. No dia 1º de setembro de 1977, Diaféria publicou na Folha de S. Paulo uma crônica que ficaria famosa, intitulada “Herói. Morto. Nós”, em que afirmava preferir o sargento Silvio como autêntico herói do povo brasileiro, ao “herói oficial” Duque de Caxias.

“O duque de Caxias – escreveu corajosamente Diaféria – é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel - onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer - oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.”

Foi denunciado pelo ministro do Exército Silvio Frota, acusado de denegrir as forças armadas, passou cinco dias preso e foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Num processo que se arrastou por mais de três anos,foi absolvido em primeira instância por um tribunal militar, condenado em segunda pelo Superior Tribunal Militar e finalmente inocentado pelo STF em 1980, já em plena abertura política e com a lei de anistia promulgada, 

Lourenço Diaféria publicou vários livros de crônicas, contos e romances e morreu de ataque cardíaco no dia 16 de setembro de 2008, aos 75 anos incompletos.

 

O homem que escutava

23 de Junho de 2016 às 17:29
Homero Fonseca

 

Paris, idos de 1916. No Café La Rotonde, em Montparnasse, reúne-se frequentemente a fauna intelectual: Pablo Picasso, Amedeo Modigliani, Wassilii Kandinskii, Jean Cocteau, Eric Satie. Quem conta a cena é Cocteau:

“Naquela época, todos nós nos reuníamos no Café Rotonde. E um homenzinho com uma testa enorme, arredondada e cavanhaque preto às vezes costumava entrar lá  para tomar um gole e nos ouvir conversar. E para ‘olhar os pintores’. Uma vez perguntamos ao homenzinho (ele nunca dizia nada, só escutava) o que ele fazia. Disse que tinha a séria intenção de derrubar  o governo da Rússia. Todos nós rimos, porque, é claro, tínhamos essa mesma intenção. Era assim naquela época. Era Lênin”.

Deus tá vendo

21 de Junho de 2016 às 10:46
Homero Fonseca

Reprodução Zoom
Deus por Michelangelo - Capela Sistina

 

Crônica de Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com


As empreiteiras-lavadas-a-jato pagaram propina (toco, comissão, corrupção, pedágio, caititu, gratificação, gorjeta, jabaculê, doação de campanha, taxa de serviço...) para ganharem as concorrências fajutas das obras contratadas pelo Governo Federal e empresas de capital misto, a exemplo da Petrobras, de 2003 até meados de abril passado. Fato inédito neste país. Nunca, jamais, em tempo algum, essas empreiteiras haviam sido levadas – praticamente obrigadas – a se utilizarem de tal vilania para trabalharem pela grandeza do Brasil (Ó pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve!). Ponto. Parágrafo.
As mesmas, mesmíssimas empreiteiras-lavadas-a-jato não pagaram coisíssima alguma de propina (toco, comissão, corrupção, pedágio, caititu, gratificação, gorjeta, jabaculê, doação de campanha, taxa de serviço...) pelas obras contratadas pelos 26 estados da Federação, o Distrito Federal e os 5.570 municípios brasileiros, nesse mesmo período. Acredite!
As campanhas eleitorais de Lula, Dilma e de todos os candidatos do PT a cargos eletivos por este Brasil afora (e adentro) foram financiadas com recursos escusos, caixas dois, três, quatro... toco, comissão, corrupção, pedágio etc... Ponto. Parágrafo.
As outras campanhas todas, Brasil afora e adentro, sobretudo do PSDB (PMDB, PSB, PPS, PP e DEM, arrisco-me incluir), foram financiadas por meio de fundos partidários e doações legais. Acredite!
As empreiteiras-lavadas-a-jato doaram 47 milhões de reais à campanha de Dilma. Tá tudo declarado na prestação de contas ao STE. Elas, as empreiteiras, tinham, claro, interesses escusos. Ponto. Parágrafo.
As empreiteiras-lavadas-a-jato doaram 40 milhões de reais à campanha de Aécio. Tá tudo declarado na prestação de contas ao STE. Elas, as empreiteiras, melhor dizendo, os empreiteiros, renderam-se aos belos olhos de Aécio Neves, não resistiram aos encantos da mãe de Aécio Neves e ficaram fascinados pela candura da irmã de Aécio Neves. Acredite!
Delcídio e Sérgio Machado, os delatores, foram premiados para denunciarem Lula, Dilma e essa arraia miúda, essa gentinha do PT. Ponto. Parágrafo.
O que Delcídio e Sérgio disseram sobre Aécio, Serra, FHC, Alckmin... foi tudo mentira, deslavada mentira. Acredite!
Acho que foi Millôr (citado por Luis Fernando Verissimo numa crônica) quem disse que, assim como existe ponto de exclamação e ponto de interrogação, deveria existir também “ponto de ironia”. Pena. Não existe. Mas, Deus tá vendo. Tudo.
Agora, bem que a PGU e o STF podiam dar uma olhadinha também, né?

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